Litoral, energia eólica e paisagem: você precisa saber

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Litoral, energia eólica e paisagem: você precisa saber

Litoral, energia eólica: aos poucos a paisagem do litoral brasileiro vai mandando para pior. Além da especulação imobiliária que destrói a paisagem, agora temos torres eólicas em toda parte.

litoral, energia eólica, imagem do rio Mundaú, ceará
Mundaú, Ceará, uma beleza de comunidade. Era assim em 2005…
litoral, energia eólica, imagem do rio Mundaú com torres eólicas
Ficou assim em 2015. O que o contrasenso é capaz de produzir…Porque colocar as turbinas tão próximas da costa? Se estivessem cem metros pra trás gerariam a mesma energia sem esculhambar uma das mais lindas paisagens brasileiras.

Matriz energética do Brasil está mudando

O site Portal Brasil diz que

O Brasil possui a matriz energética mais renovável do mundo industrializado com 45,3% de sua produção proveniente de fontes como recursos hídricos, biomassa e etanol, além das energias eólica e solar. As usinas hidrelétricas são responsáveis pela geração de mais de 75% da eletricidade do País.

O Plano Nacional de Energia – 2030 informa:

A estimativa do Ministério de Minas e Energia para o período 2008-2017 indica aportes públicos e privados da ordem de R$ 352 bilhões para a ampliação do parque energético nacional.

Previstos 83 bilhões de reais em investimentos até 2030

Em termos de investimento o Portal Brasil explica que, para a energia hidrelétrica, estão previstos 83 bilhões de reais em investimentos até 2030. Outros 23 bilhões serão aplicados na expansão da produção e oferta de biocombustíveis como etanol e biodiesel.

Óbvio que esta dinheirama toda não vai ser destinada, no prazo estabelecido, para novas fontes de energia. Temos que lembrar que Dilma, a destrambelhada, quebrou o Brasil para se reeleger. Até o país se reerguer vai demorar algum tempo. Ainda assim, cedo ou tarde o Brasil vai  investir em novas fontes de energia, inclusive a eólica, o que justifica o raciocínio que segue.

Breve cronologia da geração de energia no mundo

O primeiro registro histórico de geração de energia aconteceu à base da força humana: “um eixo vertical acionado por uma longa haste presa a ela, movida por homens ou animais caminhado numa gaiola circular”.

“Esse sistema foi aperfeiçoado com a utilização de cursos d’água como força motriz surgindo, assim, as rodas d’água”.

Cronologia da geração de energia eólica

“O primeiro registro histórico da utilização da energia eólica para bombeamento de água e moagem de grãos através de cataventos é proveniente da Pérsia, por volta de 200 A.C”.

“Europa medieval: o direito ao vento”

litoral, energia eólica, imagem de Macau, rio grande do norte com torres eólicas
Litoral, energia eólica.Macau, Rio Grande do Norte. Não dava pra ser mais atrás??? (foto: pt.wickloc.com)

“A introdução dos cataventos na Europa deu-se, principalmente, no retorno das Cruzadas há 900 anos.  As máquinas primitivas persistiram até o século XII quando começaram a ser utilizados moinhos de eixo horizontal na Inglaterra, França e Holanda. Os moinhos de vento de eixo horizontal do tipo “holandês” foram rapidamente disseminados em vários países da Europa. Durante a Idade Média a maioria das leis feudais incluía o direito de recusar a permissão à construção de moinhos de vento pelos camponeses.

diagrama-do-vento-
Diagrama da energia eólica no passado (fonte: relatório da Anel)

 

 

 

 

 

 

O início da energia eólica no Brasil em Fernando de Noronha!

A primeira turbina eólica brasileira foi instalada em 1992, na ilha de Fernando de Noronha, um dos paraísos marinhos brasileiros (depois de um raio seguido por incêndio, as turbinas de Noronha não estão funcionando). Passados dez anos, o governo criou o Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia Elétrica, Proinfa, cujo objetivo é incentivar outras fontes renováveis entre elas a eólica, a biomassa, etc.

Porque é importante investir em novas fontes de energia, principalmente, as renováveis

É fundamental que todos os países façam isso. Não só o Brasil. As fontes renováveis, e o fim do desmatamento mundial, são as únicas formas dos países membros da ONU conseguirem estabilizar o aquecimento global, emitindo menos gás carbônico, CO2.

Na COP 21, os 195 países membros da ONU chegaram a conclusão que “as emissões de poluentes que se concentram na atmosfera e favorecem as mudanças climáticas precisarão baixar para zero em 2050, depois de baixarem significativamente até 2030“. Ou a meta é atingida, para que se consiga que a temperatura média do planeta não suba mais que 1,5 graus Celsus, ou podemos gerar uma situação caótica.

Energia eólica hoje no Brasil: 1% da matriz

Hoje a energia eólica corresponde a 1% da matriz energética gerada no país. É um dado a ser comemorado. A eólica poupa o que sobrou de nossos rios , gera empregos, e reduz a quantidade de gases do efeito estufa emitidos, ainda que a geração de energia no Brasil não seja a causa maior de nossas emissões. Ela representa  32% do total.

De acordo com fontes do governo brasileiro nossas emissões por segmento estão assim representadas:

litoral, energia eólica, gráfico mostrado emissões de carbono
Litoral, energia eólica

Energia eólica no Brasil hoje

O Portal Brasil informa que

A energia eólica se destaca na matriz elétrica brasileira, e é a fonte que mais cresceu nos primeiros meses de 2015. Entraram em operação comercial de janeiro a março deste ano 781,4 MW em novos empreendimentos eólicos, o que representa 49% do total de 1.594,2 MW de energia nova que entrou em operação no primeiro trimestre de 2015.

Já a Associação Brasileira de Energia Eólica, ABEEólica informa que

Como resultado do PROINFA, dos leilões realizados e do mercado livre, ao final de 2012, o Brasil possui 108 parques eólicos que totalizam 2,5 GW de capacidade instalada.

litoral, energia eólica, grafico mostrando parques eólicos instalados
Litoral, energia eólica. Gráfico da ABEEólica

 

Nossa inenarrável capacidade de destruição

Como se vê pelo gráfico acima, a maior concentração de usinas fica no Nordeste. A razão são os ventos alísios constantes. A exceção fica com o litoral do Rio Grande do Sul, onde também há boa freqüência de ventos .

Nesta reportagem do G1 fica fácil entender a existência de três tipos de ventos, e seu funcionamento. Vale a pena assistir:

Se você leu até aqui, chegou onde o Mar Sem Fim queria: alertar para o perigo das turbinas eólicas  acabarem com o que resta da beleza cênica do litoral.

litoral, energia eólica, ilustração mostrando energia eólica no litoral
Litoral, energia eólica. Parque eólico Alegria, em Mangue Seco, outro tesouro da paisagem litorânea brasileira. Devia ser Parque Tristeza do Jeca. Note a proximidade da praia nas turbinas em operação (ilustração: parque eólico alegria)

Nesta nova série de documentários para a TV Cultura, mais uma vez rodei por todo o litoral brasileiro. Desde o Rio Grande do Sul, até o Amapá. O que mais chamou minha atenção foi a força, e rapidez, com que a especulação imobiliária detona a paisagem marinha. A diferença é visível de ano para ano.

Litoral, energia eólica e a paisagem
Mangue Seco, vista geral.Esta idílica paisagem foi detonada pelas turbinas. Até quando vamos deixar destruírem nosso litoral? Mangue Seco foi protegida pela ausência de estradas. Foi…até que vieram as eólicas.

Especulação decorre da “ausência da intervenção do estado”

O problema é estudado pelas mais importantes Universidades do Brasil, a começar pela USP. A especulação decorre da “ausência da intervenção do estado”, ou “conflito entre usos do solo”. O trabalho da USP foi feliz em descrever  a questão no nível individual: “resulta em que usos de categoria superior desbancam usos de categoria imediatamente inferior”. Ou seja, impera a lei do mais forte.

Todas as Universidades Federais, dos 17 estados costeiros, têm trabalhos sobre o tema. Seja na Paraíba,  Ceará, em Sergipe, na Bahia, no Rio Grande do NortePernambuco, etc.

O plano do governo brasileiro, e as metas de Aichi, pedem que todos os países com saída para o mar reservem até 10% do mar territorial e/ou zona costeira, em áreas protegidas até 2020. Talvez seja por isso mesmo ou seja, a força da especulação imobiliária, que até hoje só  1,5% da zona costeira brasileira esteja protegida por Unidades de Conservação. Dessa forma o resto fica livre para a …especulação.

Litoral, energia eólica e a paisagem
Já temos cretinices à beça detonando a paisagem do litoral. Vide este condomínio  em Ubatuba. Não precisamos agora das eólicas para o golpe final.

A única força capaz de deter o fenômeno  da especulação é a presença do estado, ou melhor, a fiscalização eficiente e constante por parte do estado. Mas, como venho mostrando desde o Chuí, até o Oiapoque, não existe fiscalização. Não há vontade política. Nosso litoral está ao deus- dará.

Ou se organizam os parques eólicos, ou o que resta do litoral será detonado 

litoral, energia eólica, paisagem do rio jaguaribe com torres eólicas
Litoral, energia eólica.Em primeiro plano o antigo, um lindo bote bastardo, ainda em uso no Ceará e Rio Grande do Norte; ao fundo, o novo, as horrendas torres. Vale do rio Jaguaribe, Ceará. Precisava estragar?

Apesar da energia eólica representar apenas 1% da nossa matriz , o estrago já feito  no litoral é enorme. Como a tendência é que ela cresça rapidamente, é preciso discutir o assunto, coisa que não vejo acontecer na grande mídia. É preciso tirar o tema do gueto acadêmico, e fazer com que  ganhe espaço na mídia tradicional. Esta é a razão desta matéria. Dar uma pequena contribuição. Fazer com que moradores dos grandes centros discutam o assunto.

Reclamação das pessoas que moram no entorno é unânime

Nesta última viagem pela costa brasileira, não estive em todos os parques eólicos. Mas naqueles em que estive, e não foram poucos, a reclamação das pessoas que moram no entorno é unânime. Além da feiura explícita, os parques eólicos geram um barulho constante produzido pelas enormes hélices girando sem parar. Chateia, incomoda, atrapalha a vida de quem mora próximo.

O site Mar Sem Fim defende a energia eólica, mas sugere que os parques sejam instalados sem, necessariamente, destruir  a espetacular paisagem do litoral. As futuras gerações têm direito a desfruta-la. Para tanto, basta que as usinas sejam instaladas, de cem a duzentos metros para além de nossas praias, e comunidades litorâneas.

litoral, energia eólica, paisagem do litoral do ceará com torres eólicas
Em primeiro plano a Prainha do Canto Verde, ao fundo, Parajuru, detonada pelas eólicas. Os exemplos são muitos. Mesmo não sendo em “sua”praia, os moradores da Prainha do Canto Verde ficaram furiosos com proximidade das eólicas. Pudera…

Resolução 462/2014 do CONAMA

No Brasil quem regula esta questão é o Conselho Nacional de Meio Ambiente, o CONAMA, que, em sua resolução 462/2014, na Seção I, Do Enquadramento do Empreedimento, no parágrafo terceiro, diz o seguinte:

§ 3º Não será considerado de baixo impacto, exigindo a apresentação de Estudo de Impacto Ambiental e Relatório de Impacto Ambiental (EIA/RIMA), além de audiências públicas, nos termos da legislação vigente, os empreendimentos eólicos que estejam localizados:
I – em formações dunares, planícies fluviais e de deflação, mangues e demais áreas úmidas;
II – no bioma Mata Atlântica e implicar corte e supressão de vegetação primária e secundária no estágio avançado de regeneração, conforme dispõe a Lei n° 1 1.428, de 22 de dezembro de 2006;
III – na Zona Costeira e implicar alterações significativas das suas características naturais, conforme dispõe a Lei n° 7.661, de 16 de maio de 1988;
Seguem várias outras excessões e, para finalizar, acrescenta:
§ 4º Caberá ao órgão licenciador estabelecer os critérios de porte aplicáveis para fins de enquadramento dos empreendimentos nos termos do caput deste artigo.
litoral, energia eólica, paisagem do litoral com torres eólicas
litoral, energia eólica. Veja a distância da praia…Osório, Rio Grande do Sil

 CONAMA aceita as eólicas em áreas de dunas e mangues

Fico indignado pelo fato do CONAMA aceitar as eólicas em áreas de dunas, mangues, etc. Se nos indignarmos, como fazemos com a corrupção, talvez um dia surja um Sérgio Moro do meio ambiente, capaz de colocar as coisas no devido lugar.
Inacreditável estas turbinas que fotografei nesta matéria estarem onde estão.
Voltarei ao tema com mais frequência. É preciso alertar para este crime de lesa- pátria. A paisagem é um bem comum. Ninguém tem o direito de derruí-la. Não foi assim que recebemos o planeta. Não é assim que devemos deixa-lo para as futuras gerações. Basta escolher com mais cuidados os locais das usinas eólicas.
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2 COMENTÁRIOS

  1. Tenho ido muito para São Miguel do Gostoso (RN) e as torres já estão na beira da cidade.
    Comentei sobre esse absurdo com moradores e ninguém está feliz com isso por lá .
    Essa energia não vai para cidades próximas , e estragaram toda a paisagem paradisíaca daquele litoral.
    Há boatos de que o governador do estado é um dos maiores proprietários desses terrenos próximos ao mar, e que ninguém está nem aí com a paisagem. Eles só querem o dinheiro do arrendamento. É assim nosso país vai sendo destruído por essa corja de gente que não vale o que come. Revoltante!!
    Em Galinhos é a mesma coisa. Um lugar maravilhoso com braços de mar entrando pela costa, e lá estão aqueles ventiladores gigantes acabando com toda paisagem e pureza do local,bem ao lado do mangue e das dunas, pra foder de uma vez com tudo. Não podemos deixar isso acontecer. TRISTEZA TOTAL.

    • Que bom que vc veio ao site, Lino Simão! Poxa, como estou feliz. E ainda por cima vc traz esta notícia triste, mas fresca, pra gente. Você teria fotos, Lino? Se tiver, mande. Faço um post com elas. E muito obrigado, bem- vindo ao Mar Sem Fim, e volte sempre, meu caro. Abração

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