Botos pescadores de Laguna, a um passo da extinção

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Botos pescadores de Laguna correm risco de extinção

Conhecer os botos pescadores de Laguna, em Santa Catarina, foi uma das boas surpresas de minhas viagens pela costa brasileira. A cidade ostenta com orgulho o título de Capital Nacional dos Botos Pescadores. Ali, os cetáceos e os pescadores artesanais cooperam na captura de tainhas. A parceria encanta quem acompanha a pescaria e se tornou uma atração turística.

Durante décadas, os pesquisadores classificaram esses animais como golfinhos-nariz-de-garrafa (Tursiops truncatus). Entretanto, novos estudos sustentaram o reconhecimento do boto-de-Lahille (Tursiops gephyreus) como espécie distinta, classificação que o ICMBio adota. Em avaliação publicada em 2025, o instituto classificou o animal como criticamente em perigo no Brasil. Assim, corremos o risco de perder os botos e uma rara tradição de cooperação entre seres humanos e animais selvagens.

imagem de botos e pescadores artesanais em Laguna
Uma belíssima tradição ameaçada por nós mesmos. Imagem, http://www.tvkweb.com.br/.

A parceria entre animais e pescadores em Laguna

A parceria tem tanta importância para a região que Santa Catarina reconheceu a pesca com o auxílio dos botos como patrimônio cultural imaterial. Uma interação semelhante ocorre na barra do rio Tramandaí, entre os municípios de Tramandaí e Imbé, no litoral norte gaúcho.

Segundo o site change.org, os pescadores conhecem cada boto e dão nomes aos animais. Além disso, os cetáceos aprendem e transmitem entre gerações os comportamentos que permitem essa cooperação.

O boto-de-Lahille habita águas costeiras do Brasil, Uruguai e Argentina. No litoral brasileiro, concentra-se em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, com registros também no Paraná. Laguna e a barra do rio Tramandaí abrigam os exemplos mais conhecidos dessa pesca cooperativa.

É um espetáculo acompanhar a parceria. Em Laguna, os pescadores aguardam os botos nas margens do Canal da Barra ou dentro d’água, com as tarrafas prontas.

Imagem de botos e pescadores

Os botos encurralam os cardumes de tainhas e os conduzem em direção aos pescadores. No momento certo, os animais dão sinais que orientam o lançamento das tarrafas. A cooperação beneficia os dois: os pescadores capturam mais peixes, enquanto os botos aproveitam a desorganização dos cardumes para se alimentar.

A cidade transformou essa parceria em atração turística, que gera renda e valoriza a cultura local. Entretanto, a ação humana ameaça os animais que sustentam essa tradição. Redes de pesca, poluição e degradação do ambiente colocam em risco o futuro dos botos pescadores.

Boto-de-Lahille: uma identidade que a ciência ajudou a esclarecer

Antes de conhecer melhor o boto-de-Lahille, vale esclarecer os nomes: botos e golfinhos são nomes populares que podem designar os mesmos animais, mas abrangem várias espécies de cetáceos. Algo semelhante ocorre com cação e tubarão, como já explicamos em outro post. São nomes diferentes para os mesmos animais, e não para uma única espécie.

Durante décadas, os pesquisadores incluíram os botos pescadores de Laguna na espécie Tursiops truncatus, o golfinho-nariz-de-garrafa. Entretanto, estudos sobre a anatomia e a genética desses animais revelaram diferenças que sustentam outra classificação: Tursiops gephyreus, o boto-de-Lahille.

Imagem de botos nariz de garrafa
O boto ou golfinho nariz-de-garrafa. Imagem, https://correiodaamazonia.com/.

Ainda existe divergência científica. O ICMBio reconhece o boto-de-Lahille como espécie distinta. Já a União Internacional para a Conservação da Natureza, a IUCN, o considera uma subespécie, com o nome Tursiops truncatus gephyreus.

Essa diferença também exige atenção ao informar o risco de extinção. A avaliação brasileira do ICMBio, publicada em 2025, classifica o boto-de-Lahille como criticamente em perigo. Na avaliação global de 2025, a IUCN o coloca na categoria em perigo.

O boto-de-Lahille vive em águas costeiras do Brasil, Uruguai e Argentina. Frequenta baías, estuários e lagoas, ambientes que concentram atividades humanas. Por isso, enfrenta ameaças como captura acidental em redes, poluição e degradação do habitat. Proteger esses animais exige conhecer suas particularidades e enfrentar os riscos que ameaçam suas pequenas populações.

Uma população pequena que exige proteção

Laguna abriga cerca de 50 botos. Segundo o Ministério Público Federal, ações de proteção entre 2020 e 2024 ajudaram a manter a população estável e reduziram as mortes por pesca acidental. As medidas incluíram placas de sinalização de velocidade e recomendações para regular eventos náuticos.

Imagem de pescadores artesanais em Laguna a espera dos botos
Pescadores a espera dos botos. Mas são as artes de pesca, artesanal e industrial, que matam os botos. Imagem, https://www.laguna.sc.gov.br/.

Isso, porém, não elimina os riscos. A pesca incidental, a poluição e a degradação do habitat ameaçam o boto-de-Lahille. Uma população tão pequena exige monitoramento contínuo e fiscalização para evitar novas mortes. Proteger esses animais também significa preservar a parceria que sustenta parte da pesca artesanal e da identidade de Laguna.

APA da Baleia Franca: proteção sob ameaça

Laguna fica dentro da APA da Baleia Franca, mas a criação da unidade não basta para proteger os botos e seu habitat. Entre 2014 e 2016, visitei todas as unidades de conservação federais do bioma marinho para a série de documentários Mar Sem Fim, na TV Cultura, e constatei suas fragilidades. Agora, uma nova ameaça exige atenção: o PL 849 ameaça a APA da Baleia Franca.

Imagem de golfinho morto por rede de pesca
As artes da pesca dizimam os botos nariz-de-garrafa. Imagem,https://www.change.org/.

Litoral de Santa Catarina é desfigurado pela especulação imobiliária

Enquanto isso o litoral de Santa Catarina é fustigado de forma impiedosa pela especulação imobiliária.

Imagem do superadensamento em Garopaba, SC
Um exemplo da ‘ordenação do uso do solo’ uma das obrigações da APA, em Garopaba.

Apesar de ter algumas das praias mais bonitas do País, a grande maioria está desfigurada pela especulação imobiliária.

Um fiscal para 130 km de costa

Quando visitamos a APA, em 2014, apenas um fiscal cuidava de 156 mil hectares, com 130 km de costa em nove municípios. Como cumprir a obrigação de “ordenar o uso do solo”, prevista no decreto de criação, com uma estrutura tão precária?

Imagem do promontório de Garopaba
Tudo é ocupado em Garopaba, a praia e o promontório. Mas o saneamento básico é pífio.

Os problemas da APA da Baleia Franca

Durante nossa visita, em 2014, constatamos problemas além da especulação imobiliária. Na Lagoa do Camacho, entre Laguna e Jaguaruna, mineradoras extraíam conchas de calcário. Em Balneário Rincão, um megaloteamento avançava sobre campos de dunas.

Imagem de Guarda do Embaú, SC
O superadesamento em Guarda do Embaú.

Enquanto isso, o turismo de observação de baleias-francas atraía poucos visitantes: em 2011, apenas 3 mil pessoas. Faltava divulgação. Nem mesmo placas informativas destacavam a presença desses animais e a importância da APA.

Assista ao vídeo da Sea Sheperd Brasil em Laguna e saiba mais

Imagem de abertura: http://www.tvkweb.com.br/

Fontes: https://brasil.oceana.org/pt-br/marine-life/mamiferos/golfinho-nariz-de-garrafa; http://www.tvkweb.com.br/2019/03/15/pesca-artesanal-com-botos-e-patrimonio-cultural-imaterial-de-santa-catarina/; https://www.laguna.sc.gov.br/cms/pagina/ver/codMapaItem/137693; https://www.change.org/p/minist%C3%A9rio-p%C3%BAblico-federal-de-santa-catarina-salvem-os-golfinhos-de-laguna?use_react=false.

Aquecimento global altera eixo da terra há 30 anos

Comentários

3 COMENTÁRIOS

  1. Vamos todos contribuir para a preservação e perenidade dos botos de Laguna, e com a recuperação da Lagoa.
    Não existe no mundo alguém que possa comprar, resgatar ou criar esse lindo e extraordinário fenômeno da natureza, apenas e tão somente os próprios botos são capazes de mantê-lo.

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