A invenção da Natureza, livro que todos deveriam ler

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A invenção da Natureza: livro que todo ambientalista deve ler

A invenção da Natureza, escrito por Andrea Wulf, em 2015, foi considerado o melhor livro de não ficção pelo New York Times, The Guardian, e Time. Agora disponível no Brasil, em ótima tradução de Renato Marques, publicado pela editora Crítica. É uma leitura deliciosa, além de ser um dos livros mais reveladores sobre o início do que viria a ser o movimento ambientalista, lá atrás, ainda no século XVIII.

Humboldt foi o primeiro a explicar a capacidade da floresta de enriquecer a atmosfera com humidade, seu efeito resfriador, a importância da retenção da água e a proteção contra a erosão do solo. Ele alertou que os humanos estavam interferindo no clima e que isso poderia ter um impacto imprevisível sobre ‘as futuras gerações’.

A invenção da Natureza, imagem de livro A invenção da Natureza
A invenção da Natureza

Amigo de Goethe; colega de Símon Bolivar; guru de Darwin; admirado por Thomas Jeferson; Humboldt influenciou até John Muir, o ‘pai dos parques nacionais’ norte- americanos

Ele foi o maior cientista de seu tempo. Uma celebridade internacional em pleno século XVIII. Nascido em 1796,  testemunhou  alguns dos momentos mais importantes da história moderna, entre eles a ascensão e queda de Napoleão Bonaparte, a revolução francesa,  a norte- americana, e a ‘libertação’ da América do Sul por Símon Bolívar.

Desafiando crenças milenares

Humboldt desafiou os maiores filósofos que “fizeram a cabeça” da sua, e das gerações anteriores, o mundo de então, durante milênios dominado  pelo modo de ver a natureza. Aristóteles, talvez tenha sido o primeiro, disse que ‘a natureza fez todas as coisas específicamente para os homens’; o botânico Carl Lineu, mais de 2 mil anos depois ainda evocava o mesmo sentimento quando, em 1749,  insistiu que ‘todas as coisas são feitas para o homem’. Descartes  e Francis Bacon também  foram  desmistificados. O primeiro disse que ‘os humanos eram os senhores possuidores da natureza’; o segundo, que ‘o mundo é feito para os homens’. Estas eram ‘as verdades’ que dominavam o sentimento mundial à época de a Humboldt. Até que o homem conheceu a América do Sul, e a floresta tropical…

A invenção da Natureza, gravura de Humboldt em sua casa
A invenção da Natureza: cercado por livros em sua casa

‘Em oito dias lendo livros uma pessoa não aprende tanto quanto em uma hora de conversa com Humboldt’, frase de Johann Wolfang von Goethe

Em 7 de fevereiro de 1800, Humboldt e seu criado saíram de Caracas para chegar ao Orinoco. Ao atravessarem um vale cercado por montanhas encontraram o lago de Valência. O cientista ficou fascinado. Milhares de garças, flamingos, e patos selvagens enchiam o céu de vida. Parecia idílico, mas os moradores disseram a Humboldt que os níveis de água do lago estavam baixando rapidamente.

Humboldt mediu, examinou, questionou. À medida que investigava, concluiu que o desmatamento das florestas adjacentes, e a transposição de cursos d’água para irrigação, havia sido a causa da queda dos níveis de água.

Segundo a autora,

foi lá, no lago de Valência, que Humboldt desenvolveu sua ideia de mudança do clima induzida pela ação humana.

Quando publicou suas observações, prossegue, não deixou dúvidas:

Quando as florestas são destruídas, como o são em toda parte na América por obra dos plantadores europeus, com uma precipitação imprudente, as fontes de água secam por completo.

E mais:

Desaparecendo a vegetação das encostas das montanhas, as águas das chuvas não sofrem obstrução em seu curso; durante as chuvaradas as águas sulcam os declives das colinas, empurram para baixo o solo solto, formam inundações que devastam o país.

Já, naquela época, Humboldt afirmava que,

os efeitos da intervenção da espécie humana eram incalculáveis e poderiam tornar-se catastróficos se o homem continuar a perturbar brutalmente o mundo

E alertou:

a ação da humanidade pode afetar as gerações futuras

Mais tarde ele escreveu, desafiando tudo que se sabia até então,

O homem não pode agir sobre a natureza e não pode apropriar-se de nenhuma de suas forças para uso próprio se ele não conhecer as leis naturais.

Nascia o primeiro ambientalista.

A invenção da Natureza

Humboldt antecipou a a teoria das placas teutônicas mais de um século antes de cientistas começarem a discutir o que hoje se sabe

Ele observou a conexão entre a África e a América do Sul, para chegar a conclusão que espantou o mundo da época. Falou de ideias evolutivas muito antes de Darwin ter publicado A Origem das Espécies. Sua influencia sobre o britânico foi tão grande que inspirou Darwin a se engajar na viagem do Beagle…Os livros e ideias de Humboldt criticando o colonialismo europeu, e à escravidão, fomentaram a libertação da América Latina…Segundo ele,

o colonialismo era desastroso para as pessoas e o meio ambiente (em razão da destruição das florestas para a implantação da monocultura)

E…

o dominador colonial explorava as colônias para extrair matérias- primas e, no processo, destruía o meio ambiente. Foi a barbárie européia que criou este mundo injusto

Humboldt sempre admirou Jeferson pelo país que ele ajudara a forjar, mas se desesperava com o fato de que os líderes estadunidenses

não fazem muita coisa em nome da abolição da escravidão

Quando listou as três maneiras pelas quais a espécie humana estava altreando o clima, Humboldt citou,

desmatamento, irrigação inclemente e, talvez a forma mais profética, as grandes massas de vapor e gás produzidas nos centros industrias

Aventuras na América do Sul, Rússia, e Américas

Para chegar a estas conclusões Humboldt fez três grandes viagens, maravilhosamente descritas no livro. Entre 1799 e 1804, saiu da Europa, rumou para a Venezuela. Depois da exploração que incluiu escalar vulcões, atravessar rios, e conhecer a  floresta tropical que o fascinou, navegou para Cuba, para mais explorações. Retornou para Bogotá, de onde foi até Lima, no Peru, atravessando os Andes. De Lima para  Guayquil; em seguida, Cidade do México. De lá para Cuba, depois, Filadélfia, bater – papo com Thomas Jeferson. Tentou convencer seus amigos norte- americanos, e sul- americanos, que um canal através do istmo do Panamá seria uma importante rota comercial… E retornou para a Europa com sua bagagem lotada de anotações, medições, rochas, plantas. Escreveu dezenas de livros, traduzidos para todas as línguas importantes da época.

A invenção da Natureza, mapa-da-viagem-de Humboldt pelas-americas
A invenção da Natureza. Rota da viagem pelas Américas, 1799 – 1804

A segunda viagem foi para a Venezuela, em 1800. Foi nesta viagem que ele desceu o Orinoco, descobriu o Canal Cassiquiare, que liga as bacias do Orinoco à do Amazonas.

A terceira, e última, foi para a Rússia, em 1829, quando atravessou o imenso país de Leste para Oeste; e de volta ao Leste. Percorreu mais de 16 mil quilômetros neste périplo, mais uma vez, fazendo incríveis descobertas.

Humboldt e o clima

De acordo com a autora, Humboldt

foi o primeiro a entender o clima como um sistema de complexas correlações entre a atmosfera, os oceanos,e as massas de terra.

E,

a natureza era uma teia de vida e forças globais. Mais tarde, um colega afirmou que Humboldt foi o primeiro a compreender que tudo estava entretecido como que por mil fios. Essa nova maneira de natureza mudaria maneira como as pessoas entenderiam o mundo.

Alguns conhecidos de Alexander von Humboldt

O capitão Willian Blight, do famoso motim do do Bounty; Joseph Banks, botânico de James Cook; Louis Antoine de Bougainville, seu herói de infância,  e primeiro explorador a por os pés no Taiti, em 1768; Símon Bolívar, a quem influenciou para que libertasse a América Latina, e que o desapontou ao se impor como ‘Imperador”; celebrou seu aniversário de 60 anos na companhia do boticário local, um homem de quem a história se lembraria como avô de Vladimir Lenin; sem falar em dezenas de reis, poetas, escritores, artistas, e toda a aristocracia européia que o admirava profundamente.

selo-alemao, imagem ddd selo alemão
A invenção da Natureza

A invenção da Natureza, selo venezuelano com figura de Humboldtselo-mexico

Foi etnógrafo, antropólogo, físico, geógrafo, geólogo, mineralogista, botânico, vulcanólogo e humanista.

Morreu aos 90 anos, em 1859, coberto de glória e reconhecimento.

Incrivelmente, ele é pouco reconhecido hoje

Este o grande valor de,  ‘A invenção da Natureza – A vida e as descobertas de Alexander von Humboldt’, recolocar o personagem em seu lugar de destaque. É um livro que todo ambientalista tem que ler.

Seus livros se tronaram best sellers

Escreveu dezenas de livros que venderam milhares de cópias em todo o mundo mas, secundo a autora,

uma de suas maiores realizações foi tornar a ciência acessível e popular.

E ela conclui:

A sensação é que fechamos o ciclo. Talvez agora seja o momento em que nós e o movimento ambientalista devamos corrigir os desvios de rota, recolocando Alexander von Humboldt no papel de nosso herói.

A invenção da Natureza, imagem da capa do livro A Invenção da natureza
A invenção da Natureza. Todo ambientalista tem que ler

Que este belo livro seja lido, e suas lições finalmente aprendidas, mais de 150 anos depois de morte de seu protagonista. Quem sabe assim deixemos de fazer as bobagens que hoje são feitas, que persistem destruindo nossa biodiversidade.

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