Tubarões no Recife: por que os ataques continuam?
Tubarões no Recife voltaram às manchetes em 2026. Em dois dias seguidos, dois banhistas sofreram ataques na Região Metropolitana. No dia 31 de maio, um menino de 11 anos foi atacado na Praia de Piedade, em Jaboatão dos Guararapes. No dia seguinte, uma jovem de 19 anos sofreu ataque na Praia de Boa Viagem, no Recife.
Os dois casos mostram que o problema continua sem solução. Desde 1992, Pernambuco registra dezenas de incidentes com tubarões, sobretudo no trecho entre Recife e Jaboatão dos Guararapes. Mesmo assim, o monitoramento científico ficou interrompido por 11 anos apesar das 27 mortes já provocadas.

Só agora, depois de novos ataques, o Estado promete retomar o trabalho em parceria com a UFRPE. A pesquisa deve usar microchips e receptores para acompanhar tubarões-tigre e cabeça-chata em um trecho de 33 quilômetros da costa.

Não adianta colocar placas…
Placas de aviso são necessárias, mas estão longe de resolver o problema. Elas informam o risco ao banhista. Porém, não substituem pesquisa científica, monitoramento contínuo e gestão séria do litoral.
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Piçarras: R$ 53 milhões jogados ao mar na engorda da praiaTubarões-tigre na Baía da Ilha Grande intrigam cientistasMerenda em Ubatuba: larvas, carne ruim e fraudeEm Pernambuco, o Estado conhece o problema desde 1992. Sabe onde os ataques se concentram e quais espécies preocupam mais. Ainda assim, deixou o monitoramento científico parado por 11 anos. Como explicar esta omissão?
O resultado é previsível. Sem dados atualizados, o poder público reage depois dos ataques. A cada novo caso, volta a promessa de monitorar, estudar e prevenir. Depois, o assunto sai das manchetes e o litoral segue sem a atenção que merece.
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Por que as mortes se concentram no litoral de Pernambuco?
Os estudiosos já explicaram muitas vezes por que os ataques se concentram no litoral de Pernambuco. Conversamos com um dos maiores especialistas brasileiros, Fábio Hazin, da Universidade Federal Rural de Pernambuco, quando estivemos no no litoral do Estado durante a primeira viagem do Mar Sem Fim pela costa brasileira.
Os ataques começaram a se repetir a partir de 1992. A explicação não está em uma mudança de comportamento dos tubarões, mas nas alterações que o ser humano impôs ao ambiente.
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A construção do Porto de Suape provocou grande impacto ambiental. Para erguer o porto e a refinaria, vastas áreas de manguezais vieram abaixo. A região funcionava como berçário para fêmeas de tubarão-cabeça-chata, uma das espécies envolvidas nos ataques.
Subindo a costa à procura de outro manguezal
Sem esse habitat, os animais passaram a buscar outras áreas para completar seu ciclo de vida. Com os ventos predominantes de sudeste, parte deles subiu a costa. O primeiro manguezal no caminho é o do rio Jaboatão, já na Região Metropolitana do Recife.
Ali, encontraram outros problemas criados pelo homem. O antigo matadouro de Jaboatão lançava sangue e vísceras no rio. O Aterro da Muribeca despejava chorume. Segundo Fábio Hazin, esse tipo de dejeto em corpos d’água tem potencial para atrair tubarões.
Para piorar, a pesca de arrasto de camarão, muitas vezes feita perto demais da costa, devolve ao mar grande quantidade de fauna acompanhante morta. Esse material vira alimento fácil para tubarões-tigre e cabeça-chata. Assim se formou a combinação perversa: perda de habitat, poluição, alimento disponível e praias urbanas lotadas.
Mas os ataques se restrigem ao litoral de Pernambuco. Por exemplo, recentemente ficamos sabendo que os tubarões-tigre são assíduos frequentadores da baía de Angra dos Reis, no entorno da Ilha Grande, no Rio de Janeiro. Apesar do local ser frequentado por turistas quase o ano todo, ninguém jamais soube de um ataque naquela região.
Pernambuco teme perder turistas e adia soluções
Pernambuco teme o impacto econômico das interdições. Boa Viagem e Piedade são vitrines turísticas, e cada ataque atinge a imagem do litoral. Mas há uma contradição evidente: proteger o turismo exige, antes, proteger as pessoas e o ambiente.
Como quase tudo que ocorre no litoral brasileiro, os ataques de tubarões também não recebem do Estado a seriedade necessária. Não é muito diferente da ocupação errada da orla, quase sempre permitida pelo poder público, que depois resulta em erosão, ressacas e prejuízos. O próprio Grande Recife mostra isso: sua orla, aos poucos, se dissolve.
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O Ministério Público já cobrou medidas mais duras, inclusive a proibição de banho em áreas de risco. Faz sentido. Sem saneamento, sem recuperação de manguezais, sem monitoramento contínuo e sem regras claras, o poder público apenas empurra o problema para o próximo ataque.
Tubarões não são os vilões desta história
Convém lembrar: tubarões não são comedores de gente. A fama piorou depois de Jaws, o filme de Steven Spielberg que transformou o animal em monstro no imaginário popular. Mas as estatísticas mostram outra realidade. Nas listas de animais que mais matam seres humanos, os tubarões aparecem sempre no fim.
Isso não significa negar o risco. Tubarões são grandes predadores. Têm mandíbulas poderosas e uma mordida pode causar hemorragias graves. Em Pernambuco, quando houve morte, a causa quase sempre esteve ligada à perda de sangue depois de um único ataque. O animal morde, percebe o erro e solta a vítima. O estrago, no entanto, já está feito.

Por isso, culpar o tubarão é simplificar o problema. Ele cumpre seu papel no ecossistema marinho. Como predador de topo, ajuda a manter o equilíbrio da cadeia alimentar. O erro está em destruir manguezais, poluir rios, permitir pesca predatória, ocupar mal a orla e depois agir como se o animal fosse o responsável pela tragédia.










É por causa dos tubarões que eu não tomo banho de mar. E por isso não levei nenhuma mordida. Vou morrer de outra causa.
Como sempre o governo dos estados do nordeste prejudicando a pop. Nunca vi tando descaso, político nordestino é conhecido pela falta de iniciativa e planejamento.
Os acidentes com tubarões já são registrados à décadas….em 1960 já se contavam histórias de tubarões na área de praia em frente à igrejinha de Piedade, uma com a morte do padre da referida igreja que saiu para nadar um pouco mais afastado da margem….
Naturalmente a poluição e interferência humana nas condições das águas marítimas só podem colaborar com o perigo de os tubarões virem mais para a praia.
Excelente materia!!
Parabéns pela reportagem pois ela ilustra bem o descaso desses políticos irresponsáveis, esse caso detalhado na reportagem mostra muito bem que projetos como este não levam em conta o meio ambiente como um todo mostrando toda a incapacidade unir os padrões definidos com a grande obra . Agora com mais esse vítima fatal qual será o seu efeito futuro, será tomada alguma providência real o blá-blá-blá, vai continuar, temos eleições quem sabe exista algum candidato que se interesse por este caso. Lamentamos o ocorrido e sentimentos a família.
Excelente materia sr. João Lara!!!
É de gente como você que é feita uma mídia brilhante!
Parabéns!!!
Morei 15 anos no Recife e em Jaboatão dos Guararapes, nos bairros e praias de Boa Viagem, Piedade e Candeias. Sempre obedeci as orientações contidas nas placas. Nenhum tubarão me atacou.
Reportagem de grande valia, pois, explica tecnicamente o ataque dos tubarões.
As ações antrópicas, por vezes, são catastróficas.
A construção do Porto de Suape, sem os devidos estudos, provocaram e ainda provocarão tragédias como estas.
Parabéns pela reportagem.
Deus não fez o homem à sua imagem e semelhança! Deus é pai de toda a natureza!
A mais pura verdade matéria excelente , aqui vemos não só esse absurdo nos rios e mares, vemos também na cidade como um todo a falta placas, ruas esburacadas sem calçamento independente de estar em uma área nobre ou periférica sendo que está última a situação é vergonhosa. Cheguei aqui e me assustei com o que vi Jaboatão dos Guararapes é muito muito muito mal tratada é um absurdo o que se vê aqui em todos os sentidos só se salva Candeias e Piedade e olhe lá por que a situação de muitas ruas ao redor também é precária .
Eu transferir o meu título para cá e digo não tenho nenhum candidato pois é visível eles não fazem nada nada pela cidade serei muito cautelosa,
Lembrando que não é politico nenhum que vai mudar e sim um conjunto mais se temos que escolher é preciso ter cautela
Vota no Lula, Arraes, Campos, Renan, Sarney…que eles vão “continuar a cuidar bem do Nordeste”…que tal se se vendessem por uma cesta básica na próxima eleição? NÓS NÃO SOMOS VÍTIMAS DOS POLÍTICOS CORRUPTOS, SOMOS CÚMPLICES, E APENAS NÃO RECEBEMOS A PROPINA…
Kelly, também morei em Jaboatão dos Guararapes e constatei a péssima gestão municipal em termos de infraestrutura, saneamento, saúde pública, segurança e outras áreas essenciais à qualidade de vida da população.
A segunda maior cidade do estado não conta sequer com uma maternidade!
A corrupção e a omissão do poder público permitiu a invasão, degradação e ocupação criminosa dos ambientes naturais praianos que foram substituídos por uma horrenda muralha de edifícios de luxo. Ocuparam tudo, com exceção de uns poucos acessos para o mar, em Piedade e Candeias.
As placas são insuficientes e raros são os agentes para fiscalização, que ficam restritos aos postos fixos esparsos.