Sophie Bely, a morte trágica de uma navegadora

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Sophie Bely, a morte trágica de uma navegadora audaz

Sophie Bely, a morte trágica de uma navegadora. Uma tarde levei um susto tão grande que me deixou atordoado. Lá pelas tantas, resolvi xeretar o WhatsApp, justo eu, que quase não uso celular. Um direto no queixo. O amigo, Betão Pandiane, passou o seguinte recado: “Uma notícia triste. Recebi a notícia que a Sophie Bely caiu no mar junto com o capitão e amigo do barco que ela estava. Eles voltavam da Geórgia do Sul quando uma onda adernou o barco e levou duas pessoas. A Sophie e o Arnout, comandante do barco (o veleiro polar Paradise). O Igor está no Kotic na Antártica trabalhando. Está muito abalado. Não tenho mais informações mas isso parece que foi ontem (6 de março).”

imagem de Albatroz- errante em voo
Albatroz-errante, ícone antártico, tem até 3,5 m de envergadura. Seu ciclo de vida é dar a volta ao mundo, parar em uma ilha para procriar (entre elas as Geórgia do Sul), correr o mundo outra vez.

Fiquei ofegante. Deu branco… demorou segundos para ligar as pontas. Então, de repente, ‘vi a cena’ em câmera lenta, quadro a quadro; pesadelo de todo homem, ou mulher do mar.

imagem de Sophie Bely, a morte trágica de uma navegadora
Fábio Tozzi e Sophie Bely. Foto: Julio Fiadi.

Sophie Bely, a morte trágica de uma navegadora

Era casada com Oleg. Mãe de Olga, e Igor. Sophie conquistava pela simpatia, o companheirismo, e a arte de cozinhar. Era uma exímia cozinheira, não por acaso, a foto a mostra  em seu QG. O casal foi um dos ‘desbravadores’ das viagens privadas de veleiros à Antártica. Elas começaram, se não me engano, em algum momento dos anos 70 do século passado. Os dois se apaixonaram pelo que descobriram.  A extraordinária beleza, a proximidade com uma fauna marinha e alada que ainda não se incomoda com nossa presença, ao contrário, interage. Faz parte de nosso cotidiano, a poucos metros de distância, grupos de baleias de vários tipos; elefantes-marinhos que pesam até 1.100 kg, focas e outras espécies de mamíferos marinhos, pinguins, e uma porção de outras aves.

imagem de Oleg Bely de bote na Antártica
Oleg Bely com sua marca registrada: o gorro vermelho.

Oleg Bely

Pra quem é amante do mar, como eu, era uma lenda, um lindo personagem náutico. Eu conhecia sua reputação há muito tempo. Corria o final da década dos 80 do século passado, quando eu participava de regatas em Ilhabela enquanto sonhava com voltas ao mundo e coisas assim. Um dia, depois da regata, um amigo conta que iria pra Antártica, naquele verão, com Oleg e seu Kotic II. Fiquei fascinado com o que ouvi.

imagem de leão marinho na Antártica
A fêmea leão-marinho, dona da Antártica, é simpática, dócil, e imensa. Os machos são ainda maiores.

Os dados a seguir são parte da minha memória desta família especial. Oleg era um francês, também de origem russa, que se fez na vida trabalhando na NASA. Ao fazer o pé de meia, falou mais alto o espírito de aventura, a liberdade absoluta; o contato direto com o que restou de natureza intocada neste chato mundo superpopuloso: Antártica, a última fronteira da Terra. Tive o prazer de conhecê-lo durante a primeira viagem à Antártica, em 2011. Em Ushuaia, Oleg esteve a bordo do Mar Sem Fim, e nos deu aulas sobre locais legais de ancoragem, e seus problemas, na península antártica. Era uma simpatia, além de um monumento à navegação privada na Antártica.

imagem de paisagem da Antártica
A Antártica é superlativa em tudo. Excesso em cima de excesso. Conhecê-la foi a melhor coisa que fiz na vida.

Os pioneiros…

Eles foram os primeiros a fazer charters na Antártica. Abriram o caminho. Conta-se que Oleg (sempre, e por consequência, leia-se a família) tem mais de 30 travessias do Drake, o espaço mais ‘birrento’ de mar que há no mundo. Tornaram-se referência para quem navega acima do paralelo dos 40º de latitude Sul. O casal mudou-se para um sítio, às margens de um rio, no Uruguai. Ali o Kotic, o lindo veleiro que Oleg construiu em Dois Córregos, interior de São Paulo, fica fundeado ao lado da casa da família. Nos verões, eles descem até Ushuaia. Chegam por volta do fim de novembro, ficam até fevereiro, explorando, fazendo charters.

imagem de skua em voo
O skua é territorialista, não aceita presença estranha, investe contra ela.

O Kotic II

O Kotic II é mítico. Durante minha primeira viagem à Antártica, encontrei-o num dos lugares mais lindos de lá, as Ilhas Argentinas.  O casal, mais o filho Igor (dizem que nasceu na Antártica…), mais uma vez levavam um grupo de brasileiros para conhecer a última joia do planeta, a cereja do bolo da Terra.

imagem do O Kotic II, da família Bely, na Antártica
Sophie Bely, a morte trágica de uma navegadora. O Kotic II, da família Bely.

Quando chegamos, vimos o Kotic. Fundeamos atrás. No dia seguinte Igor nos levou num passeio pelos arredores da baía. Depois de um platô, demos com um morro em cima do qual havia uma caverna, ele nos levou até lá. A Antártica é o quintal deste excepcional navegador com uma brutal experiência na região, ainda que tenha apenas 35 anos.

imagem de Igor Bely na Antártica
Igor Bely.

O charter que perdi, o amigo que ganhei

Entrei em contato com Oleg e comprei um lugar a bordo, na primeira viagem do verão de 1991. Estava feliz da vida em meu trabalho na Eldorado.

imagem de Icebergs
Icebergs, ou esculturas flutuantes?

A rádio marcava gol em cima de gol e, no verão seguinte, eu iria conhecer a Antártica com o notável Oleg Bely.

imagem de duas pessoas no interior de caverna no polo sul
Guiados por Igor, mais dois entram na caverna, no polo sul.

Passei o ano pensando nisso mas, ao fazer as malas, ameaçou estourar a primeira guerra do Golfo. Como diretor de uma rádio jornalística, abdiquei da viagem. Sentido, foquei a cobertura da guerra…Desde então me perguntava, haverá outra oportunidade? Quando, enfim, vou conhecer a Antártica?

Imagem de Igor Bely em caverna da antártica
Igor.

Abaixo, a linda baía Brown, apenas mais uma belíssima surpresa.

Imagem do mar sem fim na baía Brown, Antártica
Baía Brown, verão de 2011.

A maioridade

Foram precisos 18 anos para acontecer nosso encontro. Assim que cheguei em Ushuaia, com o Mar Sem Fim no verão de 2011, fui a bordo do Kotic e me apresentei.

imagem de estreito na antártica
Quer mais?

Eu era aquele que faltou na viagem dos anos 90. Naquele minuto ficamos amigos. Oleg lembrava-se de nossas trocas de mails. Visitei o mítico veleiro por dentro, uma graça, ao mesmo tempo aconchegante. Um espaço interno quase todo aberto que dá um ar de ‘loft’ ao barco da família, e super seguro. Um veleiro polar dos melhores que há no mundo.

imagem de Oleg Bely no bote do Kotic II

Toda a família era simpática, alto astral e ótimo papo. E mestres na Antártica, e na navegação polar em geral (às vezes trocavam a Antártica pelas Geórgia do Sul).

imagem de João Lara Mesquita e Oleg Bely a bordo do Mar Sem Fim
Em Ushuaia, a bordo do Mar Sem Fim, Oleg veio dar instruções sobre os points especiais da Antártica, a navegação, modo de fundear, etc.

Epílogo

No final de 2015 fui diagnosticado com um raro tipo de câncer linfático. Ele obrigou-me a focar no tratamento da saúde. Mas acompanhei a saga de meus amigos do mar. Em 20 de maio de 2016, também com câncer (no cérebro), nosso herói não resistiu a mais uma dolorosa sessão de quimioterapia depois de sua última viagem ao polo; Oleg fez a última viagem, deveria estar com setenta e mais.

imagem de lua cheia no polo sul.
Não existe nada comparável a lua cheia no polo sul.

Ele deixou pencas de admiradores no mundo polar, dezenas de brasileiros entre eles. Igor, assumiu o lugar do pai como comandante do Kotic, e passou a fazer os charters. A vida, aos poucos, voltava ao normal. Até que recebi a trágica notícia.

imagem de por do sol na Antártica
Pra quem acha que a palheta de cores da Antártica pode ser monótona…

O mar sem fim chama a atenção do internauta quanto ao raro fenômeno que agora se repete, de que os comentários dos visitantes (veja abaixo, em comentários) do site passam ser protagonistas, tal a quantidade de relatos sinceros que completam a história original.

imagem de skua em voo
Skua.

Sinais de respeito e admiração pairam no ar.

imagem da vista da toca no morro na antártica
A vista da toca…

Mar Sem Fim enlutado, bandeira a meio-pau, homenagem dos amigos

Meus mais sinceros sentimentos ao Igor, e sua irmã Olga, que não tive o prazer de conhecer. Daqui de meu bunker, extremamente abalado, penso no acidente, no charme e simpatia de Sophie. Sinto calafrios. O caso lembra-me o de Eric Tabarly, considerado pelo Sail Universe, ‘o melhor marinheiro desde sempre, que teve o mesmo, e  terrível desfecho.

Que este casal único se encontre outra vez, enquanto nossa memória afetiva sofre pra se recompor. O mundo da vela polar está ao lado dos ‘meninos’, de luto fechado, tentando entender como foi possível.

imagem de albatroz- errante curtindo as altas latitudes.
Curtindo as altas latitudes, em homenagem à Sophie Bely, a morte trágica de uma navegadora.

Foto de abertura para ‘Sophie Bely, a morte trágica de uma navegadora’: Julio Fiadi.

Roald Amundsen, o primeiro a chegar nos dois polos

Repórteres do Mar

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24 COMENTÁRIOS

  1. Linda matéria, justa homenagem, Joao, obrigada!!
    Tive o prazer e o privilégio de fazer esta viagem no Kotic…e me lembro de ver seu barco fundeado ali em Ushuaia, na ida ou na volta…
    Foi uma experiência incrível, mas tive um carinho muito especial pela Sophie, sua história de vida, sua simpatia, dedicaçao, coragem…e aquela comida maaaaravilhosa que foi sem dúvida nenhuma um dos pontos altos desta aventura inesquecível.
    Fiquei muito chocada quando soube, a passagem do casal deixa o mundo da navegação sem dúvida mais pobre. Resta dizer, no entanto, que sua vida foi uma aventura maravilhosa e intensa, e, que, depois da morte do queridíssimo e fantástico Oleg, nao devia estar nada fácil para ela, que, no entanto, nao parou de navegar, tantos amigos que tinha no mar…obrigada, Oleg e Sophie, estarei para sempre com vocês no meu coração…

  2. Sou de Dois Córregos, onde o KOTIK nasceu… apesar da pouca idade na época tive o prazer de acompanhar a construção dessa nave, um acontecimento único para uma pequena cidade que o mar mais perto está a 400 km!!! Nossa cidade teve o prazer de conviver com a família Bely durante 03 anos e para nós “caipiras” uma situação muita estranha, esses “loucos” morando em um “barraco” com 02 crianças pequenas e construindo um barco para ir no “gelo”… essa é a expressão que a maioria dos cidadãos usavam… não tínhamos a noção que aquela família de “loucos” seriam com certeza os maiores conhecedores da Antartica. Enfim, como doiscorreguense deixo nossos pesares a família e orgulho de ter nossa cidade marcada nessa linda história chamada KOTIK. Lúcio Rodrigues

  3. Meus sentimentos pela despedida de pessoas, que gostaria muito de ter conhecido ainda nesta vida, Isso me fez pensar sobre a partida, sobre o desligamento dessa chave que nos tira a vida, de repente ou não… e o que ameniza as dores (visão pessoal), é pensar que quando partimos fazendo aquilo que nos da satisfação e levamos a vida buscando os caminhos das realizações… pensar nesse desligamento fica menos doloroso… mais triste ainda, é partir sem levar a vida nesta intensidade fantástica de experiencias.
    Nesta homenagem de João Lara Mesquita, conhecemos um pouco sobre vidas, que foram plenas de realizações, vividas e admiradas.

  4. Boa noite a todos. Muito triste pois admiro muito esta família. Força a você Igor, e siga em frente pelas idéias e sonhos da família. Obrigado pelos ensinamentos a todos nós. Marcio Tozzi – Veleiro Imagine – Clube Veleiros do Sul – Porto Alegre – RS

  5. Minha iniciação na Vela se deu tardia, natural e espontânea.
    O programa Mar Sem Fim, exibido na TV Cultura em epsódios semanais, me fascinava e contribuiu para que os ventos me atraíssem.
    Assisti o especial do Mar Sem Fim na expedição à Antártica e foi mágico o momento do encontro com a Família Bely.
    Parabéns pelo relato!
    Luna – Veleiro Ecos

  6. Linda homenagem Joao Lara, apenas conheci a Sophie atraves da Kika e a imensa admiracao pela paixao pelo mar a a vida a bordo. que triste noticia, tambem pensei no Eric Tabarly. meus profundos sentimentos especialmente ao Igor, Samanta e Olga, alem de todos os navegadores que a conheceram. Obrigada pelo artigo Joao.

  7. João e Betão,
    Realmente muito triste a notícia do desaparecimento da Sophie e seu colega comandante no mar da Georgia do Sul. Nesses mares, numa tempestade ciclônica, barcos não apenas adernam mas pulam como cabritos, como vi pularem o Rapa Nui ou navios como o Prof. Besnard, o movimento é indescritível, fácil ser atirado longe. Sophie é inesquecível, pela simpatia e simplicidade. Relendo meus diários de bordo, encontro passagens como:
    25/1/91 – Baia Dorian. Enquanto falávamos com o Alvaro em 14360 kHz avistamos os mastros do Kotic subindo o Neumayer … Oleg chegou, Igor e Olga vieram nos visitar no Rapa Nui, Oleg diz “A Antártida mudou, pouco gelo e muito vento”. 28/1 – Dorian. Jantamos com Sophie, Oleg,Igor, Olga, e suiços … Oleg disse que na ilha Petermann o degelo de parede pôs à vista o barco de Charcot, ele pegou um pedaço da proa, antes não se achava nada, só um prego de vez em quando”. 29/1 – Koatic saiu para Palmer. 1/2/91 – Kotic saiu de Palmer às 14h para Port Lockroy, Sophie despediu-se de Maggie em francês no Canal 16, espera voltar lá pelo dia 10 de fevereiro….”
    6/2/91 – Ilha Decepção. Oleg pede-me previsão para travessia do Drake: “Onde passa a próxima depressão?” Ele vai para Ushuaia e nós também. “Se passa na nossa cara teremos vento NW depois SW, e se passa mais para cima?” Edu preocupado com a pressão alta: quando começar a desabar… Situação difícil de analisar. Assim que previ a janela para a travessia, Oleg saiu imediatamente. Às 22:40 chamei o Kotic no canal 16, me responderam em francês (já havia saido), passei a informação em francês: Depression faible s´approche côte sudwest Chile vent Drake 15-20 noeuds W/NW, bon voyage pour toutes!” O Kotic atravessou o Drake sem incidentes, nós no Rapa Nui demoramos a sair e capotamos no meio do estreito…

    • Que lindo, Rubens, adorei os extratos que você colocou. Não tenho dúvidas que seus arquivos merecem ser publicados. São da época inicial do PROANTAR, os pioneiros na Antártica, isso vale muito, meu caro, e deveria se tornar público. Grande abraço, obrigado pela contribuição.

  8. Para que todos os velejadores do mundo aprendam
    Obrigado João Lara, Beto Pandiane, Carlos Eduardo Souza e Silva – Kalu, Manfred Von Shafhausen BARÃO, Peter Fiker, Robert S. e tantos outros que me tornaram uma pessoa melhor e onde minha filha Helena optou por um novo caminho post- morte.

  9. Sophie, uma das melhores pessoas que conheci, uma de minhas melhores amigas!
    Alegre, inteligente, podiamos passar anos sem nos ver e quando nos viamos era como se o tempo
    Nao tivesse passado!
    Construimos ao mesmo tempo o Kotic e o Taua!
    Muitos batepapos, cozinhas , vinhos e uma tisaine no final da noite

    Muitas saudades

    Lili Lepreri

  10. Parabéns Cap. João Lara por esta homenagem, o mundo náutico esta de luto.
    Lembro de um documentário que passava na Bandeirantes TV, sobre aquele garotinho Igor que brincava na Antártica. Me tornei fã, eles eram aquelas pessoas em que sonhamos um dia ter a honra dar um aperto de mão, mesmo que rápido, para sentir a energia que as pessoas do mar carregam. É muito triste. Como ensinava o Eric Tabarly devemos sempre ter uma mão para o barco, outra para nós, mas nem nem sempre isso é possível. Acidentes acontecem como aconteceu com o próprio Eric e Sophie.

  11. Desculpa minha indiscreçao ou pergunta inoportuna, mas eles nao estavao amarrados ? Segundo jornal argentino, tinha vento de 64 nos e ondas de 4 metros… realmente uma tragedia e outra pérdida irreparavel…meus pésames a familia…

  12. Júlio Mesquita

    Boa tarde! Me chamo Xavier Stump, um dos orfãos do casal Belly, tive o prazer de ir para a Antartida em 2016 a última do Oleg e infelinfelizmente me parece da Sophie tb. Na época apesar de ser amador registrei um filme da nossa vivência que acabei editando e fiz um pequena homenagem ao Oleg penso fazer o mesmo com a Sophie, pessoa expcional o equilibrio deste casal. poderia me mandar contato para que te envie o material que é bastante pesado. Em tempo acompahei é li sua epopéia, sou irmão do Thierry.
    Abs
    Xavier

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