Viagem do Naufrágio: A rebimboca da parafuseta

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Viagem do Naufrágio: A rebimboca da parafuseta – 24/3/2012

Faz mais de uma semana desde o último relato sobre nossa viagem.

Escrevi o derradeiro texto no dia 15 de março, logo depois de chegarmos a Deception, encerrando a travessia do Drake.

Pegamos um mar respeitável. Estávamos com rumo para a ilha Melchior, na Península Antártica, com possibilidade de desviar para Deception (esta ilha fica na altura das Shetland do Sul), dependendo das condições de mar. Faltando 70 milhas para a chegada o vento apertou. O Sudoeste, cerca de 40 nós, nos pegava de lado. As ondas tinham mais de três metros. O Mar Sem Fim enfrentava aquele mar desencontrado com segurança, mas a navegação era desconfortável. Balançamos um bocado. Decidimos mudar a proa para Deception. A distância era a mesma de Melchior, 70 milhas.  Neste novo rumo o vento vinha pela popa trazendo duas novidades: acabou o balanço e nossa velocidade aumentou.

Surfamos. Passamos pela ilha Smith deslizando por cima de um sweel a mais de sete nós. Em pouco tempo estávamos passando pelos foles de Netuno, a porta de entrada para o interior da cratera de vulcão que emerge no meio do estreito de Bransfield e é conhecida como Deception.

Ilha Smith, próxima a Deception.

A ilha sinaliza o fim da travessia do estreito, ou passagem, de Drake para quem faz o rumo norte-sul. Antigo abrigo para foqueiros e baleeiros, ainda hoje Deception desempenha este mesmo papel só que, atualmente, em vez de rústicos barcos a vela abriga veleiros e barcos privados ansiosos por um bom refúgio depois de atravessar um dos pedaços mais críticos de mar do planeta.

Foles de Netuno (pequena abertura entre o morro amarelo e o vermelho).

Ficamos dois dias ancorados em seu interior. Na primeira noite dormimos em Whalers Bay, em frente às ruínas das antigas fábricas de beneficiar baleias. Na segunda mudamos para o fundo da baía e ancoramos em Telefon Bay.

Ruínas da antiga base inglesa, e o Mar Sem Fim em Whalers Bay, Deception.

Não podíamos navegar com aquele tempo ruim. Era preciso aguardar. A frente tinha que passar antes de seguirmos para a Península Antártica, 120 milhas ao sul.

Telefon bay, Deception, viagem 2009/2012.

Esperamos fazendo turismo em terra.  Na madrugada do dia 17 de março saímos de Deception em direção à ilha Melchior. Nossa previsão indicava calmaria até o meio-dia. Depois entraria um vento muito forte de sudoeste, podendo chegar aos 50 nós. Detalhe: as previsões da Commanders, empresa que contratamos, não falham.

Iniciamos este trecho de modo a estarmos ancorados em Melchior quando começasse o vendaval.

Pouco depois de duas horas de navegação ouvimos um barulho estranho vindo dos eixos do barco. Pensamos na possibilidade de termos enroscado nossa hélice com alguma linha de pesca, ou cabo. Para conseguir ver o sistema de eixos e hélices era preciso mergulhar ou usar algum truque.

Mergulhar no meio daquela imensidão, com ondas ainda que fracas, seria dureza apesar de termos todos os equipamentos necessários, até roupa seca.

Decidimos filmar com o telefone à prova d’água do Pedrão. Amarramos o aparelho num remo, mergulhamos na direção do leme e filmamos. Em seguida vimos o resultado. Nada de cabos enrolados. Era a bucha do pé de galinha do eixo direito que havia “desembuchado”. Se você não é do mar apenas saiba que barcos também têm a “rebimboca da parafuseta” que, em nosso caso, se materializou na forma desta bucha que parou de prestar o essencial serviço de proteger o eixo de raspar direto, aço (do eixo) com alumínio, no suporte de eixo que fica à ré dos barcos, também conhecido como “pé de galinha”.

Encrenca rara e brava. Voltamos em marcha lenta até Deception. Ali pelo menos teríamos um bom abrigo. Eu poderia mergulhar e tentar algum reparo.

Foi uma volta angustiante. Sabíamos que ao meio-dia iria entrar vento forte. Felizmente chegamos antes do mau tempo.

Os dias 18 e 19 foram gastos em mergulhos. Com várias ferramentas diferentes tentávamos empurrar a bucha novamente para o lugar correto. Mas a batalha estava perdida.

Seria preciso ajuda externa. De Deception ligamos para a ilha Rei George, onde há mais de seis bases científicas de vários países e até um aeroporto com voos semanais ligando Punta Arenas à Antártica. Na base chilena de Frei há um nosso conhecido desde a primeira vigem para a Antártica, no verão 2009/10, Alexo Contreras.

Alexo Contreras. Ele já foi ao Polo Sul…a pé!!!

Falamos com ele que nos garantiu que a base argentina, Carlini (antiga base Jubany), teria mergulhadores profissionais capazes de executar a tarefa.

As condições de sobrevivência e trabalho são duríssimas na Antártica. Em razão disto todos se ajudam. Esta solidariedade especial é uma tradição daqui. Restava navegar de Deception para Rei George, percorrendo mais 60 milhas.

Durante os dias que passamos em Deception a temperatura esteve na casa dos 2ºC. Ventou bastante e nevou mais ainda. O cenário, que já é muito bonito, ficou ainda mais especial todo pintado de branco.

Paisagem de Deception.

Marcamos nossa saída de Deception para a meia-noite do dia 20. Teríamos que navegar em marcha lenta para proteger o sistema de eixo com problemas. A duração aproximada desta perna seria de 12 horas.

Deception.

Na hora marcada iniciamos a navegação. Saímos de Deception sem enxergar mais que poucos metros à frente, usando o radar para descobrir onde ficava a estreita passagem, Foles de Netuno, que dá acesso ao interior da cratera que nos abrigara todos estes dias.

Turistas em Deception.

Concentração total a bordo. Olhos grudados na tela do radar, Pedrão no leme, eu vigiando um dos lados do barco, Sérgio o outro. Procurávamos distinguir os contornos da costa avisando ao Pedrão como estava o barco em relação às margens da entrada.

Ilha Livingstone, no caminho para Rei George.

Tudo certo, saímos sem maiores problemas. Aproamos para Rei George e viemos navegando na faixa dos 5 nós de velocidade. Quando amanheceu tivemos sol pela primeira vez na viagem. A moral subiu conforme o dia ia esquentando. Felizmente não havia ventos fortes. O problema do frio é muito mais em relação ao vento, e consequente sensação térmica, que a temperatura propriamente.

Livingstone.

De tarde fundeamos em frente à base argentina de Carlini, já em Rei George, onde eu e Pedrão descemos para conversar com o chefe do grupo. Fomos recebidos com simpatia e muita cortesia. O Comandante se dispunha a nos ajudar no que fosse preciso. Marcamos o início dos trabalhos para dois dias depois. Neste meio tempo os passageiros do Mar Sem Fim, e o skiper Pedrão, desembarcariam e voltariam para a América do Sul de avião.

Navegando entre as Shetland do Sul antes de chegar em Rei George.

Para trazer as peças e ajudar tanto no trabalho de reparação, como a travessia de volta, viria o Plínio Romeiro Jr, amigo de longa data, e um dos caras mais experientes que conheço na arte da marinharia.

E é neste ponto que estamos neste momento. Plínio chegou ontem pela manhã. Desembarcou na pista da base Frei, chilena. Em seguida navegamos até uma pequena baía, ao lado, onde fica a base Carline, dos argentinos.

Começamos os trabalhos quando o dia já terminava. Tivemos pouco tempo para um serviço que é sempre duro e demorado. Tirar pedaços da bucha do pé de galinha, para depois colocar uma nova no lugar, é sempre uma faina difícil. É preciso tirar a hélice primeiro, uma peça grande, pesando cerca de 50 quilos. Tivemos tempo suficiente apenas para os mergulhadores argentinos tomarem conhecimento do tamanho da encrenca.

O tempo está nos ajudando. O barômetro está alto. Faz dois dias que não temos quase vento nenhum. Precisamos aproveitar enquanto está assim. Com vento forte é impossível mergulhar.

Esta manhã tivemos outra boa nova: encontramos o navio polar brasileiro Almirante Maximiano. O navio está trabalhando nos escombros da base brasileira, destruída por um incêndio recentemente. Fizemos contato por rádio e informamos sobre nossa situação. Poucas horas depois o navio entrou na mesma baía onde está o Mar Sem Fim e um grupo de oficiais esteve a bordo. Pedimos que o médico do navio viesse ver nosso marinheiro, Alonso, diabético, que não estava passando bem desde alguns dias atrás.

Alonso foi medicado e já está melhorando. Enquanto isto os argentinos conseguiram tirar a hélice e a bucha estragada. Amanhã começa o trabalho de colocação da nova bucha.

Falta pouco para estarmos aptos a navegar novamente. Mas esta noite estamos a pé, quer dizer, estamos com apenas um motor funcionando. Vamos dormir fundeados em frente à base argentina. Felizmente a previsão de tempo continua a nosso favor. A noite de hoje promete nova calmaria.

O tempo começa a mudar dentro das próximas 24 horas. Até lá temos que conseguir encerrar os trabalhos.

Durante todos estes dias, desde a última postagem no site, vivemos momentos especiais que vão ficar marcados por muito tempo. Não dá pra colocar tudo no papel na primeira postagem. O texto ficaria imenso e pouco claro. É preciso calma, e tempo, para refletir sobre cada aspecto. Tenho ainda muito pra contar.

Por hoje fico por aqui.

Até amanhã.

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6 COMENTÁRIOS

  1. Porra João,que aventura!!!! O que mais gostei foi a chegada do Grande Plínio,esta velha Dupla é invensível.Abraços e vou continuar seguindo a travessia.

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