Passagens marítimas: entenda sua importância geopolítica

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Passagens marítimas: entenda sua importância geopolítica

Antes de mais nada, saiba que há no mundo cerca de 200 passagens marítimas, canais de navegação ou estreitos. Esses gargalos são pontos estratégicos, geralmente rasos e estreitos, que ligam dois corpos d’água ao longo das principais rotas marítimas. Por isso, podem provocar congestionamentos ou até interromper o tráfego.

Navio no Estreito de Ormuz
Imagem, www.aa.com.tr. 

Saiba quais são as mais importantes passagens marítimas

Entre as mais importantes está o Estreito de Ormuz, considerado o “gargalo” energético do mundo. Por ali transita uma parcela significativa do petróleo e do gás natural consumidos globalmente. Sua importância ficou ainda mais evidente com a guerra contra o Irã iniciada pelo governo Donald Trump, que passou a afetar a economia mundial e a geopolítica.

Já o Estreito de Malaca é considerado por muitos a via mais estratégica do planeta ao ligar o Oceano Índico ao Pacífico, passando por Singapura, Malásia e Indonésia.

O Canal de Suez não poderia ficar de fora uma vez que o faz a ligação entre o Mar Mediterrâneo e o Mar Vermelho, servindo como o link mais curto entre a Europa e a Ásia.

E ainda merecem citação o Estreito de Gibraltar, a única entrada natural do Atlântico para o Mar Mediterrâneo; o Estreito de Bab-el-Mandeb, localizado entre o Chifre da África e a Península Arábica, porta de entrada para o Mar Vermelho e o Canal de Suez; o Estreito de Magalhães, passagem natural no extremo sul da América do Sul (Chile), que conecta o Atlântico ao Pacífico e foi amplamente utilizada antes da criação do Canal do Panamá; e o Estreito de Taiwan (Formosa), canal estratégico que separa a China continental da ilha de Taiwan.

Agora, o aquecimento global expôs outra passagem marítima que, mesmo antes de estar totalmente aberta à navegação, já provoca polêmica. São as rotas do Ártico, como a Passagem Noroeste e a Rota do Mar do Norte.

As interrupções das passagens marítimas podem ser pontuais e breves, mas, mesmo assim, sempre causam problemas à economia mundial. Foi o que ocorreu quando o navio Ever Given, de 400 metros,  encalhou no Canal de Suez em 2021.

Gráfico do estreito de Ormuz
A importâncias das passagens marítimas.

O Estreito de Ormuz

Para o site Geopolitical Monitor o Estreito de Ormuz  é indiscutivelmente o corredor marítimo mais sensível do mundo em termos geopolíticos.

A guerra contra o Irã, iniciada em 28 de fevereiro de 2026 por Estados Unidos e Israel, transformou esse risco em realidade. Desde então, o tráfego pelo Estreito de Ormuz caiu drasticamente. Além disso, ataques contra navios, minas navais e restrições à navegação elevaram os fretes e pressionaram o preço do petróleo.

Segundo a Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos, a EIA, o fluxo de petróleo pelo estreito caiu de cerca de 21 milhões de barris por dia no fim de 2025 para 4,9 milhões no segundo trimestre de 2026.

Em agosto, a situação continuava crítica. A Reuters informou que navios comerciais ainda sofriam ataques e que o movimento permanecia muito abaixo dos níveis anteriores à guerra. Em 27 de agosto, apenas dez navios de carga atravessaram o estreito, segundo dados da Kpler citados pela agência.

Ormuz expõe a dependência da Ásia — e muda de mãos

O impacto é especialmente importante para a Ásia. Antes da guerra, cerca de um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito comercializados no mundo passava pelo Estreito de Ormuz. China, Índia, Japão e Coreia do Sul estavam entre os maiores dependentes dessa rota.

Porém, a crise de 2026 trouxe uma mudança ainda mais significativa. Em 26 de agosto, a Guarda Revolucionária do Irã anunciou um acordo com Omã para dividir o controle das águas do estreito e as receitas relacionadas à passagem. Segundo a Bloomberg, publicada pelo gCaptain, Teerã já havia começado a cobrar taxas de alguns navios durante a guerra.

As negociações também preveem um corredor temporário para navios e operações conjuntas para retirar minas. No entanto, os detalhes da futura administração da passagem ainda estavam em negociação em 27 de agosto.

O episódio confirma de maneira quase didática a importância geopolítica das passagens marítimas. O Estreito de Ormuz deixou de ser apenas uma rota vulnerável a um eventual bloqueio. Em 2026, seu próprio controle passou a fazer parte da disputa entre Estados Unidos e Irã e, agora, das negociações entre Irã e Omã.

As passagens marítimas do Ártico

O degelo está abrindo a Passagem do Noroeste e a Rota do Mar do Norte. Estas rotas podem reduzir o tempo de viagem entre a Ásia e a Europa em até 40% em comparação ao Canal de Suez. Estima-se que a região contenha cerca de 13% do petróleo e 30% do gás natural não descobertos no mundo, além de vastos depósitos de minerais críticos e terras raras.

A proximidade geográfica entre as grandes potências (EUA, Rússia e Canadá) torna o Ártico crucial para sistemas de alerta precoce e posicionamento de infraestrutura militar.

São por estes motivos que o presidente dos Estados Unidos demonstra sem disfarce o interesse na região.A ideia de transformar a Groenlândia em território norte-americano, defendida por Donald Trump, não foi um capricho exótico. A ilha ocupa posição estratégica no Atlântico Norte e no Ártico, abriga a base aérea de Thule e está próxima das futuras rotas polares que o derretimento do gelo vem tornando mais acessíveis. À medida que a Passagem Noroeste e a Rota do Mar do Norte ganham relevância, encurtando trajetos entre Europa, Ásia e América do Norte, cresce também a disputa por controle militar, influência geopolítica e acesso a recursos minerais e energéticos da região.

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