El Niño no litoral brasileiro: cidades estão preparadas?

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El Niño no litoral brasileiro: cidades estão preparadas?

O El Niño no litoral brasileiro já exige atenção. A NOAA estima probabilidade superior a 90% de o fenômeno atingir intensidade muito forte nos próximos meses. Além disso, há 69% de chance de este ser o El Niño mais intenso registrado desde 1950. O episódio começou em junho e deve persistir, pelo menos, até março de 2027.

litoral brasileiro

Segundo Marcus Polette, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas e professor da Univali, o fenômeno aumenta os riscos de inundações, deslizamentos, enxurradas, tempestades, ondas de calor e erosão em toda a zona costeira brasileira. E há um agravante: se chuvas intensas coincidirem com marés elevadas, o escoamento para o oceano fica mais difícil, ampliando as inundações nas cidades.

Nosso modelo insustentável de ocupação da orla agrava esse cenário. Casas, condomínios, resorts, prédios e avenidas chegaram à beira-mar. Ao mesmo tempo, restingas e manguezais desapareceram em muitos trechos, enquanto dunas foram aplainadas. Polette ressalta que a impermeabilização, a ocupação de áreas suscetíveis e a retirada da vegetação aumentam ainda mais os impactos.

Se vierem acompanhadas de ressacas e marés elevadas, os impactos podem se multiplicar apesar do poder público não contabilizar os prejuízos como já mostramos. É por isso que a pergunta se torna urgente: as cidades do litoral brasileiro estão se preparando para um dos El Niños potencialmente mais fortes das últimas décadas?

Alertas não faltam, preparo sim

O El Niño no litoral brasileiro chega num momento em que cientistas alertam há anos para a necessidade de adaptar as cidades aos eventos climáticos extremos.

O problema é que o preparo continua muito atrás do risco. Pesquisa da Confederação Nacional dos Municípios ouviu cerca de 3,6 mil prefeituras e constatou que apenas 22% dos gestores consideravam suas cidades preparadas para enfrentar as mudanças climáticas. Além disso, 68% afirmaram nunca ter recebido recursos estaduais ou federais para prevenção.

E há milhões de brasileiros vivendo onde um evento extremo pode virar tragédia. Segundo dados do Serviço Geológico do Brasil, cerca de 4,4 milhões de pessoas viviam, em 2025, em áreas de risco.

No litoral, parte das cidades ainda piora o problema

No litoral brasileiro, o desafio é maior porque muitas cidades cresceram sobre áreas naturalmente frágeis. Mesmo assim, prefeituras continuam autorizando construções pé na areia, ocupando restingas e dunas e gastando milhões em obras para tentar conter problemas que o próprio modelo de ocupação ajudou a criar.

Municípios do estado de Santa Catarina investem fortunas em engordas de praias e outras intervenções pressionando mais ainda a faixa costeira.

Contudo, e fenômeno também levou algumas prefeituras a reforçar a prevenção. Peruíbe retirou mais de 40 mil toneladas de sedimentos do Rio Preto, reforçou a drenagem, atualizou o plano de contingência e anunciou recuperação do jundu na orla. Santos, São Vicente, Angra dos Reis e Ilhabela também divulgaram medidas de preparação. Em Itapoá, a prefeitura decretou alerta climático por 180 dias e reforçou o monitoramento diante do risco de chuvas, ressacas e alagamentos.

São ações importantes, mas ainda pontuais diante da extensão e da vulnerabilidade da costa brasileira.

A conta dos eventos extremos em 2025: 2,9 bilhões de reais

O El Niño no litoral brasileiro chega num momento em que o país já acumula prejuízos bilionários com eventos climáticos extremos. O relatório Estado do Clima, Extremos de Clima e Desastres no Brasil em 2025, do Cemaden, mostra o tamanho do problema. Em 2025, mais de 336 mil pessoas foram afetadas e os danos materiais chegaram a R$ 2,9 bilhões.

Se um ano sem o fenômeno já deixou mais de 336 mil pessoas afetadas e R$ 2,9 bilhões em danos materiais, o que pode acontecer com a chegada de um dos El Niños mais fortes das últimas décadas, enquanto as cidades continuam despreparadas?

Projeções de pesquisadores da Fiocruz apontam uma ampla gama de problemas na saúde pública causados pelo El Ninõ que o instituto classifica como ‘emergência sanitária. Mesmo assim, levantamento da Folha de S. Paulo (agosto, 2026) com as 26 capitais e o Distrito Federal mostrou que predominam medidas fragmentadas, como monitoramento climático e emissão de alertas.

El Niño no litoral brasileiro encontra milhões em áreas vulneráveis

O El Niño chega a um país em que cerca de 150 milhões de pessoas vivem em 2.095 municípios suscetíveis a deslizamentos, enxurradas e inundações, segundo o Cemaden. Isso equivale a cerca de 75% da população.

No litoral, o relatório traz exemplos dessa vulnerabilidade. Florianópolis acumulou mais de 350 milímetros de chuva em apenas três dias. Recife enfrentou chuvas superiores a 300 milímetros, com enchentes e deslizamentos. Angra dos Reis também sofreu com alagamentos e deslizamentos. No Rio Grande do Sul, eventos repetidos provocaram inundações e, em alguns episódios, atingiram diretamente a faixa costeira.

Além disso, o Cemaden mostra que as chuvas responderam por 86% das mortes associadas a desastres climáticos no país. Assim, o risco não está apenas nos prejuízos materiais, mas também na possibilidade de novas tragédias humanas.

O El Niño no litoral brasileiro exige medidas antes que os eventos extremos ocorram. Isso inclui melhorar a drenagem urbana, impedir novas ocupações em áreas vulneráveis, recuperar restingas, manguezais e dunas, revisar planos de emergência e preparar a rede de saúde. No litoral, prevenção significa também parar de tratar a praia como terreno disponível para construir.

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