Passagens marítimas: entenda sua importância geopolítica
Antes de mais nada, saiba que há no mundo cerca de 200 passagens marítimas, canais de navegação ou estreitos. Esses gargalos são pontos estratégicos, geralmente rasos e estreitos, que ligam dois corpos d’água ao longo das principais rotas marítimas. Por isso, podem provocar congestionamentos ou até interromper o tráfego.

Saiba quais são as mais importantes passagens marítimas
Entras as mais importantes estão o Estreito de Ormuz, o “gargalo” energético do mundo, por onde transitam aproximadamente 30% do petróleo e gás natural consumidos globalmente.

Já o Estreito de Malaca é considerado por muitos a via mais estratégica do planeta ao ligar o Oceano Índico ao Pacífico, passando por Singapura, Malásia e Indonésia.
O Canal de Suez não poderia ficar de fora uma vez que o faz a ligação entre o Mar Mediterrâneo e o Mar Vermelho, servindo como o link mais curto entre a Europa e a Ásia.
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Turismo náutico no Lagamar ameaça o berçário do Atlântico SulBanco de Abrolhos perde até 50% dos corais em 20 anosChuvas em Ubatuba expõem falhas no planejamento urbanoE ainda merecem citação o Estreito de Gibraltar, a única entrada natural do Atlântico para o Mar Mediterrâneo; o Estreito de Bab-el-Mandeb, localizado entre o Chifre da África e a Península Arábica, porta de entrada para o Mar Vermelho e o Canal de Suez; o Estreito de Magalhães, passagem natural no extremo sul da América do Sul (Chile), que conecta o Atlântico ao Pacífico e foi amplamente utilizada antes da criação do Canal do Panamá; e o Estreito de Taiwan (Formosa), canal estratégico que separa a China continental da ilha de Taiwan.
Agora, o aquecimento global expôs outra passagem marítima que, mesmo antes de estar totalmente aberta à navegação, já provoca polêmica. São as rotas do Ártico, como a Passagem Noroeste e a Rota do Mar do Norte.
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As interrupções das passagens marítimas
As interrupções podem ser pontuais e breves, mas, mesmo assim, sempre causam problemas à economia mundial. Foi o que ocorreu quando o navio Ever Given, de 400 metros, encalhou no Canal de Suez em 2021.
Estreitos estratégicos podem abalar a economia mundial. Um exemplo é o Estreito de Ormuz, por onde circula entre 20% e 30% do petróleo bruto consumido no planeta a cada ano. Um bloqueio nessa passagem teria efeitos sistêmicos imediatos.
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Quase 90% do petróleo produzido no Golfo Pérsico deixa a região em navios-tanque, todos obrigados a atravessar esse gargalo de apenas 55 quilômetros de largura. Não há alternativa terrestre capaz de substituí-lo: oleodutos e transporte rodoviário não suportariam o volume escoado por mar.
O Estreito de Ormuz
Para o site Geopolitical Monitor o Estreito de Ormuz é indiscutivelmente o corredor marítimo mais sensível do mundo em termos geopolíticos.
Em uma ordem global em mudança, marcada por crescentes riscos geopolíticos, é hora de as principais potências asiáticas — China, Índia, Japão e Coreia do Sul — assumirem papéis diplomáticos e militares mais ativos na segurança do Estreito de Ormuz. Não fazer isso aumenta cada vez mais o risco de grandes choques econômicos no futuro.
Quem sabe o farão, depois da ameaça do Irã já que agora os sequestros de navios mercantes não cessam na região, ao contrário, tornam-se mais sofisticados com uso de helicópteros.
Ormuz expõe as vulnerabilidades marítimas da Ásia
Os fluxos de energia do Golfo Pérsico são de importância crítica para as economias da Ásia. Assim, os dados dos EUA e da Bloomberg para 2023 mostram que o fluxo de petróleo bruto através de Ormuz segue um padrão:
- China: 33% de remessas de energia
- Índia: 13%
- Japão: 11%
- Coreia do Sul: 11%
- Outros estados Asiáticos: 15%
De antemão, esses números sugerem que mais de quatro quintos do petróleo que passa por Ormuz é importante para as economias asiáticas. Uma interrupção, mesmo que por uma semana, não só aumentaria os custos de energia em todo o mundo mas, de maneira idêntica, interromperia as cadeias de abastecimento, enfraqueceria as bases industriais e agravaria as tensões geopolíticas em toda a região.
O Irã e o Estreito de Ormuz
Segundo o jornal inglês The Guardian, a decisão inédita de Donald Trump de bombardear três instalações nucleares iranianas aumentou o temor de um conflito maior no Oriente Médio.
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Trump se juntou a Israel na maior ofensiva militar ocidental contra o Irã desde a revolução islâmica de 1979. Agora, o mundo espera a resposta iraniana. No passado, Teerã ameaçou fechar o estreito, mas nunca cumpriu a promessa.
O Guardian também aponta que, se tentar fechar o Estreito de Ormuz, o Irã deve usar minas navais. A estratégia incluiria espalhá-las pelas duas rotas de 3 km de largura, com munições programadas para explodir ao detectar tráfego.
Teme-se as minas marinhas. Acredita-se que o Irã tenha vários milhares, incluindo uma chinesa que lança um foguete do fundo do mar caso detecte um alvo, bem como outras minas que podem ficar ancoradas na água.
As passagens marítimas do Ártico
O degelo está abrindo a Passagem do Noroeste e a Rota do Mar do Norte. Estas rotas podem reduzir o tempo de viagem entre a Ásia e a Europa em até 40% em comparação ao Canal de Suez. Estima-se que a região contenha cerca de 13% do petróleo e 30% do gás natural não descobertos no mundo, além de vastos depósitos de minerais críticos e terras raras.
A proximidade geográfica entre as grandes potências (EUA, Rússia e Canadá) torna o Ártico crucial para sistemas de alerta precoce e posicionamento de infraestrutura militar.
São por estes motivos que o presidente dos Estados Unidos demonstra sem disfarce o interesse na região.A ideia de transformar a Groenlândia em território norte-americano, defendida por Donald Trump, não foi um capricho exótico. A ilha ocupa posição estratégica no Atlântico Norte e no Ártico, abriga a base aérea de Thule e está próxima das futuras rotas polares que o derretimento do gelo vem tornando mais acessíveis. À medida que a Passagem Noroeste e a Rota do Mar do Norte ganham relevância, encurtando trajetos entre Europa, Ásia e América do Norte, cresce também a disputa por controle militar, influência geopolítica e acesso a recursos minerais e energéticos da região.
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