Maricultura pode resolver o problema da alimentação?

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Será que a maricultura pode resolver o problema da alimentação mundial?

Buckminster Fuller (designer, arquiteto, inventor e escritor norte-americano) chamou o planeta de “Nave espacial Terra”. Porque ela carrega quantidade finita de ar, água e recursos naturais. E sem qualquer chance de reabastecer os passageiros, nós! Quase 80 milhões de novos passageiros se juntam ao nosso navio a cada ano. Espera-se que a maioria não seja destinada à pobreza. Mas que se juntem a uma classe média crescente. Ela deve atingir 5 bilhões até 2040, quando nossa população global terá crescido dos atuais 7, para 9 bilhões de pessoas. Os 2 bilhões de novos passageiros precisarão alimentos. Onde conseguir? A maricultura, se bem feita, pode responder a essa pergunta. A matéria é do oceanhealthindex.org.

imagem de maricultura de ostras na França
Fazenda de ostras na França. (Foto:http://www.oceanhealthindex.org/)

Usando os recursos naturais de modo mais estratégico

A boa notícia é que podemos fornecer nutrição de qualidade que nossas crianças e seus filhos precisarão. Para tanto, é preciso usar os recursos naturais de maneira mais estratégica. Existem várias opções para aumentar a produção de alimentos e proteínas.

Os principais problemas

Alguns podem vir de água doce, tanto de captura selvagem aquática como de aquacultura de peixes e crustáceos, desde que as mudanças climáticas, a destruição de habitats e práticas ruins de desenvolvimento não reduzam ou poluam o suprimento de água. E a sobrepesca não esgote as populações selvagens.

Os oceanos

Alimentos do oceano são atraentes, porque uma única porção de 150 g de frutos do mar pode fornecer 60% da necessidade diária de proteína de uma pessoa. O Banco Mundial estima que o mundo precisará produzir 70% mais proteína do que hoje. Outro benefício de frutos do mar é que muitos peixes fornecem os ácidos graxos ômega necessários para o desenvolvimento saudável do cérebro.

É fundamental uma melhor gestão da pesca

A FAO e o Banco Mundial estimam que uma melhor gestão da pesca marinha – reduzindo a pressão pesqueira, melhorando a fiscalização e eliminando a pesca ilegal e não regulamentada – poderia aumentar o valor da pesca em US $ 50 bilhões por ano. A redução das capturas acidentais e os métodos de pesca destruidores de habitats podem beneficiar ainda mais as populações selvagens, bem como a biodiversidade.

A maricultura

A maricultura – o cultivo de frutos do mar em águas costeiras ou em mar aberto – poderia aumentar rapidamente em muitos lugares. Nas últimas quatro décadas, a piscicultura tem sido o setor alimentício que mais cresce. A prática já produz cerca de 17% dos alimentos consumidos diariamente. Quanto mais a maricultura pode contribuir? Ainda não sabemos. A resposta exigirá dados precisos sobre a quantidade de habitats adequados que cada país possui, a variedade de condições ambientais em cada localidade, quais espécies podem crescer com sucesso e quanto cada uma delas pode produzir de maneira sustentável nessas condições.

De acordo com a oceanhealthindex.org. China, Chile, Equador, Ilhas Faroé, Nova Zelândia, Noruega e Chile, já estão produzindo de forma sustentável o máximo que se poderia esperar.

Ainda há os custos ambientais

As fazendas de peixes ainda estão longe de superar seus enormes problemas. Elas não só  acarretam custos ecológicos mais altos, mas também custam mais para produzir. Vender por preços mais altos, como é o caso, não resolve. As populações de baixa renda não podem pagar.

A futura expansão da maricultura

A futura expansão da maricultura dependerá de quão bem os países desenvolvam e gerenciem novas instalações de produção e infra-estrutura associadas (Mas até lá, cuidado ao comprar frutos do mar). Incluindo se as dietas podem substituir peixes oceânicos por substitutos baseados em plantas. Outra questão é reduzir o uso de pesticidas, evitar a poluição por resíduos e nutrientes e minimizar o uso destes produtos. Um grande crescimento na produção pode resultar da expansão das formas mais sustentáveis ​​de piscicultura para países que precisam de mais proteína para alimentar seu povo, mais empregos e mais exportações para impulsionar suas economias.

Maricultura no Brasil

Ainda é incipiente e mal feita. Durante a primeira viagem do Mar Sem Fim (2005 – 2007), estivemos em Itajaí, o maior centro da pesca no Brasil, onde conversamos com os responsáveis pelo CEPSUL, Centro de Pesquisa e Gestão de Recursos Pesqueiros do Litoral Sudeste e Sul, à época. Questionando as ações da pesca no Brasil fomos obrigados a ouvir coisas como “a pesca no Brasil é uma esculhambação total”, dita pelo responsável pelo órgão. Na ocasião entrevistamos Ana Maria Torres Rodrigues, analista ambiental, responsável pelo setor de ordenamento pesqueiro. O assunto? Maricultura. As modalidades mais significativas são o cultivo da ostra, do mexilhão, e um pouco de vieira e algas. Mas é a mesma esculhambação da pesca.

Tudo começou na década de 90

Ana contou que na década de 90, com os cultivos se instalando e operando sem regularização, o CEPSUL se propôs a fazer um levantamento de todos os produtores de moluscos para descobrir qual tipo cultivavam, e que tamanho de área ocupavam. Descobriram que a vasta maioria havia feito “reserva de espaço para futuro crescimento”, ao marcarem no papel “espaços muito maiores dos que na realidade ocupavam”. E, muito pior, a maioria dos cultivos são de  “organismos filtrantes” que “estão sendo cultivados em águas já comprometidas pela poluição especialmente a falta de saneamento”.

Maré Vermelha

Resultado? O excesso de nutrientes, entre eles nossos rejeitos (cocô e xixi, entre outros) provoca uma proliferação desordenada de certas algas que fazem parte do fitoplâncton, entre elas as que produzem toxinas nocivas à saúde, ou Maré Vermelha. E ela, por sua vez, contamina os organismos filtrantes (ostras, mexilhões, vieiras, etc), tornando-os impróprios para o consumo humano. Ou seja, também nesta promissora área, a maricultura, o Brasil está dez ou vinte passos atrás.

O fim da pesca no mundo

O vídeo abaixo faz um breve resumo dos problemas da pesca desde o advento da Segunda Grande Guerra, e o colapso que se avizinha. O Mar Sem Fim torce pela maricultura, senão…

Fontes: http://www.oceanhealthindex.org/news/80_Million_Coming_For_Dinner_What_To_Serve; https://pt.wikipedia.org/wiki/Buckminster_Fuller.

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8 COMENTÁRIOS

  1. Nos anos 70, a EMPARN, empresa criada pelo governador do RG do Norte Cortês Pereira para criação de camarões em cativeiro, foi a pioneiro dessas atividades no Brasil. Inclusive espalhando-se pelos estados vizinhos. Hoje não sei como se encontra. Uma pena que o Governo Federal não tenha dado a importância para esse setor ao longo desses anos. Como também o estado do Paraná no cultivo de espécies de água doce, como tilápia, pacu, tambaqui, etc. Se Deus quiser um dia seremos auto-suficientes em pescados.

  2. Olá, João! A Aquicultura (ou Aquacultura) cresce no mundo todo, e é uma ciência/atividade relativamente nova, com cerca de 70 anos. As tecnologias surgem de maneira rápida, e hoje podemos dizer que a maioria delas está focada em três grandes áreas: Nutrição e Biotecnologia, com a busca de ingredientes sustentáveis que possam substituir de maneira eficiente os ingredientes oriundos do processo integral da pesca oceânica, e de novas fontes de nutrientes, como fungos, algas e insetos; Genética, com o aumento do conhecimento e das pesquisas de fatores que possam auxiliar os sistemas imunológicos dos organismos aquáticos, e reduzir o uso de químicos como profiláticos ou terapêuticos, e na seleção de variedades que apresentem desempenho zootécnico mais rápido, o que diminuirá os potenciais impactos ambientais; e Tecnologia de sistema de recirculação e novos conceitos de engenharia, que permitirá cada vez mais o uso racional e minimizado de fontes naturais de água, e da instalação de estruturas em mar aberto. Existe muito a ser feito, e este é um espaço pequeno para expormos todos os elementos, mas afirmo com segurança que a Aquicultura é a única forma de produzir proteina de alta qualidade, e com aumento significativo da sustentabilidade ambiental, social e economica.

  3. A reportagem dá a entender que a maricultura causa a maré vermelha, o que é não corresponde a realidade. Recomendo que o colunista consulte os pesquisadores do Instituto Federal de Santa Catarina – IFSC, que são os maiores especialistas brasileiros em florações de algas nocivas, e que poderão lhe explicar os agentes causadores destes eventos.

    O cultivo de moluscos está associado a vários impactos positivos no ambiente marinho, como sequestro de nutrientes dos oceanos e da atmosfera, fornecimento de habitat para peixes e invertebrados, filtração da água do mar, entre outros. O autor poderia obter mais informações com instituições como a Epagri, para não passar aos leitores apenas a visão e opinião unilateral de uma ambientalista.

    • Olá, Felipe, obrigado pela mensagem. Mas a matéria não dá a entender isso. Ela dá a entender que, se bem feita, poderia ser uma das soluções para o problema de alimentação. Quando a maricultura no Brasil, contei que estive em 2007 em Itajaí onde conversei com os responsáveis pelo CEPSUL que me disseram o que publiquei: naquela época ao menos, a maricultura praticada em Sta Catarina era uma baderna total, conforme os responsáveis, e sim, causava muitas maré vermelhas.abs

      • Felipe: quero pedir desculpas pela primeira resposta. Desde que cheguei ao hospital estou me tratando, lembrei dela. Não via a hora de chegar em casa e corrigir. O texto da matéria está correto e não diz que a maricultura pode causa maré vermelha. Mas a resposta que dei à vc, estava sim, errada. O que ocorre, como vc sabe, é que a maricultura ao redor da ilha de Floripa é, em sua maioria, de organismos filtrantes. Como diz o texto do post…” E, muito pior, a maioria dos cultivos são de “organismos filtrantes” que “estão sendo cultivados em águas já comprometidas pela poluição especialmente a falta de saneamento”. É a poluição, e falta de saneamento, além de agrotóxicos e outros, que podem causar a Maré Vermelha, ou o excesso de algas nocivas que se proliferam desordenadamente em razão da abundância de nutrientes. A ilha de Florianópolis é um dos casos. Como todos os estados brasileiros, existe um tremendo déficit de saneamento básico. Nas férias, no verão, a população destes locais duplica, ou até triplica. O saneamento, que já é fraco, entra em colapso. E o cocô e xixi dos turistas vai direto pro mar agravando a situação. Acontece então a Maré Vermelha. Como a maricultura da região é basicamente de organismos filtrantes, eles ficam contaminados, impróprios para a alimentação. É isso, desculpe, pois, a primeira e equivocada resposta. abraços

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