Caranguejos-ferradura, chave para vacina da Covid-19

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Caranguejos-ferradura, chave para vacina da Covid-19

Caranguejos-ferradura parecem criaturas do espaço: têm 10 olhos e, sob suas conchas em forma de ferradura, 10 pernas, 14 garras e uma longa cauda semelhante a uma espada. E, em um sentido real, têm superpoderes. Pelo menos externamente esses fósseis vivos não mudaram  em quase 450 milhões de anos. Sobreviveram às cinco grandes extinções em massa – a pior delas matou cerca de 95% de todas as espécies marinhas – incluindo as mais recentes, que eliminaram os dinossauros.

imagem de caranguejos-ferradura
Caranguejo-ferradura. ( Foto: http://tbrnewsmedia.com/)

Ascensão dos seres humanos, início da ameaça ao caranguejo-ferradura

A ascensão dos humanos tornou as coisas mais difíceis. No mundo, a população de caranguejos diminuiu constantemente nas últimas  décadas. Em algumas áreas, a mudança climática é a culpada. Em outras, a culpa pode estar na colheita generalizada do sangue azul único dos caranguejos-ferradura para uso médico.

Temos muito a agradecer ao ferradura. Praticamente todos que receberam uma injeção  se beneficiaram  do caranguejo-ferradura. Mas, podemos  cessar o  vício em seu sangue, para que essa criatura marinha possa sobreviver?

Caranguejos-ferradura em números

Número aproximado de caranguejos-ferradura coletados a cada ano para retirada de sangue: cerca de 500.000. Número estimado de caranguejos-ferradura que morrem no processo: 50.000.

Ovos que um caranguejo-ferradura pode colocar de uma só vez: 90.000. Número desses embriões que sobrevivem até a idade adulta: apenas dez. Espécies de caranguejos-ferradura encontradas em todo o mundo (nos oceanos da Ásia e das Américas): quatro.

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Por que os caranguejos-ferradura têm sangue azul?

Porque em vez de hemoglobina (que quando oxidada, fica com uma cor rubi), o sangue dos ferradura contém hemocinina, que tem cobre, e fica azul na presença de oxigênio.

ilustração de caranguejos-ferradura que têm sangue azul
Ilustração: www.theatlantic.com

O sangue contém uma substância química, lisado de amebócitos do Lumulus (LAL), que engrossa quando entra em contato com toxinas produzidas por bactérias que causam risco à vida em humanos.

As empresas farmacêuticas, todas elas, usam-no para determinar a esterilidade de vacinas, medicamentos, dispositivos e instrumentos médicos, próteses e produtos básicos, como agulhas e soro fisiológico.

Alerta: caranguejos-ferradura morrem prematuramente

Embora a indústria alegue colher com consciência, estima-se que quase um terço dos caranguejos morram no mar prematuramente. A tendência aparece no número decrescente de desembarques nos EUA.

Em teoria, se o sangramento é feito corretamente, o caranguejo deve se recuperar quando liberado no mar. O problema é que, de acordo com uma investigação da Scientific American, cientistas têm uma compreensão muito pequena sobre quantos caranguejos sobrevivem.

A indústria de sangria de caranguejos-ferradura não é regulada

Estima-se que 4% morrem, mas os cientistas dizem que a percentagem pode chegar a 40%. A indústria da sangria de caranguejo não é regulada, em parte porque se pensava que o sangramento não causasse a morte de caranguejos.

Como a indústria não é  obrigada a divulgar estimativas, não está claro o grau de gravidade do problema.

imagem da indústria do caranguejo azul
A indústria…

Remoção de 30% do sangue dos caranguejos

A indústria diz que só colhe 30% do sangue em qualquer caranguejo, mas há dúvidas, não há supervisão. Mesmo que as estimativas estejam corretas, estudos mostram que a remoção de 30% do sangue pode deixá-los desorientados e debilitados, reduzindo a capacidade de desova das fêmeas e levando à morte prematura.

Caranguejos-ferradura na lista vermelha das espécies vulneráveis

Juntamente com outros fatores que afetam a população, cientistas pedem à União Internacional para Conservação da Natureza que mude os caranguejos-ferradura na Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas, de “quase ameaçada” para “vulnerável”. Isso poderia  justificar a imposição de regulamentações para a indústria médica.

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Sangue do caranguejo-ferradura é chave para a vacina da Covid-19

De acordo com a National Geographic, ‘o sangue do caranguejo-ferradura é a chave para a produção de uma vacina para a COVID-19 – mas o ecossistema marinho pode sofrer’.

Pudera, a vacina da Covid  é apenas mais uma a usar o sangue do caranguejo-ferradura. Barbara Brummer, diretora estadual da The Nature Conservancy em New Jersey, foi ouvida pela National Geographic:

Todas as empresas farmacêuticas em todo o mundo dependem desses caranguejos. Quando você pensa sobre isso, sua mente fica confusa com a confiança que temos nessa criatura primitiva.

A matéria ressalta que além das vacinas, o caranguejo-ferradura também é procurado como isca de pesca. Ambos os usos têm provocado um declínio da espécie nas últimas décadas.

Novas vacinas para a Covid-19 que usarão o sangue do caranguejo-ferradura

A National Geographic alerta que a partir de julho a farmacêutica Lonza, com sede na Suíça, começará a fabricar uma vacina para testes clínicos em humanos, ‘e eles terão que usar lisado na vacina se planejarem vendê-la nos Estados Unidos’.

Os conservacionistas, diz a revista, temem que a carga contínua sobre o caranguejo-ferradura pode colocar os ecossistemas marinhos que dependem deles em perigo.

Início dos anos 2000 e as ameaças ao caranguejo-azul

Segundo a National Geographic, no início dos anos 2000 o quadro começou a mudar. Contagens anuais de caranguejos-ferradura durante a estação de desova revelaram números menores, e um estudo de 2010 descobriu que até 30 por cento dos caranguejos sangrados morreram – 10 vezes mais do que inicialmente estimado.

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Indústria farmacêutica cria e solta caranguejos-ferradura

Preocupado em ficar sem estoques, diz a NG, a empresa Lonza informou que a Charles River Laboratories e outro fabricante de lisado, Associates of Cape Cod, Inc., criam caranguejos-ferradura em incubadoras e os liberam no oceano.

Lonza relata que, em 2019, a empresa Cape Cod reintroduziu 100.000 caranguejos juvenis nas águas ao redor de Massachusetts e Rhode Island.

Por falar em Covid-19 e organismos marinhos, saiba que o teste para saber se alguém está infectado com a Covid-19 só é possível graças a uma bactéria marinha encontrada em fontes hidrotermais.

E isto é apenas parte, pequena, dos serviços sistêmicos que os oceanos, e as criaturas marinhas, prestam aos humanos. Em retribuição, tratamos os oceanos como lata de lixo da humanidade.

Ou mudamos nossa ação, ou nossos descendentes ficarão em maus lençóis. Pense sobre isso e faça sua parte. Proteja os oceanos, o ecossistema sem o qual não haveria vida no planeta. Lembre-se: só existe o Verde porque temos o Azul.

Ilustração de abertura: www.theatlantic.com.

Fonte: Qartz, Horeshoe crabs; https://www.nationalgeographic.com/animals/article/covid-vaccine-needs-horseshoe-crab-blood.

Comentários

10 COMENTÁRIOS

  1. Na verdade o LAL é utilizado para testar a presença de Endotoxinas e não a Esterilidade. Trata-se de uma substância tóxica ligada à parede celular das bactérias gram-negativas, também conhecida como pirogênio exógeno, é capaz de gerar quadros inflamatórios a saúde humana se seus níveis não estiverem dentro dos padrões estabelecidos. O ensaio com LAL auxiliou a substituição do teste realizado em coelhos para detectar a presença dessas substâncias pirogenicas.

  2. Agradeço ao mar e a Deus
    Mas prefiro enfrentar as doenças me cuidando pra não ser infectado e caso eu seja se não for algo incurável prefiro que meu organismo desenvolva uma cura por aí mesmo, se toda vez que eu adoecer tiver que toma remédio meu organismo nunca vai gerar um anti corpo resistente a vírus e bactérias.

    • Seu organismo não tem todas as ferramentas para se proteger de todos os patogênicos.
      Sorte a sua q seus pais não pensavam assim é vc está imunizado para uma série de doenças graves q o levariam a paralisia, causariam deformações no seu crescimento e quem sabe até a morte.

  3. Quando visitei o Museu do Mar em Cascais, de entre tantas espécies marinhas(atuais e já extintas)que vi,apaixonei-me pelo caranguejo do Atlântico ou caranguejo ferradura,por me dizerem que o seu sangue já tinha salvo muitas vidas.
    Sou enfermeira,talvez por isso, me despertasse a vontade de saber um pouco mais deste animal marinho e por isso pesquisei em várias fontes,tudo que com ele se relacionasse.
    Fiz um pequeno trabalho àcerca deste assunto que me deu enorme satisfação.Terminei escrevendo:
    -muito obrigada caranguejo ferradura pela dádiva para a Humanidade do sacrifício do teu sangue azul.

  4. Eu tive a sorte de cuidar de dois filhotes nos aquários da Biologia Marinha, enquanto fiz minha graduação lá em 2003.
    Comprei a pedido de um professor numa loja de aquários e dava Camarões moídos e outras coisinhas pra eles.

    Viviam enterrados mas podiam NADAR sacudindo as lâminas do abdômen até a superfície se quisessem. Não sei se adultos conseguem.

    Eles usam a base das patas pra macerarem a comida, então eles meio que “dançam” enquanto comem.
    Um morreu logo, o outro viveu bem, servindo de recurso pra observação nas aulas.

    Até o dia que um dos recorrentes apagões da Ufrj deixou o aquário sem bomba e a sala sem refrigeração num dia de verão. :(
    Mas foi muito fascinante cuidar deles.

  5. Caro João Mesquita, boa tarde! Parabéns por seu artigo, ficamos felizes em ver uma publicação sobre o caranguejo-ferradura, tão importante para o controle de qualidade de produtos farmacêuticos injetáveis e dispositivos médicos. Gostaríamos de convida-lo a conhecer a página http://www.horseshoecrab.org, para conhecer um pouco mais sobre a estratégia de conservação desses animais, cujas ações e controles visam estabilizar as populações de caranguejo-ferradura, juntamente com a indústria farmacêutica, com coleta sustentável dos animais para sangria e devolução ao mar. Caso tenha mais curiosidade sobre o uso do LAL ou da nova tecnologia de Fator C recombinante – livre do uso desses animais, fabricados pela Lonza, teremos prazer em ajudá-lo.
    Abraços
    Claudia Pardi – Gerente de Negócios Lonza Bioscience ([email protected])

  6. Caro Sr. Mesquita, seus artigos são claros, concisos e atuais. Provavelmente de interesse da grande maioria dos leitores. Existe uma coletânea deles, ou a possibilidade de uma estar sendo publicado?
    Grato pelos artigos e a atenção, Armando

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