Bombardeio em Alcatrazes, Marinha insiste na sandice

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Bombardeio em Alcatrazes, Marinha do Brasil insiste na sandice

Não há nada que se compare ao arquipélago paulista dos Alcatrazes em todo o litoral brasileiro. Alcatrazes é extremamente rico em biodiversidade. Sua vegetação, com remanescentes de Mata Atlântica, é única. Há várias plantas endêmicas, como a orquídea Rainha do Abismo. Entre as nove espécies de répteis três são endêmicas e ameaçadas de extinção, um tipo de jararaca (Bothrops alcatraz),  a perereca  (Olylogon alcatraz) e uma espécie de rã, criticamente ameaçada de extinção, conhecida como Cycloramphus faustoi, homenagem ao biólogo Fausto Pires de Campos. Em termos de avifauna, é um dos locais mais importantes do Atlântico Sul. Algumas aves marinhas só nidificam ali. Há dezenas de espécies, e milhares de indivíduos que transformaram Alcatrazes em seu habitat. Já foram contadas 20 mil aves no arquipélago. Mas há um grande problema que persiste: Bombardeio em Alcatrazes, Marinha insiste na sandice.

Lancha da Marinha no saco do Funil, alcatrazes
Os alvos pintados no costão do Saco do Funil em Alcatrazes. Imagem, Eduardo Nicolau/Estadão.

Bombardeio em Alcatrazes, Marinha insiste na sandice

Antes de iniciar quero abrir um parêntese para explicar minha relação com a Marinha do Brasil. Muitos anos atrás fui até condecorado com a Medalha Amigo da Marinha, por meu trabalho de divulgação da cultura náutica.

Imagem de fragatas em Alcatrazes
O mastro do Mar Sem Fim pontilhado por fragatas em época de acasalamento. Arquivo MSF.

Relação com a Marinha do Brasil

Sempre tive uma ótima relação com a força que, por outro lado, foi sempre simpática aos meus pleitos. Por exemplo, quando dirigia a rádio Eldorado, lançamos a regata Eldorado-Brasilis, até hoje uma das mais longas regatas de percurso que o País já teve. De Vitória, no Espírito Santo, para Trindade, a 600 milhas de distância, ida e volta.

Fausto Pires de Souza em Alcatrazes
O primeiro programa da primeira série Mar Sem Fim, em 2005, foi feito de propósito em Alcatrazes. Na imagem a repórter Paulina Chamorro entrevista Fausto, enquanto ambos são filmados pelo cinegrafista Fernando Sampaio.

Por segurança dos velejadores, era preciso que um navio da Marinha escoltasse a flotilha. A regata teve inúmeras edições, sempre com um navio da MB para garantir a retaguarda.

A bordo do Cisne Branco

Por esta amizade com a força, e inúmeros de seus comandantes, tive o privilégio de fazer uma regata Recife-Fernando de Noronha, a bordo do espetacular navio-escola Cisne Branco.

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Naufrágio e colaboração da Marinha

Finalmente, quando tive meu acidente na Antártica, mais uma vez a Marinha do Brasil em muito colaborou. Naquele fatídico verão de 2012 houve uma série trágica de acidentes na ilha Rei George, local da base brasileira, Comandante Ferraz.

Imagem de filhote de atobá em Alcatrazes
Filhote de atobá em Alcatrazes. Arquivo MSF.

Três acidentes em 2012 na Antártica

Foram três em sequência. Primeiro, uma balsa da MB naufragou em frente à base Ferraz quando transportava óleo diesel para a estação. Felizmente, agiram rápido, e não houve dano ambiental.

imagem de bomba em Alcatrazes
Cápsula de bala de canhão, mais uma singela recordação da Marinha do Brasil em Alcatrazes. Imagem cedida por Fausto Pires de Campos.

Pouco depois, a base Comandante Ferraz pegou fogo e foi consumida em pouco tempo. Dois militares morreram, e a base praticamente derreteu.

Naufrágio do barco Mar Sem Fim e o Gerente do PROANTAR

Finalmente, em abril daquele mesmo ano, o Mar Sem Fim naufragou em Rei George. De volta ao Brasil, fui chamado a Brasília para conversar com o então Gerente do PROANTAR (Programa Antártico Brasileiro), o Contra-Almirante Silva Rodrigues.

A Marinha queria saber quais providências eu tomaria, uma vez que nada que não seja oriundo da Antártica pode ficar lá. De um palito de fósforo, aos escombros de uma base, ou ao casco de um barco naufragado.

O navio Felinto Perry

Respondi que faria todo o possível para resgatar o barco sem provocar um acidente ecológico. Como resposta, o Contra-Almirante informou que no verão seguinte, 2013, a MB iria mandar um navio maior para a Antártica, o Felinto Perry, para começar a trazer de volta os escombros da base brasileira, e gentilmente ofereceu-me uma carona.

Empresa especializada em resgates

Naquele ano contratei, às minhas custas, uma empresa chilena especializada que levaria um contêiner de equipamentos, além de uma equipe com seis mergulhadores até Rei George.

Minha ‘sorte’?

Minha ‘sorte’, se é possível assim dizer, foi o incêndio em Ferraz no mesmo ano, não fosse isso, além da equipe, e do rebocador que contratei para trazer de volta o Mar Sem Fim, ainda teria que alugar espaço em algum navio para levar os equipamentos do resgate, e a equipe, até o local do naufrágio.

Preâmbulo necessário

Por todos estes motivos, sempre tive uma excelente relação com a Marinha do Brasil. Este preâmbulo foi necessário para que não fique uma impressão errada de minha parte.

Porque, a despeito do respeito que tenho pela MB, também tenho sérias críticas pela insistência em bombardear o mais notável berçário de aves do Atlântico Sul.

A mais longa e emblemática batalha do ambientalismo brasileiro

Foram mais de 30 anos de uma luta entre ambientalistas, liderados por  Roberto Bandeira, um dos fundadores do Projeto Alcatrazes, iniciativa da Sociedade de Defesa do Litoral Brasileiro (SDLB), e pelo biólogo Fausto Pires de Souza, de um lado; e a Marinha do Brasil, do outro.

Fragatas em Alcatrazes
Fragatas em Alcatrazes. Arquivo MSF.

Roberto, Fausto, e seus companheiros, não suportavam a ideia daquela preciosidade  se tornar alvo de tiros dos canhões da Marinha, por imposição, sem discussão com a sociedade, e de uma hora para outra.

Fauna e flora de Alcatrazes e o bombardeio em Alcatrazes

Ao todo foram catalogadas 1.300 espécies de fauna e flora, sendo que 93 estão sob algum grau de ameaça de extinção.

A biodiversidade no mar e o bombardeio em Alcatrazes

No mar, no entorno das ilhas, são centenas de tipos entre peixes como a garoupa, tubarão-martelo, cação-anjo, raia-viola, e raia-manta que, apesar de ameaçada de extinção, é impiedosamente caçada pela  esculhambada pesca no Brasil. Tartarugas-verdes e de pente também se encontram por lá, ambas ameaçadas de extinção.

Bombardeio em Alcatrazes gera incêndio em 2002

O estranho procedimento numa ilha de imensa biodiversidade custou caro. Numa das ocasiões, um incêndio provocado pelos tiros irrompeu no Saco do Funil, provocou sérios danos à ilha principal dizimando cerca de 20 hectares do que restava de mata nativa nativa.

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Não se sabe quantos animais, aves e répteis morreram no incêndio.

Imagem do saco do Funil, em Alcatrazes
O incêndio provocado pelo bombardeio da Marinha do Brasil. Imagem cedida por Fausto Pires de Souza.

Marinha do Brasil finalmente cede

Alcatrazes, formada por cinco ilhas grandes, quatro pequenas e cinco lajes, se tornou uma estação ecológica, ESEC, em 1987. Naquela ocasião, a ilha principal ficou fora da Unidade de Conservação porque era justamente nela que a Marinha praticava tiro ao alvo.

Imagem do saco do Funil
O Saco do Funil recuperado anos depois do incêndio. Arquivo MSF.

Bombardeio em Alcatrazes interrompido pela Justiça

Foram anos de convencimento para que a Marinha do Brasil finalmente abrisse mão da ilha principal, Alcatrazes. Os bombardeios foram interrompidos entre 1991 e 1998, por força de uma liminar. Começava a briga na Justiça.

imagem debomba em Alcatrazes
‘Recordação da Marinha do Brasil’ em Alcatrazes. Foto cedida por Fausto Pires de Campos.

Maior ninhal do Atlântico Sul

O arquipélago abriga o maior ninhal do Atlântico Sul de aves marinhas entre visitantes e residentes. Milhares delas, de 100 espécies diferentes, usam o arquipélago para se reproduzir: fragatas, atobás, gaivotões, três tipos de trinta-réis, um deles ameaçado de extinção, e diversas outras.

Vitória parcial em 2013

A pressão continuou até que finalmente, em junho de 2013, a Marinha anunciou oficialmente que deixaria de atirar na ilha principal e que não se opunha mais à criação do parque, desde que a Ilha da Sapata fosse mantida fora da unidade, para continuar servindo aos treinamentos de tiro.

imagem de Alcatrazes e veleiros
Durantes anos a regata de abertura da Semana de Vela de Ilhabela era a regata Eldorado-Alcatrazes por Boreste. Arquivo MSF.

30 anos fechado ao público

Durante todo este tempo, o arquipélago ficou fechado pela MB. Para ir até lá, só por motivos especiais, e com autorização da Marinha.

Novo parênteses…

Aqui é preciso abrir outro parênteses para ser o mais honesto possível. Particularmente, acredito que o ‘fechamento’ do arquipélago, ainda que impositivo, teve ao menos um lado positivo: mesmo com o incêndio, os 30 anos fechados contribuíram para a manutenção da biodiversidade.

Revis em 2013

Finalmente, em 2016, o presidente Michel Temer, e seu ministro do Meio Ambiente, Zequinha Sarney, transformaram Alcatrazes em Revis (Refúgio de Vida Silvestre), uma das categorias de unidades de conservação do Brasil.

mapa da Revis dos Alcatrazes
O Mapa da Revis, repare que a laje da Sapata ficou de fora, foi a concessão que foi barganhada para transformar a maior parte do arquipélago em área protegida.

Bombardeio em Alcatrazes, na laje da Sapata em 25 de novembro de 2021

Este site ficou sabendo que haverá bombardeio na Laje da Sapata em 25 e 26 de novembro.

Infográfico Bombardeio em Alcatrazes
Ilustração de O Estado de S. Paulo.

O arquipélago deve novamente ser fechado para que os navios da Marinha treinem a pontaria de  canhões na Laje da Sapata, ao mesmo tempo em que funcionários do ICMBio serão embarcados como ‘observadores’ do exercício de tiro ao alvo.

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A volta do bombardeio demonstra total falta de sensibilidade da Marinha do Brasil

Este site considera uma sandice continuar com os tiros, mesmo que sejam de um tipo especial de munição, em local tão biodiverso. Já era hora da Marinha comprar alvos especiais que podem ser colocados em alto-mar, sem provocar danos ao meio ambiente, em que pese serem caros e importados.

Se por acaso a sugestão for ultrapassada, que a MB desenvolva aqui mesmo um tipo de alvo móvel que  sirva. O que não dá mais é praticar tiro ao alvo em ilhas; no século 21, um bombardeio ao bom senso.

Imagem do Brasil no exterior: pária ambiental

No momento em que se discutem os reflexos da COP 26, e da COP 15, a COP da biodiversidade; em que o mundo condena o Brasil por três anos de descaso ambiental, especialmente na Amazônia; é inaceitável a falta de sensibilidade da Marinha em momento tão crítico de declínio da biodiversidade mundial,  teimando em treinar a pontaria de seus canhões numa ilha, parte  importante de um arquipélago da ‘Amazônia Azul’.

‘Hóspedes de um hospício’

Isso nos lembra o jurista Miguel Reali Júnior, comentando o Brasil atual, em poderoso e contundente artigo publicado no Estado de S. Paulo (6/11/2021) com o qual nos identificamos:

Pude perceber, à distância, que a vida no Brasil me inseria em meio doentio contaminante, a transformar todos em hóspedes de um hospício, no qual por mimetismo se adquirem os jeitos e trejeitos dos pacientes alienados

Não é hora de treinar tiro ao alvo com canhões em um local tão rico em biodiversidade. Nem agora, nem nunca mais, a não ser que fôssemos mesmo ‘transformados todos em hóspedes de um hospício’.

E, você, o que acha?

Imagem de abertura: Atenção: a imagem mostra um canhão de navio atirando, não se trata de navio da MB, foi apenas o mais próximo que achamos. A imagem vem do https://newsbeezer.com.

Fonte: https://infograficos.estadao.com.br/especiais/alcatrazes/historia.

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Comentários

15 COMENTÁRIOS

  1. Descartando a ingenuidade infantil dos comentaristas que sustentam poder o Brasil dispensar suas forças armadas, há um ponto positivo neste debate: a sugestão de que sejam utilizados alvos móveis de concreto ou embarcações destinadas a sucata para treinamento de tiro.

  2. Podiam bombardear navios velhos, que se transformariam em recifes artificiais, ou grandes boias construídas para isso. Tenho um amigo que fabrica estruturas de concreto flutuante que podem ser transportadas boiando e depois afundadas para formar recifes artificiais.

    • Sim Gustavo é bem simples e viável, mas este desgoverno que aí está, veio sómente pra abrir mesmo a porteira como disse o ex ministro do meio ambiente, aquele demente, mas o miliciano mandou liberar geral a maldade no Brasil que vivia em berço esplêndido, na paz, já hoje, todos se odeiam e cresce o número de haters e a cultura da maldade.

  3. Muita conversa vazia. As forças militares são imprescindíveis desde quando o mundo é mundo. Só para idólatras da utopia é que o mundo pode viver sem as forças militares. Para essa solução basta encontrar um local adequado para o teste, considerando todas as variáveis, e não somente aquelas indicadas pelos garotos do Leblon criados com Nutela e mel vegano.

  4. Exército, marinha e aeronáutica são grandes cabides de emprego em um país militarmente ultrapassado e sem ameaças tradicionais. Queimam dinheiro com treinamentos obsoletos e não resistiriam a 5 minutos em uma batalha real (mesmo porque o Brasil não tem ameaça de guerra tradicional. Isso é uma ilusão para continuarem gastando dinheiro).

  5. Apoio a iniciativa quanto a preservação do meio ambiente, no entanto, sempre que se questiona algo, deve, em primeira instância, dar uma sugestão plausivel e que possibilite a Marinha a continuar seu treinamento, que TB é de suma necessidade, mas sujestões plausíveis dentro do pequeno orçamento disponível, haja vista que uma força pode estar 100 anos sem ser empregada mas não pode ficar um minuto sem estar preparada! Tenho certeza que com a inúmera quantidade de pessoas inteligentes em busca de tão nobre missão, procurará descobrir uma solução que apasigüe ambos as partes.

    • Sr. Ronei… inadmissível é parte da população “poder” passar fome um minuto sequer enquanto a marinha “não pode” passar um minuto sem estar preparada.

    • “Treinamento de suma necessidade” pra que? Insistem na ideia de um militarismo brasileiro totalmente antiquado, retrógrado e que não aguentaria 5 minutos de uma batalha real. Todos sabem que atualmente o exército, a marinha e a aeronáutica se tornaram cabides de empregos. Militarmente estamos obsoletos, aceitem de uma vez! As ameaças à segurança do Brasil não são tradicionais. Estamos com a cabeça na Guerra Fria ainda!

  6. Lamentável a decisão da Marinha, infelizmente estamos acompanhando a imagem da Marinha do Brasil e do Exército Brasileiro serem desconstruídas por lideranças que, não obstante o posto que se encontram e a idade que alcançaram, comprometem valiosos valores conquistados junto a sociedade civil após os anos de ditadura.
    Ambas instituições, por vaidade, intransigência e obscurantismo de seus comandantes perdem uma grande oportunidade de avançarem em importantes pautas socioambientais, se apequenando à estatura do seu atual comandante maior.

  7. O que deveria ser feito é a abertura a visitação publica, com controles rígidos de preservação, para que todos brasileiros pudessem usufruir e não alguns amigos do ICMBio que exploram comercialmente a visitação a custos elevadíssimos. No mundo inteiro os parques são para visitação publica, por que no Brasil não? Corrupção ou fanatismo ideológico desmedido pela conservação ambiental?

  8. Até que enfim uma bandeira digna levantada pelo Mar Sem Fim.
    O Saco da Ferradura deveria estar com poitas para que pessoas que tivessem orientação básica pudessem por la pernoitarem nos fins de semana.
    Na reserva de Port Cross na França é assim.
    Você aluga a poita pelo celular.
    Chega de proibir as pessoas de educação de viverem em harmonia com seu próprio planeta.

  9. É inacreditável!! Parece que o obscurantismo predomina dentro do governo e também na marinha brasileira.
    O mundo fica assustado,mas parece que os brasileiros,não!!

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