Alagoas e Sergipe

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    Alagoas e Sergipe

    Terça- feira, 29- 11- 2005.

    Acordei às 2 horas da manhã com o motor do barco sendo ligado pelo Alonso. Bastou a primeira virada da bateria e eu já estava de pé. Tínhamos 40 milhas pela frente, até Pontal do Coruripe, nossa primeira parada nesta etapa.

    Mais uma vez o vento virou. Agora já está de nordeste, e deve continuar assim até o final do verão. Melhor para nós. Nada como vento e corrente a favor só para variar. A noite estava escura, sem lua e com poucas estrelas. E faz dois dias que cai uma chuva fraca de madrugada.

    Em Maceió estávamos fundeados em frente à Federação de Vela, ao lado do cais do porto.

    Gozado. Esta parece ser a única praia sem graça deste Estado. É feia mesmo. Mais o pior é a sua cor turva, o cheiro desagradável, e a saúde comprometida de sua água. De dar dó. A poluição é bravíssima. Fazia tempo que eu não via coisa igual. Cada vez que íamos para terra, ou voltávamos para bordo, era inevitável enfiar o pé na água do mar. E dava nojo. Pior foi perceber a mesma sensação nos companheiros.

    Alagoas é linda como beleza natural, mas é muito mal tratada. E o pessoal do Ibama consegue a façanha de ser ainda mais inoperante que nos outros Estados. Mais adiante digo porquê, enquanto agora conto de nossa viagem.

    Saímos cerca de dez milhas para fora antes de apontar nossa proa no rumo certo. Em seguida regulamos as velas do Mar Sem Fim, a mestra e genoa, para um nordeste de 18 a 20 nós e fizemos uma velejada maravilhosa até chegarmos em Coruripe.

    Tivemos que ter muita atenção na entrada porque o litoral de Alagoas é circundado por uma faixa quase contínua de recifes de arenito, apenas com algumas aberturas de tempos em tempos. Ultrapassando esta barreira natural o mar é raso, e este é também um dos motivos de haver tantos corais. Para piorar a navegação, bem próximo da praia muitas vezes grudada na areia, surge outra formação de recifes de corais. Ou seja: para entrar nestas baías é preciso navegar entre dois obstáculos, sempre em baixa profundidade tudo que um veleiro não deveria fazer. Mas como é para um programa de TV fomos em frente.

    Por sorte na chegada encontramos um barco de pesca que nos guiou em ziguezague entre os recifes. Às 10 horas da manhã estávamos fundeados.

    Puxa vida, como têm sido corridas estas viagens. Chegamos quinta- feira, dia 24, na hora do almoço. De lá para cá fizemos várias entrevistas com professores da Universidade Federal de Alagoas, e com funcionários do Instituto do Meio Ambiente. Viajamos de carro pelo litoral norte até quase a divisa com Pernambuco. Repetimos a dose no litoral sul até nos aproximar de Sergipe. Demos entrevistas para jornais, fizemos um sobrevôo de helicóptero por Maceió e o litoral sul, e agora já estávamos ancorados na primeira parada programada. É muita coisa para cinco dias. Cansativo mas produtivo. Como sempre estamos todo o tempo cercados por uma belíssima paisagem, e a cada entrevista aprendendo mais sobre os problemas da ocupação da costa.

    Hoje tivemos grande atividade em Coruripe onde estamos. Visitamos uma das maiores usinas de cana-de-açúcar do Brasil, para conhecer uma reserva natural de Mata Atlântica com oito mil hectares, mantida pela empresa, cuja especialidade é ser a floresta com maior incidência de pau-brasil nativo do país.

    Mais um dia e tanto. Amanhã conto mais. Mal dormi esta noite, estou cansado, hora de ir para a cama.

    Quarta- feira, 30- 11- 2005.

    Esta noite choveu forte, e o vento não deu descanso enquanto durou o aguaceiro atingindo 30 nós, sempre de nordeste. Felizmente o fundo do mar é de lama e nosso ferro agüentou firme. Mas balançamos um bocado enquanto tentávamos dormir, sempre ouvindo estalos e rangidos do barco. Não foi um sono tranqüilo, mesmo assim às 6hs45 estávamos de pé. Era preciso aproveitar a maré baixa para fazer algumas gravações de Coruripe.

    Entre outras tomadas fizemos uma de um marco em homenagem ao primeiro Bispo que veio ao Brasil, Dom Pero Fernandes Sardinha, cuja nau em que viajava para a Europa naufragou aqui em frente, nos baixios Dom Rodrigo. O Bispo e a tripulação escaparam deste acidente, mas não dos Caetés. Foram moqueados e comidos pelos donos da terra.

    Às 10hs da manhã iniciamos a navegação em direção à foz do São Francisco, 25 milhas ao sul. Aproveito a velejada para adiantar meu diário, já que nos primeiros dias não pude escrever.

    O litoral de Alagoas é dos mais bonitos do Nordeste. A cor da água é de um verde mesclado com azul, e toques de amarelo em razão dos corais, inigualável. Só em Pernambuco vi algo parecido, mesmo assim não tão vivo como o daqui.

    A coisa é séria. Você fica horas olhando o mar e não se cansa. As cores vão mudando. Conforme passa o sol os tons se misturam. Há manchas brilhantes próximas de outras opacas. As profundidades se alteram produzindo nuances sutis. O vento constante revolve as águas e o quadro todo se mexe. Ganha vida. Um pintor impressionista não faria melhor. O conjunto é soberbo.

    Toda a zona costeira do Estado, de quase 230 quilômetros de extensão, é precedida por uma barreira de corais de arenito que em eras mais antigas formavam a linha da praia. Com o rebaixamento do mar eles ficaram afastados algo como 50 a 100 metros, às vezes menos. E são muito importantes.

    De acordo com Mônica Dorigo, professora, com doutorado pela USP, atualmente na Universidade Federal de Alagoas, este tipo de coral protege a costa, barra a entrada de ondas mais fortes, evita a erosão e ainda impede que os borrifos de água salgada cheguem à cidade trazendo maresia. ” Os carros e aparelhos eletrônicos do pessoal que mora na beira da praia têm uma vida útil muito maior que o dos moradores da orla do Rio de Janeiro, por exemplo, que não têm esta ajuda dos corais”. Achei interessante esta comparação.

    Mônica contou qual o motivo para Alagoas ter tantas lagoas. “Antigamente elas eram calhas de rios. Com o rebaixamento do mar acabaram isoladas”. Perguntei sobre a saúde delas e a resposta não foi animadora. “Muito poluídas e quanto mais próximas estiverem da capital pior”. Ela nos alertou para não comermos siris, sururus e que tais, se quiséssemos preservar nossa saúde.

    Nas lagoas urbanas favelas se instalam nas margens (vide fotos). Nas outras, mais distantes, plantações de cana-de-açúcar começam no infinito e vão até a beira da água, deixando no rastro agrotóxicos, vinhoto (efluente da produção de álcool), etc. E pior que isto. Em muitos casos o vinhoto é misturado com a água para ser usado como adubo e quando é aplicado em solo arenoso contamina o lençól freático.

    Alagoas está na rabeira do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) nacional: ocupa o penúltimo lugar no ranking entre as 27 unidades da Federação. Maceió, por exemplo, tem ao redor de 800 mil habitantes, divididos em cerca de 250 mil residências, mas apenas 23% delas têm seus esgotos tratados (dados do IBGE, ano 2000). Mônica nos explica que tudo isto gera a “maré verde”, ou verdete, nas lagoas e rios. Trata-se de uma proliferação de microalgas que fica em cima da água como se fosse uma gelatina. Elas consomem o oxigênio e isolam o ar da água, matando todo tipo de vida. Mônica é contundente quanto à saúde dos estuários e lagoas do estado: ” estão todos comprometidos “.

    De fato, passeando por Maceió nós cruzamos diversas vezes pelo canal do riacho de Salgadinho que corta toda a cidade. Hoje ele quase não tem água, apenas um filetezinho, o resto do leito é repleto de um lodo asqueroso formado por lixo, detritos humanos, sacos plásticos, e um monte de outras imundices. Um terror. E uma vergonha para as pessoas de bem que moram aqui, trabalham e pagam impostos. Não é bolinho ver esta fotografia macabra todo dia (veja fotos).

    O Salgadinho desemboca naturalmente no mar. Para tentar evitar a contaminação- inutilmente- uma barreira de areia foi levantada na altura em que o canal chega na praia. Acontece que foi numa de suas extremidades que fundeamos. Não por opção, mas por ser abrigada dos fortes ventos, próxima ao porto e em frente da única marina. Daí a poluição e o nojo em cada desembarque.

    Mas isto não é tudo. Quando estávamos em Maceió, antes da viagem de veleiro para cá, alugamos um carro e subimos a costa até quase a divisa com Pernambuco. A região faz parte de outra APA, a Costa dos Corais, desde 1998. Segundo os funcionários do Instituto do Meio Ambiente, de Maceió, Lessa e Menezes, ela visa “ proteger e preservar o ambiente marinho e os bancos de corais e algas ” .

    Há outra área ao norte de Maceió também ” protegida ” pelo Ibama, a Piscina Sul de Paripueira, que é um Parque Marinho. Coloquei aspas em protegida porque, afora o fato da área ter sido decretada como APA, ou Parque Marinho, nada mais aconteceu. Não há plano de manejo, não há instrução aos turistas, não há folhetos explicando a eles que pisar nos corais significa decretar sua morte, não há controle sobre a quantidade assombrosa de visitantes, entre 700 e 900, que chegam diariamente! Não há, rigorosamente, nada, a não ser o decreto na folha de papel. Mas claro, os funcionários do Ibama recebem salários em dia. Para fazer o quê, não sei. Fico realmente desanimado com o estado da proteção ao meio ambiente na costa brasileira, e horrorizado de ver como Alagoas consegue ser pior que todos os outros nove Estados que visitamos até este momento.

    As pessoas precisam perceber que a capacidade cumulativa dos oceanos está no limite. Eles já não agüentam este uso indecente e emitem claros sinais de que em breve poderão não ter mais vida. É incrível que pouca gente se ligue na saúde dos oceanos. Uma tora cortada na Amazônia causa escândalo internacional. Uma usina no Pantanal provoca o suicídio de um ambientalista. Ongs para salvar os ecossistemas terrestres surgem as carradas, mas para o mar ninguém dá pelota. Fico assustado com tanta indiferença.

    Para encerrar, Mônica soltou o verbo ao comentar os problemas da carcinicultura no Nordeste. Assim como o professor Jeovah Meireles, do Ceará, ela não se conforma com a destruição praticada e acha que a “ganância econômica” dos criadores é a única explicação.

    Pedi que comentasse a situação em Alagoas, então Mônica discorreu sobre uma grande fazenda da empresa Netuno, de Pernambuco, uma das mais poderosas do Nordeste. Vimos várias filiais deles, desde o Piauí até aqui, sempre em estuários importantes desmatando mangues e poluindo as águas. Segundo ela a empresa abriu uma fazenda próxima ao rio Santo Antonio destruindo tudo em volta. Até um morro coberto de Mata Atlântica foi detonado para que sua terra fosse usada como matéria prima em taludes dos tanques criatórios (vide fotos). Um vexame. Mônica nos mostrou fotos aéreas que não deixam dúvidas quanto à devastação. Hoje a área da Netuno é de 50 hectares, mas eles já têm um projeto para aumentar a fazenda para 300 hectares.

    Ela ainda nos sinalizou para que gravássemos o Iate clube de Alagoas, na orla da cidade, cuja sede foi construída sobre área de recifes. Suas fundações foram fincadas sobre eles. Mais tarde quiseram aumentar a sede social. Então construíram muros de concreto sobre outra área contígua de recifes, mas a obra acabou embargada. Segundo Mônica a proibição aconteceu quando Collor era prefeito, e ” foi a única coisa decente que ele fez ” .

    É curioso, parece que escolhem as áreas mais importantes para depredar. Os recifes de corais são formados por animais que vão se grudando uns nos outros, montando seus esqueletos sobre conchas, carapaças de moluscos, etc. Sua biodiversidade é riquíssima sendo comparada a das florestas tropicais. Algo como 25% de toda a vida marinha, ou cerca de 2 milhões de espécies, precisam da formação dos corais para viver.

    Ainda assim, em Alagoas e Pernambuco os corais foram usados pelos plantadores de cana-de-açúcar como adubo! Eles os arrancavam do mar, até a década de 70, para queimá-los em fogueiras na praia. Eram as conhecidas “caieiras”, que transformavam os corais em cal. Em seguida o produto era utilizado como corretor do ph do solo, já que aqui ele é muito ácido para os canaviais.

    É, não é fácil, não…

    Você acha que acabou por aí ? Pois se enganou. Relaxe. Acomode-se aí na cadeira em que você está, respire fundo, e engula mais esta. Alagoas, como a maioria dos Estados do Nordeste, também está sofrendo a ameaça da especulação e do turismo de massa. Aqui o bicho pega em duas áreas distintas: uma ao norte outra ao sul.

    Ao norte, na Barra do Camaragipe, o “Projeto Onda Azul” propõe construir um complexo hoteleiro com inacreditáveis sete mil e cem leitos! Duma só vez! É um absurdo um projeto desta envergadura numa região estuarina, cercada de mangues. Para você ter uma idéia, o complexo de Sauípe, na Bahia, oferece cerca de quatro mil leitos e nunca fica lotado. Mas aqui em Alagoas um grupo estrangeiro propõe quase dobrar esta oferta, multiplicando exponencialmente a ameaça à biodiversidade local.

    Em Maceió acontece pior que isto. Ali, em Pontal da Barra, havia um enorme terreno onde ficava a antiga escola de pesca de Alagoas. A área estava aos cuidados da Marinha do Brasil até que um grupo europeu, ligado ao turismo, fez uma oferta. A Marinha sabia que não podia vender uma área da União. Então deram um jeito de arrendar o espaço para o Governo do Estado de Alagoas que, por sua vez, passaria tudo para o tal grupo europeu. Eles pretendem construir três ou quatro hotéis, além de dragar o rio para dar espaço para uma Marina com capacidade para TRÊS MIL BARCOS ! A área disputada, que fica defronte ao prédio do Detran de Maceió, é formada por manguezais, restingas, e foz de manancial (entrada da lagoa Mundaú ) , cada uma delas uma APP. E o inoperante Ibama, que quase nunca age, desta vez foi célere e autorizou a coisa toda. Dizem minhas fontes que “teria rolado grana alta em Brasília”. Não tive como confirmar esta última informação, por isto reproduzi no condicional. Mas vou checar. Que a negociata tem um fundo de verdade não tenho dúvidas. Porque ela é tão escandalosa que o Ministério Público Federal se revoltou e instaurou um processo sobre o caso. É mole ?

    Bom, tenho que parar agora. Estamos a duas milhas da foz do São Francisco que é perigosa, assoreada, com ondas altas quebrando em volta. Mais um momento de tensão a bordo. Vou lá fora ver se avistamos algum barco de pesca que possa ser nosso prático. Termino mais tarde.

    É quase meia noite. Desde às cinco da tarde estamos fundeados em frente a Piaçabuçu, pequena cidade com 17 mil habitantes na foz do São Francisco. Foi duríssima nossa entrada. Mesmo tendo como prático um pescador, em certos momentos navegamos com menos de dois metros de profundidade enquanto ondas estouravam quase dentro do cockpit. Adrenalina total. Mas entramos.

    Depois foi só alegria e uma paisagem muito linda em volta. Dunas do lado de Alagoas, mangues do lado de Sergipe. E barcos maravilhosos. Cruzamos com várias canoas tradicionais, algumas com duas velas quadradas, bem típicas daqui. Foi um belo show depois da angustia da entrada. Curti cada momento, tirei dezenas de fotos, depois abri um vinho para o jantar. Em seguida tomamos um belo banho e só então voltei para encerrar o relato deste dia. Amanhã tem mais.

    Quinta- feira, 1- 12- 2005.

    Amanheceu. Tomamos café e saímos para conhecer mais de perto a vila e as dunas da praia de Peba. Esta é a última praia do lado de Alagoas, antes da fronteira com Sergipe, e ela chega até a foz do São Francisco. Já a vila é mais uma cidadezinha que vive da pesca de arrasto de camarão, e pesca artesanal. Há dezenas de canoas à vela, testemunhas da grande diversidade de embarcações tradicionais brasileiras. Antigamente tinha muitos outros modelos aqui no “rio da integração nacional”. Hoje só os mais velhos lembram deles.

    Havia os grandes barcos com pás que levavam passageiros. E outros como as barcas que transportavam carga, canoas escavadas em troncos, as famosas canoas de tolda que tinham uma espécie de cabine feita com varas e coberta com palha de carnaúba. E talvez as mais famosas, usadas no médio São Francisco, as barcas com figuras de proa conhecidas como ” as carrancas do São Francisco “.

    Com o progresso, o asfalto, as alterações feitas pelo homem no curso e fluência do rio, especialmente pelas barragens e açudes, elas foram desaparecendo. Restam hoje poucos tipos diferentes. Mas entre os que sobreviveram estão as borboletas, lindas canoas típicas com dois mastros.

    Talvez o fator principal que explique o desaparecimento de grande parte dos barcos artesanais foi a alteração na vazão do rio. Ela provocou até mesmo mudanças na agricultura. Antes, nas ilhas e várzeas do baixo São Francisco, havia plantações de arroz que era a cultura ideal para um local sempre inundado. Depois da construção das primeiras barragens e açudes a dinâmica das águas mudou. Já não acontecia mais a inundação. O arroz perdeu produtividade e foi trocado pelo côco.

    A pior conseqüência das barragens, no entanto, foi a erosão da foz e assoreamento da barra. Onde antes entravam navios de médio porte, hoje com dificuldade entram uns poucos veleiros.

    Sem as barragens havia duas forças mais ou menos equivalentes. A do mar, fustigado pelo vento jogando constantemente ondas e areia rio adentro, e a outra, a da vazão do rio de três mil quilômetros, com sua carga equivalente de sedimentos. Ambas duelavam há milênios naquela foz, mas não saiam do empate. O resultado era uma barra profunda, com fronteiras firmes, apta para receber navios de porte pequeno e médio. A construção das barragens para gerar energia diminuiu a vazão do rio e desequilibrou o embate. O mar passou a penetrar o interior. Começava aí o processo de erosão e assoreamento. Ele foi tão dramático que toda uma vila, a do Cabeço, desapareceu debaixo d’água. Sumiu deixando como rastro apenas o Farol do Cabeço que antes ficava em terra firme (vide fotos).

    A mudança apressou a decadência do porto exportador. Trabalhadores foram embora e investidores mudaram suas posições. A região antes progressista estacionou no tempo. Desde então luta para se recuperar.

    Hoje umas poucas embarcações tradicionais resistem navegando, entre elas estas canoas, chamadas borboletas, com proa bem afilada e elevada, popa reta, e movidas a pano. Algumas usam duas velas quadradas e para manter o equilíbrio utilizam bolinas laterais. São também conhecidas como canoas sergipanas. Não é preciso falar, que são manejadas por exímios marinheiros. Eles aprenderam o ofício com seus antepassados mantendo a tradição e, talvez sem saber, contribuindo para preservar um dos nossos patrimônios culturais.

    Fiquei contente por vê-las em atividade. Um dos objetivos da série Mar Sem Fim é justamente este: revelar aos telespectadores as várias riquezas escondidas nos confins da costa. Os barcos e canoas tradicionais do São Francisco são uma delas, e terão destaque nos programas que faremos.

    É claro que atualmente a transposição é mais importante, e para tratar do assunto na TV entrevistamos vários especialistas. Em Pernambuco falamos com João Suassuna e em São Paulo com Aziz Ab’Saber. Nesta viagem entrevistamos Valmir Pedrosa, professor da Universidade Federal de Alagoas. Hoje ainda encontramos o prefeito de Piaçabuçu, Djalma Beltrão, e também falamos com ele.

    Todos são contrários. Os argumentos são inúmeros. Enquanto o governo diz que ” a obra vai acabar com a indústria da seca “, o professor Valmir mostra a planilha que os Estados receptores enviaram ao Governo Federal informando qual destino pretendem dar à água que vão receber.

    O documento mostra que, no Ceará, 60% será para irrigação. Já o Rio Grande do Norte pretende destinar 80% para este fim. Aziz Ab’Saber diz que o Governo Lula não ouve os especialistas ” é pouco democrático “, e alerta que a água desviada, caso escape da evaporação, será levada até alguns açudes já salinizados. E isto é mais uma prova que ela não servirá para beber, mas será usada na agricultura. E enquanto o governo diz que ” a obra é autosustentável “, o professor Valmir questiona os números. Segundo ele o Governo diz que o custo da água será de onze centavos de real por metro cúbico, enquanto no mundo inteiro este custo gira em torno de um dólar. ” Se aqui ela vai custar só onze centavos é porque será fortemente subsidiada, ou seja, será paga por todos nós mas trará benefícios apenas para poucos fazendeiros que vão usá-la na irrigação ” .

    João Suassuna demonstra que o Nordeste já tem água suficiente com suas 70 mil represas e açudes, que acumulam impressionantes 37 bilhões de metros cúbicos de água. Metade disto no Ceará. E parte da água transportada será enviada para estes mesmos açudes.” Isto é chover no molhado, não tem o menor sentido ” .

    Os argumentos de João Suassuna são inúmeros e contundentes. Ele chama a atenção para a evaporação uma vez que os canais de 25 metros de largura por 5 de profundidade, com mais de 100 km de extensão, vão passar através de regiões de grande evaporação. E conclui : ” Para você ter uma idéia do que é esta evaporação compare : a Represa de Sobradinho construída no Nordeste para regularizar a vazão do São Francisco tem um espelho dágua com 34 milhões de metros cúbicos de água. Deste mesmo espelho evaporam 200 metros cúbicos por segundo ! SÃO 200 CAIXAS DE ÁGUA, DE MIL LITROS, EVAPORANDO A CADA SEGUNDO. UMA EVAPORAÇÃO FANTÁSTICA ” .

    ” Para fazer com que o volume calculado no projeto chegue na outra ponta, vai ser necessário um bombeamento significativamente maior para compensar a perda ao longo dos canais ” . Com isto Suassuna não só nos dá uma aula, mas destrói outro argumento alardeado: o de que o Governo Federal vai usar pouca água do São Francisco, algo como 1 % de acordo com o projeto original.

    Para engrossar o coro dos contrários ainda ouvimos o discurso do prefeito de Piaçabuçu que falou dos problemas de erosão da costa causados pelas barragens, e o sumiço dos peixes que não têm como fazer a piracema.

    Antes estes fossem os únicos problemas da região da foz do velho Chico, e dos moradores de Piaçabuçu e vilas vizinhas. Mas não é o caso.

    Há duas APAs (Área de Proteção Ambiental) aqui, a de Piaçabuçu que é Federal, e a APA Estadual de Marituba.

    A primeira criada em 1983, a segunda em 1987. Ambas maiores de idade, mas nenhuma com plano de manejo. O de Marituba, ao menos, ” começou a ser feito agora “, diz o desalentado prefeito. Mas o de Piaçabuçu ainda não tem data para começar. E enquanto não há este plano, ” não se pode fazer nada “, diz, ” o Ibama proíbe tudo “.

    Fiquei chocado ao ver que a sede do órgão fica na mesma praia do Peba onde barcos camaroeiros passam a rede de arrastão rente à praia. No bojo de suas malhas levam também tartarugas e fauna acompanhante que depois é devolvida ao mar.

    A praia do Peba é mais um local de desova das tartarugas verdes. E mesmo assim a pesca de arrastão é tolerada e praticada. Ela é tão danosa ao meio ambiente marinho que alguns países, como a Costa Rica, pregam na ONU uma moratória para a modalidade.

    Peba é uma praia formada por dunas, por isto é uma APA Federal (área de proteção ambiental). São mais de 20 km de areia com imensas dunas ao fundo. E sua rala cobertura vegetal virou pasto para o gado bovino e caprino dos pescadores artesanais que moram nas imediações. E o Ibama não toma qualquer providência. Eu vi.

    Ao longo de Peba ainda contei sete tartarugas mortas, vítimas do arrastão ou dos sacos plásticos (há muita sujeira na praia trazida pela corrente norte-sul que desce a costa). Tudo que o órgão fiscalizador faz é enterrá-las para que seus cascos não sejam vendidos. Fora isto os funcionários garantem o defeso do camarão, que vai de primeiro de Dezembro até 15 de janeiro. E isto é tudo. Não há aulas de educação ambiental para os moradores, ou fiscalização quanto à vegetação que sustenta as dunas. Na verdade há muito pouca coisa além da sede.

    Parei na porta deles e pedi uma entrevista com o responsável mas até agora ele foge da gente. Basta ligar que começa uma sucessão de desculpas esfarrapadas.

    Quando estávamos na praia vi um ônibus trafegando na areia. Na mesma praia onde há desova de tartarugas… E caminhões estacionados! Um absurdo. Quando saímos e pegamos a estrada na entrada da APA, uma região de restinga, portanto APP, havia um imenso lixão a céu aberto (vide fotos) .

    Tudo isto eu queria questionar na entrevista, mas até hoje não consegui. Quando insistimos o responsável dá de ombros.

    Bem, amanhã alugamos um batelão para subir o rio até Penedo, cidade que tem um belo patrimônio histórico, fruto da pujança da região antes de mexerem na vazão do São Francisco. Sábado vamos ” tocaiar ” o responsável pelo Ibama onde quer que ele esteja.

    Sexta- feira, 2- 12- 2005.

    Às sete da manhã Welington estava parando com sua canoa coberta, tipo batelão, no contrabordo do Mar Sem Fim. Estávamos começando nossa viagem até Penedo, 20 milhas rio acima.

    A cidade experimentou um surto de riqueza e cresceu muito nos séculos 18 e 19, a ponto de receber a visita do Imperador Pedro II que sugeriu que ela assumisse a posição de capital da província. Antes disso ainda teve papel estratégico, tendo sido conquistada pelos holandeses, e mais tarde retomada pelos portugueses.

    Penedo era um porto importante e recebia navios que traziam mercadorias e levavam parte da produção de arroz, às vezes sal, e outros gêneros cultivados nas várzeas do São Francisco.

    Em conseqüência da expansão econômica os fazendeiros e barões enriqueceram, e puderam construir casas de alto padrão. Igrejas e conventos também foram erguidos. Um deles é um espetáculo a parte, o Convento Franciscano e a Igreja de Santa Maria dos Anjos.

    Demoramos cerca de três horas para subir o rio. Uma pena que a cidade hoje esteja bem descaracterizada. Ela cresceu para os lados e para trás, e sua arquitetura moderna é bem sem graça. Mas o centro histórico e seus casarões e templos vale a pena.

    Nossa intenção era também entrevistar o mais antigo pescador do São Francisco, seu Toinho, mas ele estava em Brasília.

    Retornamos no final da tarde, já escurecendo. Uma beleza a paisagem em volta do rio com coqueirais e algumas árvores centenárias que sobraram nas margens.

    Amanhã é nosso último dia completo por aqui e está bem programado. Desde cedo temos entrevistas agendadas. É bom descansar.

    Sábado, 3- 12- 2005.

    Nesta viagem pela primeira vez estamos sem a companhia de Paulina Chamorro. Ela ficou em São Paulo, editando alguns programas novos, e em seu lugar convidei a repórter Agis Variani, de São Sebastião. Não é fácil achar uma boa repórter que se disponha a fazer uma viagem de veleiro que, se tem um lado maravilhoso, traz também uma série de inconvenientes como falta de espaço, pouco conforto, banhos racionados, etc. Por isto guardei seu endereço quando Agis me procurou em Noronha se oferecendo para uma etapa no projeto. Na primeira chance resolvi chamá-la. Aconteceu nesta viagem.

    Desta vez Paulina atuou na produção, enquanto a bordo temos esta nova companhia. Não houve nem tempo de testá-la. Felizmente está tudo saindo bem, a moça deu conta do recado.

    Bem, logo depois do café da manhã desembarcamos atrás do chefe da APA de Piaçabuçu, José Carlos dos Santos. Como sabíamos de seu hábito de ir ao lava-jato, aos sábados, fomos atrás. Deu certo. No princípio ele relutou, não queria falar. Com um jeitão típico daqueles funcionários de repartições antigas, ar autoritário, cheio de formalidades e ” não-me-toques ” , primeiro ele usou uma ” moderada ” truculência para evitar a entrevista. E procurou fazer uso de sua posição e hierarquia dizendo que não tínhamos pedido autorização para as gravações. O tipo do cara que sabe que não cumpriu a obrigação, e agora evita ser pego no contrapé. Tive que persuadi-lo alegando que desde o Amapá nosso programa tem procurado os funcionários do Ibama ao longo da costa, sendo por eles atendido.

    Finalmente José Carlos cedeu e procurou justificar os absurdos que vimos. Sobre o lixão na APA ele culpou a Prefeitura dizendo que ” ela já tinha sido autuada ” . Sobre os ônibus que vimos na praia apenas confirmou ser proibido, mas arrematou dizendo que aquele era um ” hábito local ” , e que ” onde eles trafegam não há desova ” . Sobre educação ambiental de crianças e pescadores ele enrolou, engasgou, mas depois se recuperou e com o ar mais sério de mundo disse que sim, o pessoal do Ibama estava ministrando estas aulas.

    Ninguém acreditou, ficou claro, mas ele não se deu por vencido. Também refutou as acusações de que o conselho da APA não se reunia. Fui em frente e perguntei por que, depois de mais de 20 anos (a APA Federal de Piaçabuçu é de 1983), ainda não existe um plano de manejo? E lembrei que no entorno existem duas cidades, somando mais de 20 mil habitantes, que não podem esperar eternamente. Mais uma vez José Carlos gaguejou, arriscou umas desculpas para em seguida dizer que ” foi falta de verba ” .

    Durante 20 anos não houve verba para isto, perguntei? O homem ficou sem jeito na hora, mas rapidamente se recompôs e tirou o corpo fora de novo. E assim foi a entrevista. Uma pandega.

    Toda a cidade reclama e aponta as falhas : não há educação ambiental, o conselho não se reúne nunca, pessoas que querem fazer as coisas são ameaçadas até pedirem transferência, conforme nos contou a presidente da ONG Olha o Chico. Mas tem mais. A pesca de arrasto segue tranqüila, apoiada em resolução do Conama que permite nesta área a passagem da rede a uma milha da costa.

    Outras vezes a conversa descambava para o bizarro e absurdo, como quando perguntei sobre as muitas tartarugas mortas que vi na areia da praia, vitimas do arrastão. Sobre isto nosso amigo disse que ” os pescadores foram alertados para não deixarem elas presas nas redes por mais de duas horas ” . Como saber, se a rede passa rente ao fundo do mar e eles não podem ver, indaguei? José Carlos percebeu que eu conhecia a modalidade e não cairia nesta história ridícula. Então ele saiu com esta pérola: ” O pessoal do Tamar esteve aqui e ensinou os pescadores a fazerem massagem no coração para reviver as tartarugas que ficarem presas ” . Resolvi encerrar. E corri para entrevistar outros notáveis de Piaçabuçu que confirmaram a omissão do atual Chefe da APA.

    Só fiquei satisfeito quando percebi que tínhamos material suficiente para desmascarar cada uma das respostas que fomos obrigados a ouvir fingindo que acreditávamos.

    É lamentável ver um lugar tão rico, com uma beleza tão espetacular, assim tão maltratado.

    Em seguida conversamos com Dalva de Castro, da ONG Olha o Chico, que desmentiu quase tudo que nosso amigo havia dito.

    De lá voltamos para o Mar Sem Fim, ancorado em frente da cidade, para almoçar e fazer novas gravações do veleiro navegando pelo rio.

    Alonso nos esperava com um risoto de camarão e um estrogonofe de frango, os dois uma delícia. Para acompanhar o banquete abri uma garrafa de vinho tinto chileno dos bons, já que estes pequenos luxos costumam levantar o moral da tropa.

    De tarde fomos conhecer o projeto Canoa de Tolda, de Carlos Eduardo Ribeiro Junior, que visa restaurar uma canoa deste tipo com mais de 80 anos. Ele é mais um amante da náutica, ex-construtor de barcos, que se apaixonou pela canoa de tolda, antigos barcos de carga do São Francisco. Em suas andanças Carlos descobriu a ” Luzitânia ” abandonada, prestes a naufragar. Ele comprou a canoa e começou a restaurá-la. Depois de anos o trabalho está quase no fim. Em breve a Luzitania será devolvida ao rio, restaurada, para que volte a navegar. É uma beleza a canoa, e o trabalho merece os parabéns. Junto com Carlos trabalha Mestre Nivaldo, antigo construtor, que até hoje utiliza as mesmas ferramentas da época: serrote, formão, martelo, compasso e quase nada mais. Passamos a tarde gravando e conversando com os dois.

    Voltamos ao veleiro de tardezinha. Tempo para um belo banho de rio e um bom descanso. Sairemos esta madrugada, com a maré cheia, às cinco da manhã, em direção a Aracaju, nossa próxima parada.

    Domingo, 4- 12- 2005.

    Às 4 da madrugada levantamos a âncora e iniciamos a viagem. Um pouco antes da foz do São Francisco o mesmo pescador que atuou com prático na entrada estava a nossa espera.

    Felizmente o dia estava calmo, sem vento, e quase não havia ondas na saída. Foi tranqüilo nosso reencontro com o mar.

    Para encerrar esta etapa tínhamos 50 milhas de navegação para o sul, até chegarmos a Aracaju, capital de Sergipe, o décimo Estado costeiro visitado pela equipe. Saímos umas cinco ou seis milhas para fora, depois coloquei o barco no rumo certo, e em seguida voltei para a cama.

    Nada como uma boa dormida durante o trajeto embalado pelo balanço gostoso da navegada. Acordei com Alonso me chamando, já na entrada da barra de Aracaju. Saí lá fora e dei de cara com as enormes plataformas de petróleo da Petrobrás, instaladas a dez milhas da costa. Estávamos navegando em torno delas, imensas e estranhas, fincadas no fundo do mar. Uma imagem futurista que remete a filmes de ficção, olhar em volta no mar e ver dezenas de plataformas de Petróleo. Elas são testemunhas de outra riqueza dos oceanos: a mineral. 30% do petróleo consumido no mundo vêm dos mares. E ainda há inúmeras outras jazidas, entre elas as de níquel e cobalto, estimadas em dez vezes superiores às dos continentes, e não exploradas apenas por falta de tecnologia.

    Faz muito pouco tempo que os mares começaram, de fato, a serem estudados e explorados pela comunidade cientifica mundial. Antes, talvez até pelo seu tamanho gigantesco, havia a crença que seus recursos eram infinitos. Eles poderiam esperar enquanto outras fronteiras eram desbravadas…

    Bem, a barra de Aracaju é notória por sua dificuldade em razão da correnteza do rio Sergipe, e de ser muito assoreada. Mais uma vez as ondas estouravam. Resolvemos chamar um prático.

    Pelo rádio de bordo fui informado que o famoso Zé Peixe, talvez o mais notório prático do Brasil, já estava a nossa espera. Ele fora alertado por Paulina Chamorro porque queríamos entrevistá-lo. Navegamos cerca de 8 milhas para o norte, a partir da barra de Aracaju, até chegarmos no novo terminal portuário de Sergipe onde Zé Peixe nos esperava.

    Uma lancha da praticagem trouxe o velho personagem para bordo. Ele está com 79 anos, e é muito ativo. Ganhou este apelido pelo exótico costume de pular do passadiço dos navios para o mar, depois de entrar barra adentro, e voltar para casa a nado.

    Entramos em Aracaju sem problemas e em seguida fizemos nossa entrevista.

    Depois alugamos um carro e tocamos para o norte, para a praia de Pirambu, que tem quase 40 km de extensão, muda de nome três vezes, e chega até a foz do São Francisco. Ali queríamos visitar a reserva biológica de Santa Isabel, mantida pelo Ibama.

    A vila de Pirambu é pequena, cerca de sete mil habitantes, muito pacata e tranqüila. Quando chegamos, de noite, não vimos quase ninguém nas ruas. Parecia uma cidade fantasma. Achamos uma pousada das mais simples para passarmos a noite, a Pousada Litorânea. Sapos de todos os tamanhos, e insetos de vários tipos eram nossos companheiros de quarto. Mesmo assim conseguimos dormir.

    Segunda- feira, 5- 12- 2005.

    A base do Tamar, em Pirambu, foi uma das três pioneiras da costa brasileira. Ela existe desde 1981. O foco principal é a desova de tartarugas (nesta praia desova a menor de todas elas, a Tartaruga Oliva, que atinge no máximo 60 cm de comprimento e 40 quilos de peso), e o estudo de pássaros migratórios. Eles procuram estas praias para local de descanso e alimentação em suas viagens de pólo a pólo.

    Na região de Ponta dos Mangues, na beira de um braço da foz do São Francisco, foi iniciada também uma criação de ostras que me interessava conhecer, porque é mais uma atividade que foge a regra do Nordeste onde quase só se vê a criação de camarões.

    Logo cedo batemos na porta deles, sendo recebidos pela funcionária Jamyle Argolo. Mais tarde entrevistamos o coordenador regional do Tamar, em Sergipe e Alagoas, Augusto César Coelho.

    Conversamos sobre as ameaças que pressionam a costa daqui, e ficamos sabendo que a maior delas é a pesca de camarão de arrasto.

    Sergipe, com uma extensão de costa relativamente pequena, cerca de 180 km, tem a segunda maior frota de arrasto do Nordeste. Setenta e quatro barcos são autorizados pelo Ibama a puxarem suas redes numa distância de duas milhas da costa, o que é muito pouco.

    Ainda na lista dos problemas, há também projetos de carcinicultura no litoral norte e sul, e a construção irregular de casas em restingas, praias e dunas por parte de veranistas.

    Sergipe ainda não sofre o brutal assédio do turismo, como os Estados vizinhos, talvez porque suas praias não têm um conceito de ” paraíso de águas transparentes e mornas ” que aparecem em todos os folhetos e guias turísticos.

    Em geral as praias daqui são extensas, largas, enormes retas que vão mudando de nome de tempos em tempos, e todas elas influenciadas pelas águas do São Francisco cuja foz fica no extremo Norte. Como os ventos e correntes são no sentido Norte- sul, tudo o que estiver abaixo da foz do rio sofre sua influência. Assim as águas das praias do litoral norte são turvas, de cor barrenta, o que afasta o perigo iminente.

    A grande beleza da costa deste Estado são seus estuários e ecossistemas. Começando pelo do São Francisco, ao Norte, depois o rio Sergipe, onde fica Aracaju, e especialmente o Vaza Barris, em Mosqueiro, ao sul da capital.

    Outro que se destaca é o estuário do rio Piauitinga, que se soma ao rio Real, quando ambos formam o lagamar onde fica a vila de Mangue Seco, já na Bahia.

    Bem, depois das entrevistas da manhã seguimos com o pessoal do Ibama para Ponta dos Mangues, distante 54 km de Pirambu, do lado sergipano da foz do São Francisco. Queríamos gravar a fazenda de ostras.

    Viajamos numa caminhonete 4 x 4, do Ibama, pela praia. Durante todo o trajeto estivemos cercados por dunas, enormes restingas, e mangues. No caminho pudemos ver ranchos e algumas casas de alvenaria, construídas na praia de forma irregular. Muitas delas já desabaram (vide fotos) em razão da erosão. Seus donos tiveram a cara de pau de as erguerem em áreas consideradas APPs como são as restingas, e ainda na areia da praia. O troco vem rápido. A força dos ventos, o mar e a foz do rio por perto não deixam nada de pé.

    Infelizmente quando chegamos no vilarejo de Ponta dos Mangues, onde pegaríamos um barco para ir até a fazenda de ostras, o tempo que estava nublado fechou de vez. Não seria possível gravar. Tivemos que adiar nossa partida para o sul e dormir aqui.

    Amanha tentamos novamente.

    Terça- feira, 6- 12- 2005.

    Esta noite tivemos o privilégio de assistir uma apresentação de Cantigas de Roda, pelo grupo Lariô da Tartaruga, comandado por Jaci Rosa dos Santos. Foi uma beleza. A turma do Tamar apóia este grupo e cedeu um barracão onde eles se apresentam. Fomos vê-los. Em seguida entrevistamos dona Jaci, a figura principal.

    Esta é mais uma riqueza que se pode conhecer ao longo do litoral brasileiro, especialmente porque esta tradição é preservada pelas comunidades costeiras.

    Devido ao isolamento centenário dos habitantes da costa, estas manifestações não sofreram as deformações da cultura de massa moderna, exploradas ad infinitum pela TV. Assim, ao logo da viagem temos podido assistir apresentações de Carimbó, na ilha do Marajó, da Marujada nas reentrâncias paraenses, ou destas singelas brincadeiras de roda com o povo dançando coreografias diferentes. Todas elas expoentes da cultura popular.

    Para melhorar acordamos com tempo bom. Pudemos visitar e gravar a fazenda de ostras. Quem nos levou foi um santista que mora aqui faz nove anos, trazido justamente para desenvolver a criação, Sérvio Raimundo. Ele contou que foram anos de tentativas e erros até que dominaram o ciclo da produção.

    Segundo Sérvio só em Santa Catarina há criação de ostras, mas de um tipo diferente das que ele utiliza que são nativas do Brasil. Sérvio conseguiu uma produção de 700 ostras por centímetro quadrado, o que seria a maior produtividade de uma fazenda destas no país.

    Aqui ele consegue dois ciclos completos por ano, nova exclusividade da região. Atualmente dez famílias de Pirambu vivem da criação de ostras. É pouco, mas é um começo.

    A grande dificuldade parece ser o escoamento da produção. Não há um distribuidor que envie para os diversos centros consumidores. As mesmas pessoas que cultivam são as que vão atrás de possíveis compradores, normalmente restaurantes. Por causa desta dificuldade a produção acaba ficando limitada.

    A fazenda de Ponta dos Mangues produz 50 dúzias por semana, vendidas a oito reais cada, para restaurantes de Aracaju. Além disto ela comercializa sementes para Universidades que hoje pesquisam a modalidade, além de criadores de outros Estados. Perguntei quais, e Sérvio disse que há experiências no Maranhão, e em Alagoas, na praia de Coruripe.

    Desde o Amapá e até aqui, tudo que vimos de maricultura é a criação de camarões. Apesar de termos uma costa grande, e da variedade de seus ecossistemas, tudo que se tenta é a carcinicultura com um tipo originário do Pacífico.

    Agora preste atenção à informação que nos foi dada por Mônica Dorigo em Maceió. De acordo com ela, pesquisadores do CPN, do Ibama, já encontraram esta espécie, o vannamei, em redes de arrasto ao longo da costa. Ou seja, ele JÁ COMEÇA A OCUPAR O ESPAÇO DAS ESPÉCIES NATIVAS. É, ou não é, o fim da picada?

    Bem, depois da visita seguimos para Aracaju e de lá fomos para o sul, até a divisa com a Bahia.

    Dormimos na Praia do Saco, numa bela pousada, simples mas extremamente bem tratada. A pousada Florais do Atlântico.

    Quarta- feira, 07- 12- 2005.

    Esta manhã saímos em um barco com motor de popa que alugamos em Porto de Nangola, ao lado da vila onde dormimos, e atravessamos um lagamar formado pelos rios Piauitinga, do lado de Sergipe, e rio Real e seus afluentes, do lado baiano, até chegarmos em Mangue Seco, pequena vila na fronteira entre os dois Estados. O trajeto, que dura cerca de 20 minutos, é uma beleza. Os rios são muito bonitos e a visão de Mangue Seco ao fundo, com suas dunas e praias é espetacular.

    O pequeno povoado tem cerca de 300 moradores, e sempre foi uma espécie de entreposto para barcos que escoavam a produção de açúcar e traziam sal. Eles costumavam parar em Mangue Seco para se abastecerem de água antes das viagens mais longas.

    Atualmente a região ainda não está sofrendo o assédio do turismo, especialmente porque a Linha Verde, estrada costeira baiana, ainda não chegou até aqui. Mas muito em breve a ligação será concluída.

    Hoje há oito pousadas, duas delas de portugueses. A vila é bem pequena, com ruas de areia, casas simples e bem cuidadas, tudo muito pitoresco. E uma paisagem em volta estonteante. Não tenho dúvidas de que, assim que as estradas chegarem, a paz de Mangue Seco será comprometida.

    Conversamos com alguns moradores que já perceberam o interesse de grandes grupos hoteleiros, e temem por isto.

    Depois alugamos um bugue para passear e ver de perto as dunas.

    Nossa primeira parada foi na vila de Coqueiro, ao lado de Mangue Seco. Assim que chegamos chamou minha atenção enormes canoas baianas, abandonadas, apodrecendo debaixo de uma frondosa árvore. Não resisti e pedi para parar.

    Desci e fui ver de perto. Lindas, imensas, algumas construídas em um tronco só, de Pequi, conforme me explicaria depois um antigo construtor. As canoas baianas são talvez os mais belos barcos artesanais brasileiros. Rústicos e impressionantes. As maiores, como estas (vide fotos), usavam duas velas triangulares. A menor era colocada quase no bico de proa, e a maior um pouco atrás, mas ainda na parte da frente. Segundo me contaram, elas navegaram até meados dos anos 70 e depois foram abandonadas pela dificuldade de manutenção, peso grande de suas velas, e porque não eram mais tão úteis no transporte de carga.

    Fizemos uma passagem do programa de TV sobre as canoas. E isto chamou a atenção dos moradores que estavam por perto.Eles se protegiam do sol na sombra da gigantesca copa da mesma árvore embaixo da qual repousavam os cascos. Um deles ao ver meu interesse contou sobre um antigo construtor, seu Alfredo, que ainda vive em Coqueiro. Fomos na casa dele para um bate- papo e uma entrevista.

    Seu Alfredo, com o rosto marcado pela idade, ficou entusiasmado e nos contou como era no tempo em que ele mesmo as construía. Depois disse da dificuldade em achar madeira boa por perto, da pressão do Ibama, e do desinteresse atual. Hoje, como consolo, ele constrói miniaturas. Uma delas, belíssima, ficou comigo. Não resisti em ter mais este modelo.

    Felizmente a costa de Sergipe e, ao menos a parte Norte da costa baiana, ainda usam canoas tradicionais na pesca e transporte de pessoas, mas são de outro tipo. Menores, mais leves, muitas usando duas velas quadradas. São as canoas sergipanas que encontramos desde a foz do São Francisco até aqui em Mangue Seco. A diferença principal entre as baianas e as sergipanas, é que as últimas não são mais escavadas em troncos de árvores. Suas formas são um tanto diferentes, com proa bem afilada, pontiaguda mesmo, e popa reta. E são construídas com taboas. O leme geralmente é móvel, em forma de um comprido remo. Elas ainda têm uma bolina lateral movel, para ajudar a mantê-las estáveis em ventos mais fortes.

    De Coqueiro fomos até uma pequena comunidade de pescadores, a Aldeia de Apraiú, com suas casas construídas com palha. Depois passeamos pelas enormes dunas móveis que cercam toda a região. Vista linda lá de cima. Pena que as lagoas, que ficam cheias no inverno com água da chuva, estavam secas, já que nossa visita aconteceu quase no início do verão.

    Antes de voltarmos para Aracaju, onde ficou o Mar Sem Fim, recebemos uma nova denuncia de uma grande área devastada pela criação de camarões. Desta vez dentro de uma APA no rio Real, um dos que formam o lagamar em torno do qual fica Mangue Seco. Já era tarde, não daria tempo para gravar. Tivemos que voltar para pequena pousada da Praia do Saco, onde dormimos ontem, para passar mais uma noite. Vamos tentar de novo amanhã.

    Quinta-feira, 08- 12- 2005.

    Hoje cedo mais uma vez alugamos um barco e fomos explorar o rio Real, atrás das imagens da fazenda de camarões. Foi uma dificuldade. No trajeto vimos várias placas colocadas pelo Ibama, chamando a atenção dos visitantes para que preservem a área, já que se trata de mais uma ” área de proteção ambiental ” entre aspas mesmo. Mais uma vez chamo a atenção pelo engodo. Me engana que eu gosto.

    Quando dissemos aos barqueiros sobre nossa intenção todos ficaram com medo. Mas será que podemos ir lá? Vocês pediram autorização? Eram as perguntas freqüentes. Tive que explicar que subir um rio não é algo que exija autorização de quem quer que seja. E assim seguimos em frente, sempre com muito receio por parte do piloto.

    Quando entramos poucas milhas rio adentro já deu para ver a unidade de processamento da Lusomar e seus enormes galpões.

    Vejam as fotos em nosso site e saibam que onde há tanques de criação e outras construções, antes havia mangue, um dos mais importantes berçários de vida marinha. Foram detonados pela Lusomar.

    Parece que, infelizmente, a Bahia aderiu com força ao modismo auto- destrutivo da carcinicultura. Pesquisando na internet descobri mais sobre a Lusomar e o governo baiano.

    No jornal Correio, de 8/03/2003, há uma grande matéria onde se lê que, na Bahia, em 2002 a produção de camarões em fazendas foi de 7,4 mil toneladas, gerando uma receita de dezessete milhões de dólares. Até 2007 o Estado pretende triplicar este volume ampliando a área de 1,7 mil hectares, para sete mil hectares.

    Na mesma reportagem há uma declaração emblemática de um dos proprietários da Lusomar. Eis o que ele disse sobre a carcinicultura na Bahia: ” O que não faltam são áreas apropriadas para a atividade, principlamente com ESTE APOIO QUE O GOVERNO VEM DANDO, ASSUMINDO A INFRAESTRUTURA ” . E conclui: “Isso é importantíssimo para os investidores”.

    Hoje a Bahia é o terceiro Estado em produção de camarões em cativeiro, atrás do Rio Grande do Norte e do Ceará.

    Ainda na internet, achei outra matéria interessante, publicada pelo site Agecom- Assessoria Geral da Comunicação Social do Estado da Bahia, em 02/12/2005.

    A matéria informava que o governador Paulo Souto tinha acabado de assinar um contrato para ampliação da empresa Lusomar, com o objetivo de ampliar em mais cem hectares a área de criação. Para tanto haveria investimentos de 40,9 milhões de reais, sendo que 32,7 seriam financiados pelo BNB, com recursos da FNE- Aquipesca. Importante : BNB é o banco do Nordeste, e FNE, é a sigla para identificar o Fundo Constitucional de Financiamento para o Nordeste.

    Fui atrás das diretrizes do tal fundo e descobri o que segue: De acordo com o texto da lei 7.827, os recursos são para financiamentos dos investimentos quando estes complementam aumento de capacidade produtiva nos setores “agropecuário, de mineração, indústria e agroindústroa regionais”. Mais na frente as diretrizes especificam: ” Tratamento especial ao mini e pequenos empreendedores, e PRESERVAÇÃO DO MEIO AMBIENTE, ” entre outras condições. Fiquei ainda mais perplexo ao ler este texto, porque a própria Lusomar se apresenta como ” uma das maiores exportadoras do país “, portanto não é mini nem pequena. E além do mais destrói o ecossistema enquanto as normas especificam a necessidade da preservação do meio ambiente. Só no Brasil mesmo, para a gente ser obrigado a engolir, com casca e tudo, uma patacoada como esta.

    Voltando ao texto da agência governamental, ele informa que a expectativa do financiamento era de elevar a capacidade de processamento da empresa de 18, para 55 toneladas/dia. Ainda bem que ao menos uma das normas do fundo foi atendida.

    Vejam aí como são as coisas. Agora não apenas um braço do Governo Federal autoriza a destruição da biodiversidade, no caso o Ibama, mas também os governos estaduais contribuem financiando os empreendedores com recursos públicos.

    Durma-se com esta, como se diz.

    Bem, nossa visita à fazenda da Lusomar foi rápida e rasteira. O tempo suficiente para fotografar e gravar a área sem muitos detalhes, porque os funcionários, ao nos verem de longe, já mostravam sinais de animosidade. Enquanto o cinegrafista Cardozo fazia as últimas tomadas um carro da empresa veio em nossa direção. Resolvemos embarcar em nossa lancha e acelerar para Sergipe. Nunca se sabe o que pode acontecer, e não é bom facilitar.

    Amanhã embarcamos para São Paulo, para a edição do material colhido, que vai nos render cinco programas. Enquanto isto meu fiel escudeiro, o incansável imediato Alonso Góes, leva o Mar Sem Fim para Salvador, onde o veleiro passará por pequenos reparos, manutenção, limpeza e pintura do casco.

    Retomamos as viagens a partir de Janeiro.

    Boas festas, e mais atenção com os Oceanos em 2006, são os votos do Projeto Mar Sem Fim à todos que nos acompanham.

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