Navio Prof. W. Besnard, afundando história

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Navio Prof. W. Besnard- Indecisão pode levar o navio oceanográfico brasileiro para o fundo das águas de Ilhabela

Nunca naveguei no navio Prof. W. Besnard, mas bem que gostaria. Aquilo não é um barco, é uma lenda náutica. O navio oceanográfico Prof. W. Besnard, assim batizado em homenagem ao russo- francês, Wladimir Besnard, cientista trazido ao Brasil pelos fundadores da USP para organizar e dirigir o Instituto Oceanográfico da USP em seus primeiros 14 anos. Tarefa que executou com muito brilho.

Besnard desde sempre não abriu mão de um navio de pesquisas. Para dar forma ao modelo escolhido pela Universidade de São Paulo, definiram o  estaleiro  A/S Mjellem Karlsen, em Bergen, Noruega, a quem coube o projeto final da embarcação.

Navio Prof W Besnard, afundando nossa história, imagem do navio Prof W Besnard
O desbravador da Antártica

Navio foi entregue em 1967

Em 1967, já batizado em homenagem ao seu idealizador morto pouco antes, ele foi entregue e trazido para Santos.

23 anos navegando ininterruptamente, mais de 150 viagens, e 50 mil amostras de organismos marinhos

O Prof W Besnard navegou mais de 3.000 dias. Durante os primeiros 23 anos, o navio navegou sem interrupções! Só de Antártica ele acumula seis expedições. Ao todo, foram mais de 150 viagens! 68 diários de bordo para contar a história, ou mais de 50 mil amostras de organismos marinhos coletados, algumas não catalogadas até hoje.

Navio Prof W Besnard, afundando nossa história, imagem do navio Prof Besnard no porto de Santos
navio Prof. W. Besnard: pequeno e bravo

Carreira coroada de sucessos

A carreira do pequeno Prof. W. Besnard foi aquela com que todo mundo sonha: uma carreira de sonhos. Repleta de aventura, expedição, pesquisa  e muito sucesso.

Quantas teorias e descobertas científicas não foram gestadas em seus porões?

Navios são como gente: envelhecem

 Apesar da vida gloriosa, os barcos são como  gente: envelhecem. O ferro perde a briga para a ferrugem, os eletrônicos são substituídos. E a gente vai tocando, fingindo não ver a decadência. Até que um dia alguém decide: “não dá mais chegou ao seu final”.

Crueldade: determinar a morte de um navio

Esta crueldade, determinar o fim da vida de um navio na base da eutanásia,  acontece com grande frequência. Mas quando envolve  algum “conhecido” a gente sente.  Relembrando a história do barco, suas épicas viagens, o caso muda.

Navio Prof. W. Besnard escreveu lindos capítulos das história náutica brasileira

Com a aproximação da aposentadoria, anunciada no início de 2016, o Prof. W. Besnard deixa de ser um simples navio. Torna-se  um nostálgico capítulo, dos mais bonitos e importantes, de nossa história náutica.

Navio Prof. W. Besnard, afundando história
navio Prof. W. Besnard. O comando

O final, indigno de sua importância, se aproxima

Numa traiçoeira tarde de novembro de 2008, um incêndio irrompeu num dos camarotes do navio  fundeado na Baía de Guanabara. Não houve vítimas, e os próprios tripulantes controlaram a situação. Mas o incêndio, no navio que por mais de 45 anos serviu a Universidade de S. Paulo, pôs o ponto final em sua história. Mesmo assim ele continua vivo. De acordo com informações, e fotos de amigos que visitaram o Besnard recentemente,

a casa de máquinas está em perfeito estado. Motores, geradores, tudo funcionando. E nem uma gota de água nos porões do navio.

Navio Prof. W. Besnard, afundando nossa história, imagem do motor do navio Prof W Besnard
navio Prof. W. Besnard. Casa de máquinas com equipamentos em bom estado

O Besnard está na UTI, à espera que desliguem os aparelhos que o mantém vivo

Navio Prof. W. Besnard, afundando história
Aspecto interno

Como demonstram as fotos, apesar da idade o “coração do Besnard”, a casa de máquinas,  parece em bom estado apesar de, externamente, ele estar mal tratado.

Navio Prof. W. Besnard, afundando nossa história, imagem do porão do navio Prof W Besnard
navio Prof. W. Besnard

Possibilidades do destino

Uma, era que o navio virasse atração no Museu Marítimo do Valongo, um acanhado museu de Santos. A ideia não teria vingado pela “dificuldade de tirar o Besnard da água e coloca-lo num berço em terra firme”. Um valor ridículo, que bem poderia ser coberto pela prefeitura de Santos.

Outra, mais exótica, foi doa-lo ao Uruguai, onde seria remodelado e voltaria à pesquisa. Ainda não foi desta vez. Leva-lo ao Amazonas? Até isso foi cogitado, além da possibilidade de retalha-lo e vende-lo aos pedaços.

Decisão adotada: afundar o Besnard

Mas a solução mais votada parece ser afunda-lo na região da Ponta da Sela, litoral sul de Ilhabela. E ali, numa profundidade entre 20 e 25 metros, esperar que seu casco seja colonizado para, aos poucos, se transformar em um novo habitat marinho. Seria um destino menos cruel que o retalhamento mas, na opinião do Mar Sem Fim, ainda assim seria um duro golpe final para o icônico barco.

Porque não deixa-lo seguir sua linda história de pesquisa e ensino, tornando-o um museu?

E esta, por acaso, não seria a melhor oportunidade para contar nossa bonita história na Antártica? Transformando o Besnard em museu flutuante o navio continuaria vivo, servindo o Brasil, ensinando às futuras gerações como foram nossos primeiros passos no ‘Continente Gelado’. Mas, para isso, é preciso uma mobilização pública, negociação com o prefeito de Ilhabela, e montagem de um grupo capaz do necessário financiamento para a  transformação.

A USP e o navio Prof. W. Besnard

A USP conta atualmente com dois navios oceanográficos: o Alpha Crucis, entregue em 2012, e o Alpha Delphini, no ano seguinte. Segundo Frederico Brandini, diretor do Instituto Oceanográfico da USP, o IOUSP, entrevistado pelo Mar Sem Fim,

todos queriam que o navio se transformasse em Museu, mas não encontramos interessados. Por isso tiramos todas as peças importantes como timão, lanternas, instrumentos de navegação, livros de bordo, fotografias, e levamos para o Museu do Instituto Oceanográfico da USP. O único interessado na carcaça do navio foi o prefeito de Ilhabela, Toninho Colucci, que ainda esta semana deve assinar o termo de doação junto à direção da USP.

navio Prof. W. Besnard, imagem do navio de pesquisa da USP alpha-crucis
Um dos novos navios de pesquisa daUSP

Custo mensal é de 25 mil reais

O custo mensal de manutenção do Besnard é de cerca de 25 mil reais, basicamente o salário da tripulação, e o custo de um vigia permanentemente a bordo do navio  atracado no porto de Santos.

É um valor alto para uma Universidade que sempre tem limitações de verba

Prefeito de Ilhabela promete rebocar o Besnard em, no máximo, seis meses

Segundo Brandini, Toninho Colucci, prefeito de Ilhabela, pediu seis meses para rebocar o Besnard para seu destino final: o afundamento na Ponta da Sela.

Não basta afundar de qualquer jeito

Para aqueles que não se conformam com o destino do Besnard ainda há tempo para transforma-lo em Museu flutuante. Projeto mais caro que o afundamento, que também demanda custos consideráveis. É preciso preparar o navio, limpa-lo por dentro, retirar uma série de peças, fazer um projeto, ter aprovação do EIA RIMA, etc. Não se trata de um simples afundamento. Há um protocolo internacional a ser seguido, providências que ainda não foram tomadas pela Prefeitura de Ilhabela.

Portanto, ainda há tempo para mudar seu destino. Dependeria de um acordo com o prefeito, um levantamento de custos para mante-lo flutuando, mais os custos de manutenção, pintura, eventuais reformas internas. O projeto exigiria a concordância do tresloucado Toninho Colucci, um político que já deu provas de não valorizar nosso patrimônio náutico, e a fundamental participação da iniciativa privada.

Transformar o Prof. W. Besnard em Museu: sonho quase impossível

Infelizmente o “Brasil deu as costas para o mar”. Não valorizamos nossa extraordinária herança náutica; nas escolas ou faculdades, a saga ultramarina portuguesa não merece o devido destaque, o brasileiro comum mal a conhece. Não cultuamos a mentalidade marítima. E isso dificulta o projeto.

O Mar Sem Fim se dispõe a ajudar caso queiram lutar pelo Museu flutuante

Esta ignorância de nossa dependência marítima desde 1500 até hoje, torna a missão de transformar o navio Prof. W. Besnard em Museu flutuante uma tarefa quase impossível. Mesmo assim se alguém, ou algum grupo, quiser organizar esta alternativa, desde já conte com o apoio do Mar Sem Fim.

Seria uma bela herança às futuras gerações, e um sinal de respeito, de mudança de mentalidade marítima.

Vamos à luta?

Saiba porque o Mar Sem Fim é portuguez…(com ‘z’ mesmo, na publicação original).

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19 COMENTÁRIOS

  1. boa tarde tenho uma epresa em santos de reparo naval na area de mecanica, solda, usinagem. a embarcação ja fiz serviços no passado precisando de orçamento estamos pronto para atendre. marcus v. guimaraes. tel.3233-2545 – cvel. 99104-6493

  2. Tomei contato a pouco com esta publicação e fiquei feliz em saber que João Lara está por trás dessa iniciativa.
    Ocorre o seguinte; estou encarregado pelo Instituto de Ciências de São Paulo, o ICASP de representá-los no próximo dia 31 de março, em Ilhabela, na reunião que definirá o destino do Navio Prof. Besnard. A proposta do Instituto é torná-lo um Navio Escola para os cursos voltado as ciências do mar em nível técnico e, com alguma sorte, utilizar suas instalações para preparar novos aquaviários além de condutores nos níveis Arrais, Mestre e Capitão. Nosso Instituto ainda vê a possibilidade de estruturar projetos sociais voltados à educação de jovens carentes dos municípios circunvizinhos. Enfim, estaremos lá pra tentar garantir a continuação da história do Navio Prof Besnard. A propósito, além de ser oceanógrafo e de ter navegado no Besnard, fui o mergulhador que mergulhou no Tietê quando você, João Lara, era o Presidente do SOS Mata Atlântica. Um abraço, Luiz Roberto

  3. Olá.

    Assim como o Vilberto, fui aluno de oceanografia da segunda turma do bacharelado. A situação que o navio se encontra é de muita tristeza realmente.
    Participei de algumas expedições, pela costa brasileira. Infelizmente nas expedições Antartica o prof. Besnard ja estava aposentado.Passamos por excelentes momentos nele e também por momentos que foram bastante preocupantes para nós, mas que não vem ao caso.
    Bem como a opinião do Vilberto e do Roberto Ávila (que também tive o prazer em trabalhar com ele) acredito sim que a melhor opção seria a de afundamento.
    O prof Besnard nos serviu para o registro de tantos dados, tantas coletas! E porque não ele agora fazer parte de novos estudos, novas pesquisas.
    Fizemos parte de uma pequena página da história desse grande navio. Mas talvez recuperá-lo para novas expedições traria muito custo para o empreendimento.
    De fato, acho sim que agregaria mais valor e daria um final mais digno ao navio prof. Besnard se ele fosse afundado. Ao mar, com certeza, retornarás…

    • Olá, Thiago, muito obrigado pelo correio. Pelo visto todos concordamos. Se é muito caro transforma-lo em museu, que seja afundado e colonizado. abraços

  4. De museus vazios e à beira da insolvência o Brasil está cheio. Eu proporia atracá-lo em algum pier da Ilhabela, aproveitando algum dos existentes (no do Perequê talvez) ou fazendo-lhe um exclusivo (em algum lugar a ser escolhido entre Barra Velha e Vila), mantendo-lhe o aspecto externo, reformando o interior e adaptando os conveses de maneira a torná-lo um local de lazer, com restaurantes, cinema, café (não excluo a possibilidade de lojas). Até um ambiente para “convenções de bolso” talvez pudesse abrigar. O interesse histórico, sem que a embarcação fosse transformada num museu exclusivo, desenvolver-se-ia em meio à ambientação das atividades propostas.

  5. Realmente esta situação de abandono não é nem um pouco digna para um navio que tanto nos serviu.
    Como aluno da terceira turma de graduação do IO USP tive o prazer de participar de um de seus últimos cruzeiros de pesquisa ao longo da costa paulista.
    Assim como o Roberto Avila também acredito que seu afundamento também seria uma maneira deste pequeno grande guerreiro continuar contribuindo para a ciência marinha brasileira. Seria um marco na discussão sobre implementação de recifes artificiais no estado de São Paulo, já que não se tem tanta noticia de recifes de colonização e turismo subaquático.
    Entretanto, também gostaria de vê-lo soberano, flutuando, e de porto em porto levar esta importante história que tão poucos conhecem.
    E não digo apenas as historias de desbravamento do continente gelado, mas também a historia da ciência marinha do Brasil.
    Enfim, seja qual for o final deste Navio, que este final seja melhor do que ficar a exposto a corrosão e abandono.

    • Olá, Vilberto, pelo visto todos somos admiradores do Besnard e o tanto que ele nos serviu. Concordo com vc que o navio não pode ficar simplesmente apodrecendo no cais até afundar. Seria indigno demais. Vamos pedir à USP que seja breve no encaminhamento da questão. E tomara que um dia o Besnard esteja repleto de corais, descansando no fundo do mar, e visitado por mergulhadores. Grande abraço e volte sempre!

  6. Pessoal, eu também embarquei diversas vezes no Besnard, incluindo a IV Expedição à Antártica. Soube que condições do casco do Besnard estão bem precárias. Acredito que qualquer tentativa de colocá-lo no seco para transformá-lo em museu pode danificá-lo ainda mais. Acho que o melhor seria retirar partes importantes como a sala de comando e outras, e junto com documentos, registros e fotografias das expedições realizadas com ele, colocar num espaço onde possa ser visitado pelo público. Sou a favor do afundamento do casco para transformá-lo num grande recife artificial que seria um laboratório vivo para pesquisa científica, tema para educação ambiental e turismo ecológico. Assim a história deste belo navio teria continuidade contribuindo ainda mais para o aumento do conhecimento sobre a vida marinha, além de gerar empregos diretos e indiretos através do turismo, como é feito em diversos países com absoluto sucesso.

    • Olá, Roberto, seja bem- vindo a bordo do Mar Sem Fim! E muito obrigado por sua colaboração. De fato, a transformação do Besnard em recife artificial é uma das possibilidades ainda que eu, particularmente, prefira a opção do museu. É muita história, muitas viagens para relembrar. Abraços

      • Caro João, acho que as duas opções são bem possíveis desta forma. E vejo que muitos trabalhos científicos – dissertações de mestrado e teses de doutorado, poderão ser realizados sendo ele um laboratório vivo tão próximo das instituições de ensino e pesquisa. Será o primeiro naufrágio controlado do Estado de SP. Nesse “espaço” poderá ser mostrado também a evolução da colonização do navio pela biota marinha, e mostrar os resultados das pesquisas. Todo mundo ganha com isso.

  7. trabalhei embarcado na embarcação veliger 2, 1980 que tbm faz parte do instituto oceanagráfico e recebi uma medalha de tripulante honorario da expidição proantar primeira pesquisa da antartica com esse navio,pra mim o prof.w.bernades é e sempre serar o um navio de grande importançia para ser ocupado por novos biologos do brasil pois fazendo um museu dele daria para mostrar aos novos biologos oque esse navio de pesquisa foi na déca de 1980 e importançia em mante-lo flutuando ok abrs.

    • Olá, Marcelino, seja muito bem- vindo a bordo do Mar Sem Fim.Parabéns pela medalha, e vamos engajar mais pessoas. Compartilhe o post nas suas redes sociais, isso ajuda bastante. E tomara que seja possível o Museu Prof. W. Besnard. Seria lindo, abraços

  8. Mar Sem Fim poderia encabeçar um abaixo assinado virtual e com isso encaminhar aos parlamentares para a ideia do museu se concretizar. Sugestão.

    • Olá, Alcione, bem- vinda a bordo. Mas não, o máximo que o Mar Sem Fim pode fazer é apoiar alguma iniciativa concreta, bem- feita, envolvendo a iniciativa privada, etc. Neste momento em que a economia derrete, não dá pra contar com dinheiro público. Mas obrigado de qualquer jeito. Saudades de vc e suas incríveis histórias. Mulher guerreira!

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