Navio encalhado no Maranhão, mais problemas no litoral

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Navio encalhado no Maranhão, mais problemas no maltratado litoral brasileiro

Nem bem acaba um problema no litoral, e já vem outro  em seguida. O navio encalhado no Maranhão, em 24 de fevereiro, é o problema da vez. O MV Stella Banner havia saído do terminal de Ponta da Madeira, porto de Itaqui, Maranhão, e pretendia tomar o rumo da China onde entregaria sua carga de 294,8 mil toneladas de minério de ferro. Mas o monstro de ferro, com nada menos que 340 m de comprimento por 55 metros de largura, não foi muito longe . A menos de 100 quilômetros da costa encalhou em um banco de areia e adernou, ameaçando naufragar. Além das quase 300 mil toneladas de minério de ferro, ele tem em seus porões  4 milhões de litros de óleo combustível.

imagem de navio encalhado no Maranhão
Imagem, Marinha do Brasil.

Navio encalhado no Maranhão

Em 30 de março de 2020 a Marinha do Brasil informou que a primeira medida para mitigar o acidente, a retirada do óleo combustível, foi realizada com sucesso. Esta medida era fundamental para evitar um desastre ecológico. A próxima etapa será a retirada de pelo menos parte da carga. A seguir, os detalhes do acidente.

Minério de ferro para a China

A embarcação sul-coreana MV Stella Banner, que levava minério de ferro da Vale para a China, tem uma área equivalente a mais de três campos de futebol! Por aí se vê o tamanho da encrenca que, mais uma vez, envolve a mesma companhia que está se tornando a NÚMERO UM em acidentes ecológicos, embora desta vez a culpa não seja dela. A Vale assinou o atestado de óbito de 19 pessoas, e do rio Doce, quando do acidente de Mariana em novembro de 2015. Até hoje ninguém foi condenado pelo acidente. Talvez por isso mesmo, em 25 de janeiro de 2019 a empresa protagonizou o maior acidente entre mineradoras do mundo: Brumadinho matou 270 pessoas, e mais um rio, o Paraopeba.

O mais triste destes dois mega acidentes é que aconteceram por uma legislação já frouxa, que agora corre o risco de ser ainda mais decepada: o licenciamento ambiental. Sobre estes acidentes pré-anunciados, escreveu o físico, e ex-ministro do Meio Ambiente, José Goldemberg:

Os desastres ambientais de Mariana e Brumadinho põem na ordem do dia, com alta prioridade, o problema do licenciamento ambiental. Isso significa uma séria inversão de prioridades do governo federal. A reorganização administrativa promovida em janeiro levou à extinção e realocação de várias áreas ligadas a questões ambientais, o que indicava uma visão desenvolvimentista em que o licenciamento ambiental parece ser um obstáculo ao desenvolvimento…Estamos pagando hoje o preço disso com os desastres de Mariana e Brumadinho

Navio encalhado no Maranhão, ‘mais uma agressão a um paciente já debilitado’

O Mar Sem Fim entrevistou o professor Alexander Turra, Professor Titular do Departamento de Oceanografia Biológica da USP, cuja linha de pesquisa são os usos, impactos e gestão de recursos e ecossistemas marinhos. Ao perguntarmos quais os efeitos de mais este acidente, não titubeou: “é mais uma agressão a um paciente já debilitado”. Para ele, neste primeiro momento o mais importante é ‘combater o óleo’, referindo-se aos 4 milhões de litros de óleo combustível que movem o navio.

imagem de navio encalhado no Maranhão
Imagem, MB.

Turra torce para que o navio seja recuperado, e considera que ‘neste primeiro momento, o óleo é o principal problema’.

‘É cada vez mais frequente algum tipo de negligência não intencional no litoral’

A frase acima foi mais uma que pinçamos da entrevista de Alexander Turra. Para o professor, ‘este é mais um problema num caldo que já conta com Mariana, a sobrepesca, e tantos outros’. E ele pergunta: ‘com que cuidados estão fazendo a avaliação das coisas que acontecem no mar?’ Quem responde é o próprio Alexander Turra, ao lembrar que o Plano Nacional de Adaptação à Mudança do Clima, instituído em 2016, repousa no fundo de alguma gaveta do Ministério do Meio Ambiente, cujo titular, acrescentamos, duvida que exista. Turra ainda lembrou de outro, o O Procosta, Programa Nacional para a Conservação da Linha de Costa, de 2018, que também dorme em berço esplêndido.

Enquanto isso, ainda em fevereiro, Ricardo Salles exonerou servidores de alto escalão que atuavam no combate às mudanças climáticas na Secretaria de Relações Internacionais do MMA.

O minério de ferro do MV Stella Banner

O professor Turra explicou que as 294,8 mil toneladas de minério de ferro são um tipo de rocha semi processada. Um tipo de sedimento enriquecido de ferro, ‘que destoa do ambiente marinho’ e que tem alto grau de toxidade. Se o material for para o fundo do mar ‘haverá decantação, como se fosse um aterro, provocando morte instantânea da vida marinha porventura atingida’.

imagem de navio encalhado e manchas de óleo
Imagens captadas pela Marinha mostram manchas espalhadas ao redor da embarcação Foto: Marinha do Brasil.

Mas esta probabilidade é menor. Caso o navio afunde, o mais provável é que o minério fique contido nos porões do navio. Já o óleo, que começou a vazar alcançando um raio de 1 KM ao redor do navio, este seguirá pelas correntes subindo a costa e, provavelmente, mais uma vez atingindo o litoral que naquela parte é basicamente formado por manguezais, um dos mais importantes berçários de vida marinha.

Assista ao vídeo e saiba mais



Imagem de abertura: Marinha do Brasil
Fonte: https://sustentabilidade.estadao.com.br/noticias/geral,oleo-ja-atinge-raio-de-quase-1-quilometro-ao-redor-de-navio-que-esta-afundando,70003213850; https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2020/03/retirada-do-oleo-de-navio-encalhado-no-ma-foi-concluida-diz-marinha.shtml.

Diário da expedição de Robert Scott achado na Antártica

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1 COMENTÁRIO

  1. Eu vi a filmagem do resgate do “Mar sem fim” na Antártica. Uma pena que no nosso litoral a preocupação com o prejuízo ambiental não seja tão relevante. Não seria ruim se escrevesse sobre o que foi feito e o que teria que ser feito se tivesse ocorrido vazamento do combustível lá. Como sempre parece que nossa Marinha é despreparada e lerda demais para qualquer resposta.

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