Incêndios florestais – Amazônia, Cerrado e Mata Atlântica

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Incêndios florestais – Amazônia, Cerrado e Mata Atlântica, saiba  as consequências das queimadas

Este post, Incêndios florestais – Amazônia, Cerrado e Mata Atlântica, não tem a intenção de polemizar, nem tratar das causas, ou tamanho dos incêndios na temporada 2019. Fizemos isso no post Amazônia e queimadas, histeria coletiva. O texto de hoje trata de como a floresta reage aos incêndios, sejam eles de que tamanho forem.

imagem da especialista em incêndios florestais, Erika Berenguer
Erika Berenguer.

Dois tratores interligados por uma imensa corrente. Conforme os tratores se deslocam, a corrente vai derrubando e matando tudo. Várias espécies de vegetação, árvores mais novas, animais. Enfim, o que estiver na frente das correntes. Nada escapa. Essa cena de desmatamento é comum. Não deveria ser, mas é. Realizada todos os anos na Amazônia. A ela antecede outra ação devastadora. O corte de árvores maiores e mais velhas, vendidas às madeireiras. Depois de os tratores arrasarem tudo o que sobrou do corte, é preciso esperar um tempo. O necessário para secar o que foi ao chão. Sem umidade, a queima é mais rápida. Daí, basta atear fogo e plantar capim, na sequência. Os incêndios na Amazônia, e suas consequências são o tema de hoje.

Incêndios florestais: na Amazônia  transformam florestas em pasto

É assim que são realizadas as queimadas na Amazônia. Incêndios que transformam florestas cheias de vida em apenas pasto para gado. Quem descreve a cena e dá as explicações é a bióloga Erika Berenguer. Ela é doutora em Ecologia pela Lancaster University. Pesquisadora nas universidades de Oxford e Lancaster, ambas no Reino Unido. E faz parte do Comitê Gestor da Rede Amazônia Sustentável (RAS) – iniciativa criada em 2009 para fortalecer a sustentabilidade na região. Erika é especialista em florestas tropicais. Suas áreas de atuação são degradação florestal, extração madeireira, fogo e desmatamento. A cientista brasileira pesquisa as consequências dessas ações nas florestas, especialmente, na Amazônica.

Cientista brasileira estuda a Amazônia há 10 anos

Pesquisa também os efeitos da degradação das florestas sobre os estoques de carbono. Conhecido como gás carbônico, é o principal responsável pelo efeito estufa e aquecimento global. “Há 12 anos eu trabalho na Amazônia e há 10 pesquiso sobre os impactos do fogo na maior floresta tropical do mundo. Meu doutorado e meu pós-doutorado foram com isso e já vi a floresta queimando sob os meus pés mais vezes do que gostaria de lembrar.” Esta frase da cientista brasileira abriu uma postagem que fez em sua página no Facebook. Um “textão”, como se diz nas redes sociais a respeito de narrativas embasadas e mais longas.

Incêndios florestais colocam em risco as conquistas ambientais

A ideia era explicar ao público leigo as causas e impactos das queimadas que devastam a Amazônia. Incêndios que repercutem e azedam as relações diplomáticas. Bloqueiam acordos comerciais. E colocam em risco as conquistas ambientais. “Me sinto então na obrigação de trazer alguns esclarecimentos enquanto cientista e enquanto brasileira, já que pra maioria das pessoas a realidade amazônica é tão distante”, diz Erika. O post viralizou e já reúne mais de 11.000 comentários e 60.000 compartilhamentos.

Queimadas são causadas por seres humanos

A cientista foi extremamente didática na postagem. “Primeiro, e mais importante, é que incêndios na floresta amazônica não ocorrem de maneira natural – eles precisam de uma fonte de ignição antrópica ou, em outras palavras, que alguém taque o fogo.” Isto é, como ela mesma enfatizou, os incêndios são causados por seres humanos. E são de dois tipos: “Aquele usado pra limpar o roçado e o usado pra desmatar uma área; o que estamos vendo é do segundo tipo. Para desmatar a floresta, primeiro corta-se ela, normalmente com o que é chamado de correntão”.

Impactos dos incêndios florestais da Amazônia na cidade de São Paulo

“Os grandes incêndios que estamos vendo agora e que fizeram o céu de São Paulo escurecer representam então esse último passo na dinâmica do desmatamento – transformar em cinzas a floresta tombada.” A experiência da cientista mostra que é na estação seca que as queimadas se proliferam na Amazônia. O período de seca na Amazônia é durante o inverno brasileiro. “Há anos tento chamar a atenção para os incêndios florestais, como os de 2015, quando a floresta estava excepcionalmente seca devido ao El Niño.” Mas neste ano, afirma Erika, a dimensão do problema é maior.

Mais de 76.000 focos de incêndio no país

O aumento dos desmatamentos e dos focos de queimadas elevaram as emissões de carbono, “o que mostra que a floresta está ardendo”.  “E culminou na chuva preta em São Paulo e no desvio de voos de Rondônia pra Manaus, cidades situadas a meros mil quilômetros de distância.” Erika compara o fogo na região Amazônica ao do Cerrado. Os dois biomas estão sob ataque neste ano.

Incêndios florestais na Amazônia e Cerrado, dois biomas em chamas

Do total de focos, um pouco mais da metade foi registrada na Amazônia. O Cerrado representa quase 30% dos casos.  “Ao contrário de outros ecossistemas, como o Cerrado, a Amazônia não evoluiu com o fogo e esse não faz parte de sua dinâmica. Isso significa que quando a Amazônia pega fogo, uma parte imensa de suas árvores morre, porque elas não têm nenhum tipo de proteção ao fogo”, explica Erika.  Incêndios no Cerrado são tão ruins quanto na Amazônia. Mas nesse bioma o impacto é menor, afirmou à BBC Jos Barlow, doutor em Ecologia e professor da Universidade de Lancaster. “As árvores (do Cerrado) conseguem sobreviver. Depois de seis meses ou um ano, não é possível perceber que passou fogo ali”, ele complementou.

Cerrado tem maior proteção contra o fogo

No Cerrado, assim como nas florestas na costa da Califórnia (EUA), o fogo é natural. As labaredas são maiores. O bioma se desenvolveu enfrentando incêndios em épocas de seca. As árvores naturais do Cerrado têm casca mais grossa. Resultado da evolução da espécie, sujeita constantemente à ameaça do fogo. Ao longo de sua formação, o bioma foi se estruturando para se proteger. As cascas mais grossas protegem o cerne das árvores contra as chamas e as altas temperaturas das queimadas. Assim, conseguem se recuperar rapidamente; e sobreviver a incêndios.

Na floresta Amazônica, fogo destrói mais

Na Amazônia, as cascas das árvores são mais finas. Elas evoluíram ao longo de milhões de anos sem fogo e em umidade crescente. Não estão preparadas para incêndios. Quando se “taca fogo” nessas florestas, as labaredas são menores e de calor menos intenso. Mas se alastram devagar e rasteiramente, altamente destrutivas. O fogo rapidamente atinge o cerne das árvores e a morte é inevitável. “Essa falta de proteção ao fogo na Amazônia significa que a mortalidade de árvores é muito alta. Se uma área de floresta queima, até 50% das árvores dela morrem”, disse a cientista brasileira, desta vez à BBC.

Floresta estoca 100 anos de emissões de CO2 dos EUA

 “Na Amazônia, além da morte de quase metade das árvores da floresta incendiada, as consequências do fogo são notadas até mesmo depois de décadas.Ao morrerem, essas árvores então se decompõem liberando para a atmosfera todo o carbono que elas armazenavam, contribuindo assim para as mudanças climáticas. O problema nisso é que a Amazônia armazena carbono pra caramba nas suas árvores, a floresta inteira estoca o equivalente a 100 anos de emissões de CO2 dos EUA, então queimar a floresta significa colocar muito CO2 de volta na atmosfera”, explica Erika.

Mata Atlântica concentra 10% dos focos de incêndios

Outra floresta que enfrenta problema parecido ao da Amazônia, em relação às queimadas, é a Mata Atlântica. Bioma que também está sob ataque de incêndios. É o terceiro com mais focos – 10,8% dos registros. Assim como a Amazônia, a Mata Atlântica “não queima naturalmente”. “O fogo que a atinge também é causado por ação humana. Mas como ela tem 7% de cobertura de sua área original (a Floresta Amazônica tem cerca de 40%), suas florestas são muito menores. Os incêndios dela causam muitos impactos na biodiversidade e mudanças climáticas, mas por ser muito menor, escutamos muito menos sobre incêndios nela”, diz a pesquisadora.

Taxa de desmatamento estava 70% menor

A cientista chama atenção para o período de seca, que dura até outubro. “O mais alarmante dessa história toda é que estamos no começo da estação seca. Em outubro, quando chegar ao auge do período seco no Pará, a tendência infelizmente é da situação ficar pior. Em 2004 o Brasil chegou a 25.000 km2 de floresta desmatados no ano. De lá pra cá reduzimos essa taxa em 70%. É possível sim frearmos e combatermos o desmatamento, mas isso depende tanto da pressão da sociedade quanto da vontade política. Depende do governo assumir a responsabilidade pelas atuais taxas de desmatamento e parar com discursos que promovam a impunidade no campo.”

Florestas novas absorvem menos carbono

Mesmo que o número de desmatamentos e queimadas não cresça mais neste ano, a Amazônia vai levar muito tempo para se recuperar. “A gente tem árvores enormes caindo. Elas vão morrer. Depois, podem nascer árvores finas. Essas árvores novas crescem rápido, mas têm baixa densidade de madeira. Elas retêm pouco carbono. Não é porque temos uma árvore nascendo que ela vai corresponder à que morreu”, observa Erika. Segundo pesquisas científicas, três décadas após serem queimadas, as florestas têm 25% menos carbono, em relação àquelas que nunca sofreram incêndios. “Isso mostra que a gente precisa de décadas ou até mesmo centenas de anos para que as florestas se recuperem de um incêndio.”

15 bilhões de árvores cortadas anualmente

As florestas primárias, como a da Amazônia e a do Congo, contêm cerca de 300 bilhões de toneladas de carbono. A última estimativa quantitativa aponta que o planeta tinha três trilhões de árvores, em 2015. Mas anualmente são cortadas em torno de 15 bilhões, de acordo com o Project Drawdown. “Desde que os humanos começaram a cultivar, o número de árvores na terra caiu 46%. Estima-se que as emissões de carbono provenientes do desmatamento e da mudança associada ao uso da terra sejam de 10 a 15% do total mundial.” Segundo Erika, aproximadamente 70% da área desmatada na Amazônia é usada para pastagem.

“Sem a Amazônia não há chuva no resto do país”

“É de uma dor indescritível ver a maior floresta tropical do mundo, meu objeto de estudo, e meu próprio país queimarem. O cheiro de churrasco acompanhado do silêncio profundo numa floresta queimada não são imagens que vão sair da minha cabeça jamais. Foi um trauma. Mas na escala atual, não vai precisar ser pesquisador ou morador da região pra sentir a dor da perda da Amazônia. As cinzas do nosso país agora buscam a gente até na grande metrópole. É preciso entender que sem a Amazônia não há chuva no resto do país, seriamente comprometendo nossa produção agrícola e nossa geração de energia. É preciso entender que a Amazônia não é um bando de árvore juntas, mas sim nosso maior bem”, alerta a cientista.

Fontes: https://www.facebook.com/erika.berenguer/posts/10156209640726836; https://www.bbc.com/portuguese/brasil-49459942;  https://www.rasnetwork.org/; https://www.drawdown.org/staff.

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6 COMENTÁRIOS

  1. Achei o artigo muito bom, mas ainda nao chega ao ponto que eu gostaria—-Alguns dados ja’ foram alterados pelos recentes levantamentos da Embrapa portanto o remanescente da Mata Atlantica nao e’ mais 7% etc etc —–Erika anda esta’ na fase do Brasil pre’ CAR—-O que eu lamento e’ que ambientalista so’ aponta problemas NUNCA VI SUGERIR UMA SOLUÇAO—E ‘ preciso saber o que podemos fazer de melhor sem esquecer o HOMEM–Uma das caracteristicas dos brasileiros e’ conversar muito e nao fazer nada—Eu chegava nas rodinhas via cada um externando a sua opiniao depois iam embora viravam a esquina e esqueciam tudo o que foi dito—-

  2. Estadäo, esse artigo é bom muito bom. Porém, vocês colocam a informacäo mais importante no fim. Se o leitor parar no comeco ou no meio, vai ficar sem saber. Vamos dizer em letras garrafais, no título do artigo. “É preciso entender que sem a Amazônia não há chuva no resto do país, seriamente comprometendo nossa produção agrícola e nossa geração de energia”

    • Dalva eu já passei dos 70’s anos e me lembro bem, que no grupo escolar quando a professorinha pedia uma redação com mais de 15 linhas eu usava do artifício de aumentar os tamanhos das letras e se possível usar, escrevia “inconstitucionalissimamente”, que já ocupava uma linha inteira ou mais. Depois, já adulto, fiz alguns trabalhos de tradução inglês/português de textos técnicos e fiquei sabendo que o datilógrafo (que têrmo brega né não??) me cobrava por toques/caracteres quando comecei a me preocupar como dar sentidos “economizando” o máximo o nosso vernáculo e no procedimento pude entender porque jamais passei de algumas páginas nas leituras de Os Lusíadas de Luis de Camões e Os Miseráveis de Vitor Hugo; apesar de não ter tantas folhas Dom Casmurro de Machado de Assis também foi um teste de paciência oriental, mas como era “obrigatório ler e interpretar” e naqueles tempos não tínhamos Control C+Control V e tampouco copiadoras portáteis tive de ler. Eu já li livros em duas horas e títulos como O Tubarão de Peter Benchley e Toxina de Robin Cook, mas poucos autores (e tradutores) conseguem cativar os leitores de forma espetacular. daí podemos ver porque “ciências” não são matérias com grandes públicos.

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