A Rota dos Saveiros

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    Sábado, 28- 01- 2006.

    Nesta etapa nossa tripulação além do Alonso, da Agis, e do Cardozo conta com dois “ reforços ” : meus filhos Luis, e José, com respectivamente dez e oito anos. Já faz mais de um ano que eles não navegam por causa do deslocamento do veleiro para o Norte, para o início das gravações do programa. Então, ao longo do ano que passou, prometi trazê- los nas férias. Chegou o momento. Preveni a tripulação antes, avisei que teríamos trabalho extra, mas eu não teria como negar.

    Em 2005 fiquei quase a metade do ano no barco, e minha ausência muitas vezes provocou sentimentos de incompreensão. Em uma ocasião, um feriado, ao reencontrá- los ouvi o relato de um conhecido que perguntou ao menor, José, se ele via o programa do pai na TV. A resposta não deixou dúvidas : “Não. Não gosto de ver. O programa levou meu pai para longe de mim.” Com o mais velho, Luis, não foi diferente, apesar dele já ter idade para compreender meu novo trabalho. Mesmo assim a ausência constante fez com que sofresse. Por estas e outras tinha ficado acertado que eles tomariam parte numa das etapas e, agora que é mês de férias, o momento chegou.

    Arrumamos nossas coisas no barco, e fomos jantar. Depois cama. Amanhã vamos novamente à Praia do Forte, para gravarmos cenas de filhotes de tartarugas sendo soltos, o que não pudemos fazer na viagem anterior.

    Domingo, 29- 01- 2006.

    Por volta das 11 horas estávamos chegando. Mais uma vez fiquei confuso naquele aglomerado urbano, espremido, onde uma casa num dos condomínios mais chiques, o Condomínio dos Pescadores, pode custar entre 700 e 800 mil reais. E mesmo assim ela também está cercada por diversas outras, algumas quase grudadas. A coisa é tão séria que um biólogo do Tamar que nos acompanhou contou que o aluguel de um apartamento, do tipo quitinete, com um minúsculo quarto, não sai por menos de 800 reais por mês ! Aqui a especulação imobiliária bate recordes diariamente. A pressa em ganhar dinheiro é tamanha, que passou a ser negócio comprar um imóvel numa determinada época, e revendê-lo por bem mais, dois ou três meses depois… O ritmo de ocupação e construção é frenético. Grifes de moda estão em cada esquina. Enfim, o que se vê faz lembrar as praias mais ocupadas do Rio e São Paulo, como Búzios ou Guarujá. E como elas a Praia do Forte está muito próxima da capital, cerca de 60 quilômetros, e cada vez mais se torna uma opção para os fins de semana, as casas de veraneio, os ônibus de turistas que passam o dia, etc. É inevitável.

    Passeamos pelas instalações do Tamar que tem tanques com quase todas as espécies dos peixes importantes da região. Para desapontamento do Luis, as moréias que ele tanto queria ver haviam sido removidas. No fim do dia, hora do sol mais fraco, fomos de carro até um local da praia quase deserto, para então podermos soltar os pequenos animais.

    Luis e José adoraram. Nossos acompanhantes do Tamar, Carlos e Paulo, deixaram que os meninos soltassem as tartarugas e eles curtiram demais.

    No diário de bordo passado comentei que falaria mais sobre Tamar, porque vale a pena conhecer. É um trabalho que merece todos os elogios e, também para que eu não seja injusto, já que venho malhando constantemente o Ibama. Mas vamos por partes, a história é longa.

    Seu começo foi no Sul, na cidade de Rio Grande. Mais precisamente na Faculdade de Oceanologia, da Universidade de Rio Grande, no final dos anos 70, início dos 80. Naquela época alguns alunos mais adiantados, gaúchos, cariocas e paulistas, sonhavam em conhecer cada palmo do litoral brasileiro, até então quase virgem e muito pouco estudado. Tanto fizeram que acabaram conseguindo chegar em Fernando de Noronha, Abrolhos, e no Atol das Rocas. Foi no Atol que presenciaram uma cena que impressionou tanto, que acabaria redundando na formação do Projeto Tamar. Numa manhã os estudantes acordaram e viram estranhas marcas na areia. Não descobriram a causa até que naquela noite os pescadores que os levaram desceram no Atol e mataram onze tartarugas. Foi uma cena impressionante que causou forte impacto. Para muitos era a primeira vez que viam uma tartaruga marinha.

    As expedições cresceram, ganharam patrocínio, e reuniram muitas informações e dados. Fotos e vídeos foram feitos. Alguns chocantes, como o que mostrava a morte das tartarugas no Atol, ou cenas em que se viam pescadores utilizando filhotes de gaivotas como isca para lagosta. Era preciso fazer algo. Nascia, na Faculdade do Sul, entre estes alunos e seus mentores, o germe da proteção ao ecossistema marinho.

    Até aquela época a atenção das autoridades era dirigida exclusivamente aos parques nacionais, e ecossistemas terrestres. Esta é apenas mais uma prova do descaso com o espaço marítimo, como já alertei . Resumindo: os integrantes daquele grupo da Faculdade, em suas viagens, acabaram demonstrando a necessidade de criação da Reserva Biológica do Atol das Rocas (1979), do Parque Nacional de Fernando de Noronha ( 1988), do Parque Nacional Marinho de Abrolhos, e na necessidade de se fazer o primeiro levantamento de desova de tartarugas do litoral brasileiro. Ao mesmo tempo, um senso sobre os peixes- boi foi posto em prática.

    Depois de muito mexer os pauzinhos, em Brasília, para contornar a eterna burocracia, Maria Tereza Jorge Pádua, uma das que tomava parte nas viagens, conseguiu financiar todas estas iniciativas através do IBDF (Instuto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal). Com a ajuda de um sem-número de pessoas, entre as quais o Almirante Ibsen Gusmão, mais adiante ela ainda cirou o Projeto Peixe- boi, e o Projeto Tamar, entre outros.

    Neste período contrataram o biólogo Guy Marcovaldi, para fazer o levantamento das tartarugas, e José Catuetê de Albuquerque, para os peixes-boi. Eles foram os embriões destas duas ilhas de excelência, criadas dentro do Ibama. Amanhã explico como funcionam.

    Segunda- feira, 30- 01- 2006.

    Hoje cedo fizemos uma entrevista com pesquisadores da ONG Pangea, que tem muitos trabalhos na Baía de Todos os Santos onde atuam com os pescadores artesanais. Mais tarde tínhamos hora marcada com o presidente da Bahiatursa, para falarmos sobre o turismo de massa na costa baiana, mas nos atrasamos. Vamos ter que marcar novamente.

    Passamos quase toda a manhã com o pessoal do Pangea. Quando terminamos devolvemos o carro alugado, fizemos compras no supermercado, e corremos para o barco, a tempo de chegar de dia na ilha de Itaparica.Ali queríamos entrevistar o professor e antropólogo português, Pedro Agostinho, há muito radicado no Brasil, autor do livro “Embarcações do Recôncavo- um estudo de origens”.

    Deu tempo. Às quatro da tarde estávamos fundeando na baía de Bom Despacho, próximo de Mar Grande, onde ficava a casa em que ele estava. E tivemos uma deliciosa conversa.

    Pedro é filho de criação de Judite Cortesão, uma figura extremamente conhecida e admirada entre os ambientalistas, que por sua vez é filha do grande historiador Jaime Cortesão, autor de livros fundamentais sobre o período das grandes descobertas. O bate- papo começou com Pedro relatando o episódio em que sua mãe e avô, em fuga de Portugal por causa de uma revolução, foram acabar na Espanha em plena Guerra Civil. Lá, Jaime Cortesão foi confundido com um espião alemão, e preso pelas brigadas internacionais, que o levaram para o “ paredão ”. O notável escritor só se salvou por milagre, quase no último minuto, ao ser finalmente reconhecido. Em seguida pai e filha empreenderam nova e cinematográfica fuga, desta vez saindo da Espanha, atravessando a pé os Pirineus, para se refugiarem na França.

    E das guerras civis fomos para o Recôncavo, quando a conversa finalmente entrou no tema que tinha originado o pedido de entrevista, ou seja, os barcos tradicionais da Bahia.

    Pedro é um especialista, além de apaixonado, e diz ter raiva de ver o sumiço destes barcos.

    Perguntei sobre a velha polêmica que procura elucidar a origem do Saveiro, já que alguns dizem que era oriundo de Portugal, enquanto outros afirmam ser da Índia, apenas trazido para cá pelos portugueses. Esta é a tese defendida pelo arquiteto baiano, já falecido, Lev Smarcevisky, autor de “Graminho- a alma do Saveiro”.

    Pedro elogia vários aspectos da obra, mas discorda do capítulo que trata da origem, e explica quais pontos devem ser os focos de atenção em estudos semelhantes: o casco e o aparelho (estilo das velas) . Em seguida discorreu sobre a tradição dos barcos indianos e árabes, de terem seu casco costurado, enquanto os de Portugal, assim como os Saveiros, utilizam pregos e pinos de madeira. E só isto já é motivo suficiente para não se ter dúvidas quanto à origem. É portuguesa, com certeza. Quanto ao aparelho, Pedro diz que os saveiros de pena, por exemplo, usam um tipo idêntico ao das caravelas (velas latinas, conhecidas como bastardas, triangulares) , que por sua vez se apropriaram de técnicas muçulmanas, conhecidas em todo o Mediterrâneo, e trazidas para a Península Ibérica no século 7, quando da invasão por eles levada a cabo.

    Foi uma bela entrevista. Pedro esbanjou erudição e competência ao falar dos vários tipos de barcos tradicionais do Recôncavo, e da costa brasileira em geral. E discorreu com autoridade sobre trabalhos importantes já feitos sobre o tema. Prometeu corrigir e relançar o seu próprio livro, ou “pequeno estudo”, como prefere chamar. E citou os pontos de discordância, e os de admiração, em relação ao livro de Smarcevisky. Sobre outro clássico, o “ Ensaio Sobre As Construções Navais Indígenas do Brasil ” , publicado no final do século 19, pelo Almirante Antônio Alves Câmara, diz discordar apenas do sistema utilizado ao nomear as embarcações, e não cansou de enaltecer suas virtudes.

    Foi um papo agradabilíssimo, no quintal da casa onde estava. Só encerrei porque já não havia mais luz suficiente.

    Voltamos para o Mar Sem Fim, fundeado numa baía ao lado de Mar Grande, já de noite.

    Retomo agora o assunto Tamar.

    Eu contei como contrataram dois estudantes da Faculdade de Oceanologia, para que fosse iniciado o levantamento das praias de desova de tartarugas marinhas, nos anos 80. Até aquele período pouco se sabia sobre estes animais no Brasil. Depois de muitas viagens, quase sem recursos, fazendo trajetos a pé ou a cavalo, e do envio de questionários para prefeituras, universidades e delegacias regionais do IBDF, os resultados começaram a surgir.

    Foi então que se descobriu que no Brasil havia a ocorrência de cinco dos sete tipos de tartarugas marinhas existentes no mundo, e que elas desovavam a partir do norte do Rio de Janeiro, até o rio Oiapoque, divisa com a Guiana Francesa.

    Guy e Neca Marcovaldi chegaram na Praia do Forte em 1982, e desde o início tiveram apoio do empresário Klaus Peters, dono das terras da região.

    Por intermédio de Klaus conseguiram que a Marinha do Brasil cedesse a área de 10 mil metros quadrados, onde antes ficava uma guarnição que tomava conta do Farol Garcia D’Ávila. Ali foram construídos o primeiro cercado de incubação, e tanques para recuperação dos animais.

    Guy e Neca ficavam o ano inteiro na Praia do Forte, e com isto, aos poucos conseguiram ganhar a confiança dos pescadores que começaram a se engajar no projeto. Mais tarde, comparando os resultados da Praia do Forte com o de outras bases, especialmente em Pirambu, em Sergipe, e Regência, no Espírito Santo, ficou claro que para obter os mesmos resultados era preciso que as equipes morassem nos locais o ano todo, convivendo com seus problemas e necessidades. E assim foi feito.

    Hoje um estagiário que queira participar deste projeto tem que se mudar para o local por, no mínimo, seis meses, para sentir na pele as dificuldades e, junto com a comunidade, procurar uma solução. Talvez esta simples medida tenha sido a mais importante, porque foi através dela que os pescadores, suas mulheres e filhos, passaram a ter os mesmo objetivos : gerar renda, melhorar suas vidas, e preservar o meio ambiente.

    A própria existência da Base do Tamar, na Praia do Forte, e sua notoriedade, ajudaram a transformar o local em um polo de ecoturismo, o que trouxe empregos e movimentou a economia. Outra bela sacada foi o incremento da capacitação de mais pessoas para trabalharem no artesanato, normalmente feito pelas mulheres e filhos de pescadores. A estratégia original sugeria que a confecção acontecesse em praias onde não há fluxo turístico, e que a produção, ao contrário, fosse vendida nas praias mais procuradas por eles. O montante apurado seria repassado para a comunidade onde foram feitas, já que ela não conta com a ajuda do dinheiro proporcionado pelo turismo.

    Em 1989 o IBDF foi extinto e surgiu o Ibama- Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis. O Tamar está vinculado ao departamento da Vida Silvestre, da Diretoria de Ecossistemas do Ibama. Seu principal patrocinador é a Petrobrás. Atualmente opera com 21 Bases de pesquisa e proteção, abrangendo uma área de cerca de mil quilômetros de praias ao longo de oito Estados. Entre seus funcionários estão mais de 400 pessoas, a maioria pescadores e moradores das vilas e povoados onde se localizam suas Bases. O Tamar ainda promove educação ambiental e integração social, e desenvolve fontes alternativas de renda buscando a auto-sustentação, entre outras ações. E o modelo de conservação adotado trouxe prestígio internacional, e parcerias com importantes entidades científicas e ambientalistas.

    É um belo exemplo, assim como o Projeto Peixe- Boi, baseado nos mesmos princípios.

    Terça- feira, 31- 01- 2006.

    Assim que acordamos rumamos para a Ponta de Itaparica, ao Norte, onde fica a Marina recentemente construída. Ali, ao lado de veleiros da Inglaterra, África e Brasil, atracamos nosso barco. Estavam a nossa espera dois funcionários da Pangea. Eles iriam nos levar por um passeio para nos mostrar as comunidades onde atuam, e trocar informações sobre a região.

    Nossa primeira parada foi na vila de Baiacu, onde entrevistamos um pescador, seu Mário, feliz com a unidade de processamento de pescado a ser inaugurada em breve pelo Pangea. Com ela vão poder agregar valor à produção, e assim vender melhor, por preço mais realista, dispensando os atravessadores. Seu Mário contou dos problemas causados pelos que usam bombas para pescar na BTS, e disse que “ é gente de fora ” . As pessoas da comunidade sabem as consequências e jamais fariam isto. Este hoje é o maior problema da BTS, segundo ele, porque as empresas instaladas nas margens do Recôncavo, “ já não despejam produtos químicos na água como faziam no passado ” .

    De fato esta é uma tradição não só da BTS, mas também da Baía de Camamu, um pouco mais ao sul. As pessoas que fazem isto desconhecem que ao explodir as bombas destroem tudo em volta. Não só a vida animal, como a vegetal, e mineral . O rapa é tão forte que a área se torna estéril, sem vida, já que mesmo muito tempo depois, não há alimento capaz de atrair os peixes. Mas não é só. O uso de bombas muitas vezes mutila, ou mata as pessoas, e é considerado crime federal. O perigo é maior porque o fundo da Baía de Todos os Santos está repleto de tubulações das empresas do pólo petroquímico, e a qualquer momento uma delas pode se romper causando danos ainda mais sérios. Para procurar diminuir a incidência desta ação criminosa, o Pangea distribuiu cartilhas em várias comunidades. Mas a sandice persiste, e sua frequência é quase diária.

    De lá seguimos para outra comunidade, Ponta Grossa, onde o costume é a mariscagem feita pelas mulheres dos pescadores. Como disse Max Stern, da Bahia Pesca, acredita-se que cerca de dez mil mulheres vivam desta prática na Baía de Todos os Santos. Na ilha de Itaparica 80% da população vive da pesca e mariscagem, o restante ou está desempregada, ou trabalha nas empresas do pólo petroquímico. Estimativas do Pangea indicam que, em toda a Baía de Todos os Santos, existam cerca de 500 mil pescadores e aproximadamente tres milhões de pessoas vivem em seu entorno.

    Rodamos mais um pouco até chegarmos na ex- ilha de Matarandiba, digo “ ex “ , por que ali está instalada uma unidade fabril da Dow Chemical, que aterrou o mangue a ponto da pequena ilha ser hoje ligada à Itaparica por um braço de terra. A empresa fez isto para que seus equipamentos, carros e caminhões, possam chegar mais perto de onde extraem sal gema, um dos insumos da soda cáustica que eles produzem. Mas se houve este dano também é preciso dizer que esta é uma das vilas mais bem servidas de serviços públicos, e com casas melhores, de todas que visitamos.

    Nosso passeio terminou em Cacha Prego, na extremidade Sul da ilha, uma linda e pitoresca comunidade de pesca, nas margens de um braço de rio, cercado por manguezais onde ainda atuam diversos estaleiros artesanais. A dica nos foi passada por Pedro Agostinho, já que eu queria conversar com alguns construtores de Saveiros.

    Fomos atrás do estaleiro de seu Denico, um baiano de fala solta, alegre e muito simpático. Em seu quintal repousavam dois esqueletos de saveiros, não muito grandes, cuja construção estava parada por ação do Ibama. O órgão não permite a derrubada de árvores, ainda que esta seja a única forma destes trabalhadores manterem seu ofício, darem continuidade a uma tradição, e contribuírem para perenizar esta arte.

    É uma lástima. Enquanto os verdadeiros criminosos continuam à solta, devastando a Amazônia ou o Cerrado, as comunidades tradicionais pagam a conta. Aqui os fiscais do Ibama são implacáveis. Não foi a primeira vez, nesta viagem, que conversamos com artesãos que reclamam da mesma coisa : o Ibama está acabando com ganha pão deles. Mais uma vez os fracos pagam pelos fortes.

    Em nosso passeio pela ilha, de Norte a Sul, ainda passamos por locais que antes abrigavam uma fazenda de camarão hoje desativada. Nossos guias do Pangea não souberam explicar porquê.

    Perguntei sobre os problemas causados e, Geraldinho, um deles, contou que um primo seu que trabalhava na fazenda, ficou seriamente intoxicado por causa do abuso dos produtos químicos. Além deste problema, a ilha de Itaparica, assim como vários locais da Baía de Todos os Santos, apresenta sinais de favelização em certas vilas, e a construção de condomínios em restingas e outras áreas protegidas. Mas para este assunto, construção em áreas de preservação permanente, o Ibama parece impotente…

    Voltamos para o barco, na Marina, e dormimos aqui mesmo. Amanhã vamos subir o rio Paraguaçu, continuando a rota dos Saveiros. Eles faziam o transporte entre as ilhas deste enorme golfo, as fazendas e vilas, e as cidades no entorno do Recôncavo.

    Quarta- feira, 1- 02- 2006.

    Logo que saímos avistamos a vela quadrada, inigualável, do Saveiro. Ele navegava vindo do lado sul de Itaparica, para contornar a costa e subir o Paraguaçu. Fomos para perto, para gravar e fotografar. Infelizmente era mais um dos barcos que foram obrigados a arrancar o casario, para transformá-lo numa chata para carregar areia e pedra, numa derradeira tentativa de encontrar valor econômico capaz de gerar renda suficiente para mantê-los em atividade.

    Em seguida rumamos para a foz do Paraguaçu, poucas milhas adiante.

    O Paraguaçu nasce na Chapada Diamantina e desemboca na Baía de Todos os Santos, sendo seu principal rio formador. Poucas milhas rio acima, já se pode ver um estaleiro da Petrobrás e, em seguida, uma antiga fazenda fortificada, Salamina. Navegando mais algumas milhas chegamos em Maragogipe, nossa primeira parada. Aqui vamos passar a noite. Amanhã nosso programa é gravar o casario da cidade. Depois vamos subir até Cachoeira. Os meninos pedem minha atenção. Adoram nadar. Como todas as crianças energia é o que não lhes falta. Eles pulam da proa do barco, nadam até a popa, sobem de novo, e repetem a brincadeira dezenas de vezes. Sempre chamando pelo pai…

    Quinta- feira, 2- 02- 2006.

    Logo cedo descemos em terra e fomos registrar tomadas da cidade. Na hora do almoço, quando estávamos prontos para seguir viagem, o reversor do veleiro resolveu pifar de novo. Desta vez não foi o disco de encaixe no motor, como aconteceu no rio Oiapoque, quase um ano atrás. Alonso foi verificar e descobriu água misturada ao óleo, sinal que o trocador de calor estava arruinado. Quando isto acontece não há a menor chance de consertarmos a bordo. Vamos ter que arranjar outro modo de chegar até Cachoeira. Melhor descer em terra e ver o que conseguimos.

    Bem, não foi fácil, mas alugamos um barquinho a motor para seguir viagem. Luis e José vieram conosco.

    No caminho passamos pelo belo convento São Francisco do Paraguaçu, erguido nas margens do rio, imponente e grandioso, demonstrando a importância desta região no passado.

    Logo mais adiante a calha do Paraguaçu começa a diminuir de largura, e a vegetação em volta vai ficando cada vez mais rala, transformando a área que foi rica em Mata Atlântica, em pastagem para o gado. Até o manguezal que cerca o leito diminuiu, a ponto de se tornar apenas uma fileira de árvores. Mesmo assim elas não são poupadas pelo gado…Claro que esta troca de floresta por pasto assoreou o rio, às vezes criando ilhas de areia no meio do canal. Foi bom não termos vindo com o Mar Sem Fim, teríamos encalhado. Duro mesmo foi convencer o José que não havia uma “cachoeira” para nadar, mas apenas uma cidade histórica para conhecer. Ele não gostou nada, nada…

    Mas enfim chegamos e pudemos gravar os prédios, igrejas, ruelas e becos, de mais esta cidade histórica. No fim do dia retornamos de carro para Maragogipe, a tempo de mais mergulhos com as crianças, além de passeios de bote com motor de popa. Os meninos estão no auge da disputa para ver quem pilota melhor.

    Esta noite dormimos cedo. Amanhã temos que voltar para Salvador contando só com as velas. Vamos de fato refazer a rota dos saveiros…

    Sexta- feira, 3- 02- 2006.

    Às 9hs 30 suspendemos em direção à Salvador. Minutos antes o terceiro saveiro ainda original, “ Vendaval II ”, que estava fundeado em Maragogipe, também saía para a capital. Ao longe pudemos ver mais dois deles, que desciam de Cachoeira, sempre aproveitando a maré e os ventos. Ôba, ao menos vamos velejar ao lado deles.

    Quando estávamos quase em frente à fazenda Salamina a flotilha juntou-se. O Mar Sem Fim estava velejando, disputando uma regatinha, com os barcos tradicionais e suas enormes velas. É impressionante o tamanho das velas que eles têm. E mais impressionante ainda, perceber que seu mastro não é estaiado, ou seja, o saveiro é o único barco a vela que conheço que não tem cabos de aço prendendo o mastro. É inacreditável ! E eles são muito grandes. Podem atingir “ alturas superiores a 20 metros, e pesar mais de uma tonelada” , de acordo com o livro de Lev Smarceviski, e só não vêm abaixo justamente pela técnica de construção, já que “são implantados com uma inclinação pronunciada para a popa da embarcação, e estão protegidos pelo seu próprio peso”. Além disto a qualidade da madeira, e sua flexibilidade, são outros fatores que concorrem para a manutenção dos mastros. Ainda de acordo com Smarcevisky, “a forma hidrodinâmica perfeita do casco, integrado à armação e ao plano vélico, é o fator principal da preservação de todo o sistema”.

    O estudo de Smarceviski é bem interessante. Nele ele mostra que o perigo maior de quebra de mastro, paradoxalmente, acontece quando o barco está fundeado e com as velas ferradas. Neste caso “ mesmo com ondas pequenas e ritmadas, o movimento do mastro pode entrar em ressonância num balanço crecente até a quebra”.

    Smarceviski descreve o saveiro de vela de içar : “ Mastro alto para navegação em rios e braços de mar, grande área vélica com carangueja para os ventos superiores nas margens de vegetação alta. Estas velas são baseadas nos Jaht de origem holandesa adaptadas aos saveiros durante a ocupação holandesa no Recôncavo”.

    De fato, o Mar Sem Fim ficou para trás do Ventania II, e mesmo se tivéssemos tripulação adequada acho que não o superaríamos dentro do rio, devido a área vélica maior. Além disto deu prá notar que o mestre deste barco era dos bons. Ele deixou todos os outros na rabeira, desenvolvendo velocidade muito maior, e manobrando com mais rapidez.

    Ainda assim curtimos muito a navegação ao lado destes formidáveis barcos.

    Já na baía, fora da foz do Paraguaçu, cada um tomou seu rumo e, aos poucos sumiram do nosso campo de visão.

    Restou para nós uma deliciosa velejada até Salvador, ainda que eu ficasse apreensivo. Não fosse a quebra do reversor, teríamos visitado São Francisco do Conde, Santo Amaro, Ilha da Maré, e a sub-baía de Aratu. Nosso plano original era ficar mais dois dias por aqui, de modo a gravarmos dois novos programas. Vamos ter que nos contentar com um só, este, que refez a rota dos saveiros. Na próxima etapa cumprimos o que faltou nesta, e começamos a descer em direção ao sul. Até lá.

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