Holanda: potência marítima no século 17. Saiba por quê
A Era de Ouro da Holanda marcou o período em que a República Holandesa se consolidou como uma das principais potências marítimas, econômicas e culturais do mundo. O inicio deste processo aconteceu a partir de 1648 quando as sete províncias do norte dos Países Baixos formaram a República das Províncias Unidas após uma longa guerra de independência contra a Espanha. Neste período, o Mar do Norte funcionou como centro logístico e “estrada” marítima, conectando o comércio regional, a pesca em larga escala e as rotas oceânicas globais. Para Carl Sagan, professor de astronomia e ciências espaciais da Universidade Cornell, a República Holandesa do século 17 simbolizou o espírito da exploração marítima e das grandes descobertas. Após declarar independência do poderoso Império Espanhol, o país abraçou o Iluminismo europeu de forma mais ampla que qualquer outra nação de seu tempo.

A geografia e a inovação tecnológica na Holanda
A peculiar geografia da Holanda não foi apenas um cenário, mas o principal catalisador de sua ascensão. A necessidade constante de enfrentar o mar transformou uma vulnerabilidade geográfica em uma vantagem competitiva sem precedentes.

As pioneiras tentativas organizadas de conter a água envolveram a construção de pequenos diques de terra e a drenagem de pântanos de turfa para a agricultura desde o século X até o século XIII.
Os primeiros moinhos de vento surgiram por volta de 1200, inicialmente para moer grãos. O grande salto ocorreu cerca de 1408, quando os holandeses passaram a usar moinhos para bombear água. Isso permitiu drenar áreas situadas abaixo do nível do mar e transferir a água para canais e diques, criando extensas terras conquistadas ao mar — os chamados polders — que se tornaram base da expansão agrícola e urbana do país.
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Turismo náutico no Lagamar ameaça o berçário do Atlântico SulBanco de Abrolhos perde até 50% dos corais em 20 anosChuvas em Ubatuba expõem falhas no planejamento urbanoEssa infraestrutura permitiu que a Holanda não apenas sobrevivesse, mas expandisse seu território. Foi a base econômica e técnica para sua expansão global.
O arenque, ‘A Grande Pesca’ holandesa
As inovações tecnológicas que impulsionaram o surgimento de uma nova potência marítima ocidental, após Portugal e Espanha, também têm relação direta com a pesca do arenque no Mar do Norte, atividade essencial dos holandeses desde o século XV. A experiência acumulada fortaleceu a construção naval, aperfeiçoou técnicas de navegação e consolidou uma cultura marítima que, mais tarde, sustentaria a expansão comercial holandesa. A atividade era chamada de ‘A Grande Pesca’.
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Entre os peixes do Atlântico Norte, o arenque (Clupea harengus) é decisivo. Mede de 20 a 40 centímetros, porém forma cardumes imensos, que podem se estender por centenas de quilômetros e reunir trilhões de indivíduos.
O economista Pieter de la Court (1618 – 1685), em seu livro “Os Interesses da Holanda”, afirmou que a pesca era um dos “quatro pilares” do bem-estar comum. Segundo o autor, ela gerava dez vezes mais lucro anual para o país do que a famosa Companhia das Índias Orientais.
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A Projeção de Mercator foi adotada e aprimorada por cartógrafos holandesos posteriores. Um deles foi Jodocus Hondius, que comprou as placas originais de Mercator após sua morte. Hondius mudou-se para Amsterdã e relançou o trabalho de Mercator, transformando a cidade no centro mundial de produção de mapas.
Breve contexto sobre o que levou a Holanda se tornar uma potência na construção naval
Segundo o trabalho do professor de História Naval da Escola Naval, William Carmo Cesar, Velas e canhões no expansionismo holandês no século XVII, em 1567 as províncias do norte dos Países Baixos que haviam aderido ao calvinismo rebelaram-se contra a metrópole espanhola e declararam independência, com liderança política centrada em Amsterdã.
A guerra contra o domínio de Felipe II foi longa e contou com o apoio da rainha anglicana Elizabeth I. Em 1588, a Inglaterra derrotou a tentativa de invasão espanhola no episódio que ficaria conhecido como a campanha da Invencível Armada.
Navios do Mar do Norte e Báltico no século 17
Muito antes das guerras do século XVII, diz o professor William Carmo Cesar, os mares do Norte e do Báltico já utilizavam navios de guerra movidos à vela, enquanto o Mediterrâneo ainda dependia das galeras a remo. Adaptadas a águas frias e revoltas, surgiram nesse contexto as cogas, ou cocas, precursoras dos grandes navios de guerra à vela.

Para o professor, a partir das cogas, os navios europeus passaram por profunda transformação estrutural e tecnológica. Os antigos castelos elevados desapareceram, dando lugar a um convés contínuo, enquanto a mastreação evoluiu do mastro único com vela retangular para embarcações com múltiplos mastros e combinação de velas retangulares e latinas.
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Das caravelas e naus ibéricas surgiram as carracas e, depois, os galeões do século XVI, navios armados, manobráveis e aptos tanto à guerra quanto ao comércio. No século XVII, os holandeses aperfeiçoaram esse modelo ao desenvolver a pinaça, empregada na escolta de comboios mercantes formados por fluits — navios de carga longos, de pouco calado e grande capacidade, que garantiam eficiência e menores custos à marinha mercante da República Holandesa.

Por fim, segundo William Carmo Cesar, no século XVII, período de grande transformação nas táticas e na tecnologia da guerra naval, a Holanda, ao lado da Inglaterra, desenvolveu organização militar e comercial superior à dos povos ibéricos. Assim, superou a primazia marítima que espanhóis e portugueses haviam conquistado no século anterior, durante as grandes viagens dos descobrimentos.
Holanda, seu povo marítimo, e a necessidade de navegar
Carl Sagan: “Era uma sociedade racional, ordenada, criativa. Mas os portos e navios espanhóis foram vedados à navegação holandesa. A sobrevivência da minúscula república dependia de sua capacidade para construir, tripular e acionar uma grande frota de navios comerciais.

“A Companhia das Índias Orientais, empreendimento conjunto de governo e iniciativa privada, enviou navios para os cantos mais afastados do mundo para adquirir mercadorias raras e revendê-las com lucro na Europa.”
O declínio da saga marítima portuguesa abre as portas para outros povos navegadores
A ascensão náutica da Holanda também se beneficiou das dificuldades portuguesas em defender um império marítimo vasto e disperso. A expansão lusa, iniciada no início do século XV com a ocupação da Ilha da Madeira, alcançou seu auge em 1522, quando a expedição de Fernão de Magalhães concluiu a primeira circunavegação do globo.

Depois de dominar os mares, Portugal ergueu um império tão vasto que sua reduzida população — estimada em cerca de um milhão de habitantes à época — não conseguiu sustentá-lo por muito tempo. A fragilidade abriu espaço para a ascensão de outras potências marítimas. A Holanda, com sua forte vocação naval, aproveitou a oportunidade.

Erro de Cabral possibilita conhecimento náutico da Holanda
Pedro Quirino da Fonseca, um dos grandes historiadores portugueses diz em seu livro, As Origens da Caravela Portuguesa, que “Pedro Álvares Cabral cometeu um grave erro ao embarcar em sua armada dois pseudo-comerciantes holandeses, aos quais o governo de Goa facultou importantes cargos na Administração Pública Portuguesa, em Goa e na costa da Índia. Esses enigmáticos comerciantes ficaram conhecidos na história como sendo Dick Pomp e Jan Van Linschoten. Essa atitude de negligência por parte dos portugueses, em relação aos dois desconhecidos, permitiu aos holandeses informarem-se de tudo o que se passava na Índia e prepararem previamente, com toda a minudência, a vinda de seus compatriotas para o Oriente.“
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Essa bolina lateral mostrou-se eficiente também no Brasil holandês, a partir de 1630. A inovação influenciou embarcações locais, como a canoa de tolda do rio São Francisco, que incorporou o recurso e o mantém até hoje. Ela também pode ser vista ainda hoje em outros tipos de canoas dos litorais do Nordeste.
Do mar de Barents, no Ártico, à Tasmânia, na Austrália
Carl Sagan: “De uma hora para outra os holandeses estavam presentes em todo o planeta. O mar de Barents, e a Tasmânia, devem seus nomes a capitães do mar holandeses. Em um ano típico, muitos navios percorriam metade do mundo. Descendo pela costa oeste da África, contornando o litoral sul, passando pelo estreito de Madagascar e atravessando o que chamavam de mar da Etiópia, e depois a ponta meridional da Índia, eles navegavam em direção ao maior foco de seu interesse, as ilhas das Especiarias, atual Indonésia. Algumas expedições saíram dali para uma terra com o nome de Nova Holanda, hoje chamada Austrália.”

E conclui Sagan: “Nunca antes nem depois, a Holanda foi a potência mundial que era então.”
Holanda do século XVII, o lar de grandes filósofos
Em seu livro, diz Sagan sobre esse aspecto: “País pequeno, obrigado a recorrer à sua sagacidade e inventividade, praticava uma política exterior de forte cunho pacifista. Devido a sua tolerância para com opiniões heterodoxas, era porto seguro para intelectuais que se refugiavam da censura e controle de opinião.”

O lar do grande filósofo judeu Espinoza
“A Holanda do século XVII tornou-se o lar do grande filósofo judeu Espinoza; que Eisntein admirava. De Descartes, figura axial da história da matemática e da filosofia; de John Locke, cientista político que influenciou um grupo de revolucionários de inclinação filosófica cujos nomes eram Paine, Adams, Franklin e Jefferson. Foi a época dos mestres da pintura de Rembrandt e Vermeer, e Frans Hals; do inventor do microscópio,Leeuwenhoeck; e de Grotius, fundador do direito internacional; de Willebrord Snell, que descobriu a lei da refração da luz.”

“O microscópio e o telescópio foram desenvolvidos na Holanda, no início do século XVII.”
A luz: tema predominante naquela época
Sagan diz que ” a luz era tema predominante na época. A simbólica iluminação da liberdade de pensamento e de religião, da descoberta geográfica. A luz que permeava as pinturas da época, em especial a primorosa obra de Vermeer; e a luz como objeto de de investigação científica…”
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“Os interiores de Vermeer estão caracteristicamente cheios de artefatos náuticos e mapas de parede.”

“Um problema chave para a navegação na época era a determinação da longitude, que exigia uma medição precisa do tempo. Christian Huygens inventou o relógio de pêndulo que foi empregado, não com absoluto sucesso, para calcular posições no meio do oceano.”
Algumas descobertas da Holanda
Em Junho de 1594, o cartógrafo holandês Willem Barents partiu numa frota de três navios para o mar de Kara (parte do oceano Ártico, ao norte da Sibéria), na esperança de encontrar a passagem do Nordeste acima da Sibéria. Atingiram a costa oeste da Nova Zembla (arquipélago russo no oceano Ártico), e seguiram para norte, antes de serem forçados a voltar face aos grandes icebergs.

Os holandeses colonizaram Java e, ao mesmo tempo, chegavam ao Nordeste do Brasil, denominado na época como Brasil neerlandês.
As terras australianas
O navegador Willem Janszoon, foi o primeiro europeu a avistar as terras australianas (1616) e Nova Zelândia (1642). No ano de 1615, Jacob Le Maire e Willem Schouten navegaram contornando o Cabo Horn para provar que a Tierra del Fuego não era uma ilha tão grande. Abel Tasman, executou viagem de circunavegação à chamada Nova Holanda. E Jacob Roggeeen avistou a ilha de Páscoa, no Domingo de Páscoa, 5 de abril de 1722, daí seu nome.
“O império holandês incorporou regiões como a do Cabo, na África; o Ceilão, na Ásia; a Nova Amsterdã (atual Nova York); vários territórios no nordeste do Brasil e as ilhas Antilhas na América.”
“A Holanda tem uma ex-colônia no norte da América do Sul, no meio das duas Guianas: o Suriname.”
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As Ilhas das Especiarias
A BBC publicou matéria onde diz que “ao lado de Portugal, Inglaterra e Espanha, a Holanda estava envolvida em uma corrida para encontrar as Ilhas das Especiarias, ganhando controle do comércio de produtos como cravo e canela. Havia o potencial de fazer fortunas e esses países queriam eliminar intermediários – comerciantes asiáticos e árabes que escondiam a localização do arquipélago.”
Companhia das Índias Orientais
“Quando os holandeses encontraram as ilhas, decidiram proteger seu investimento com a criação da Companhia das Índias Orientais. Abusando da brutalidade contra a população, eles ganharam o controle das plantações de noz-moscada, usada não apenas como tempero, mas também como remédio contra uma série de doenças que incluía a peste bubônica, então ainda afetando a Europa.”
“Naquela época, apenas as ilhas de Banda produziam noz-moscada. O isolamento do arquipélago, somado ao cultivo problemático da especiaria, tornava seu preço astronômico.”

‘Havia uma pedra no caminho, o primeiro passo para a formação do Império Britânico’
Foi o que disse a BBC, “mas havia no caminho uma pedra: em 1616, a Inglaterra conquistou Run, uma das ilhas de Banda, um pedacinho de terra, menos de 3 km de comprimento e menos de 800 de largura, que se tornou a primeira colônia inglesa e passou a ser administrada pela Companhia Inglesa das Índias Ocidentais. Foi o primeiro passo para a formação do Império Britânico.
O enclave inglês resistiu apenas por quatro anos. Mas em 1664, Londres deu o troco ao enviar quatro fragatas para cruzar o Atlântico e tomar uma possessão holandesa conhecida como Nova Amsterdã, o que foi feito rapidamente. Três anos depois, ingleses e holandeses chegaram a um acordo e simplesmente trocaram as ilhas.
Holanda troca Nova Amsterdã, atual Nova York, pela ilha de Run, arquipélago das ilhas de Banda
“A Holanda ficou com Run. A Inglaterra, com Nova Amsterdã, logo rebatizada de Nova York. Hoje, a Indonésia é quem controla Banda e a noz moscada.”
O final da era holandesa no mar
“No séc. XVII ocorreram três guerras anglo-holandesas: de 1652 a 1654; de 1665 a 1667; e de 1672 a 1674, ao final das quais ocorre a emergência da Inglaterra como potência mundial hegemônica.”
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Por seus feitos no mar, a Holanda merece estar presente na seção História Marítima do Mar Sem Fim. Carl Sagan encerra assim suas considerações sobre a o périplo náutico holandês: “as espaçonaves Voyager são descendentes lineares daquelas viagens de exploração dos veleiros, e da tradição científica especulativa de Christian Huygens. As Voaygers são caravelas direcionadas às estrelas, explorando no caminho esses mundos que Huygens conhecia e tanto amava.”
Fontes: Cosmos, de Carl Sagan, Ed. Cia das Letras. As Origens da Caravela Portuguesa, Pedro Quirino da Fonseca, ed. Chaves- Ferreira – Publicações, S. A.
Fontes da net: https://www.infoescola.com/historia/descobrimentos-e-navegacoes-holandesas/;https://alunosonline.uol.com.br/historia/navegacoes-holandesas.html; https://www.ducsamsterdam.net/curiosidades-historia-holanda/; http://www.bbc.com/portuguese/vert-tra-42180918?ocid=socialflow_twitter.










Sempre existiram países como a China, Coreia, Índia na atualidade assim como os eternos retardados no tempo e espaço.
A organização econômica diferenciada, a formação de companhias de comércio são realizações importantíssimas, Contudo, quais foram exatamente as inovações na construção naval ou na arte da navegação de origem holandesa?
Grato pelo texto. Matéria excelente como de costume.
Carl Sagan atribui aos Holandeses as honras que pertencem a Portugal, simplesmente pelo fato de Portugal ser católica.
E eram bons negociantes, perderam a guerra para Portugal, foram expulsos do BRasil e ainda fizeram os portugueses pagarem indenização para eles.
Faltou aqui, nem que fosse apenas um paragrafo, a questão das matanças e escravos de todo o tipo de pele, que os holandeses espalharam pelo planeta!!!! Claro que os protestantes vão negar, só os amigos do Vaticano é que eram uns sacanas!!!!!
Valores éticos e morais do passado não são mais aceitos no presente, o que não quer dizer que estavam necessariamente errados em sua época. Tudo muda e evolui, a ética e a moral de hoje de nada servirá amanhã. Os protestantes não precisam negar o que não era absolutamente “errado” no passado, assim como também não deveriam ser criticados os cristãos não reformados.
Muito bom artigo. parabéns.
FORAM EXPULSOS DO NORDESTE , E FUNDARAM NOVA YORK….
Ou seja, partiram desta para melhor.
Excelente. A história marítima da Holanda é muitas vezes esquecida e este artigo põe luz tópica a muitos pontos, muito bom, parabéns.
Otimo artigo, todos os desbravadores dos mares tem que ter seu lugar na história, podemos discordar da dominação, mas não negar a busca do conhecimento do desconhecido, grandes navegadores, Vikings,Portugueses,Ingleses,Espanhois e Holandeses… foram os desafiadores contra os terrraplanistas.
Ps. Como era esta bolina Holandesa? Era lateral ao barco uma de cada lado?
José Carlos: veja novamente as pinturas deste post e vc verá alguns navios com a bolina lateral, uma de cada lado.