Foz do rio Amazonas na mira da Petrobras para explorar petróleo

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Foz do rio Amazonas na mira da Petrobras para explorar petróleo

A Petrobras trabalhou em silêncio. Em agosto a empresa apresentou ao Ibama um pedido de licença de operação para explorar petróleo na sensível foz do rio Amazonas. O pedido  foi enviado em 30 de agosto mas a empresa só tornou o fato público em 22 de outubro. Ali, além de ser um local de extrema sensibilidade por ser a foz do rio mais caudaloso do planeta, ainda conta com recifes de corais que foram descobertos em 2016 encantando o mundo. O  conjunto  é enorme,  uma faixa com 1.000 km  de extensão,  por 40 km  de largura.  Os  corais  se estendem por uma área de 56 mil km2, equivalente ao Estado da Paraíba. Foz do rio Amazonas na mira da Petrobras é o tema de hoje.

Ilustração mostra recifes na foz do rio Amazonas
Ilustração, jornal.usp.br.

A Foz do rio Amazonas

Ninguém acreditava  ser possível haver um ecossistema desse tipo debaixo da pluma de água doce e barrenta do Amazonas.

Descobertos há apenas cinco anos, eles formam o que os cientistas hoje chamam de Grande Sistema de Recifes do Amazonas (GARS, em inglês), com 56 mil quilômetros quadrados de extensão — do tamanho do Estado da Paraíba.

Imediatamente depois, estabeleceu-se uma polêmica entre as petrolíferas, ambientalistas, academia, e políticos pelo interesse em explorar petróleo e gás na região.

A Total tentou e não conseguiu autorização do Ibama

O Ibama rejeitou quatro solicitações feitas pela empresa francesa Total, antiga dona das concessões. Mas, em fevereiro deste ano, a Agência Nacional de Petróleo – ANP – aprovou a transferência dos cinco blocos para a Petrobras, segundo informa O Estado de S. Paulo.

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O Estado diz que ‘a decisão ocorreu após a empresa francesa não conseguir avançar com o processo de licenciamento ambiental dos blocos, que estão localizados em uma das áreas mais sensíveis da região e extrema riqueza ambiental’.

Imagem de corais na foz do rio Amazonas

Depois das negativas, explica o Estado, ‘à época, a Petrobras afirmou, em comunicado, que entrou em acordo com a Total para assumir “a operação e a integralidade das participações” da empresa nos blocos. Nos cálculos de geólogos, haveria até 14 bilhões de barris de petróleo, o que supera as reservas provadas do Golfo do México’.

Os riscos envolvidos na exploração

São muitos. Para começar, o litoral do Amapá e do Pará formam a maior faixa contínua de manguezal, o segundo mais importante berçário de vida marinha, só perdendo para os recifes de corais, considerados como uma ‘floresta tropical’ por sua biodiversidade.

Segundo o Greenpeace, além dos impactos ao bem-estar de animais como baleias, golfinhos, tartarugas e peixes-boi, há risco de contaminação de um dos maiores manguezais do mundo e devastação dos corais da Amazônia, antes mesmo de a ciência conhecer bem esse ecossistema.

Segundo o g1, ‘os blocos estão localizados em águas profundas, a aproximadamente 120 quilômetros do Estado do Amapá. As decisões anteriores que negaram a licença de operação, apontaram pendências graves nos estudos, por exemplo, a falta de definição dos procedimentos a serem adotados em caso de acidente ambiental’.

E, diz o g1, ‘as análises apontaram ainda que as etapas do processo de perfuração não estavam em conformidade com as regras da ANP’.

O g1 diz que ‘especialistas do Greenpeace defendem que o governo deveria negar licenças para atividades de exploração nestes blocos visando a preservação de ecossistemas sensíveis e ainda pouco conhecidos da região, como corais amazônicos’.

A decisão da Petrobras de requerer licença para exploração a poucos dias da abertura da COP 26 é também um excelente cartão de visitas para a delegação brasileira.

A ver qual será a decisão da autarquia agora.

Assista ao vídeo sobre o estudo que levou à descoberta:

Imagem de abertura:jornal.usp.br

Fontes: https://g1.globo.com/ap/amapa/natureza/amazonia/noticia/2021/10/25/petrobras-faz-novo-pedido-para-liberacao-da-exploracao-de-petroleo-na-foz-do-rio-amazonas.ghtml; https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,petrobras-pedido-petroleo-foz-rio-amazonas,70003877182.

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Comentários

11 COMENTÁRIOS

  1. A foto com os peixinhos de aquário é de um apelo desnecessário e irresponsável. Trabalho na indústria do petróleo há quase 15 anos, com explorações em águas profundas e ultra profundas e afirmo que este tipo de fauna não é correspondente a este tipo de ambiente. Sim, existem seres vivos nestas profundidades mas estão longe de serem peixinhos “estilo Nemo” como na foto. Seres nestas profundidades raramente tem olhos, já que não há luz que chegue no local. Ainda assim é necessária a preservação dos mesmos, sem dúvida. Mas o impacto de um poço de petróleo no leito marinho é mínimo, afeta apenas um pequeno raio de alguns metros ao redor do poço. Em um eventual (e raríssimo) vazamento de óleo este irá para a superície da água (pois é mais leve que a mesma). O mesmo óleo dificilmente atingirá os manguezais pois as potentes correntezas da margem equatorial levam qualquer material para longe da foz do gigante amazônico. Sim, é necessário um estudo ambiental com medidas de contingência para um eventual acidente. Mas também temos que fazer uma discussão mais sóbria e isenta sobre o tema, sem colocar imagens e informações mentirosas para invalidar a exploração do petróleo em novas fronteiras. A transição energética vai levar muito tempo ainda. O atual preço da gasolina é um claro sinal disto (além de incompetência política…).

    • Pedro, não se trata de apelo irresponsável, muito menos peixinhos de aquário. Se reparar verá que é uma das únicas fotos dos recifes feitos a bordo do submarino da ONG. Incrível, não? Mas aquilo são parte dos recifes e rodolitos desta riqueza recém-descoberta. Convido os leitores a tirarem a dúvida. Basta ‘googar’ ‘recifes na foz do Amazonas’, depois clicar em fotos, e ver. Há uma série delas, todas feitas no mesmo mergulho, e pelo mesmo submarino. Quando ao resto, seu comentário é sempre bem-vindo.

      • Obrigado pela resposta, João! Insisto: a fauna em grandes profundidades não costuma ser colorida devido a ausência de luz. A coloração é uma forma de evolução das espécies, para terem mais apelo com seus potenciais parceiros para reprodução. Isto não faz sentido em ambientes sem luz. A partir de 200m a luz é mínima e, a partir de 1000m, inexistente. As criaturas das profundezas parecem mais com seres vindos de filmes de ficção científica. Devem ser protegidas? Sem dúvida! Ainda mais por não termos amplo conhecimento destas espécies, que podem ser chave para grandes descobertas científicas. Uma pesquisa deste porte, porém, é muito cara e inviável para instituições de pesquisa. Acredito que a melhor forma de se conhecer este Grande Sistema de Recifes do Amazonas é através de uma parceria entre instituições de pesquisa e as petroleiras — que teriam ampla capacidade de providenciar os meios para a realização destas pesquisas. O benefício seria também da ciência e da preservação. A área afetada do leito marinho não passa de um raio de 10m ao redor da cabeça do poço — um impacto muito menor do que qualquer poço feito em terra, por exemplo.

        • Tudo que posso dizer é veja as fotos no google, veja esta matéria que mostra o submarino da ONG e que traz entrevistas com Michel Mahiques, professor do IO-USP e especialista em sedimentologia marinha, que liderou o estudo, e que comenta a questão da luz desta forma: E a questão da luz? Bem, segundo Herton Escobar, “A questão da disponibilidade de luz já foi resolvida por um estudo publicado no ano passado, na revista Continental Shelf Research, mostrando que, mesmo nas regiões mais densas da pluma, há uma incidência mínima de luminosidade sobre o leito marinho, que é suficiente para manter um ecossistema recifal funcionando.ESte é o post: Recifes na foz do Amazonas, até agora, protegidos pelo Ibama (https://marsemfim.com.br/corais-na-foz-do-amazonas/).

  2. Eu não concordo com a história de que carros elétricos A BATERIA serão a solução para o futuro. É certo que eles não poluem onde são utlizados, mas é necessário gerar energia elétrica em algum lugar para o reabastecimento e China, Estados Unidos e Europa fazem uso de muito carvão para isso. Ou seja, a poluição “geral” do sistema é muito maior do que os mesmos utilizando gasolina. Soluçao? Carros elétricos movidos com CÉLULAS DE COMBUSTÍVEL, que têm sua fonte de alimentação com hidrogênio (também gasta energia poluente para geração) ou a partir do metanol, mas parece que esta pesquisa estacionou no tempo e pouco esforço nesse sentido é feito hoje. Com relação ao petróleo eu continuo defendendo que seja totalmente liberada e sem outorgas as perfurações em SOLO no Brasil, enquanto este ainda tem valor comercial.

  3. A busca por petróleo na região amazônica vem desde os anos 1950. Os poços eram inicialmente perfurados próximos aos leitos dos rios uma vez que não havia equipamentos helitransportaveis e tampouco helicópteros. As sondas convencionais terrestres eram transportadas em balsas até as locações. Na década de 1970 e 1980, foram realizadas perfurações de poços nos litorais do Amapá, Pará e Maranhão. Um poço, o PAS-15, foi testado por uns 6 meses e seu óleo foi recolhido em barco próprio. Eram outros os tempos mas ressalte-se que foram perfurados muitos poços offshore e nenhum derrame ocorreu. Entre encontrar petróleo e colocar um campo em produção em região tão remota podem se passar mais de 8 anos. É trabalho de longo prazo e os cuidados apropriados serão exigidos pela autoridade ambiental. Hoje há conforto na segurança energética mas não se pode perder de vista os médio e longo prazos que a indústria exige.

    • Eu também não, Cezar, mas há quem pense diferente. Sempre disse que, para uma País pobre e desigual como o nosso, o fato de termos petróleo é uma benção. Mas, daí a perfurar poços em locais super sensíveis do litoral vai um passo enorme. Felizmente não estou sozinho. No último leilão da ANP as duas bacias sensíveis, Pelotas e Bacia Potiguar, não receberam qq lance das próprias petroleiras inscritas (saiba mais em https://marsemfim.com.br/17o-leilao-da-anp-fora-de-hora-burro-e-insustentavel/).
      Como disse o secretário-geral da ONU (fev. 2021), ““A humanidade está travando uma guerra contra a natureza. Isso é sem sentido e suicida. As consequências de nossa imprudência já são aparentes no sofrimento humano, perdas econômicas altíssimas e na erosão acelerada da vida na Terra”.

    • O problema do petróleo não é apenas sobre gasolina e diesel amigo, somos dependentes dele para a indústria, óleos, solventes, combustível de aviões, jatos, etc. A mudança para os elétricos apesar de ajudar, não vai nos fazer nem de longe parar de explorar petróleo.

  4. A exploração do “ouro negro” na região norte do Brasil, tem que ocorrer, o quanto antes. Afinal, não é assim todos os dias que um país tem a sorte grande de encontrar em seu território, 14 bilhões de barris de petróleo. Claro, que essa exploração deverá ser feita, tomando-se todos os cuidados pra que o ecossistema marinho da região, seja impactado o mínimo possível. Nesse tipo de exploração (águas profundas), a Petrobrás conta expertise e gente capacidade para encarar esse grande desafio.

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