Dunas: suas funções como ecossistema e proteção da costa
O MapBiomas fez uma análise do litoral brasileiro a partir de imagens de satélites entre 1985 e 2020. As praias e dunas tiveram uma redução de 15%, ou cerca de 70 mil hectares. Antes ambas cobriam uma área de 451 mil hectares reduzidos para apenas 382 mil em 2020. Assim, quando estivemos no Ceará conversamos com Luis Parente Maia, então diretor do Instituto de Ciências do Mar, o Labomar. A conversa tratou das dunas, tão frequentes e importantes na paisagem costeira do Nordeste. Só no Ceará existem 295 quilômetros quadrados de dunas móveis e 135 quilômetros quadrados de dunas fixas.
Qual a importância das dunas?
Aprendemos que, por serem extremamente porosas, absorvem muita água, por isto são a principal fonte de água doce do litoral do Ceará. Elas são ainda uma importante proteção contra a força das marés, temporais, ressacas, e outros fenômenos climáticos.

Dunas, assim como mangues e restingas, devem ficar livres da interferência humana porque interagem com o ambiente. Suas areias circulam, caem no leito dos rios e voltam às águas do mar. Depois, retornam às praias, num movimento constante e dinâmico.
A formação das dunas
Os sedimentos arenosos se deslocam ao longo do tempo geológico. Por isso, as dunas têm idades variadas. Primeiro, as correntes marítimas carregam grande quantidade de areia e a depositam nas praias. Quando esses sedimentos secam, começa o trabalho do vento, que transporta, modela e acumula a areia nas partes mais elevadas da praia.
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Plano para o litoral brasileiro chega tarde diante do oceano mais quenteSão Paulo e a adaptação climática urbanaSOS Mata Atlântica: ONG eficiente ajuda a salvar o biomaCom o tempo, a areia acumulada se transforma em ecossistema. As dunas passam a abrigar uma diversidade biológica rara, com flora rica em espécies e fauna formada por insetos, répteis, anfíbios, pequenos mamíferos e algumas aves marinhas, que usam esses ambientes para construir seus ninhos.
A especulação imobiliária: um dos piores inimigos
Acontece que este mesmo ecossistema está entre os mais ameaçados pela especulação imobiliária e pela indústria do turismo. No litoral do Ceará, empresas cercam áreas imensas de dunas e afiam suas garras para, depois de vencer a disputa pela posse da terra, construir hotéis, condomínios e similares sobre elas.
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Na Praia da Baleia, Ceará, dunas são cercadas
Na praia da Baleia, litoral do Ceará, flagramos uma cerca de quase cinco quilômetros, com placas anunciando projetos turísticos.
Ao que parece, um grupo italiano comprou a área há vinte anos. Ali, pretende construir 27 hotéis cinco estrelas. Quem nos alertou foi o professor Jeovah Meireles, da Universidade Federal do Ceará, em 2006.
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Jundu em Ilhabela: prefeito vira réu por incitar destruiçãoSons de recifes saudáveis ajudam a recuperar corais degradadosEm Ararapira, Paraná nega rota no Canal do VaradouroSegundo Meireles, o EIA-Rima do empreendimento omite um dado grave: a área pertence à comunidade indígena Tremembé. A região abriga quatro cemitérios dessa etnia. A cerca começa na praia da Baleia e segue até as margens do rio Mundaú, uma das mais belas áreas de todo o litoral cearense.

Entretanto, a ocupação de dunas não acontece apenas ali, mas em quase todas as regiões onde elas existem. Assim, bairros inteiros, às vezes até cidades como Itaúnas, no Espírito Santo, acabam soterrados. O processo aconteceu de forma lenta e gradual, principalmente entre as décadas de 1950 e 1970.
Como não aprendemos com os próprios erros, aconteceu novamente em Balneário Hermenegildo, e Balneário Costa do Sol, Rio Grande do Sul; ou nas dunas da praia do Campeche, Santa Catarina, entre muitos outros.
Dunas são APPs, Áreas de Preservação Permanente, mesmo assim são ocupadas
Mas não é só. Mundaú é mais uma APP, Área de Preservação Permanente, por ser formada por dunas, e ter ainda lagoas, pequenos canais etc. Um ecossistema de biodiversidade exuberante, e de subsistência para as comunidades da região. Por serem APPs deveriam ser poupadas. Deveriam…

Mas em Mundaú querem erguer mais quatro hotéis de luxo. Precisa mesmo? Não me parece. Temo pelo futuro do deslumbrante litoral do Ceará. E percebo que no meio acadêmico há controvérsia.
Alguns acham que o processo de ocupação tem anomalias, mas está sob controle. Outros afirmam exatamente o contrário, e acusam os primeiros de estarem a serviço de grandes grupos, prestando serviços ou assessoria. E você, arrisca um palpite?
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Na última viagem do Mar Sem Fim estivemos novamente em Mundaú. Não, os hotéis não foram construídos. Mas conseguiram detonar a beleza das dunas instalando em cima delas enormes torres eólicas. Precisava?

No Espírito Santo a vila de Itaúnas foi soterrada
Chegamos em Riacho Doce no começo da tarde. Nossos últimos quilômetros foram feitos em chão batido já que o asfalto só chega até Barra da Conceição.
De lá pegamos uma estradinha que leva inicialmente até Itaúnas, pequena cidade que ainda guarda o traçado original dos jesuítas, em forma de Quadrado, com uma igreja numa ponta e as casas em volta.
Ali pudemos ver novamente a resposta da natureza ao mau uso da terra. A antiga vila de pescadores foi coberta por dunas de até 30 metros de altura e teve que mudar de lugar. De tanto cortarem a vegetação que as fixava, a areia acabou enterrando as casas, como nos explicou a professora Jacqueline Albino UFES.

O Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses
A UC, com seus 150 mil hectares, tem o tamanho da cidade de São Paulo. O campo de dunas imenso, pode medir até 25 quilômetros de extensão, da praia para o interior. E algumas atingem 40 metros de altura. O conjunto é de arrepiar. Bonito, exótico, diferente.
O colorido traz outro atrativo. Na melhor época para as visitas, de maio a outubro, quase sempre o céu abre, sem nuvens, num azul espetacular. As chuvas, que caem de dezembro a maio, e o afloramento do lençol freático formam lagoas de água muito limpa.

Pois até mesmo ali, no Parque Nacional, há ameaças. E, desta vez, elas vêm do poder público. Como denunciamos, os governos estadual e municipal, este último de Santo Amaro do Maranhão, licenciaram o projeto de um condomínio, o Terra Ville Residence, que iniciou as obras em 2024.
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Mas o que do poder público não se restringe ao Maranhão, como se verá abaixo.
No Litoral do Rio Grande do Sul a resposta foi a mesma: erosão
Ao mesmo tempo, um sem-número de animais, especialmente mamíferos, anfíbios e répteis que habitavam as áreas úmidas, diminuiu drasticamente. E a erosão come solta, vide Hermenegildo.

O Parque Nacional da Lagoa do Peixe, RS
A área do Parna da Lagoa do Peixe tem 34.400 hectares (algo como 70 mil campos de futebol). Ele reúne dunas móveis, praias, banhados, falésias, mata de restinga e uma lagoa. A paisagem tira o fôlego. Além disso, milhares de aves frequentam a área em verdadeiro frenesi gastronômico, bem diante dos olhos de quem passa.

Algumas vêm do Alasca, como os maçaricos, por exemplo. Outras voam da Patagônia até o Parna, são os flamingos. Ali as aves se alimentam, para em seguida retornarem a seus locais de origem. Mas as lagoas do parque estão sendo assoreadas em razão do fim da vegetação que cobria as dunas.

Outras áreas ameaçadas
Há outras áreas ameaçadas pelo avanço ou deslocamento das dunas, como Cabo Frio, no Rio de Janeiro, e Mangue Seco, na divisa entre Bahia e Sergipe. Mas o ponto central é outro: enquanto o poder público continuar largando o litoral ao deus-dará, como faz há décadas, as futuras gerações não encontrarão nem sombra do que existiu. Elas também têm direito a uma zona costeira íntegra e biodiversa.









