Desmatamentos na Amazônia elevam emissões brasileiras

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Desmatamentos na Amazônia elevam as emissões brasileiras 

Desmatamentos na Amazônia: após dois anos consecutivos em queda, as emissões brasileiras de gases de efeito estufa voltaram a crescer. A alta foi de 0,3%, para 1,939 bilhão de toneladas de gás carbônico equivalente bruto (CO2e, reunião de todos os gases do efeito), em 2018, comparativamente ao ano anterior. A variação é considerada estável. Mas as emissões vinham em queda: 4,2% em 2017 e 0,4% em 2016. As reduções anuais são importantes para que o Brasil atenda a acordos climáticos internacionais, como o Acordo de Paris. E para que efetivamente contribua para manter o limite de aumento de 1,5°C na temperatura sobre níveis pré-industriais. Sem esse limite, a tendência é de alta do aquecimento global. E de sério agravamento da crise climática.

inforgráfico de Desmatamentos na Amazônia e as emissões brasileiras 

Desmatamento na Amazônia sobe 8,5%

Os desmatamentos na Amazônia puxaram a alta das emissões. Elas subiram 8,5% no ano passado, ante 2017. Percentual que teria alavancado ainda mais a variação positiva total do País. Mas foi compensado pela queda de 10,9% na taxa de desmatamento do Cerrado, explica Tasso Azevedo. Ele é coordenador-técnico do Observatório do Clima e coordenador do Sistema de Emissão de Gases de Efeito Estufa (Seeg), responsável pela estatística. As entidades são formadas por organizações não governamentais. Elas acompanham as emissões brasileiras de gases de efeito estufa desde 2012.

Gases de efeito estufa, emissões devem crescer em 2019

“Se houver manutenção desse padrão, ou se persistirem os desmatamentos na Amazônia, as emissões deverão crescer neste ano. Mas ficaremos bem próximos da meta estabelecida em acordo para 2020. Ela é de 2,07 bilhões de toneladas de CO2e em emissões brutas. Mas será impossível cumprir a meta de redução de 80% na taxa de desmatamento na Amazônia”, ressalta Azevedo. Segundo as instituições, “mesmo que todo o desmatamento parasse hoje, a elevação detectada pelo sistema de monitoramento do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) nos últimos meses já coloca o Brasil num patamar superior aos 3.925 km2 estabelecidos na lei (brasileira do clima). Com a meta de 2020 prejudicada, o País parte de uma posição pior para cumprir sua NDC, a meta do Acordo de Paris”.

Desmonte da governança ambiental brasileira

“Nós já vínhamos numa situação delicada antes do desmonte da governança ambiental brasileira promovido pelo governo atual”, afirmou Carlos Rittl, secretário-executivo do Observatório do Clima. “Em 2019, os planos de combate aos desmatamentos na Amazônia e Cerrado foram engavetados. E não temos nem mesmo um esboço de plano para a implementação da NDC, que deveria ocorrer a partir do ano que vem. Na verdade, até os órgãos que deveriam implantar a NDC foram extintos pela atual administração.”

Meta de desmatamento não será cumprida

Para as instituições, a meta de desmatamento não será cumprida. No ano passado, foram desmatados 7.536 km2, 92% acima da meta. “Considerando a taxa de 2018, para cumprir esse objetivo, seria necessária uma redução de 48% na taxa. No entanto, para isso, a velocidade do desmatamento precisaria cair em 2019. Mas o que se verificou foi o oposto. A devastação explodiu, na esteira de uma campanha presidencial em que se prometeu afrouxamento dos controles ambientais. Segundo o sistema Deter, do INPE, a área de alertas de desmatamento em 2019 aumentou quase 50% na Amazônia. E 25% no Cerrado.” Elas lembraram também que os incêndios no Pantanal já estão quase nove vezes superiores este ano, ante os registrados em 2018.

Desmatamentos na Amazônia emitem 499 milhões de tCo2e

Sozinho, os desmatamentos na Amazônia emitiram 499 milhões de toneladas de CO2e, em 2018. Acima das 454 milhões de toneladas de 2017. “Os Estados que mais emitiram por desmatamento foram Mato Grosso. Em seguida, Pará e Rondônia. Finalmente,  Maranhão, Tocantins e Acre. Na Amazônia, o aumento do desmatamento aconteceu principalmente em áreas de médias e grandes propriedades (40%). O destaque foi para o Estado do Pará. O aumento em áreas não destinadas (“terras devolutas”) foi de 14%. Em seguida, por terras indígenas (13%), com destaque para as TIs (terras indígenas) Apyterewa e Cachoeira Seca, no PA. Estas áreas  vêm sofrendo invasões. No Cerrado a redução de 11% na taxa de perda de vegetação ocorreu em pequenas e médias propriedades, seguidas por grandes propriedades e terras indígenas.”

Brasil, sétimo maior emissor de gases de efeito estufa do mundo

Segundo a metodologia do Seeg, são verificadas as emissões da agropecuária, energia e processos industriais, resíduos e mudança de uso da terra. É nesse último quesito que se enquadram os desmatamentos na Amazônia e Cerrado. As emissões por mudança de uso da terra foram as que apresentaram maior crescimento em 2018, de 3,6%, sempre na mesma base comparativa ao ano anterior. Foram 845 milhões de toneladas de CO2e. Essas emissões são as responsáveis por 44% do total de CO2e emitido pelo Brasil. E por colocar o País na sétima posição do ranking mundial dos maiores emissores, com 2,9% do total global.

Média de emissões per capita brasileira é maior que a mundial

A média de emissões per capita no País também é maior que a mundial. Cada brasileiro, responsável ou não diretamente por desmatamentos, emite 9,3 toneladas de CO2e por ano. Enquanto a média mundial é de 7,2 toneladas por ano. Na China, maior emissor com 23,7% do total global. A média per capita é de 9 toneladas. Estados Unidos, segundo país que mais emite C022, com 12,9% do total. Média por habitante é de 18 toneladas. Entretanto, o brasileiro do Pará, estado campeão de emissões por causa dos desmatamentos, emite quatro vezes mais do que um norte-americano.

“Barbárie, selvageria e violência se intensificam no Brasil”

“É uma vergonha (o Brasil) ser um dos países que mais emitem gases de efeito estufa por causa de desmatamento. Enquanto os países mais desenvolvidos têm extraordinários desafios a enfrentar para reduzir as emissões, investindo em ciência e tecnologia para conseguir transformar métodos produtivos e de produção de energia, no Brasil bastava zerar os desmatamentos”, diz o economista Ricardo Abramovay. Professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (USP), Abramovay ressaltou ainda que os estados brasileiros que mais emitem CO2e são certamente atrasados no bom uso da terra. “Tudo indica que a barbárie, a selvageria e a violência estão se intensificando no Brasil. Isso em decorrência da sinalização sistemática do governo de legitimar esses comportamentos violentos.”

Agropecuária responde por 69% das emissões

As emissões do setor agropecuário caíram 0,7% em 2018, para 492 milhões de toneladas de CO2e. Ele respondeu por 25% do total das emissões brasileiras. Mas a atividade ainda é a principal responsável pelos gases de efeito estufa, uma vez que os desmatamentos entram nessa conta. “Somadas, as emissões diretas do setor agropecuário com as emissões indiretas, por desmatamento, essa atividade respondeu por 69% das emissões em 2018. No agregado desde 1990, a atividade agropecuária foi responsável por 80% de toda a poluição climática gerada pelo Brasil.”

Pecuária é responsável por 77% das emissões do setor

Os dados do Seeg mostram que a pecuária representou 77% das emissões do setor (69% a de corte e 8% a de leite), em 2018. Foi seguida pelos fertilizantes sintéticos (6%). E por outros subsetores, que somaram 17%. “Emissões indiretas da atividade agropecuária, por desmatamento, calagem de solos e uso de maquinário, são contabilizadas nos setores de mudança de uso da terra e energia, respectivamente. Embora as emissões do setor tenham crescido 162% desde 1970, desde 2016 a agropecuária vem apresentando tendência de queda nas emissões de gases de efeito estufa, ao redor de 1% ao ano.”

Metas do Acordo de Paris podem ser alcançadas

A redução, afirmam, é “puxada pela diminuição do rebanho nacional. Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), isso se deve ao aumento do abate de matrizes devido ao preço da carne no mercado internacional. O que tem levado a recordes de exportação nos últimos anos. Com essas tendências, nota-se que as metas de redução de emissões no setor agropecuário previstas no documento anexo à contribuição brasileira no Acordo de Paris (NDC), que começa sua vigência em 2020, poderão ser alcançadas se as práticas de baixas emissões de carbono observadas nos últimos anos forem escaladas na próxima década”.

Energia e processos industriais emitem menos gases de efeito estufa

O setor de energia e processos industriais registrou queda de 5% nas emissões, para 408 milhões de toneladas de CO2e. É nessa área que estão concentradas as emissões de combustíveis fósseis. O setor respondeu por 21% do total emitido e a queda deve-se a três fatores, além do baixo crescimento da economia brasileira em 2018. Aliás, a manutenção dos níveis de emissão de gases de efeito estufa no País em tempos de recessão ou economia andando de lado, como nos últimos anos, também preocupa muito os especialistas do Seeg.

Aumenta o uso de biocombustíveis

Os três fatores são: “aumento do uso de biocombustíveis, em especial, o salto de 13% no uso de etanol nos transportes, com uma redução idêntica no consumo de gasolina; uma temporada de chuvas regular, o que reduziu o uso de termelétricas na matriz de eletricidade. E um aumento das renováveis, sobretudo, a eólica”. “Pela primeira vez as fontes renováveis não-hídricas se tornaram a segunda principal forma de gerar eletricidade no Brasil, superando as fontes fósseis”, diz Felipe Barcelos, analista de projetos do Instituto de Energia e Meio Ambiente (Iema), uma das 47 organizações que compõem o Observatório do Clima.

Transportes, emissão de 200,2 milhões de toneladas de CO2e

“A principal fonte de emissões no setor de energia são os transportes: em 2018 eles responderam por 200,2 milhões de toneladas de CO2e, 49% do total. Em seguida vêm as emissões por consumo de energia na indústria, com 15%. Depois vem a produção de combustíveis, com 13%. Finalmente,  a geração de energia elétrica, com 12%. As emissões de transportes vêm historicamente se dividindo meio a meio entre carga (104,4 milhões de toneladas em 2018) e passageiros (95,8 milhões de toneladas).”

Com baixo saneamento no País, resíduos respondem por 5% das emissões

O quesito resíduos respondeu por 5% do total das emissões brasileiras, com 91,9 milhões de toneladas de Co2e. “Historicamente, a principal contribuição de emissões do setor é decorrente da disposição de resíduos sólidos em aterros sanitários, controlados e lixões. No entanto, observa-se uma contribuição cada vez mais significativa dos subsetores de tratamento de efluentes líquidos. Tanto domésticos quanto industriais”, diz Íris Coluna, assessora de projetos do Governos Locais pela Sustentabilidade (ICLEI). “A busca pela universalização dos serviços de saneamento pode impactar significativamente o setor (Saiba mais sobre o saneamento). Portanto, é importante se valer de soluções que também contribuam para reduzir emissões.”

Emissões crescem 11% entre 1990 e 2018

Entre 1990 e 2018, na análise da série histórica do Seeg, as emissões brutas de gases de efeito estufa do Brasil aumentaram 11%. “A trajetória das emissões, contudo, teve períodos distintos de crescimento e redução, superando 2,7 GtCO2 e em 1995 e 3,9 GtCO2 e em 2004. E caindo a menos da metade desse valor (1,85 GtCO2 e) em 2012, ano de menores emissões da série histórica. A partir de 2013 houve um reversão de tendências, com subida das emissões motivada pelo aumento do desmatamento na Amazônia. E pelo aumento do uso de combustíveis fósseis na matriz energética, em especial nos transportes. Quando desconsideradas as mudanças de uso da terra e florestas as emissões caíram 2% em 2018 em relação a 2017.”

infográfico de estimativa de emissões no Brasil entre 1990 e 2018

Queda do orçamento para gestão climática

Entre as inúmeras criticas dos especialistas do Seeg à atual política climática brasileira, está o desmantelamento da estrutura de governança para a área no primeiro ano da gestão Bolsonaro. “O empenho orçamentário do MMA (Ministério do Meio Ambiente) em 2019 reflete aquilo que oito ex-ministros do Meio Ambiente chamaram de ‘desmonte’ da pasta: muito embora o orçamento do Ministério tenha sofrido restrições por conta da crise fiscal que remonta ao governo Dilma (Rousseff), a atual gestão não gastou nem o pouco de que dispunha.

Política Nacional de Mudança do Clima

Até setembro, o empenho total havia sido de cerca de R$ 1,2 milhão, com apenas R$ 22,5 mil para a implementação da PNMC (Política Nacional de Mudança do Clima) e zero desembolso do Fundo Clima. As principais instâncias da governança climática federal, o CIM (Comitê Interministerial sobre Mudança do Clima) e seu Grupo Executivo (Gex), também foram extintos, pelo decreto 9.759/2019, que revogou centenas de colegiados da administração federal em abril.”

Imagem de abertura: Dida Sampaio/Estadão

Fonte: http://www.observatoriodoclima.eco.br/wp-content/uploads/2019/11/OC_SEEG_Relatorio_2019pdf.pdf.

Praias limpas na maior parte do País no verão de 2020

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