Abrolhos, BA, livre de ratos há 10 meses

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Abrolhos, BA, livre de ratos há 10 meses

Desde 1983 o arquipélago dos Abrolhos, BA, é um parque nacional marinho. Foi o pioneiro no País. Ele é considerado por especialistas como a região com a maior biodiversidade marinha do Brasil e do Atlântico Sul. Ali encontram-se o maior banco de corais e o mais importante berçário das baleias jubartes do Atlântico Sul. Isso é mais que suficiente para justificar a criação do parque nacional. Contudo, atualmente  as ilhas também representam a maior concentração de biodiversidade e, ao mesmo tempo, extinções de espécies. Espécies insulares costumam ser evolutivamente distintas e altamente vulneráveis ​​a novos distúrbios, particularmente espécies invasoras. E, entre as espécies invasoras, uma das mais terríveis são os ratos, introduzidos ainda durante as grandes navegações. Mas, temos o que comemorar. Há dez meses Abrolhos está livre de ratos.

Fragatas em abrolhos.
Fragatas em abrolhos. Imagem, Lucas Cabral.

Programa de erradicação de roedores exóticos invasores

Antes de mais nada, foi um longo e custoso processo. É sempre assim. A introdução acontece de uma hora para outra, às vezes em poucos minutos de descuido. Em seguida, por não terem predadores naturais, eles se proliferam rapidamente. Muito tempo, e prejuízos depois, começam os trabalhos de erradicação.

Hoje, mais que nunca em razão da perda acelerada da biodiversidade, as ilhas estão em evidência em todo o mundo. Elas abrigam 20% de todas as espécies de pássaros, répteis e plantas, muitas das quais são diferentes de todas as outras e não são encontradas em nenhum outro lugar do mundo.  Como o isolamento é um impulsionador da especialização, as espécies insulares mostram uma surpreendente variedade de características.

Mas, há mais. Elas ainda são locais de descanso e nidificação para aves marinhas. Finalmente, ao atuarem como uma barreira em mar aberto, diz o Island Conservation, as ilhas provocam mudanças nos padrões de circulação oceânica.

O efeito das ilhas nos padrões oceânicos
O efeito das ilhas nos padrões oceânicos . Ilustração, Island Conservation.

Assim, os nutrientes das águas mais profundas e frias sobem à superfície, criando as condições para o desenvolvimento da vida marinha. Isso é conhecido como Island Mass Effect. A massa de terra da ilha facilita o desenvolvimento de recifes de coral nas águas circundantes. Esses reinos de carbonato de cálcio abrigam milhares – mais de 25% – das espécies marinhas.

Em poucas palavras, esta é a história de Abrolhos. Entretanto, durante séculos as muitas aves que frequentam as ilhas do arquipélago tiveram um grande inimigo, os ratos. Em Abrolhos, o programa de erradicação começou em 2017.

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Março de 2023, dez meses sem ratos

Segundo o site do MMA, Todas as ilhas do arquipélago registravam a presença do rato preto (Rattus rattus), um roedor comum nas áreas urbanas. Estes animais ameaçavam a conservação da biodiversidade local, principalmente as aves marinhas, em especial a espécie rabo-de-palha-de-bico-vermelho (Phaethon aethereus) – ameaçada de extinção no Brasil.

Estudo científico publicado em 2014 indicou que, caso a erradicação ou um programa de controle de roedores exóticos não ocorresse, em menos de 100 anos a grazina-do-bico-vermelho (Phaethon aethereus) estaria extinta de Abrolhos.

atobá e filhote
Atobá e filhote. Acervo MSF.

Foi desse modo que a erradicação química começou em Abrolhos, a exemplo do que aconteceu na ilha Georgia do Sul, por exemplo. Lá, além de ratos, houve a introdução de renas e camundongos. A erradicação, comemorada em 2022, custou nada menos que US$ 13 milhões, e nove anos de muito trabalho.

Lucas Cabral, que participou do trabalho de erradicação em Abrolhos,  explica que antes de iniciar a erradicação dos ratos, foram realizados diversos estudos para identificação do impacto, monitoramento das espécies ameaçadas e para traçar as melhores estratégias de manejo, minimizando os potenciais prejuízos à flora e à fauna local.

À época, o chefe do ICMBio encarregado da UC era Fernando Repinaldo que propôs um intercâmbio com outras equipes que enfrentavam o mesmo problema. Para Repinaldo foi a chave: “Nos auxiliou a construir um método mais eficiente, para planejar uma atividade que fosse mais robusta, com respaldo técnico e científico.”

Última aplicação de raticida em 2022

O site do MMA explica que a última aplicação de raticida aconteceu em maio de 2022. A partir da data, a equipe se mantém alerta e realizando diagnósticos para identificar a presença ou ausência de roedores nas ilhas. Até o momento, ainda não foram registrados roedores ou vestígios em nenhuma das cinco ilhas do Arquipélago dos Abrolhos.

Trata-se de um feito e tanto. O Mar Sem Fim parabeniza os envolvidos, enquanto ficamos na torcida  para que os roedores não voltem. Ao mesmo tempo, aproveitamos para lembrar que ainda falta exterminar os bodes da maior da ilhas, Santa Bárbara, que não faz parte do parque.

Bodes em Abrolhos
Bodes em Abrolhos. Acervo MSF.

Para o leigo saber, Santa Bárbara é onde fica a guarnição da Marinha do Brasil que toma conta do farol de Abrolhos. A ilha não faz parte da unidade de conservação. Para piorar, há rebanhos de bodes constantemente dando conta da escassa vegetação, como já denunciamos. Está na hora da Marinha do Brasil tomar uma atitude.

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Comentários

1 COMENTÁRIO

  1. No caso faltou falar que o intercâmbio citado na matéria foi no Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha, que erradicou os ratos em 2018 com bastante sucesso. O primeiro caso no Brasil.
    Aquele mesmo Parque que o autor criticou em matéria passada falando que nada se fazia no tema…

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