Vieiras do Atlântico Norte, ameaçadas pela acidificação
As vieiras do Atlântico Norte estão entre os moluscos mais apreciados da gastronomia. Conhecidas na culinária francesa como coquille Saint-Jacques, figuram entre os manjares mais sofisticados oferecidos pelo mar.
Mas o futuro dessas espécies preocupa cientistas. O aquecimento global e a acidificação dos oceanos reduzem a disponibilidade de carbonato na água, substância essencial para a formação de suas conchas. Sem essa base química, as vieiras enfrentam mais dificuldade para crescer e sobreviver.

As vieiras do Atlântico Norte são apenas mais um exemplo de como as mudanças na química do oceano já afetam diretamente organismos marinhos — e, por consequência, atividades econômicas e alimentares humanas.

A ameaça invisível das emissões de carbono
À medida que a concentração de dióxido de carbono aumenta na atmosfera, a superfície dos oceanos se torna progressivamente mais ácida. Estudos indicam que, no pior cenário de emissões, a população de vieiras do Atlântico Norte pode cair mais de 50% nas próximas décadas.
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Ilha de Ormuz: a joia geológica do Golfo PérsicoCanoa de tolda Luzitânia: naufrágio, abandono e resgateCriaturas marinhas bizarras: espécies que desafiam a ciênciaO mecanismo é conhecido. Os oceanos absorvem mais de um quarto do dióxido de carbono liberado pelas atividades humanas. Quando o CO₂ se dissolve na água do mar, forma ácido carbônico e reduz o pH. Essa mudança química diminui a disponibilidade de carbonato, substância essencial para a formação das conchas de moluscos como ostras, vôngoles e vieiras.
Em estágios iniciais de vida, o impacto pode ser ainda maior: a acidificação pode dificultar ou até impedir que as larvas formem suas conchas.
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De onde vêm as Vieiras
As vieiras vivem em águas frias e temperadas de vários oceanos. As espécies mais valorizadas comercialmente se concentram na América do Norte, no norte da Europa e no Japão. É o caso das Vieiras do Atlântico Norte, muito apreciadas na gastronomia internacional.
O Brasil também tem espécies de vieiras ao longo da costa sudeste e sul, embora em escala comercial menor. Ainda assim, a maior parte das vieiras vendidas no mercado brasileiro é importada, principalmente do Chile e do Canadá. O preço varia bastante: as chilenas podem custar cerca de R$ 120 o quilo, enquanto as grandes vieiras do leste do Canadá podem ultrapassar R$ 700 o quilo.
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Vieiras: organismos marinhos filtradores
As vieiras se alimentam por filtração de plâncton. Elas captam a água do mar e retêm as partículas nutritivas que servem de alimento. Para isso, utilizam sifões que conduzem a água até estruturas especializadas, onde o plâncton fica preso em uma camada de muco.
O mecanismo é semelhante ao das ostras e de outros moluscos bivalves. Ao filtrar grandes volumes de água, esses organismos também contribuem para o equilíbrio dos ecossistemas costeiros.
Se você come vieiras ou ostras, também pode ingerir microplásticos
Mesmo produtos considerados sofisticados, como ostras e vieiras, já apresentam contaminação por microplásticos. Diversos estudos mostram que esses organismos filtradores acumulam partículas microscópicas presentes na água do mar.
Como filtram grandes volumes de água para se alimentar, moluscos bivalves acabam retendo não apenas plâncton, mas também fragmentos de plástico. Quando consumimos esses animais, ingerimos também parte dessas partículas.
O problema evidencia como a poluição marinha já entrou na cadeia alimentar humana. O que lançamos ao oceano retorna para nós.
Essa realidade impõe uma reflexão. As decisões que tomamos hoje moldam a qualidade dos oceanos que as próximas gerações irão herdar. Preservar a integridade dos ecossistemas marinhos não é apenas uma questão ambiental — é um compromisso com o futuro.
Pescaria estratégica nos Estados Unidos
As Vieiras do Atlântico Norte sustentam uma das pescarias mais valiosas dos Estados Unidos. Segundo a NOAA, a principal área de captura se estende do Meio-Atlântico até a fronteira com o Canadá.
A frota utiliza principalmente dragas específicas para vieiras, operando ao longo de toda a faixa de pesca. Em menor escala, sobretudo na região do Meio-Atlântico, alguns barcos também recorrem ao arrasto. A maior parte das embarcações desembarca apenas a carne — o músculo adutor, que é a parte consumida — embora parte da produção ainda chegue ao porto com as conchas.
Tipos de vieiras do Atlântico Norte
Mais de 40 espécies comerciais de vieiras são exploradas no mundo. Dessas, cerca de 18 respondem pela maior parte da produção global, que gira em torno de 2,5 milhões de toneladas por ano, somando pesca extrativa e aquicultura. Desde a década de 1970, o cultivo cresceu rapidamente e hoje representa quase 70% do total produzido.
Nos Estados Unidos, os limites anuais de captura já chegaram a cerca de 36 milhões de libras, segundo estimativas da NOAA. Em anos anteriores, os desembarques médios ultrapassaram 50 milhões de libras, o que reforça a relevância econômica da espécie.
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Mercado de vieiras do Atlântico Norte
O comércio internacional de vieiras movimenta valores expressivos. Em 2013, a União Europeia importou cerca de 36 mil toneladas de vieiras, num total aproximado de € 324 milhões.
O cultivo moderno de vieiras começou no Japão, no fim da década de 1960, como resposta à queda da produção provocada pela sobrepesca. O modelo japonês se espalhou rapidamente e impulsionou a aquicultura em diversos países.
Hoje, a China lidera a produção mundial de vieiras cultivadas, seguida pelo Japão. Entre os grandes produtores da América do Sul destacam-se Peru e Chile.
Embora o foco esteja nas Vieiras do Atlântico Norte, o Brasil também abriga espécies de vieiras ao longo da costa sudeste e sul. Elas pertencem à mesma família de moluscos bivalves e compartilham a mesma vulnerabilidade à acidificação dos oceanos. Se a química do mar continuar a se alterar, o impacto não ficará restrito ao hemisfério norte — poderá atingir também espécies do Atlântico Sul.
Fontes: https://www.greateratlantic.fisheries.noaa.gov/sustainable/species/scallop/; https://phys.org/news/2018-09-ocean-acidification-sea-scallop-fisheries.html?platform=hootsuite; https://pt.wikipedia.org/wiki/Vieira_(molusco);https://www.cityfish.com/jumbo-sea-scallops/; http://www.seafish.org/media/1403315/_2_scallops_rsg_cocker-04-15kg.pdf.










Onde os transatlânticos jogam os seus lixos diários ????
Vivo em New Bedford, estado de Massachusetts. O nosso porto é o principal porto de pesca dos EUA, e somos os maiores na pesca do Scallop (Vieira). Um barco de pesca do Scallop traz a cada 15 dias em torno de $ 200.000 dólares. O Scallop no supermercado custa em torno $16 a 17 dólares a libra (.453 gramas). Gostei muito da reportagem, parabéns.
http://www.southcoasttoday.com/news/20171101/new-bedford-retains-title-of-highest-valued-port-for-17th-straight-year.
Cumprimentos. Consta que em Angra existiria cultivo comercial de vieiras. Parece que pequeno. Se confirmado, valeria matéria a respeito?