Prefeito de Florianópolis censura o povo e libera a farra urbanística
Fico me perguntando se os leitores do Mar Sem Fim têm clareza sobre as razões que nos levam a escrever tantas vezes sobre o litoral de Santa Catarina. Por isso, talvez seja oportuno lembrar como começou este ‘último surto destrutivo’, que passamos a acompanhar quase mensalmente naquele Estado desde a entrada do século 21. Ele nasceu da devassidão de grande parte da classe política, que transformou Santa Catarina em escola de destruição da costa brasileira. Da bacanal em que se converteram diversas prefeituras de municípios costeiros saem alguns dos piores exemplos do País. Praias sofrem com engordas caríssimas que não resistem, apesar dos alertas de especialistas da UFSC. Prefeitos torpes ajoelham-se diante da especulação e afrouxam regras para facilitar negócios. O atual prefeito de Florianópolis, Topázio Neto, segue atacando o Plano Diretor e seus apêndices.

Ali estão as regras que definem onde, como e quanto se pode construir na ilha. Ainda assim, a prefeitura empurrou a população para fora do debate e a censurou. O episódio mostra que muitos prefeitos pouco se importam em servir ao povo por meio do cargo. Preferem servir-se dele.
Revisão de Plano Diretor torna-se uma orgia
Enquanto mudavam regras que afetam a vida da população, tiveram a cara-de-pau de barrar a participação popular! Contudo, reservaram local de destaque, a primeira fila, para um nome ligado à Operação Moeda Verde — investigação da Polícia Federal sobre propina, fraude em licenças e liberação de obras irregulares em áreas protegidas, o delinquente Carlos Berenhauser Leite. A Moeda Verde – cujo nome que remete ao dólar – ficou tão famosa que mereceu verbete na Wikipédia! O episódio resume a prostituição do poder público em Florianópolis. O mercado entra pela porta da frente. O povo, ora, o lugar de povo é a rua!
Este site acompanha a putaria em que se transformou a revisão do Plano Diretor de Florianópolis há tempos, assim como o de outros municípios costeiros que rezam pela mesma cartilha. Infelizmente, o termo que descreve com precisão o que aconteceu, desde então, é putaria, depravação pública. Desde já, me desculpo perante leitores que se sintam ultrajados, mas não encontro palavra que melhor descreva a situação. A revisão do PD, que deveria privilegiar a qualidade de vida dos cidadão, tornou-se um lupanar: quem paga mais, leva mais.

A exclusão da população teve reação, mas a libertinagem prossegue
A exclusão da população teve reação imediata. Grupos de oposição se formaram e fizeram publicar o Manifesto por um Plano Diretor Popular para a Florianópolis que Queremos’. Na ocasião, os aprendizes de feiticeiros, a maioria dos vereadores, à revelia do Regimento Interno e em regime de rito sumário, aprovaram 305 emendas. Das quase 700 apresentadas pelo então prefeito de Florianópolis. De repente, a capital do Estado se viu, aturdida por um Plano Diretor pra lá de controverso.
A sujeira obrigou o Ministério Público a agir, na sequência de críticas explícitas do ICMBio. O órgão disse à época que a revisão do PD ‘tem mais retrocessos que avanços ambientais’ e que ‘os mapas de zoneamento não foram apresentados no projeto’. O Instituto de Planejamento Urbano de Florianópolis – IPUF, em conjunto com 14 técnicos da Fundação do Meio Ambiente de Florianópolis – FLORAM -, também se insurgiram contra a orgia comandada pelo prefeito de Florianópolis Topázio Neto e seu séquito de aprendizes de feiticeiros.
Contudo, antes que houvesse tempo, o vice-presidente do Tribunal de Justiça de Santa Catarina, desembargador Altamiro de Oliveira, suspendeu o pedido do Ministério Público, o que implicou na aprovação do Plano Diretor mesmo estuprado como de fato foi.
Setor da construção civil é um dos maiores financiadores de campanhas em Santa Catarina
Em Santa Catarina, o setor da construção civil é um dos maiores financiadores de campanhas e tem trânsito livre em todas as esferas. Isso cria um ambiente institucional onde a visão de cidade como mercadoria é a norma, não a exceção. O Ministério Público (MPSC) muitas vezes fica isolado como a única voz técnica tentando barrar excessos, mas esbarra em decisões como essa de 2023, que priorizam a “agilidade administrativa”.
Isso explica, de maneira idêntica, a postura desafiadora e cínica do atual presidente do Sinduscon, Carlos Berenhauser Leite, sentado na primeira fila na Câmara, de braços cruzados, como que desafiando a ordem pública com a certeza da impunidade. Antes de mais nada, a participação popular numa revisão de Plano Diretor é obrigação legal.
Aliás, Carlos tem uma linhagem conhecida na região. Seu pai, Henrique Berenhauser, não foi figura lateral na história de Florianópolis. Seu nome aparece ligado à implantação do Parque Florestal do Rio Vermelho e à introdução do pinus, espécie exótica que depois se espalhou e virou passivo ambiental na ilha e no litoral sul. Também surge associado a grandes áreas de terra em regiões cobiçadas, como o Campeche e a divisa com o Morro das Pedras. Ou seja: antes mesmo de o filho aparecer no noticiário policial, o sobrenome já rondava dois velhos males da Ilha — a ocupação privada de áreas valiosas e a herança ecológica desastrosa deixada pelo pinus (As fontes de onde vieram as informações relatadas neste parágrafo estão no final do artigo).
Ausência de minuta de projeto de lei complementar da revisão do PD
Outra omissão que, desde 2023, já escancarava a má-fé da prefeitura foi a ausência de uma minuta do projeto de lei complementar da revisão do Plano Diretor. Como discutir seriamente o futuro da cidade se a população nem ao menos pôde conhecer, de antemão, o texto que mudaria sua vida?

Pois esta é a Santa Catarina, onde a especulação tem aval do poder público, que gerou a escandalosa Jurerê Internacional, seus “beach clubs” e resorts como o “Il Campanário Villaggio”.
Mas não pense que a situação mudou, ao contrário, a ação nefasta dos servidores públicos prossegue. Em setembro de 2025 comentamos a tentativa da gangue de vereadores sangue-suga que pretendia eliminar as 11 unidades de conservação da ilha de Florianópolis o que só não ocorreu por nova intervenção do Ministério Público/SC.
Portanto, nada do que acontece neste momento é novo. Ou seja, o povo na rua e os malfeitores arrogantemente sentados na primeira fila da vilipendiada Câmara Municipal. O cinismo, a mentira, a manipulação e a falta de vergonha na cara prosseguem acompanhando a maioria dos políticos municipais do Estado.
Carlos Berenhauser Leite, presidente do Sinduscon, e a Moeda Verde
Para quem não sabe, Carlos Berenhauser Leite foi um dos envolvidos na Operação Moeda Verde, deflagrada pela Polícia Federal em 2007. Na época, segundo o G1, ele atuava como representante do Grupo Habitasul. Foi condenado, em primeiro grau por crimes ambientais e associação criminosa. A pena foi de um ano e sete meses, convertida em prestação de serviços comunitários.

A venda de licenças ambientais
Ao todo a Operação Moeda Verde, que investigou um esquema de negociação ilícita de licenças ambientais envolvendo empresários, políticos e servidores públicos, pôs 22 figurões atrás das grades. Entre os ‘bacanas’ estavam Fernando Marcondes de Mattos, proprietário do resort Costão do Santinho. E mais, Péricles Druck, do Grupo Habitasul; Fernando Habckost, diretor do Grupo Habitasul. Além deles, também foram presos os empresários Paulo Toniolo Júnior, Amílcar Lebarbenchon e Aurélio Paladini, segundo informações da Gazeta do Povo.
Pela lista pode-se ver o estado de corrupção moral em que chafurdam muitos dos ‘bacanas’ de Florianópolis, aliados dos aprendizes de feiticeiros, infelizmente, eleitos pelo povo!
A lambança não foi totalmente desfeita
Mas a lambança que começou lá atrás, não foi totalmente desfeita. Tanto é assim que ainda em 2025 alguns decretos que regulamentam partes do plano foram alvo de ações por parte do Ministério Público de Santa Catarina (MPSC).

Mais recentemente, em março de 2026 o MPSC obteve uma liminar para suspender alterações fragmentadas na lei urbanística. Segundo o MP, as alterações estavam sendo feitas sem estudos técnicos ou transparência.
Foi este caldo de cultura que permitiu surgir uma das maiores aberrações da costa brasileira, cantada em prosa e verso pela maioria dos oportunistas que se ocupam da política municipal e não se cansam de louvar a ‘Dubai brasileira’, um paradigma da burrice tupiniquim no litoral. Porém, como frisam galhardamente os amorais, “com o metro quadrado mais caro do Brasil”!
É só isso que interessa aos abutres dos cofres públicos: o metro quadrado mais caro do País.
Topázio Neto, atual prefeito de Florianópolis
Topázio Neto, então empresário sem carreira política, foi escolhido em 2020 como vice-prefeito na chapa de Gean Loureiro. Juntos, venceram a eleição para a Prefeitura de Florianópolis no primeiro turno.

Em março de 2022, Gean Loureiro renunciou ao cargo de prefeito para disputar o Governo do Estado, transmitindo o comando da capital ao vice.
Por fim, em outubro de 2024 Topázio foi reeleito com 58,68% dos votos válidos. Ao final de 2025, o prefeito de Florianópolis aparecia com 43% de rejeição no levantamento da Atlas/Intel, ocupando a 13ª posição entre os prefeitos das capitais brasileiras.
Políticos municipais presos em Santa Catarina
As prisões de políticos metidos com a especulação e suas ramificações é mais ou menos comum na ilha. Em 2019, durante a Operação Chabu, o então prefeito de Florianópolis Gean Loureiro foi preso temporariamente pela Polícia Federal. A investigação apurava o vazamento de informações sigilosas de operações policiais para empresários e políticos. Embora tenha sido inicialmente afastado da prefeitura por 30 dias, ele retornou ao cargo apenas uma semana depois, após o TRF-4 revogar as medidas cautelares.
Ainda em 2024, segundo o NSC Total, a investigação sobre o contrato de coleta de lixo em Florianópolis, Operação Presságio, mirou a contratação da empresa Amazon Fort, que recebeu mais de R$ 21 milhões da prefeitura em menos de dois anos. O serviço começou em 2021, na gestão de Gean Loureiro, e depois entrou no radar da PF que até hoje apura suspeitas de irregularidades e corrupção.
Esta convivência escandalosa, e de longa data, entre o público e o privado é o que está concorrendo para que os municípios do litoral catarinense destruam suas praias com inegável empenho apesar de alertados pela Academia.
O que se vê em Florianópolis, e em outros municípios costeiros do Estado, é a continuidade de um projeto que une o marketing político herdado de um Gean Loureiro ao pragmatismo corporativo de um Topázio Neto. Uma simbiose em que o concreto avança sobre a areia com a mesma rapidez de uma meta de call center, como se a natureza aceitasse rescisão contratual. Não aceita. E cobra um preço alto demais, sobretudo agora, com o aquecimento global fora de controle.
Imagem de abertura: F1 Cia Imobiliária
Fontes: https://acervo.arquivopublico.sc.gov.br/index.php/parque-florestal-do-rio-vermelho-pinus-elliotti-6?utm_source=chatgpt.com; https://www.snh2013.anpuh.org/resources/anais/39/1437943304_ARQUIVO_ArtigoSamiraAnpuhv2%282%29.pdf?utm_source=chatgpt.com; https://legado.moodle.ufsc.br/pluginfile.php/1935259/mod_resource/content/1/ParqueRioVermelho_Giorgini.pdf?utm_source=chatgpt.com; https://repositorio.ufsc.br/bitstream/handle/123456789/101054/317524.pdf?utm_source=chatgpt.com; https://repositorio.ufsc.br/bitstream/handle/123456789/182132/TCC%20ULTIMA%20PARTE%20-%20RENAN%20%282%29.pdf?isAllowed=y&sequence=1&utm_source=chatgpt.com.









