Naufrágios da Segunda Guerra Mundial e óleo no litoral

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Naufrágios da Segunda Guerra Mundial e óleo no litoral brasileiro

Os estudos estão próximos de serem finalizados, mas os pesquisadores já descartam qualquer relação entre o óleo que atinge o litoral brasileiro desde o final de agosto e as “caixas” de borracha que há mais de um ano chegam às praias de alguns estados do Nordeste. Foi apenas uma coincidência, acreditem. Porém, tanto o óleo, ainda de origem desconhecida, quanto as “caixas”, que na verdade são fardos de borracha, trouxeram à tona um problema antigo que pode provocar grandes riscos à vida marinha e às regiões costeiras mundo afora, incluindo aos humanos: o potencial de poluição dos milhares de naufrágios da Segunda Guerra Mundial. Mesmo que o governo agora diga que a origem do óleo seria originário “da região sul do mar da África, em abril, até chegar à costa brasileira, em setembro”, a hipótese dos naufrágios e seu potencial de destruição não pode ser descartada.

imagem o SS Rio Grande, um dos naufrágios da Segunda Guerra Mundial
O SS Rio Grande, um dos naufrágios da Segunda Guerra Mundial. Imagem, https://www.culturalheritageonline.com/.

Mais de 7,8 mil navios afundados durante a guerra

São mais de 7.800 navios, entre os naufrágios da Segunda Guerra Mundial. Entre os quais, mais de 860 petroleiros, mostra o estudo The Global Risk of Marine Pollution from WWII Shipwrecks: Examples from the Seven Seas, de Rean Monfils Gilbert. Bem como uma quantidade desconhecida de embarcações que transportavam agentes químicos, bombas, explosivos e armamentos de todos os tipos. Mas nem todos eram navios de guerra. Entre os naufrágios, milhares de navios civis também foram abatidos. De passageiros e de variados tipos de cargas, como a das centenas de fardos de borracha que não param de chegar à costa nordestina desde outubro de 2018. Mas por que devemos nos preocupar com esses naufrágios, passados mais de 74 anos do fim da Segunda Guerra Mundial?

As misteriosas “caixas de borracha” são fardos

Para responder a essa questão, é preciso contar a história. Até o derramamento de óleo sem precedentes no litoral brasileiro, os fardos de borracha chegaram à costa nordestina por quase um ano sem grandes investigações. Eram, inclusive, denominados de “misteriosas caixas de borracha”.

Origem do óleo e dos fardos: navio naufragado?

Foi essa coincidência que levou pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFC) a investigar mais profundamente a origem das caixas. Eles consideraram inicialmente que a origem dos fardos e do óleo poderia ser a mesma: um navio naufragado (Veja aqui uma lista de naufrágios na costa brasileira). Especialmente porque, após o derramamento, os fardos começaram a aparecer oleados nas praias. Mas eles foram tão contaminados como as praias e toda a vida marinha que o óleo encontrou pelo caminho até alcançar o litoral. Quem narra essa história é o oceanógrafo físico Carlos Teixeira, professor do Instituto de Ciências do Mar (Labomar), da UFC. Ele é um dos três cientistas da UFC envolvidos na pesquisa.

Óleo dos fardos não é antigo nem de poço natural

Uma das providências iniciais dos cientistas foi enviar, em outubro, amostras do óleo encontrado nos fardos para análises no Woods Hole Oceanographic Institution (WHOI), de Massachusets, Estados Unidos. Um artigo científico com os resultados deverá ser publicado em breve. Entretanto, o professor de oceanografia da UFC, Rivelino Martins Cavalcante, já adianta algumas certezas. Também especializado em química, ele diz que o oleamento dos fardos foi eventual e que o óleo não é antigo. Ou seja, não é de um naufrágio. Também não é oriundo de um poço natural do fundo do oceano.

SS Rio Grande, um dos naufrágios da Segunda Guerra Mundial e a origem dos fardos de borracha

Mas os fardos de borracha eram de um navio nazista de carga: o SS Rio Grande. Uma curiosidade: até o dia 1 de novembro deste ano, o SS Rio Grande era considerado pelo Guinness World Records, o livro dos recordes, o naufrágio mais profundo encontrado até então, com 5.762 metros. Foi superado nesta data por uma descoberta arqueológica de uma embarcação norte-americana abatida, também da Segunda Guerra. Ela afundou a 6.220 metros da superfície na costa das Filipinas. O SS Rio Grande foi abatido no Atlântico Sul em janeiro de 1944 pelas forças aliadas da qual tentava fugir. Afundou entre a cidade de Natal e a Ilha de Ascensão.

imagem do navio SS Rio Grande
O SS Rio Grande. Imagem, https://www.culturalheritageonline.com/.

Origem nazista dos fardos de borracha

Construído em 1939, o SS Rio Grande era um navio de carga utilizada para a guerra, explica Luiz Ernesto Arruda Bezerra, também professor do Labomar. Era do tipo de navios muito rápidos, projetados para fugir rapidamente dos bloqueios comuns nos oceanos naquela época de guerra. Os nomes das embarcações também não tinham nada a ver com a língua alemã, como parte da estratégia para despistar os oponentes. A embarcação transportava mais de 2,3 mil toneladas de cobre, 311 toneladas de cobalto, 500 toneladas de lata e uma quantidade não especificada de fardos, como a borracha era transportada naquela época. Cada fardo pesa 245 quilos. O navio carregava ainda um volume também desconhecido de óleo combustível.

Dois navios alemães com fardos de borracha abatidos

“Pesquisando, descobrimos que dois navios alemães de carga foram interceptados e afundados na costa do Rio Grande do Norte, entre os dias 2 e 4 de janeiro de 1944. Os dois carregavam fardos de borracha. Um deles era o SS Rio Grande e o outro, mais ao Norte, o Burgenland. A borracha, naquela época, equivalia ao plástico hoje. Era material utilizado mesmo no esforço de guerra. A literatura do exército norte-americano é farta a respeito desses fardos de borracha”, afirma Bezerra. Os pesquisadores também acharam centenas de outros naufrágios na costa nordestina brasileira. Incluindo de navios-tanque, como o de bandeira panamenha I C White, afundado pelos alemães a cerca de 1.000 quilômetros da Paraíba e de Pernambuco.

Mais de 500, a maior parte, naufrágios da Segunda Guerra Mundial

“Entre Brasil e África, são mais de 500, a maior parte,  naufrágios da Segunda Guerra Mundial”, diz Teixeira. Os pesquisadores chegaram à conclusão de que os fardos são oriundos mesmo do SS Rio Grande por meio de duas comprovações importantes, entre outras evidências. A primeira delas é a modelagem matemática elaborada por Teixeira. Ela considera a posição dos naufrágios, as correntes marítimas e os ventos. Como o Burgenland está mais ao Norte, dificilmente esses fardos chegariam aos locais aonde chegaram, entre os estados do Maranhão e Sergipe. Iriam parar no Amapá, levados pelas correntes. Esse mesmo motivo também descarta ser o óleo fruto do mesmo naufrágio, uma vez que já chegou ao Rio de Janeiro.

Fardos de borracha, “Product of French Indochina”

Outra comprovação importante são as cracas incrustradas em alguns fardos. “É um tipo de crustáceo, que pertence à espécie Lepas anatifera. Não são espécies de zonas costeiras, são oceânicas. Ou seja, encontradas apenas em alto mar, o que significa que esses fardos vieram de mar aberto”, observa Bezerra. Mas o gatilho para se chegar a esses navios e ao SS Rio Grande, em particular, foi a inscrição nos fardos: “Product of French Indochina”, diz o professor. A Indochina Francesa foi colônia da França e uma das maiores produtoras de borracha do mundo. A região é formada pelo que é hoje o Laos, o Camboja, o Vietnã e uma parte da China.

Fardos de borracha, nas praias também em 1944

Durante a Segunda Guerra, a Indochina Francesa esteve sob o domínio do Japão, que fazia parte do Eixo, ou seja, lado alemão.  “Mas a Indochina Francesa existiu somente até 1954. Então, só poderia se tratar de um material anterior a essa data.” Uma pesquisa ainda maior levou os professores do Labomar a um vídeo que não esperavam. Um registro, disponível no site Criticalpast, de março de 1944, mostra pescadores brasileiros recolhendo fardos de borracha do mar, em Fortaleza, no Ceará. “Provavelmente, são os que boiaram logo após o naufrágio, mas a maior parte afundou”, afirma Bezerra.

Fardos de borracha também na Europa

Os pesquisadores também descobriram que os náufragos do Burgenland foram parar no Amapá. Já os do SS Rio Grande foram resgatados e presos na 10ª Região Militar, em Fortaleza. Afinal, o Brasil nessa época já tinha lado, o dos Aliados. Novas pesquisas apontaram também que muitos fardos de borracha de navios alemães afundados já chegaram a praias de países europeus, em 1996. “Muitos desses fardos continham o nome da plantação, o que também era comum na época. Aqui também encontramos um fardo com a palavra Sbiak. É uma palavra do vocabulário do povo Khasi, grupo étnico da Meghalaya (Nordeste da Índia). Em 1937, tinham 2.000 Khasi vivendo na French Indochina, trabalhando com borracha”, explica Bezerra, que também estuda a Segunda Guerra Mundial.

SS Rio Grande e Titanic, mesmo descobridor

Segundo o professor, esse foi o período que mais teve afundamentos de navios, especialmente no oceano Pacífico. Poucos foram localizados. Dos citados até agora, sabe-se o paradeiro apenas do SS Rio Grande. Foi localizado pela mesma equipe que encontrou o cinematográfico Titanic, que está em águas bem mais rasas. E desmanchando como mostram imagens mais recentes do que sobrou dele. Em 2017, descobriram que bactérias estão devorando, ao poucos, o casco de ferro do Titanic, que afundou em 1912. Assim, voltamos a questão inicial: por que devemos nos preocupar com os mais de 7.800 naufrágios da Segunda Guerra Mundial?

Naufrágios da Segunda Guerra Mundial: não tem como escapar da corrosão

“Porque com o tempo e as intempéries, eles vão se deteriorando e liberando as suas cargas. A água do mar já facilita a corrosão, além de outros fatores, como as próprias bactérias e abalos sísmicos. Investigamos, inclusive, abalos na região desses navios que pesquisamos, mas nada significativo aconteceu (O mar Báltico enfrenta o mesmo problema). Essas são águas profundas e muito calmas. Mas nem por isso não existe corrosão. Se corrói, quando sai uma peça de cima, as outras vão ficando livres para sair também. Essa é uma explicação. Outra explicação possível, mas pouco provável, como existem muito caçadores de relíquias e tesouros, pode ser que alguém tenha ido vasculhar. Mas, novamente, as águas são muito profundas. E expedições desse tipo exigem investimento alto”, diz Bezerra.

Cerca de 3.200 naufrágios da Segunda Guerra Mundial  no Atlântico

Como mostra a pesquisa The Global Risk of Marine Pollution from WWII Shipwrecks: Examples from the Seven Seas, boa parte desses naufrágios é de alto risco de poluição. Muitas embarcações carregavam armas químicas, do gás mostarda ao sarin, além de bombas e foguetes. Além dos mais de 860 petroleiros. E todos sabem os males que acidentes com petróleo podem causar ao meio ambiente e às pessoas. As embarcações civis de cargas também transportavam toda a sorte de produtos poluentes. No oceano Atlântico, calcula a pesquisa, são cerca de 3.200 navios afundados somente nesse período. Depois de mais de 74 anos do fim da Segunda Guerra Mundial, a humanidade está cada vez mais próxima de se confrontar com esse legado nada positivo.

Imagem de abertura: https://www.culturalheritageonline.com/.

Fontes para Naufrágios da Segunda Guerra Mundial: http://sixtant.net/2011/artigos.php?cat=battle-for-the-south-atlantic-*&sub=treacherous-sea-lanes&tag=1)the-south-atlantic-battle; http://sixtant.net/2011/artigos.php?cat=ships-sunk-germany-25*&sub=blockadebrecher&tag=1)blockade-runners; https://www.researchgate.net/publication/237725515_The_Global_Risk_of_Marine_Pollution_from_WWII_Shipwrecks_Examples_from_the_Seven_Seas; https://epoca.globo.com/sociedade/oleo-no-nordeste-historia-do-navio-alemao-abatido-no-litoral-brasileiro-24008951; https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/Arqueologia/noticia/2019/11/naufragio-mais-profundo-do-mundo-e-encontrado-na-costa-das-filipinas.html; https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2019/07/03/condutor-buggy-cubo-borracha-rn-indiciado.htm; https://www.whoi.edu/who-we-are/.

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1 COMENTÁRIO

  1. Ola, desde criança coletando lixo nas praias e mar, agora com quase 70 anos nunca tinha ouvido falar que fosse possivel navios naufragados serem motivos também de poluição. Achei muito interessante e acho que esta informação precisa ser mais divulgada .
    Estou muito contente com as atividades ambientias ao redor do mundo, pois nunca que eu saiba, se falou tanto neste assunto na historia da humanidade e como muitos paises estoa aderindo a idéia de preservação do planeta apesar da conferencia da Onu hoje esta muito desanimada .
    Brasil pela primeira vez seriamente preucupado com saneamento básico. Será que desta vez deslancha ?
    Att Monica

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