Mais de 5 mil espécies descobertas em local de mineração

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Mais de 5 mil espécies marinhas descobertas em local de mineração

A grande discussão do momento, em termos ambientais, é o iminente início da mineração submarina. Infelizmente, pela crise que passa a imprensa brasileira, o assunto não chega nestas plagas. No entanto, no exterior há enorme polêmica entre empresários, cientistas, ambientalistas, governos, e instituições como a ONU. Uns querem começar a mineração submarina já, outros, temem o impacto que pode provocar à vida marinha bastante ameaçada por nossos usos e costumes insustentáveis. Por outro lado, a finitude próxima de alguns recursos minerais em terra, bem como o aumento exponencial da necessidade de novos minerais usados na tecnologia atual e, por último, o brutal crescimento e consumo da população de 8 bilhões, são algumas das forças em jogo. Contudo, no local dedicado à mineração foram descobertas 5 mil novas espécies marinhas.

mais uma das 5 mil espécies descoberta.
Mais uma das 5 mil espécies descobertas. Segundo o Guardian,Uma vista lateral da Amperima. A maioria das criaturas identificadas por pesquisadores que exploram a Zona Clarion-Clipperton (CCZ) são novas para a ciência e muitas ainda nem têm nomes.

Mineração submarina em larga escala em Clarion Clipperton

Uma das áreas escolhidas para a mineração dos ‘nódulos polimetálicos’ fica em alto-mar, portanto é uma área da humanidade e não de um país em particular. Chama-se Clarion Clipperton. Ela fica no Pacífico onde, 4 mil metros abaixo da superfície,  encontram-se vastos depósitos de nódulos de manganês, pedras ricas em níquel, cobre, cobalto. E outros minerais essenciais para a fabricação de equipamentos – de celulares a baterias para carros elétricos e painéis solares.

A área equivale a aproximadamente duas vezes o tamanho do México. Localiza-se entre a costa desse país e o Havaí. O nome se deve à fronteira ao norte com a ilha Clarion, que pertence ao México, ao sul com a ilha Clipperton, que é da França.

Clarion Clipperton onde foram descobertas mais de 5 mil espécies marinhas.

O assunto preocupa de tal forma que recentemente o New York Times pediu o fim da mineração. Pode parecer um paradoxo pedir o fim de algo que não começou. Entretanto, é melhor ser contundente agora que depois.

Os perigos são tão reais que montadoras como BMW e Volvo, e gigantes como a Samsung e o Google anunciaram em março de 2021 que apoiavam uma moratória para a mineração submarina. Enquanto isso, cientistas como Elizabeth Kolbert, vencedora do Prêmio Pulitzer pelo livro The Sixth Extinction: An Unnatural History, alertaram que “mal exploramos o reino mais escuro do oceano. Com a mineração de metais raros em ascensão, já o estamos destruindo.”

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Você sabe como se formam os nódulos polimetálicos?

Elizabeth Kolbert explica: ‘Espalhadas pela área estão grandes riquezas. Na maioria das vezes, elas tomam a forma de caroços que  parecem batatas enegrecidas. Os caroços, conhecidos  como nódulos polimetálicos, consistem em camadas de minério que se acumularam em torno de fragmentos marinhos, como dentes de tubarões antigos’.

Nodulo polimetálico
O nódulo polimetálico que pode custar três milhões de anos para se formar. Imagem, https://metals.co/.

‘Ninguém ainda descobriu os motivos pelos quais os metais se acumulam; no entanto, sabe-se que é um processo extremamente lento. Uma única pepita do tamanho de uma batata pode levar cerca de três milhões de anos para se formar.’

‘Estima-se que, coletivamente, os nódulos no fundo do oceano contenham seis vezes mais cobalto, três vezes mais níquel e quatro vezes mais ítrio metálico de terras raras do que na terra. Eles contêm seis mil vezes mais telúrio, um metal que é ainda mais raro do que as terras raras’.

Mais de 5 mil espécies descobertas nas profundezas de Clarion Clipperton

Para diminuir a polêmica, a autoridade mundial que regula a mineração submarina, a ISA- International Seabed Authority, sugeriu que se apressassem os estudos para identificar, afinal, que vida marinha havia naquela profundidade.

Parecido com lagosta.
Guardian: O munidopsis semelhante à lagosta. Uma equipe internacional de cientistas construiu a primeira ‘lista de verificação CCZ’ compilando todos os registros de expedições à região.

O resultado está hoje em todas as manchetes mundiais. Segundo o Guardian, ‘Os cientistas descobriram mais de 5.000 novas espécies que vivem no fundo do mar em uma área intocada do Pacífico, um futuro hotspot para mineração em alto mar, de acordo com uma revisão das pesquisas ambientais feitas na área.’

E completou: ‘É a primeira vez que a biodiversidade anteriormente desconhecida da Zona Clarion-Clipperton (CCZ), uma área rica em minerais do fundo do oceano que se estende por 1,7 milhão de milhas quadradas entre o Havaí e o México no Pacífico, foi documentada de forma abrangente. A pesquisa será fundamental para avaliar o risco de extinção da espécie, uma vez que os contratos de mineração em alto mar na área quase intocada parecem iminentes.’

Quase todas as espécies descobertas são novas para a ciência

O Guardian diz ainda que ‘A maioria dos animais são novos para a ciência e quase todos exclusivos da região.’

O jornal informou que 17 empreiteiros já estão prontos para começar a mineração. E informa que ‘em julho, a Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos, um órgão da ONU que regula a mineração em alto mar, começará a aceitar pedidos de exploração dessas empresas.

A boca de um himenastro, um tipo de estrela limosa do fundo do mar.
A boca de um himenastro, um tipo de estrela limosa do fundo do mar.

O estudo das descobertas foi publicado na revista Current Biology onde os cientistas informam que 5.142 espécies foram registradas na CCZ. Entretanto, as estimativas totais da riqueza de espécies variam de > 6.000 a > 8.000. Por último, os pesquisadores estimaram que 88% a 92% das espécies  não foram descritas, em outras palavras, são novas para a ciência.

Ou seja, desde que se começou a falar em mineração submarina, esta foi a melhor notícia entre todas. Não há como minerar sem provocar imensos impactos, seja em terra, e muito mais ainda, no mar. Imagine máquinas imensas ‘arando’ o subsolo marinho, cujos extratos são em seguida enviados por tubos até os navios.

À medida que as máquinas extraem os minerais do fundo do mar, elas emitem plumas de sedimentos, que podem se espalhar por áreas significativamente grandes sufocando a vida marinha e interrompendo a cadeia alimentar.

Além disso, as operações de mineração introduziriam luz e ruído no ambiente escuro e silencioso do fundo do mar, com efeitos desconhecidos nas espécies. Mas há outros problemas.

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Até agora, o fundo do mar é o ecossistema menos compreendido do planeta. É difícil prever os impactos de longo prazo da mineração, especialmente considerando que as operações provavelmente continuariam por várias décadas.

A opinião dos descobridores da vida marinha

A descoberta tem tudo para atrasar o início desta exploração. Segundo o Guardian, O Dr. Adrian Glover, biólogo de águas profundas  e autor sênior do estudo, que participou de várias expedições ao CCZ, mais recentemente na expedição Smartex do Reino Unido, descreveu as viagens ao local como um “privilégio incrível”.

A expedição, teve o financiamento do Conselho de Pesquisa do Ambiente Natural e outros, e apoio da UK Seabed Resources (UKSR), uma empresa de mineração em águas profundas que opera a área de exploração do Reino Unido.

parecida com estrela do mar
Guardian: O ditáster em forma de estrela.

O fundo do mar, disse Glover, é um “lugar incrível” onde, apesar do frio extremo e da escuridão, a vida prospera. “Uma das características do plano abissal é a falta de comida, ainda assim a vida persiste lá embaixo”, disse ele. “É um mistério.”

Segundo o Guardian, Glover foi questionado sobre outros cientistas, incluindo Sir David Attenborough, pedindo uma moratória na mineração em alto-mar por causa dos danos irreversíveis que eles dizem que  causará aos ecossistemas, Glover disse acreditar que seu papel é informar.

“Nosso papel como cientistas não é decidir se pode ir adiante – é fornecer os dados”, disse ele. “Todos os que vivem neste planeta devem se preocupar em usá-lo de forma sustentável. Há uma grande discussão no horizonte e é extremamente importante engajar o público para saber qual caminho as pessoas querem seguir. Você tem reguladores, governos e o público, que ouvirão e lerão as informações, os prós e os contras.

O cientista finalizou: “De certa forma, vejo como muito positivo que possamos criar uma estrutura regulatória antes que a mineração ocorra. [Em] outras grandes indústrias, como petróleo e gás, as regulamentações vieram depois.”

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