Ilhas gregas ameaçadas pelo turismo, um alerta para o litoral do Brasil
O turismo descontrolado nas ilhas gregas multiplica a população sazonal e expõe falhas críticas na infraestrutura, inclusive na saúde pública, além de agravar acidentes e impactos ambientais. O mesmo fenômeno ocorre na costa brasileira. Durante as férias, o aumento explosivo de visitantes pressiona serviços, esgota recursos e degrada ecossistemas frágeis.
Locais como Porto de Galinhas, (PE), Búzios e Cabo Frio (RJ), cidades do sul da Bahia e municípios como Ubatuba, Ilhabela, Bertioga e Praia Grande (SP) já enfrentam os efeitos do turismo sem planejamento. O Guarujá é exemplo de decadência associada à ocupação excessiva. Jericoacoara (CE) e até Fernando de Noronha também estão sob pressão, entre muitos outros.

É essencial que autoridades imponham limites e planejem o crescimento. O turismo pode gerar renda e desenvolvimento, mas, sem controle, deixa de ser solução e passa a ser problema. Somos 8 bilhões de pessoas no planeta. Em 2025, o turismo internacional alcançou 1,52 bilhão de viagens, e a Organização Mundial do Turismo projeta que, até 2030, esse número ultrapasse 2 bilhões.

Os problemas enfrentados pela Grécia
Em junho de 2024, três idosos morreram em ilhas gregas por falta de transporte médico, segundo o Le Monde. Na ilha de Kos, uma mulher de 63 anos faleceu antes de chegar ao hospital porque a única ambulância estava ocupada. Em Evia, a segunda maior ilha do país, um morador de 76 anos morreu em circunstâncias semelhantes. Já em Lesbos, uma mulher de 78 anos perdeu a consciência no mar; os paramédicos levaram mais de duas horas para chegar e apenas constataram o óbito.
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Brasil: turismo externo ainda incipiente mas em crescimento
Historicamente o turismo internacional é incipiente no Brasil mas está crescendo. O país recebeu aproximadamente 9,3 milhões de turistas estrangeiros em 2025, um salto de 37,1% em relação aos 6,7 milhões registrados em 2024. Segundo a UN Tourism, o Brasil liderou o crescimento percentual de chegadas internacionais em 2025, superando destinos como Egito, Japão e Vietnã. Portanto, a situação pode se inverter e o País receber cada vez mais turistas internacionais.
Além do crescimento do turismo externo, o fluxo de viajantes internos em direção ao litoral é massivo, especialmente durante a alta temporada. Segundo dados do Ministério do Turismo e da Nexus, cerca de 59 milhões de brasileiros planejaram viajar a lazer entre o final de 2024 e o início de 2025, sendo que a praia é o principal atrativo para a grande maioria desse público.
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Cerca de 35% dos turistas brasileiros apontam a praia como seu destino favorito de férias. O Nordeste continua sendo a região mais desejada, concentrando 44% das intenções de viagem de quem busca o litoral.
Falta de planejamento na zona costeira
A falta de planejamento e o excesso de pessoas em áreas costeiras frágeis e sem infraestrutura adequada são problemas recorrentes. Quando uma praia se torna moda, uma avalanche de turistas e proprietários de segundas residências ocupa a região. A infraestrutura, já insuficiente, entra em colapso. O resultado é previsível: lixo espalhado, rios contaminados, trânsito caótico e poluição do ar e do mar.
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Nova estação científica no arquipélago de São Pedro e São PauloGrilagem avança no entorno da APA Baleia-SahyGrupo pede apoio para salvar arquivo caiçara de IlhabelaO turismo de massa corrói paisagens, destrói ecossistemas essenciais — como mangues, restingas e dunas — e reduz a qualidade de vida dos moradores. Ainda assim, a mídia nacional raramente trata o tema com a dimensão que ele merece. O problema quase nunca chega às manchetes.
Ao contrário da mídia nacional, a Al Jazeera também repercutiu o caos nas ilhas gregas. George Sarelakos, fundador e presidente da Aegean Rebreath, organização dedicada à proteção do ambiente marinho, afirmou que o elevado número de visitantes representa um risco ambiental crescente para Santorini, especialmente diante da escassez de água potável na ilha.
“Imagine milhares de turistas nas ilhas gregas, cada um comprando uma ou duas garrafas de água por dia. Estamos falando de uma quantidade inimaginável de plástico que acaba no fundo do mar”, afirmou ele.
A irritação da população da ilha de Paros
A Al Jazeera também comentou a irritação da população da ilha de Paros. Os moradores protestaram contra os enxames de espreguiçadeiras e guarda-sóis de propriedade privada, ocupando grandes trechos de areia e cobrando cerca de 100 euros (US$ 107) por um conjunto, não deixando espaço para outros usarem a praia.
O mesmo processo se viu no verão brasileiro de 2025. Seja em praias do Nordeste, Sudeste, ou nas do Sul, o problema foi basicamente o mesmo.
Sobre os navios de cruzeiro, as ‘máquinas de poluição‘ tão queridas por prefeitos despreparados de municípios do litoral brasileiro, a Al Jazeera revelou que Mykonos tinha uma média de dois destes monstros de ferro por dia com picos de seis.
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Isso significa que potencialmente 14 mil passageiros podem inundar a pequena ilha em apenas um dia, disse a reportagem, alertando que a infraestrutura “já tensa” da ilha pode ceder sob a pressão.
Veneza, hotspot do turismo, proibiu navios de cruzeiro
Foi diante desses problemas que, em 2021, Veneza proibiu que navios de cruzeiro nos canais históricos da cidade. A medida mostrou que é possível impor limites e ordenar o turismo para proteger o meio ambiente e a qualidade de vida dos moradores. Mas isso exige visão e determinação política.
A Al Jazeera conclui que as autoridades gregas classificaram o combate ao excesso de turismo como “prioridade máxima”. O debate sobre o turismo de massa, segundo a emissora, já se espalhou por toda a Grécia, não apenas pelas ilhas.
A Al Jazeera conclui a reportagem destacando que autoridades afirmaram que combater o excesso de turismo é “prioridade máxima”. O debate sobre o turismo de massa já ocorre em toda a Grécia, e não apenas nas ilhas.
É importante definir a capacidade de cada local
O The Irish Times informa que Atenas atingiu seu limite turístico, impulsionado, entre outros fatores, pelo aumento de 500% nas ofertas do Airbnb nos últimos sete anos. Um estudo citado pelo jornal aponta que a cidade já ultrapassou sua “capacidade de carga turística” — o número máximo de visitantes que pode receber sem danos ao meio ambiente e à vida social. Em diversos destinos, esse limite já foi excedido.
A reportagem destaca ainda que, embora o turismo represente mais de 25% do PIB da Grécia, ele também ameaça a estrutura social e cultural do país. A pergunta central é: como preservar a qualidade de vida dos moradores permanentes diante do fluxo crescente de visitantes?
Para o Cíclades Open, os recursos ambientais estão sob pressão, e os moradores já não toleram a forma como o mercado imobiliário ameaça degradar a paisagem e a beleza dos destinos turísticos. Segundo o grupo, quando o turismo ultrapassa determinado limiar de crescimento, deixa de melhorar a qualidade de vida e passa a piorá-la, transformando o que era paraíso em problema permanente.
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Outra fonte que fez coro foi o Greek Reporter: entre os principais impactos do excesso de turismo em Santorini estão a superexploração dos recursos, o empobrecimento ambiental e o enorme volume de lixo gerado.
Antes de tudo, todas essas críticas se aplicam perfeitamente às estâncias balneárias de São Paulo, assim como aos destinos citados na abertura deste post. Não podemos continuar ignorando essa realidade se quisermos preservar a integridade da zona costeira.
A destruição da costa espanhola é um alerta do que estes por vir
O que hoje se vê em muitos destinos da costa brasileira — e também da Grécia — repete o processo que devastou o litoral da Espanha. Em 2009, o The Guardian publicou a reportagem The destruction of Spain’s coastline, quase sem texto, apenas uma sequência de imagens chocantes que mostram a extensão da degradação causada pela ocupação descontrolada.
Esse processo avança rapidamente no litoral do Brasil e já ameaça também as ilhas gregas. Ainda assim, é possível impor limites, planejar o uso do território e transformar o turismo em uma atividade menos predatória — e, quem sabe, sustentável.
Algumas medidas para evitar o caos
Selecionamos exemplos de medidas adotadas por países que enfrentaram o avanço do turismo predatório. Mas o primeiro passo é reconhecer o problema e trazê-lo ao debate público. É preciso colocar o tema na pauta, discutir limites e responsabilidades. Ignorar a questão, como ainda ocorre no Brasil, definitivamente não é solução.
Segundo o Traveling Lifestyle, a França estuda lançar uma campanha para “desencorajar” turistas a visitar destinos já saturados. A proposta foi mencionada por Olivia Grégoire, ministra do Comércio, Artesanato e Turismo. Ela afirma que apenas 20% do território francês concentra 80% de todos os visitantes.
A mesma fonte informa que Veneza, Amsterdã e Edimburgo foram recentemente incluídas na lista de destinos que cobram taxa de visitação. Embora parte dos turistas critique a medida, outros reconhecem que a cobrança busca fortalecer as economias locais e conter o excesso de turismo.
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Outra medida evidente é limitar o número de entradas. Assim, os destinos passam a controlar diretamente quantos turistas podem acessar uma região ou cidade ao mesmo tempo.
Segundo o pinatravels.org, diversos países adotaram impostos turísticos como forma de enfrentar o problema, entre eles o Butão e a Espanha. As cobranças costumam ser incluídas na diária de hotéis ou pagas como taxa de saída nos aeroportos. A arrecadação pode ser direcionada à proteção de recursos naturais e à manutenção da infraestrutura turística.
Outra estratégia é limitar o tempo de permanência dos visitantes, reduzindo a superlotação. A medida já é aplicada em locais como Machu Picchu e o Taj Mahal.
E nós? Vamos aprender com essas experiências e começar a discutir, com seriedade, o que acontece no nosso litoral?










É inegável que o turismo pode gerar impactos significativos nas cidades que recebem um grande número de visitantes. No entanto, é importante reconhecer que o problema de infraestrutura não é exclusivamente causado pelo turismo em si, mas sim pela falta de planejamento urbano e investimento em infraestrutura adequada por parte das autoridades locais.
O turismo traz consigo uma série de benefícios econômicos, sociais e culturais para as comunidades receptoras, incluindo a geração de empregos, o estímulo ao comércio local e a promoção da cultura e do patrimônio. No entanto, quando não acompanhado por um planejamento urbano adequado, o aumento repentino da população pode sobrecarregar os serviços públicos, como saúde e transporte, e causar danos ao meio ambiente.
Portanto, responsabilizar exclusivamente o turismo pelos problemas de infraestrutura é simplificar uma questão complexa. Em vez disso, é necessário um esforço conjunto entre o setor público, o setor privado e a comunidade local para desenvolver políticas e práticas sustentáveis que garantam o crescimento do turismo de forma responsável e equilibrada.
Isso inclui investimentos em infraestrutura básica, como transporte público, saneamento básico e serviços de saúde, bem como a implementação de medidas de gestão ambiental para proteger os recursos naturais e minimizar o impacto negativo sobre o meio ambiente.
Portanto, em vez de culpar o turismo, devemos concentrar nossos esforços em promover um turismo responsável e sustentável, que beneficie tanto os visitantes quanto as comunidades locais, garantindo que os destinos turísticos possam ser desfrutados por gerações futuras.
Espartanos, rebelai-vos!
Morei 12 meses em Ubatuba, na Praia Grande. No início, a montagem de guarda-sóis e cadeiras para aluguel, montadas na praia, desde cedo, deixava menos de 2m de areia para o trânsito de banhistas. Ao final daquele período, o aluguel de barracas montadas na praia invadiram a areia e eu, sem ter como colocar meu humilde guarda-sol, abandonei a praia, a Praia Grande e Ubatuba. Nunca mais voltei lá.
Controle é sempre o maior aliado quando falamos.em turismo. Moro em Barra do Una São Sebastião e em 25 anos nossa praia foi invadida por turistas e a maioria sem consciência e nem respeito. Nossa praia se transformou em terra de ninguém e o que era bucólico e limpo se transformou em lixo e mais lixo. O turismo predatório deve acabar. Mas, isso depende EXCLUSIVAMENTE dos governantes. Pensar em prosperar faz parte mas, permitir a degradação é no mínimo insano.
o problema do litoral norte de sao paulo,e’diverso,o turismo de massa de um dia ,em que o visitante nada consome na cidade,usufrui e deixa o lixo,o caos e’a destruicao sem beneficios que precisa de regulacao
Fernando de Noronha é talvez um exemplo de ponto turístico que se preocupa com a quantidade de pessoas que podem estar na ilha simultaneamente. Além de cobrarem taxas.
Sem mencionar a situação de Camboriú e Fernando de Noronha….
Reportagem muito esclarecedora. Importante levar este debate para outras frentes. Sou de SC. Tenho muitas lembranças boas das férias em cidades como bombinhas e Itapema. Mas agora é impossível ir pra lá. Trânsito caótico e preços absurdos de tudo. A ganância imobiliária não tem fim. Triste.