Guarás voltam a Florianópolis depois de mais de 100 anos

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Guarás voltam a Florianópolis depois de ausência centenária

Alguns afirmam que são mais de dois séculos e meio. Outros, mais de 160 anos. O fato é que há muito tempo eles não apareciam em Florianópolis. Mas voltaram com toda a sua beleza. No final de novembro, mais de mil guarás, com sua bela plumagem vermelha, pousaram na capital catarinense. E deixaram boquiabertos ambientalistas, cientistas, turistas e toda a população da ilha. Foi a concretização de um sonho para quem estuda aves. “Foi uma emoção indescritível! Sempre sonhamos com o retorno da espécie. Falar sobre um sonho é uma coisa, mas ver ele se realizar e ainda em grande estilo, com mais de mil guarás no dia da chegada, é outra”, disse o biólogo Fernando Farias, ao G1.

imagem de guarás

Retorno dos guarás, sinônimo de manguezal preservado

Farias é guia de observação de aves e foi um dos primeiros a avistar o bando, no Manguezal de Itacorubi, região central de Florianópolis. Para o ornitólogo, o retorno é sinônimo de conservação. Um reflexo da boa saúde atual dos mangues da ilha (Saiba mais sobre os manguezais). Uma opinião compartilhada por vários estudiosos. Entre eles, Guilherme Willrich, biólogo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Eles apontam a degradação de manguezais, o comércio das penas incandescentes dos guarás para uso ornamental, a coleta de ovos e a poluição dos oceanos entre as causas principais da extinção da ave na ilha.

Manguezais já foram considerados “um atraso”

Fabrício Basílio ressalta ainda outra causa relevante: a redução das áreas de manguezais em todo o país. Mas especialmente nas regiões Sul e Sudeste. Boa parte foi aterrada e ocupada pelos humanos. Florianópolis não fugiu à regra. E tem cinco manguezais, entre eles o segundo maior (Itacorubi) em área urbana do Brasil – o maior está em Recife, Pernambuco. Basílio é pesquisador do Observatório de Áreas Protegidas e do Laboratório de Gestão Costeira Integrada da UFSC. Ele explicou, à Folhapress, que, antes, “pensava-se que esses ecossistemas não serviam para nada, tinham mau cheiro e eram um atraso ao desenvolvimento das cidades”.

Manguezais são berçários da vida marinha

 Os manguezais, regiões que separam o mar da terra firme, são berçários para várias espécies marinhas. E também lugares de alimentação e reprodução de aves, como os guarás. Além disso, protegem as cidades das zonas costeiras de intempéries e eventos climáticos intensos. O cheiro pode não ser lá muito bom. Assemelha-se a ovo podre. Mas é resultado da decomposição de folhas, entre outros materiais orgânicos. Decompostos, servem de alimento para as várias espécies que dependem do ecossistema para sobrevivência. Segundo Willrich, durante muito anos essas aves, muitas vezes confundidas com flamingos, sumiram das regiões Sul e Sudeste do País.

imagem de guarás em copas de arvores do mangue

Na Baía de Babitonga, Guarás são atração

Mas retornaram aos manguezais de São Paulo por volta da década de 1990. O retorno veio na esteira da criação de parques, unidades de conservação e áreas de proteção ambiental, entre outros. Mas somente neste milênio retornaram ao Sul do País, incluindo a região norte de Santa Catarina. Na Baía de Babitonga, por exemplo, elas são uma atração já há bastante tempo (Saiba mais sobre a baía de Babitonga). No norte do estado e distante aproximadamente 200 quilômetros da capital catarinense, a Baía Babitonga pode já ter uma população tão grande de guarás que enviou essas cerca de mil aves para a ilha, arrisca Farias. Ele torce agora para que elas prolonguem a estadia e se reproduzam nos manguezais de Florianópolis.

Florianópolis tem mais de 1.700 hectares de manguezais

Segundo o Instituto Mangue Vivo, Santa Catarina ainda tem uma extensa área de manguezais e criadouros naturais. Ocupam em torno de 14,3% da costa e da ilha. Em Florianópolis, a área total de manguezais é estimada em pouco mais de 1.700 hectares. Ela é composta pelos manguezais do Itacorubi, Ratones, Saco Grande, Rio Tavares e Tapera. O Manguezal do Itacorubi corresponde ao Parque Municipal do Itacorubi, administrado pelo município. O Manguezal de Ratones e o Manguezal do Saco Grande integram a Estação Ecológica dos Carijós. Já o Manguezal do Rio Tavares faz parte da Reserva Extrativista Marinha do Pirajubaé, administradas pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).  Mas  todos estão sob a pressão da especulação imobiliária apesar das UCs do bioma marinho do Estado protegerem os mangues.

image de guará em vôo

Guarás, típicos da América do Sul

De nome científico Eudocimus ruber, os guarás não revoavam em Florianópolis, mas são predominantes da América do Sul. Estão presentes em quase toda a costa Norte sul-americana, do Equador até o Ceará, além de outras regiões do litoral brasileiro, em especial o Maranhão e o Delta do Parnaíba, no Piauí. Entre os países que o abrigam estão ainda Argentina e Estados Unidos, para onde foram levados. Os guarás medem de 50 a 120 centímetros. São parentes próximos de aves como a curicaca e o colhereiro. São também conhecidos como íbis-escarlate, guará-vermelho e guará-rubro.

imagem de guarás em vôo

Guarás, plumagem vermelha vem da dieta

A cor vermelha da plumagem é formada ao longo da vida, uma vez que nascem com penas mais escuras, quase pretas. O vermelho intenso é oriundo da dieta à base caranguejos, que liberam pigmentos no organismo da ave, afetando especialmente a plumagem. Os guarás podem voar mais de 70 quilômetros por dia, entre áreas onde se alimentam e dormem. Por isso, muitos especialistas acreditam que eles não estão retornando apenas à Florianópolis, mas a outras regiões mais ao Sul do Brasil. Se as áreas de manguezais estiverem realmente em boas condições e as aves forem respeitadas, isso pode significar que o deleite de uma revoada escarlate ao pôr do sol será para uma população ainda maior que a de Florianópolis.

Assista ao vídeo que mostra a volta dos guarás em Florianópolis

Fontes: https://gauchazh.clicrbs.com.br/ambiente/noticia/2019/11/apos-200-anos-passaros-que-parecem-flamingos-voltam-a-colorir-ceu-de-florianopolis-ck38v21cj019e01pcak7pb444.html; \http://g1.globo.com/sc/santa-catarina/nossa-terra/2013/noticia/2013/09/manguezal-urbano-do-itacorubi-em-florianopolis-e-2-maior-do-brasil.html; https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/terra-da-gente/noticia/2019/11/26/entenda-a-importancia-e-o-significado-do-retorno-dos-guaras-a-florianopolis-sc-depois-da-extincao.ghtml; https://manguevivo.org.br/historico/#;  https://www.deolhonailha.com.br/florianopolis/noticias/_saiba_mais_sobre_os_manguezais_de_florianopolis.html; http://www.clicrbs.com.br/sites/swf/DC_mangue/index.html;http://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/terra-da-gente/especiais/noticia/2016/03/guaras-se-alimentam-de-caranguejos-que-dao-cor-vermelha-penas.html.

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3 COMENTÁRIOS

  1. Ótimo, mas que agora os responsáveis cuidem para retirar da orla de Florianópolis a imensa quantidade de plástico em geral, inclusive canudos, e isopor. Com a quantidade de turistas, ainda falta na linda ilha de Santa Catarina cultura ambiental e coleta de lixo eficiente.

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