Falência do Greenpeace: futuro do ativismo em crise?

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Falência do Greenpeace por multa de US$ 660 milhões: futuro do ativismo em crise?

É difícil encontrar alguém que nunca tenha ouvido falar do Greenpeace. Desde que as preocupações com o aquecimento global ganharam força, há cerca de 50 anos, a ONG realiza ações espetaculares em diferentes países para chamar atenção para a crise climática. Agora, um júri de Dakota do Norte julgou o Greenpeace culpado por difamação, conspiração e outras acusações ligadas aos protestos contra o oleoduto Dakota Access, realizados entre 2016 e 2017. Como pena, o juiz determinou que a organização pague US$ 660 milhões em indenizações à desenvolvedora Energy Transfer LP. Segundo a BBC, o Greenpeace prometeu recorrer, mas afirmou que o processo pode levá-lo à falência, encerrando mais de cinco décadas de ativismo. Especialistas jurídicos alertam que a decisão pode inibir fortemente outros grupos de protestarem contra empresas de petróleo, gás e sua infraestrutura nos Estados Unidos.

protesto do Greenpeace contra extração de petróleo
Eles parece que estão em todos os lugares. As imagens são do Greenpeace.

“Veredicto é convite para outras empresas tomarem ações contra manifestantes”

Algo está mudando. Recentemente, as autoridades da Groenlândia prenderam Paul Watson, da Sea Shepherd — grupo dissidente do Greenpeace — por causa de suas ações contra a caça às baleias na Antártida em 2010, que teriam provocado danos e ferimentos. Ele passou cinco meses na prisão. Agora, outro ícone ambiental enfrenta uma condenação…

mapa da atuação do Greenpeace .
O mapa da atuação do Greenpeace, a multinacional do ativismo climático.

Michael Gerrard, fundador e diretor do corpo docente do Centro Sabin para a Lei de Mudanças Climáticas da Universidade de Columbia, disse ao Dallas News que “o veredicto é um convite para que outras empresas tomem ações semelhantes contra os manifestantes.”

Protestos do oleoduto Dakota Access

Os protestos do oleoduto Dakota Access começaram em abril de 2016. A tribo Sioux Standing Rock se estabeleceu ao longo da rota proposta para protestar contra seu desenvolvimento e levantou preocupações sobre possíveis impactos ambientais. Meses de protestos crescentes levaram o governo do presidente Barack Obama a bloquear o projeto no final de 2016. Mas logo depois que Trump assumiu o cargo em 2017 ele reverteu a decisão e o gasoduto foi concluído.

Greenpeace no Reino Unido

A imagem abaixo, do Greenpeace, foi publicada com esta legenda: Ativistas do Greenpeace do Reino Unido realizam uma manifestação do lado de fora do Tribunal Escocês de Sessão em Edimburgo. Enquanto isso, começa a revisão judicial do Greenpeace em Rosebank e Jackdaw. Os ativistas argumentam que as empresas e o governo anterior ignoraram ilegalmente o impacto das emissões causadas pela queima do petróleo e do gás extraídos dos campos de Rosebank e Jackdaw. Robert Ormerod / Greenpeace.

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“O fato de o Greenpeace ter sido responsabilizado por violar a lei é uma vitória para todos nós”, disse a Energy Transfer. A empresa argumentou que o Greenpeace incitou protestos que custaram milhões de dólares, caluniaram sua reputação e dificultaram sua capacidade de arrecadar dinheiro nos mercados de capitais.

Um mundo cada vez mais distópico

Elucubrando, me veio à cabeça o termo ‘distopia’. Raro até recentemente, o termo surgiu do nada para o ‘glamour’. Foi um salto, num átimo. Mas, o quê significa? ‘Gênero de narrativa que se caracteriza pela representação de sociedades imaginárias em que prevalecem condições de vida opressivas, totalitárias e desumanas’.

Sociedades imaginárias, ou reais em muitas partes do globo? será que já não estamos vivendo esta ‘narrativa’ com Donald Trump desmontando o aparato ambiental do segundo maior emissor de gases de efeito estufa, e país mais rico do mundo? Em outras palavras, os ‘mocinhos’ estão se transformando em ‘bandidos’, não só nas questões de clima, mas na política também.

Saiba o motivo do processo ser em Dakota do Norte

O Dallas News explica que o Greenpeace e alguns juristas descreveram o processo como um tipo de manobra legal conhecida como uma ação estratégica contra a participação pública, também chamada de SLAPP.

Nvio do Greenpeace
Imagem, Greenpeace.

As regras relacionadas aos processos do SLAPP variam de estado para estado, mas a maioria tem leis para proteger organizações ativistas de grandes corporações pressionando-as a recuar. Dakota do Norte não é um desses estados, tornando o processo mais fácil para a empresa.

Energy Transfer, uma das maiores empresas de gasodutos do país

Para o New York Times, a Energy Transfer é uma das maiores empresas de gasodutos do país. O jornal revela que durante os argumentos finais, o co-fundador e presidente do conselho da Energy Transfer, Kelcy Warren, um aliado e doador do presidente Trump, teve a última palavra quando seus advogados tocaram uma gravação que ele fez em um depoimento para os jurados. “Temos que nos defender”, disse, argumentando que os manifestantes criaram “uma narrativa totalmente falsa” sobre sua empresa. “Era hora de lutar de volta.”

“Ratificar o Tratado do Oceano”

A foto abaixo, publicada pela ONG tem como legenda a seguinte explicação: O ator espanhol Alba Flores segura uma faixa que diz “Ratificar o Tratado do Oceano” enquanto mergulha na Ilha de Santiago, parte das Galápagos. O Arctic Sunrise estava em uma expedição ao redor do arquipélago, com cientistas da Fundação de Conservação Jocotoco, a Fundação Charles Darwin, o Centro de Ciência de Galápagos, MigraMar e Galápagos. A expedição mostrou o poder da proteção marinha documentando o sucesso da Reserva Marinha de Galápagos através da incrível vida selvagem e habitats. Os dados coletados durante a expedição ajudaram a defender uma nova área protegida em alto mar. Johis Alarcón / Greenpeace.

protesto do Greenpeace pelo tratado oceânico

Segundo o NYT, três entidades do Greenpeace foram nomeadas no processo: Greenpeace Inc., Greenpeace Fund e Greenpeace International. O Greenpeace Inc. é o braço do grupo que organiza campanhas e protestos públicos. É baseado em Washington, assim como o Greenpeace Fund, que arrecada dinheiro e concede subsídios.

veleiro do Greenpeace.

A terceira entidade, Greenpeace Internacional, com sede em Amsterdã, é o órgão de coordenação de 25 grupos independentes da ONG em todo o mundo.

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Para o Inside Climate News, foi um veredicto monumental que muitos grupos da sociedade civil e advogados da Primeira Emenda alertaram que poderia prejudicar a liberdade de expressão.

protesto do Greenpeace

Agora, uma pergunta: para os de fora dos Estados Unidos esta é uma boa, ou má, notícia? E, afinal, quem são os mocinhos e os bandidos nesta história? Com a resposta, você, caro leitor. Comente.

Assista ao vídeo para saber mais

Lawsuit over Dakota Access Pipeline protests could bankrupt Greenpeace

Península Antártica: cientistas temem devastação por gripe aviária

Comentários

2 COMENTÁRIOS

  1. Infelizmente fazer o mal é mais fácil, não importa q seja contra uma pessoa, um animal, natureza, ar q tdos respiram…..a maioria está pensando antes de tdo no $……enriquecer não importa a q custo……matar vidas, clima,etc.
    Fazer o “bem”…..não traz ibope, lucro, etc….
    Fazer o “bem” traz a alegria, amor, realização ” na alma ” de quem o faz.,isso só quem sente sabe o valor q têm sentir…….ver vidas felizes, sem prejudicar ninguém, seja através de contaminação, poluição, etc. SÓ QUEM AMA DE VERDADE,SABE O VALOR DE FAZER O BEM E NÃO O MAL……A ALMA AGRADECE……e o nosso “criador ” tbém…

  2. As ONGs ambientalistas lançam luz sobre as causas prioritárias, que passam à margem de grande parcela dos terráqueos (poucos sabem e/ou acompanha a realidade de declínio da população da Tartaruga de Pente – Eretmochelys imbricata). Há uma campanha global contra a ciência, contra o meio ambiente, contra a educação socioambiental, ao ponto, de observarmos que que até mesmo as pessoas atingidas por catástrofes climáticas continuam a incorrer em ações prejudiciais ao meio ambiente (a exemplo, não é incomum moradores de bairros suscetíveis a alagamento fazerem dos bueiros suas lixeiras). É fatídico quando instituições que conseguem irromper ao estado de inércia dos “cidadãos globais”, agora passam a sofrem o assédio judicial para desclassificar este trabalho tão relevante de sensibilização ambiental.

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