Criação de salmão no Chile: mortes, trabalho precário e poluição

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Criação de salmão no Chile: mortes, trabalho precário e poluição

Nós já mostramos diversas vezes os impactos da criação de peixes selvagens em cativeiro. A criação de salmão no Chile virou um dos casos mais emblemáticos de degradação ambiental.

Mas o problema não se limita ao Pacífico sul. Ele também avança no Brasil, hoje o maior produtor de tilápia do Nilo (Oreochromis niloticus). E se repete no hemisfério norte, onde fazendas de salmão enfrentam forte oposição no Canadá. Finalmente, em 2024 a morte de milhões de salmões, criados em cativeiro nas ilhas Hébridas pela empresa Mowi Scotland, a maior fornecedora do Reino Unido, gerou forte impacto na Europa.

O modelo é o mesmo. Os impactos também.

criação de salmão no Chile
Um centro de cultivo de salmão na Patagônia chilena, onde o salmão não é uma espécie nativa. Imagem, The Guardian.

A piscicultura é mais complexa que a criação de animais domesticados. A maioria dos peixes criados ainda é biologicamente selvagem. Eles não se adaptam bem ao cativeiro. A transição do ambiente natural para tanques e gaiolas impõe obstáculos biológicos e técnicos que o setor ainda não superou.

Em regra, essas criações geram poluição, estimulam a bioinvasão e acumulam impactos. No caso da criação de salmão no Chile, o quadro se agrava. A atividade registra mortes de trabalhadores, condições precárias, uso excessivo de antibióticos e danos ambientais graves. Trabalhadores e comunidades locais pagam o preço.

Guardian revela mortes e condições degradantes nas fazendas do Chile

Em dezembro de 2025 o jornal inglês The Guardian publicou a matéria ‘Those who eat Chilean salmon cannot imagine how much human blood it carries with it’ ( “Aqueles que comem salmão chileno não podem imaginar quanto sangue humano carrega consigo”, em tradução livre.

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A reportagem revela que o Chile é o segundo maior produtor mundial de salmão. É também o maior fornecedor para os Estados Unidos e um dos principais para o Brasil. Ao mesmo tempo, a criação de salmão no Chile acumula denúncias de trabalho perigoso, uso excessivo de antibióticos e danos ecológicos.

Antes de prosseguir, vale lembrar: o salmão é nativo das águas frias do Pacífico Norte e do Atlântico Norte. Desova em rios de água doce e depois migra para o mar. Levar espécies exóticas para o hemisfério sul, como ocorreu com a tilápia no Brasil, cria um risco deliberado para a fauna local.

filetando salmão das criações do Chile
Filetando salmão das criações do Chile. Imagem, The Guardian.

Por aqui a tilápia tornou-se um grave problema. Após sucessivos escapes, invadiu quase todas as bacias hidrográficas, inclusive a Amazônica, e ameaça espécies nativas.

Peixe agressivo e adaptável, já chegou ao mar e se espalha do Maranhão a Santa Catarina, ampliando o impacto ambiental.

O mesmo ocorre com a criação de salmão no Chile, instalada nos canais da Patagônia. Escapes frequentes espalham a espécie exótica e pressionam a fauna nativa.

A situação tornou-se tão grave que a Argentina proibiu a criação de salmão na Terra do Fogo para evitar a invasão de seus ecossistemas.

Guardian detalha mortes e denúncias na criação de salmão no Chile

Segundo o Guardian, a criação de salmão no Chile combina expansão acelerada com falhas graves de controle. A reportagem relata mortes de trabalhadores, acidentes recorrentes em operações offshore e denúncias de condições inseguras, especialmente em mergulhos para manutenção das gaiolas.

O texto também aponta uso intensivo de antibióticos, contaminação das águas por resíduos orgânicos, ração e fezes, além da instalação de fazendas próximas ou dentro de áreas ambientalmente sensíveis da Patagônia. Comunidades locais denunciam impactos sobre a pesca artesanal e sobre ecossistemas já pressionados.

Em síntese, o Guardian mostra que a criação de salmão no Chile gera lucro e liderança no mercado internacional, mas impõe custos sociais e ambientais elevados, que recaem sobre trabalhadores, comunidades costeiras e a biodiversidade do sul do país.

“Nos últimos 12 anos, a indústria do salmão no Chile teve a maior taxa de acidentes e mortes no setor de aquicultura globalmente”, diz Juan Carlos Cardenas, diretor da Ecoceanos, uma ONG conservacionista. “Entre março de 2013 e julho de 2025, 83 trabalhadores morreram em acidentes no setor.”

“Aqueles que comem salmão chileno não podem imaginar quanto sangue humano carrega consigo”, diz uma fonte trabalhando em uma fazenda na Patagônia Chilena.

Bioinvasão: ameaça crescente aos ecossistemas marinhos

Tanto a criação de tilápias no Brasil, como a do salmão no Chile, geram empregos e divisas. Contudo, ameaçam a fauna nativa de ambos os países. E não há como mensurar em números estes problemas.

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A criação de tilápia é o principal motor da piscicultura brasileira, representando cerca de 68% a 70% de todo o peixe de cultivo produzido no país. Além disso, a cadeia produtiva da tilápia é responsável por impulsionar aproximadamente 600 mil empregos diretos e indiretos no Brasil. Em 2025, as exportações de tilápia somaram quase 60 milhões de dólares.

Enquanto isso, segundo o Guardian, entre 1990 e 2017, a indústria salmonera chilena aumentou a produção em quase 3.000%, com mais de 750.000 toneladas exportadas para mais de 80 países. De acordo com dados do governo chileno, de 2003 a 2024, as importações de salmão chileno para a Europa cresceram de US $ 56 milhões para US $ 204 milhões, e a UE é agora o sexto maior mercado para as importações de salmão chileno.

Entretanto, a bioinvasão hoje representa uma das maiores ameaças à biodiversidade marinha. Como já mostramos no caso da água de lastro de navios, espécies exóticas viajam pelo mundo e se instalam em ambientes onde não encontram predadores naturais. O resultado é desequilíbrio ecológico, prejuízo à pesca e danos econômicos difíceis de reverter. Quando somamos esse risco aos escapes da criação de salmão no Chile, ampliamos a pressão sobre ecossistemas frágeis. Depois que a espécie invasora se estabelece, o controle quase nunca funciona. Prevenir custa menos do que remediar.

A pergunta que fica é, com toda a ameaça à biodiversidade, será que vale à pena?

Para saber mais, assista ao vídeo

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