Navios presos em Ormuz podem causar bioinvasão global

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Navios presos em Ormuz podem causar bioinvasão global

Uma coalizão internacional de 24 cientistas alerta que o fechamento do Estreito de Ormuz pode desencadear uma bioinvasão global sem precedentes. Em artigo publicado na revista Biological Invasions, os pesquisadores afirmam que o impasse provocou a maior paralisação forçada da frota mercante na história moderna.

Navios

Mais de 1.500 grandes navios comerciais permanecem fundeados no Golfo Pérsico e no Golfo de Omã desde 28 de fevereiro. Em condições normais, um cargueiro fica menos de dois dias nos portos. Quando os cientistas concluíram o estudo, as embarcações já estavam imóveis por um período ao menos 40 vezes maior.

Segundo os cientistas, essa concentração criou as condições para uma crise ecológica sem precedentes transformando estes navios em vetores da bioinvasão.

O alcance assusta. A rede marítima ligada ao Golfo conecta mais de 3 mil navios a 3.517 portos e ancoradouros. Por isso, os autores temem um evento superdisseminador capaz de atingir ecossistemas costeiros, atividades pesqueiras, portos e economias em todo o mundo.

Navios parados viram incubadoras de espécies invasoras

Depois de cerca de dez dias de imobilidade, a bioincrustação entra numa fase acelerada. Algas, cracas, mexilhões, micróbios e outros organismos passam a ocupar não apenas os cascos, mas também lemes, hélices, tubulações e entradas de água.

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Quando a embarcação retoma a viagem, leva essa comunidade para outros portos. Assim, organismos adaptados ao Golfo Pérsico podem alcançar ecossistemas onde nunca existiram e competir com espécies nativas.

A água de lastro amplia o perigo. Ela transporta larvas, ovos e microrganismos entre oceanos, como já mostramos em matéria sobre navios e bioinvasão.

Cientistas apontam as espécies invasoras como uma das principais causas da perda de biodiversidade. O impacto econômico também assusta. Espécies aquáticas invasoras provocaram prejuízos estimados em US$ 345 bilhões entre 1960 e 2020. Considerando invasores terrestres e aquáticos, a IPBES calculou perdas superiores a US$ 423 bilhões apenas em 2019.

Por isso, a Organização Marítima Internacional recomenda medidas preventivas para embarcações que permanecem imóveis por mais de 18 a 30 dias. No caso de Ormuz, porém, esse prazo já ficou muito para trás

Golfo Pérsico abriga invasores especialmente resistentes

Pesquisadores já catalogaram 35 espécies não nativas nos ambientes marinhos e salobros do Golfo, a maioria introduzida pela navegação comercial. Além disso, outro levantamento encontrou 57 espécies invasoras ou de origem incerta incrustadas em pontões, docas e estruturas experimentais ao longo da costa.

Além disso, esses organismos suportam águas extremamente quentes, alta salinidade, poluição industrial e ondas de calor marinhas. Portanto, podem resistir melhor às longas viagens e encontrar vantagem em portos igualmente degradados ou aquecidos.

Algumas espécies também se reproduzem rapidamente. Segundo o estudo, uma única craca adulta pode liberar dezenas de larvas por dia. Durante meses de paralisação, cada navio pode ter espalhado milhões delas nas águas do Golfo e acumulado novas colônias em suas estruturas submersas.

O risco inclui ainda parasitas e agentes patogênicos capazes de atingir peixes, moluscos e outras espécies de interesse comercial. Assim, a bioinvasão global pode causar não apenas perda de biodiversidade, mas também doenças e novos prejuízos à pesca e à aquicultura.

“É uma tempestade perfeita”

Mario Tamburri, professor do Centro de Ciência Ambiental da Universidade de Maryland e principal autor do estudo, não ameniza o alerta. “Se você tivesse que projetar o pior cenário, não sei se poderia ter feito diferente. É uma tempestade perfeita”, afirmou ao Guardian.

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Segundo Tamburri, os organismos que vivem no Golfo suportam temperaturas e salinidade extremas. Por isso, podem sobreviver às viagens e se estabelecer com maior facilidade em portos com condições semelhantes.

O cientista pediu aos governos e às companhias de navegação que inspecionem e limpem os navios antes de deixarem o Golfo, sempre que possível. Ao mesmo tempo Tamburri, sugeriu os portos que esperam receber essas embarcações ampliem o monitoramento de espécies invasoras e preparar planos de resposta rápida.

O Brasil deve tomar precauções

O Brasil concentra a fiscalização na água de lastro. A Marinha verifica os planos, registros e certificados exigidos pelas normas brasileiras e pela convenção internacional. Contudo, o País não inspeciona sistematicamente os cascos com foco em bioinvasão.

Essa lacuna já trouxe consequências. O mexilhão-dourado chegou à América do Sul provavelmente na água de lastro e depois se espalhou pelo Brasil. Já navios e plataformas contribuíram para introduzir e dispersar o coral-sol por meio da bioincrustação.

Por isso, diante da dimensão inédita do risco, o Brasil deveria acompanhar as rotas dessas embarcações, alertar os portos e exigir inspeção e limpeza antes que os navios retomem suas viagens. Depois da partida, impedir uma bioinvasão global será muito mais difícil.

A guerra no Irã já cobra um preço humano e econômico incalculável. Agora, pode deixar também uma herança ecológica capaz de atravessar oceanos. Se os governos ignorarem o alerta, os navios presos em Ormuz poderão espalhar uma bioinvasão global cujos danos durarão muito mais que o próprio conflito.

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