Atafona (RJ), tragada pelo mar, e o rio Paraíba do Sul

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Atafona (RJ), tragada pelo mar, e o Paraíba do Sul

Atafona, distrito de São João da Barra no litoral norte fluminense, é mais uma cidade que está sendo engolida pelo mar. Não é a única no Brasil com este problema, mas talvez uma das mais afetadas pelo processo de erosão costeira. Ela fica na  foz do Paraíba do Sul, pouco antes de uma mudança de curso do litoral brasileiro. Do Rio Grande do Norte até o Cabo de São Tomé o contorno da costa segue a linha norte-sul, a partir de São Tomé acontece uma mudança e ela passa a correr no sentido leste-oeste. Atafona fica pouco acima (ao norte) do cabo.

imagem de Atafona, tragada pelo mar
Imagem, Paulo Sérgio Pinheiro.

O início do processo de erosão em Atafona, Rio de Janeiro

A dica foi dada acima, Atafona, um antigo vilarejo de pesca que se transformou em balneário, começou a sofrer o processo de erosão nos anos 50 do século passado. Mas ele se intensificou com o passar do tempo, o aumento do nível do mar, e sua localização especial na foz de um grande rio bastante alterado pela ação humana.

Como grande parte das cidades antigas, Atafona fundada por pescadores oriundos de Cabo Frio no século 17, foi erguida às margens do rio, à beira-mar. O rio lhe dava fartura de água, e o mar, a comida, condições essenciais para a vida. Mas, passado o tempo e o tradicional crescimento desordenado, a geografia parece estar se vingando.

Segundo estudo da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e Universidade Federal Fluminense, “A velocidade com que a erosão tem atuado na área de estudos chega a alcançar uma taxa de 7,8m/ano, em pontos mais críticos, próximos ao pontal arenoso, imediatamente na parte meridional da foz do rio Paraíba do Sul.”

imagem do que restou de uma casa em Atafona
O que restou de uma casa de Atafona. Imagem, Larissa Muylaert.

“Os primeiros registros que se têm notícia da erosão costeira em Atafona datam de 1954, na Ilha da Convivência, que hoje já foi praticamente toda engolida e seus habitantes forçados a deixar suas casas e buscar moradia em outros lugares.”

Duas mil pessoas já foram atingidas e 500 casas atingidas

“Na praia de Atafona o evento veio a ocorrer cerca de cinco anos depois, mas a destruição se intensificou na década de 1970 e não parou até os dias de hoje. A Prefeitura de São João da Barra calcula que o avanço do mar já destruiu 500 residências e comércios. Moradores locais e pesquisadores estimam que este número pode ser ainda maior e que o número de pessoas forçadas a se deslocar, inclusive migrando para outras cidades ou estados, tenha passado das 2 mil.”

imagem de escombros de casa em Pontal. Atafona
Escombros de casa em Pontal. Imagem, Larissa Muylaert.

O litoral é um espaço frágil e importante do ponto de vista da biodiversidade, que sofre naturalmente os processos de erosão. Ventos, ondas, ressacas, correntes marinhas, são alguns dos protagonistas. Por isso ele deve ser o mais livre possível de intervenções humanas. Mas não é o que acontece. As cidades antigas, ou as construções modernas, estão hoje ameaçadas. A erosão costeira já atinge perigosos 60% do litoral do País, tragando às vezes cidades, outras vezes as ‘casas pé na areia‘, um equívoco de parte dos brasileiros.

mapa da costa na região de Atafona
O ponto vermelho assinala Atafona.

O rio Paraíba do Sul

Mas, talvez o mais importante no caso de Atafona é sua proximidade com a foz do Paraíba do Sul. Ele nasce da confluência dos rios Paraibuna e Paraitinga, no estado de São Paulo e seus cursos d’água com cerca de 1.130 KM, atravessam o Vale do Paraíba, percorrem a região de Minas Gerais até desaguar no Oceano Atlântico. No passado, era uma região rica em Mata Atlântica.

Hoje, o que sobrou da Mata Atlântica, cerca de 11%, apenas subsistem em áreas da Serra dos Órgãos e dos parques nacionais da Serra da Bocaina e de Itatiaia.

O Paraíba do Sul, antes caudaloso, despejava suas águas com força contra as do oceano. Acontece que este é mais um rio maltratado pela ação humana. Ao longo do tempo ele perdeu suas matas ciliares, o que acentuou o processo de assoreamento. Com isso, menos água passou a correr em seu leito o que tornou a vazão para o oceano bem menor.

Hoje ela é de 250m³ por segundo. De acordo com o Comitê da Bacia do Paraíba, o ideal seria uma vazão de 500m³ a 800m³ por segundo. O processo de erosão na região em função das alterações no rio, além dos outros fatores, é o mesmo que se vê na foz do São Francisco.

Reservatórios para usinas hidrelétricas

A pá de cal foi a construção de  reservatórios de usinas hidrelétricas, como Paraibuna, Santa Branca e Funil. Com isso, menos água passou a descer até a foz. Não deu outra. Segundo o estudo mencionado, “aparentemente, o fator que provoca erosão em Atafona é o desequilíbrio do balanço entre o aporte sedimentar e a deriva litorânea.”

Desvio do curso do rio

O site da Agência Nacional de Águas confirma outra obra que levou à diminuição da vazão. “Além disso, se destaca também pelos acentuados conflitos de usos múltiplos da água e pelo peculiar desvio das águas para a bacia hidrográfica do rio Guandu, com a finalidade de gerar energia e abastecer a população da Região Metropolitana do Rio de Janeiro.”

Ou seja, o Paraíba do Sul deixou de transportar ‘aportes sedimentares’ até sua foz. Em consequência, o mar penetrou por seu leito e adjacências. Isso, aliado às ressacas, ondas e vento, contribuiu para o aumento do processo erosivo justamente onde a cidade foi erguida. O estudo confirma a localização do problema: “A erosão em Atafona diminui à medida que migramos para sul.”

O perigo do Paraíba do Sul se transformar numa lagoa

De acordo com o ambientalista Aristides Soffiati, em declaração ao site Folha 1(2019), “caso não se reverta, o caso será comparado ao do rio Colorado, nos Estados Unidos, que, após muitas intervenções teve a foz fechada se transformando em “uma imensa lagoa”.

imagem da barra do Paraíba do Sul fechada
A barra fechada. Imagem, https://www.folha1.com.br/.

Neste mesmo 2019, a barra do Atafona foi fechada pelo acúmulo de areia. E tudo isso em conjunto prejudicou não só a vida dos moradores, com milhares perdendo suas casas, mas também a economia já que a pesca era uma das  atividades e hoje, em razão da falta d’água no rio, ela está seriamente prejudicada.

Agora, o ponto de encontro entre o Paraíba e o Oceano Atlântico é a praia de Gargaú, na cidade de São Francisco de Itabapoana. Enquanto isso, os cerca de 500 pescadores da colônia de pesca Z-2 de Atafona, reclamam que só conseguem sair para a pesca em marés muito altas.

Influência da Amazônia e aquecimento global

Para Soffiati, para além dos problemas apontados, “a água do Sudeste depende da evaporação da floresta Amazônica. É ali que nascem as nuvens que vão virar chuva no Sudeste, Sul e até Argentina. São os chamados rios voadores, são rios que vêm pelas nuvens, se condensam e levam chuvas à região.”

Esta mesma perda de força dos rios voadores, em conjunto com o aquecimento global, foi a causa da seca brutal no Pantanal em 2020, e consequente aumento das queimadas que começaram em julho e até o momento em que este post foi escrito ainda não foram contidas. O cientista Ricardo Galvão explicou em podcast a este site.

Para Soffiati, a perda florestal da Amazônia resultou em menos chuva na região. Isso, aliado às transformações do rio, e o corte da vegetação, justificam o assoreamento, e até o fechamento da barra. “Enquanto a água doce escasseia, o mar sobe de forma violenta e fecha barra de rio e produz dunas.”

Os problemas chegaram até a orla da cidade. “Segue interditada a rua Elias Gabriel Beirute, no cruzamento com a avenida Atlântica, em Atafona, bloqueada pela Defesa Civil, há nove dias, devido à erosão costeira. Por conta do avanço do mar, parte do asfalto desmoronou.”

O Paraíba do Sul está morrendo

Os problemas não acontecem apenas na foz, mas também para o interior. De acordo com o site do jornal Terceira Via, “os efeitos levantados pelo Comitê de Bacia Hidrográfica do Baixo Paraíba do Sul e Itabapoana são muitos: o aumento de salinidade na Baixada Campista, que é alimentada pelo rio; a redução do lençol freático de toda ela; a redução do potencial agrícola de toda a região pela menor capacidade de produção de alimentos; prejuízos devido à redução da capacidade de garantir água para matar a sede de animais; a elevação da salinidade do lençol freático; aumento da concentração de diversos sais pela alta evaporação com a menor renovação das águas nos canais e lagoas; além da eutrofização acentuada de toda a rede de canais da baixada, que também é alimentada pelo Paraíba.”

Como já dissemos inúmeras vezes, nossa pegada é pesada demais. Que a triste realidade de Atafona sirva de lição antes de novas intervenções humanas na zona costeira.

Assista ao vídeo e veja a destruição em Atafona

Imagem de abertura: Larissa Muylaert

Fontes: https://www.ana.gov.br/sala-de-situacao/paraiba-do-sul/paraiba-do-sul-saiba-mais; http://lsie.unb.br/ugb/sinageo/6/6/288.pdf; https://www.jornalterceiravia.com.br/2020/01/12/mudanca-da-foz-retrata-problemas-enfrentados-pelo-paraiba-ha-decadas/.

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4 COMENTÁRIOS

  1. Não há dúvidas que a ação humana tem contribuído significativamente para a destruição, mas também é necessário considerar os fenômenos geológicos das transgressões e regressões. Há regiões como a da cidade de Óbidos em Portugal que era porto na Idade Média e hoje se encontra a quilômetros do mar. Regiões da Holanda poderiam ter desaparecido se não fossem os diques. Veneza vem sendo engolida pelo mar.

  2. O que foi comentado sobre a Foz do Rio São Francisco, é uma realidade gritante, o Farol que ficava na Praia, está há 1,5 km dentro do mar e a salinidade da água avança, por uma longa extensão e as ondas estão destruindo os manguesais, Atafona já para o mesmo caminho, e muitas prais pelo litoral do Brasil já não existem mais, as águas estão chegando nas falésias, tal qual no Pontal do Seixas na Paraiba, e avenidas já interditadas, todas essas construções pé na areia estão com os dias contados, e não há solução a vista, para acidentes naturais, como grandes ressacas e ventos fortes.

  3. O mar não avança sobre o litoral, salvo em situações muito específicas. Quando o homem vai entender que é ele quem está invadindo o domínio das marés? As fotos aqui são claríssimas – construções na areia da praia. A subida da maré invade esses lugares e não há construção que resista. Quando é que os governos vão entender isso?

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