Ao longo da costa, um drama chamado Brasil

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Escrito por Valdir Sanches

Nesta entrevista, João Lara Mesquita conta como se transformou num especialista da costa brasileira ouvindo mestres e depois se deslocando aos lugares para ver tudo com seus olhos. A situação dramática que testemunhou também está relatada aqui.

“Sempre gostei de mar. Tive sorte de ter pai que gostava de pescar e desde o final dos anos 60 (aos doze anos) comecei a sair de barco com ele. Eu nunca gostei daquele programa, eu sentia uma atração e repulsa ao mesmo tempo. Porque meu pai é pescador, é obcecado, fanático. Pescava doze horas por dia e eu achava aquilo um horror, chatíssimo, enjoava. Mas eu gostava do ambiente, gostava do mar. Quando ele parava de pescar eu dizia, que delícia, que espetáculo, que paisagens.

Durante os anos 70, tive o privilégio de assistir as costas entre Rio de Janeiro e São Paulo desocupadas. Era antes da BR 101. Chegávamos a passar de quinze a vinte dias em Angra dos Reis sem ver viv’alma. E depois abriu a estrada, que não tinha um plano de ocupação. Em três, quatro anos, detonaram o litoral. Sem regra de ocupação é o Deus dará.

Eu não sou xiita, como alguns ecologistas que dizem ‘não pode ocupar’. Tem de ocupar. Tem de fazer girar a economia, tentar fazer com que a vida desse pessoal que está na costa melhore.”

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Frágil, sob pressão

“O saneamento básico no Brasil é uma piada. Ninguém quer fazer porque custa caro, é uma obra demorada, ninguém vê e não dá voto. No Brasil só 20% do nosso cocô e xixi recebem algum tipo de tratamento. E isso tudo se reflete no litoral. Temos uma densidade muito mais alta no litoral que no interior, dezessete metrópoles brasileiras estão na costa. E esse é um lugar fragilíssimo. Como dizem os especialistas, é uma zona de encontro entre o mar e o continente, assolada por ventos, por maré, por ressaca, há uma série de forças naturais que maltratam essa faixa de zona de transição.

Antes do embarque

“Quase todos os professores que entrevistei diziam: ‘o poder público não nos ouve, não nos chama’. Ou seja, quando vão fazer uma obra preferem chamar uma ONG, um guru qualquer. Não vão à faculdade, onde estão os brasileiros pagos com dinheiro público. O professor fica a vida inteira estudando o mangue, a duna, e não é chamado.

Na série Mar Sem Fim, era estratégia nossa, antes de avançar para qualquer Estado, ver o que ele tinha. Praia, costão, serra. Então íamos procurar os especialistas nisso para eles explicarem. Eu virei um expert. Com cada um desses eram duas horas, duas horas e meia. Depois, a gente fazia as perguntas e gravava. Eu entrevistava ambientalistas, procurava as ONGs, em cada Estado. Por fim, buscava a secretaria estadual ou municipal do Meio Ambiente.

Só depois a gente pegava o barco e fazia a costa. Fui aprendendo coisas do arco da velha, ecologia, biologia marinha. Os professores ficaram fãzíssimos da série Mar Sem Fim, porque eu fui, modéstia à parte, um dos primeiros jornalistas a ouvi-los e dar espaço para eles. Como eu vinha fazendo a costa do Amapá para baixo, quando cheguei no Paraná, por exemplo, estavam todos esperando pela gente, no campus de Paranaguá (no litoral).

Eu entrevistava hoje, semana que vem estava no ar. Então eles começaram a assistir aos programas, esperando a vez deles. Foi assim ao longo de toda a costa.”

Ao Deus dará

“Fiz questão de conversar com os nativos também, conhece-los. Eu considero esses brasileiros os mais deixados ao Deus dará entre todos. Porque eles não são unidos. As populações nativas não são unidas em lugar nenhum do mundo. Até pela dificuldade. Alguns pescadores, um pouco mais evoluídos, semi-profissionais, começam a tentar se unir para defender alguma coisa.

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Em São Paulo, o Estado mais rico da nação, você vai para Ihabela (litoral norte), e vê o lado do Canal de São Sebastião: Primeiro Mundo. Você sobe no carro e vai até Castelhanos, está praticamente na idade da pedra. Um morro e uma estrada de trinta quilômetros separam o inferno do céu.

Se em São Paulo você vê casos assim, imagine no Maranhão. Vi as casas da Ilha Cajual, de pau-a-pique. Miséria absoluta, você entra é tão limpa ou mais limpa do que a minha. Chão de terra. Você não vê uma folha fora do lugar. Se ressentem da ausência do Estado.

Um dia nós chegamos à ilha de Santana, no sul do Maranhão, e estava um pescador desesperado. Ele tinha dado em cima de um cardume de xaréu, tinha chapado o barco e aquilo tudo apodreceu porque não tinha como escoar. Eles vivem com tão pouco, que se ele conseguisse transformar aquilo em dinheiro vivia dois ou três anos sossegadamente.

Mas não conseguiu, pois o governo fica fazendo essas coisas de demagogia que o Lula quer fazer, reforma aquária e não sei o quê. Bastava dar um mínimo de condições para esse pessoal espalhado pela costa escoar a produção. Um geradorzinho com um freezer, por exemplo, uma merreca.

Dramas reais

“Na Ilha do Mel, quando nós estivemos lá, em 2006, a luz elétrica tinha chegado fazia um ano. Até então, ninguém via televisão, não tinham vontade de consumir. Com a televisão surgiram os dramas. Os filhos abandonaram a profissão, não querem mais saber de virar pescador. Querem ir para a cidade consumir, ter o tênis bacana, e não têm dinheiro. Então começa o tráfico de droga, entrar para a bebida de uma forma violenta, porque o cara quer tudo aquilo que a televisão leva para ele e ele não vê possibilidade.

Numa dessas, um sujeito lá, que não tinha um dente na boca, tenho o depoimento dele, contou que um caiçara trocou a casa dele por uma garrafa de cachaça.”

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Mansão de areia

“Em São Paulo tem gente que vai para o litoral, compra a casa do sujeito para ter a posse, depois derruba a casa e faz aquela mansão em estilo neoclássico, que destrói a beleza cênica. Constrói no meio da areia, muitas delas eu tenho fotos. A casa mal pronta, já está cheia de muro de arrimo para a ressaca não levar embora.

A praia é móvel, é o que os professores, os cientistas falam. Existe um equilíbrio dinâmico e a hora em que você tenta parar esse equilíbrio, você arruína o negócio. Porque é para ser dinâmico. A foz de um rio um ano está aqui, outro ano está lá. Isso varia em função da ressaca, do vento, da coisa toda. A areia é móvel.”

País desconhecido

“O que eu mostrei no documentário, e no site, é um Brasil que não se conhece. É preciso ir aos lugares para ver. Esse Brasil continua lá atuando, sofrendo, maravilhoso, rico em cultura, em tradição oral, em festas e muito pouca gente vê, dá pelota para isso.

Fico mais apaixonado pelo meu trabalho. Vejo que, por mais que eu possa fazer, e tentar ajudar para contribuir, é muito pouco. Tem muito a ser feito. Isso para mim é maravilhoso, mostra que posso dedicar a vida toda a esse assunto. Eu amo isso, adoro as duas coisas: adoro ter uma bandeira para defender, adoro ter um assunto que me obrigue a estudar, adoro estar no mar.” (V.S.)

Publicação original: http://www.dcomercio.com.br/index.php/cidades/sub-menu-cidades/76589-ao-longo-da-costa-um-drama-chamado-brasil

 

 

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