Alonso Irineu Goes, um navegador sem igual

32
741
views

Alonso Irineu Goes, um navegador sem igual

No inicio do mês de maio de 2015 eu estava na foz do São Francisco gravando programas para a última série sobre  as UCs federais marinhas. Pela manhã, bem cedinho, recebi uma ligação. Meu grande companheiro, Mestre do mares, Alonso Irineu Goes partia pra sua última viagem.

Alonso Irineu Goes,imagem de Alonso Irineu Goes,

Foi um choque apesar de eu saber que sua saúde estava precária. No meio daquele cenário deslumbrante, que tanto gostávamos, relembrei nossas navegadas pela costa brasileira, argentina, chilena e na Antártica.

Alonso Irineu Goes,imagem de cauda de baleia
Na Península Vales Alonso se encantou com as baleias.

 

Alonso Irineu Goes, navegando pela costa brasileira

Foram mais de 20 mil milhas sem um único acidente. Obra do Mestre. Nunca conheci alguém que gostasse tanto do mar. Aquele era o habitat natural do Alonso. Ali ele se sentia pleno, completo, feliz.

Alonso Irineu Goes,, imagem do atol-das-rocas
Atol das Rocas

Fosse tempo bom, ou ruim, ele estava em seu elemento natural. Ele não era apenas um homem do mar. Era um homem completo. Um excelente caráter, amigo, ótimo pai de família.

Um choque para os amigos

Minutos depois começaram as ligações dos amigos, todos derrubados, lamentando a perda: Paulina Chamorro, embargada, quase não conseguiu conversar. Fernando Cerdeira, velejador que nos acompanhou em algumas etapas, com voz cavernosa estava desolado.

Alonso Irineu Goes, imagem de pessoas almoçando num bote de borracha
Fernando Cerdeira, Rodrigo, Paulina e Alonso, quando encalhamos no rio Calçoene, Amapá, em 2005.

Meu filho José, ‘criado’ por ele, ligou em seguida. Foi Alonso quem ensinou os segredos do mar ao meu pequeno, assim como ao mais velho, Luis. Eles eram amigos do Alonso apesar da diferença de idade. Ruy, meu irmão mais velho, preocupado, contou que tentou fazer uma homenagem ao Mestre, publicando um anúncio no jornal, mas não havia mais tempo.

As boas lembranças de Alonso Irineu Goes

Lembrei das várias regatas que fizemos, que ele tanto gostava. Foram três só para Trindade. Nunca vou esquecer de nossa chegada na primeira edição da Eldorado- Brasilis quando Alonso, embevecido pela beleza da ilha, entrou em êxtase. Aquele homem duro, severo, abriu um sorriso e não parava de exclamar: que beleza, meu Deus! Que beleza!

Alonso Irineu Goes, imagem de Alonso Irineu Goes,
Eu e Alonso navegando para o rio Oiapoque.

Da vela para o motor

Alonso Irineu Goes,, imagem do veleiro mar sem fim na barra de-cananeia
Entrando na barra de Cananéia.

Vinte anos, e milhares de milhas depois, vendi o veleiro e passei para o trawler. Alonso não gostou. Sentia falta da vela.

Alonso Irineu Goes,imagem do mar sem fim na antártica
Mar Sem Fim na Antártica com o Velho Lobo do Mar.

Relembro o que escrevi quando voltei da Antártica, depois do naufrágio do Mar Sem Fim, um duro golpe que sofremos juntos. Eu queria que o público que acompanhou nossa desventura soubesse quem era quem na tripulação.

Alonso-no-churrasco-
Excelente cozinheiro, Alonso era um churrasqueiro de primeira!

Trabalhando com Alonso Irineu Goes

Trabalho com o Alonso há cerca de 20 anos. Somos mais que parceiros. O tempo nos transformou em amigos. No passado, quando navegava no veleiro Mar Sem Fim, eu não tinha marinheiros. Viajava sozinho, com conhecidos, ou namoradas. O tempo passou. Casei e tive filhos. Quando o mais velho nasceu, Luis (hoje com 16 anos e estudando no Canadá…), continuei a usar o barco com ele e minha ex- mulher, Gabriela. Meu filho tinha apenas seis meses de idade quando esteve a bordo pela primeira vez. Então percebi que não dava mais conta sozinho. Além da navegação, das noites em claro com mar ruim, eu tinha agora como companheiros mulher, e filho pequeno. Precisava ajuda. Recorri ao Plínio de novo.

Alonso Irineu Goes, imagem do barco Mar Sem Fim-contra-geleira--
Nos canais da Patagônia.

Eu queria “um cara do ramo”

Expliquei a situação e pedi sugestões. Eu queria “um cara do ramo”, que trouxesse segurança à família. Não demorou pra me apresentar o Alonso. Marinheiro raçudo, Catarina, ex-pescador, ex- mestre em barcos de pesca, e com um belo currículo na vela. Logo depois nasceu o José, que também freqüentou o barco desde bebê.

Alonso Irineu Goes,imagemd e revoada de peassaros
Em San Blas, costa argentina, a caminho da Antárttica.

Com as crianças descobri uma nova faceta do Alonso Irineu Goes: a candura

…o carinho, que ele quase nunca consegue demonstrar aos adultos flui com naturalidade para os mais novos. É impressionante como trata os pequenos com gosto, tomando conta, divertindo, mostrando as primeiras regras do mar conforme vão crescendo, ensinando a pescar ou a pilotar motores de popa. Luis e, especialmente o José, são amigos do Alonso, cresceram com ele ao redor.

Alonso Irineu Goes,, imagem de Alonso Irineu Goes, -e-nadia-megon
Com Nádia Megonn chegando no Oiapoque.

Navegando pela costa brasileira

Quando fizemos a costa brasileira era comum eu ligar para meus filhos, do barco, pra matar as saudades. Naquela época eu ficava meio mês a bordo, meio em São Paulo. Era o tempo dos documentários para a TV Cultura. Depois de papear com o Luis contanto minhas novidades e perguntados as dele, vinha o José :” Oi Pai, tudo bem, deixe eu falar com Alonso?”. Eu ficava sem graça. Comigo ele não queria papo, mas com o Alonso… E o cara é versátil. Um marinheiro só vira “lobo do mar” se tiver uma boa passagem pela vela. Alonso teve escola. E das boas.

Alonso Irineu Goes,imagem de Alonso Irineu Goes,
Ele adorava pescar.

Escola no Wa Wa Too

Nos anos 70, quando Fernando Nabuco montou uma tripulação para correr regatas internacionais no legendário Wa Wa Too, Alonso fazia parte do grupo. Entre outras ele participou da famosa Admiral’s Cup, organizada pelo Royal Ocean Racing Club, da Inglaterra, uma espécie de campeonato mundial, não oficial, de veleiros de oceano. Outra regata emblemática era a Bermuda’s Race, uma competição bi-anual que existe desde 1906. Participando de uma delas o Wa Wa Too pegou um rabo de furacão. Durante vários dias navegaram em árvore seca (sem nenhuma vela) com ventos de 60, 70 nós e mais, fazendo 8, 10 milhas de velocidade enquanto esperavam o tempo melhorar.  Juntos fizemos mais de 20 mil milhas pelo litoral do Brasil. Como conto no livro, O Brasil Visto do Mar Sem Fim (editora Terceiro Nome), Alonso é indispensável.

Alonso irineu Goes é daqueles que enxerga o vento

Ele é daqueles que “enxerga o vento” quando ninguém o vê, e “lê o mar”. Me ensinou demais. Devo muito, mas muito, ao Alonso. Ele está na casa dos sessenta. Para quem não é íntimo, se mostra reservado. Às vezes até carrancudo. Mas é fachada. Construída não sei por quê. Por trás da máscara está uma pessoa emotiva, amorosa. Um ótimo caráter. Excelente profissional, amigo verdadeiro, e o melhor cozinheiro entre os barcos que já naveguei. Opinião partilhada por todos que viajaram com ele.  No passado, quando fiz a costa brasileira de veleiro por dois anos, para os documentários da Cultura, foi o Alonso quem morou a bordo. Ele adorava o velho Marzão e seus dois mastros. Não gostou quando passei pro motor. Brigou comigo. Ficou triste de perder a vela, as regatas em Ilhabela, ou as várias Recife- Noronha que fizemos.

Alonso Irineu Goes,imagem de Alonso Irineu Goes,
Na baía de Guanabara.

Participando da eldorado- brasilis

Foi com ele que participei da Eldorado- Brasilis, de Vitória, no Espírito Santo, para a ilha de Trindade, 600 milhas ao largo. Que bela regata era aquela! Cinco a seis dias de mar e vento só pra chegar. Acho que fizemos três delas. O homem virava um bicho! Não dormia, velejava o tempo todo, cozinhava mesmo com barco adernado e jogando. Valia por dez.

Alonso Irineu Goes,imagem de Alonso Irineu Goes,
Navegando nos furos da Amazônia.

Desta vez (na viagem do naufrágio) ele não se entusiasmou com a Antártica. Quando liguei pra avisá-lo percebi algo estranho, ele não queria ir… um sexto sentido no ar. Insisti e ele não me abandonou. O resto se sabe.

Alonso Irineu Goes,imagem do mar sem fim num fiorde
Num fiorde nos canais da Patagônia.

O que não contei desta personalidade marcante é o grande amor pelos barcos, e à profissão. Bonito de ver.

Alonso Irineu Goes,
Emocionado, Alonso é homenageado pelo Capitão de Fragata Eduardo Rubilar Mancila antes de abandonarmos a ilha Rei George.

Não queria abandonar o Mar Sem Fim em Fildes. Tive que falar grosso com ele. Praticamente exigi.

Alonso Irineu Goes,imagem da tripulação do mar sem fim na antártica
Plínio Romeiro, Alonso, um dos imprescindíveis chilenos, e eu, pouco depois do naufrágio.

Na noite posterior ao naufrágio não conseguiu dormir. Estávamos no mesmo beliche. De cima pude ouvir, a noite toda, um choro abafado. Sentido. De quem não se conforma em abandonar um barco.

Alonso Irineu Goes,imagem de Alonso Irineu Goes,
Provocando Fernando Cerdeira, Amazônia.

Um grande abraço, meu amigo. Faço questão de tornar pública minha admiração, agradecimento, e respeito. Você sempre foi, e continuará sendo, imprescindível. O Mar Sem Fim está órfão.

Meus sentimentos à toda família.

Conheça o navegador brasileiro que usa a mão como sextante.

COMPARTILHAR

32 COMENTÁRIOS

    • Oi, João Victor, pode ter certeza que eu sinto muitíssimo. O Alonso era um grande caráter, e um excelente marinheiro. Nunca mais vai aparecer outro como ele. Não tenho dúvidas. Seu avô foi o último dos grandes marinheiros. Conhecia tudo de veleiros e barcos a motor. E tinha a costa brasileira, na palma da mão. Grande Alonso!

  1. Há, parabéns pelo programa! Infelizmente mostra o quão os nossos recursos naturais estão desprotegidos e pressionados pelos especuladores de plantão – grandes investidores, pessoas de posse, má gestão ambiental alienada a interesses políticos exclusos – e no meio os povos tradicionais, desrespeitados, guardiões de seus modos únicos de interação com esses recursos, com suas embarcações típicas. Obrigado.

    • É verdade, Luiz, fico impressionado com a quantidade de gente que até hoje se manifesta. Todo dia recebo dois ou três correios lamentando a morte do grande Cabo Alonso. Abraços e obrigado.

  2. Joao Lara Mesquita, “Há homens que lutam um dia e são bons, há outros que lutam um ano e são melhores, há os que lutam muitos anos e são muito bons. Mas há os que lutam toda a vida e estes são imprescindíveis.” – Bertolt Brecht
    O Alonso era um destes, lutador, um lobo do mar, “imprescindivel”
    Valeu Joao pela homenagem! – que todos os brasileiros sigam o mesmo exemplo de vida do Alonso!

    • Pois é, Luiz, acabei de dizer para outro internauta que escreveu sobre ele, que fico impressionado com a quantidade de mensagens que não podaram de chagar. Quer prova maior de uma vida maravilhosa? Ter tantos amigos assim, e deixar tanta saudades, é pra poucos. Obrigado e abraços

  3. OBRIGADO pela homenagem que vocês fizeram ao tio Alonso , sempre gostei das viagens de aventuras do mar sem fim.lembro quando ele foi pra Antártica foi muito linda esta viagem.fica apenas saudades deste grande marinheiro. Família Góes agradece a homenagem.

    • Oi, Janio, como vc pode ver pelas mensagens, seu tio era muito querido. Bastava conhece-lo para admira-lo. Um abraço carinhoso pra toda família.

    • Elenice: quem tem que agradecer por tantos anos de carinho e dedicação sou eu. Seu pai mora no meu coração. Um grande beijo pra todos vcs.

  4. Emocionante toda trajetoria de vcs … Q privilegio o seu de ter um homem como ele ao seu lado .Fica aq meus sentimentos a toda a familia e amigos.
    Responder

  5. Emocionante toda trajetoria de vcs … Q privilegio o seu de ter um homem como ele ao seu lado .Fica aq meus sentimentos a toda a familia e amigos.

    • Graande Gereba! Pois é, uma pessoa como ele valia por dez a bordo. Uma pena. Seja como for, não posso reclamar. Tive o privilégio de navegar ao lado dele por mais de 20 anos. Abração, amigo, saudades de vc.

  6. JOAO ! LINDA E MERECIDA HOMENAGEM ……TIVE ALEGRIA DE COMPARTILHAR DA AMIZADE E DAS GENTILEZAS DESSE SABIO HOMEM DO MAR .COM CERTEZA ELE ESTA NUM LUGAR MUITO ESPECIAL COMO O MAR FOI COM ELE.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here