Corais de Raja Ampat: biodiversidade ameaçada pela mineração

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Corais de Raja Ampat: biodiversidade ameaçada pela mineração de níquel

Os corais de Raja Ampat, na Indonésia, estão entre os mais ricos do planeta. O arquipélago fica no coração do Triângulo de Coral e reúne mais de 75% das espécies de corais conhecidas no mundo, além de mais de 1.320 espécies de peixes recifais, segundo a UNESCO.

Corais de Raja Ampat: show da natureza, mapa de Raja Ampat, Indonesia
Mapa: uwphotography.guide.com

Raja Ampat reúne cerca de 610 ilhas, ilhotas e atóis e tornou-se referência mundial em biodiversidade marinha. A riqueza dos recifes atrai pesquisadores, mergulhadores e turistas. Porém, agora esse patrimônio enfrenta uma nova ameaça: a mineração de níquel, que pode aumentar o desmatamento, a erosão e o carreamento de sedimentos para o mar.

A descoberta dos corais de Raja Ampat

Segundo a National Geographic, um dos primeiros estrangeiros a explorar os recifes de Raja Ampat não era cientista, mas o aventureiro holandês Max Ammer. Ele chegou à região em busca de jipes abandonados e aviões afundados da Segunda Guerra Mundial.

Impressionado com a riqueza dos recifes, Ammer passou a guiar pesquisadores. Entre eles estava o renomado ictiólogo australiano Gerry Allen, que logo percebeu que havia algo excepcional ali.

Cada mergulho era uma mini-exploração. Então veio a certeza: este é o lugar.

Corais de Raja Ampat: show da natureza, imagem de corais
Corais de Raja Ampat: show da natureza ameaçado. Foto:followjohnpaul.com

Mineração de níquel ameaça os corais de Raja Ampat

A pressão da mineração sobre Raja Ampat começou bem antes de 2025. Segundo o site Mongabay, na década de 1990, a estatal indonésia Antam entrou na região em parceria com a BHP Billiton, a mesma empresa envolvida no desastre da barragem de Fundão, em Mariana, MG, e 2015;  e criou a PT Gag Nikel. A empresa obteve autorização para explorar níquel na ilha de Gag e iniciou a produção em 2018. Nos anos seguintes, outras companhias receberam licenças em diferentes ilhas do arquipélago. 

Mineração em Raja Ampat

Em 2025, a controvérsia explodiu. Uma investigação do Greenpeace identificou 16 licenças de mineração de níquel concedidas ao longo de quase 20 anos, cinco delas então ativas. Quatro dessas operações ficavam em pequenas ilhas de Raja Ampat. Imagens de desmatamento e sedimentos chegando ao mar provocaram forte reação pública.

Diante da pressão, o governo indonésio revogou quatro licenças em junho de 2025. Porém, manteve a autorização da PT Gag Nikel. A empresa chegou a suspender temporariamente as atividades, mas voltou a operar em setembro daquele ano.

E a ameaça não acabou. Em 2026, empresas ainda buscavam licenças ou tentavam reativar autorizações para explorar níquel em Raja Ampat. A propósito, o Mongabay chama a região de “Amazônia dos Mares” da Indonésia, tamanha sua riqueza biológica.

Imagem aérea de mina de níquel na Indonésia .
Imagem aérea de mina de níquel na Indonésia. Foto: © Jurnasyanto Sukarno / Greenpeace.

Como a mineração ameaça os recifes

A mineração de níquel não precisa acontecer sobre os corais para destruí-los. A abertura de estradas, a retirada da vegetação e a escavação expõem o solo das ilhas à erosão. Com as chuvas, sedimentos chegam ao mar, turvam a água e podem sufocar os recifes.

Além disso, portos, píeres e o tráfego de barcaças aumentam o risco de danos físicos, poluição e acidentes. Em ilhas pequenas e recifes rasos, esses impactos podem atingir rapidamente áreas de altíssima biodiversidade.

Sem mencionar que, segundo o site Island Conservation, existem 465.000 ilhas no mundo. Juntas, elas cobrem 5,3% da área do planeta. Contudo, as ilhas representam a maior concentração de biodiversidade e, ao mesmo tempo, extinções de espécies.

Em outras palavras, aparentemente, a Indonésia apoia os esforços de Donald Trump que faz o possível para iniciar a mineração submarina, mesmo depois que num teste revelar que abundância e o número de espécies caíram quase 40% na Clarion-Clipperton Zone (CCZ).

Protegida no papel, ameaçada na prática

Raja Ampat reúne áreas marinhas protegidas e, desde 2023, também abriga um Geoparque Mundial da UNESCO. Mesmo assim, isso não impediu o avanço da mineração. Em 2025, o próprio governo indonésio reconheceu violações ambientais em operações de níquel na região.

O paradoxo ficou ainda mais evidente porque algumas concessões atingiam áreas dentro do geoparque ou de florestas protegidas. Um levantamento do Greenpeace identificou 16 licenças de níquel, ativas ou não, em Raja Ampat; 12 delas alcançavam parcial ou totalmente o Geoparque da UNESCO.

A pressão continua. Em 2026, três novas licenças estavam em tramitação para áreas no leste de Waigeo, a maior ilha do arquipélago. Para uma região celebrada mundialmente pela biodiversidade, a proteção legal ainda está longe de significar proteção efetiva.

Corais de Raja Ampat
Imagem aérea da icônica Ilha Wayag nas ilhas Raja Ampat, no sudoeste de Papua. A Ilha Wayag está ameaçada principalmente por atividades de mineração de níquel em áreas próximas e pelo conflito social associado. As atividades de mineração causam desmatamento, aumento da sedimentação que sufoca os recifes de coral e o potencial de poluição química, o que pode causar danos irreversíveis à rica biodiversidade marinha da região, segundo o Mongabay.

A mineração se soma ao aquecimento dos oceanos

A ameaça do níquel chega num momento especialmente ruim. Os corais de Raja Ampat, como recifes tropicais em todo o mundo, já sofrem com o aumento da temperatura do mar, a acidificação dos oceanos e eventos de branqueamento.

Quando a mineração acrescenta sedimentos, poluição e destruição costeira a esse cenário, reduz ainda mais a capacidade de recuperação dos recifes. Em um dos lugares mais ricos em corais do planeta, somar pressões locais a uma crise climática global é uma aposta de alto risco.

Raja Ampat também sofreu branqueamento em massa

A mineração chega aos corais de Raja Ampat quando os recifes já enfrentam outra ameaça grave: o aquecimento do oceano. Em dezembro de 2024, pesquisadores registraram um episódio de branqueamento em massa em Yenbuba. Mais de 70% das colônias do coral dominante Pachyseris speciosa apresentavam branqueamento severo.

Um ano depois, boa parte desses corais havia recuperado a coloração. Mas outras espécies mostraram recuperação mais lenta. O estudo alerta que essa resistência não elimina o risco de novos eventos de calor extremo.

E há contexto maior: a NOAA classificou o evento global de 2023–2025 como o maior branqueamento de corais já registrado, atingindo cerca de 84% das áreas recifais do planeta.

Por que Raja Ampat importa

Raja Ampat não é apenas um destino famoso de mergulho. Seus recifes funcionam como um dos grandes reservatórios de biodiversidade marinha do planeta. Proteger a região significa preservar espécies, áreas de reprodução e uma riqueza genética importante para a resiliência dos corais em um oceano cada vez mais quente.

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