Trump tenta renomear o oceano Atlântico: um insulto ao mundo

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Trump tenta renomear o oceano Atlântico: um insulto ao mundo

Renomear oceano Atlântico: a tentativa de Donald Trump é um insulto aos povos que compartilham suas margens, e ao restante do mundo. Na quarta-feira, 21 de outubro, o presidente americano contou a uma plateia na Carolina do Sul que procurou o Google para discutir a mudança. Entre os nomes que havia sugerido estava “Trump Ocean”, ou “Oceano Trump”. Segundo ele, “temos um lago e temos um golfo, agora precisamos de um rio e de um oceano”. O nome Atlântico tem raízes na Antiguidade, há cerca de 2.500 anos. Agora, o mimado presidente quer transformar até um oceano em propaganda pessoal. Quem lhe deu autoridade para tratar a geografia mundial como propriedade particular?

Donald Trump quer renomear o oceano Atlântico
Fotografia oficial da Casa Branca, da autoria de Molly Riley.

O capricho cartográfico não surgiu à toa. Trump assinou ordens para substituir golfo do México por “golfo da América” e lago Ontário por “lago América” nos registros federais americanos. Não satisfeito, propôs chamar o estreito de Ormuz de “estreito de Trump”. Também voltou a defender que o estado do Novo México adote “Nova América”. A lista revela uma arrogância que ultrapassa fronteiras: nomes históricos tornam-se obstáculos à sua vaidade.

Atlântico: um nome com 2.500 anos de história

Segundo o Oxford Classical Dictionary, o termo Atlântico entrou em uso no século V antes de Cristo e significa “mar de Atlas”. O nome remete à figura da mitologia grega associada ao extremo ocidental do mundo mediterrâneo. Naquele século, Heródoto já mencionava, em sua História, o mar além das Colunas de Hércules, atual estreito de Gibraltar, com essa denominação.

A aplicação do nome acompanhou a expansão do conhecimento geográfico. Um estudo publicado nos Anais do Museu Paulista registra, por exemplo, o uso de Mare Atlanticum e Oceanus Atlanticus em mapas relativos à África no atlas de Abraham Ortelius, de 1570. Trata-se, portanto, de uma herança histórica que atravessa milênios, ou seja, um patrimônio imemorial da humanidade.

Ao cogitar renomear o Atlântico, Trump reduz essa história a uma oportunidade de propaganda pessoal. Sua pretensão mostra que perdeu o senso do ridículo, se é que algum dia o teve.

Narcisismo toponímico: o homem que queria o Nobel agora quer um oceano

A vaidade também aparece na obsessão pelo Nobel da Paz. Tanto insistiu o negacionista da Casa Branca que, em janeiro de 2026, María Corina Machado lhe entregou a medalha do prêmio que ganhou em 2025. Receber a medalha, porém, não lhe conferiu o Nobel. Apenas acrescentou ao currículo um vexame de alcance mundial.

A tentativa renomear o Oceano Atlântico segue o mesmo delírio de autopromoção. Em artigo na Time, Reuben Rose-Redwood, Derek Alderman e Frédéric Giraut classificaram a prática como “narcisismo toponímico”. A expressão descreve o uso de nomes geográficos para refazer o mundo à própria imagem. Nomes que pertencem à história coletiva passam a servir à glorificação de um governante desastrado.

Renomear oceano Atlântico: “O Google está beijando minha bunda”

É inacreditável, mas aconteceu. Antes de relatar a recusa do Google, Trump vangloriou-se da obediência da empresa. O “Calígula Tangerina”, como o chamou uma leitora do Washington Post, afirmou no comício que o Google antes ignorava seus telefonemas. Agora, segundo ele, “está beijando minha bunda”, tradução direta de “is kissing my ass”.

O The Verge destacou que executivos e empresas do Vale do Silício têm procurado agradar Trump com elogios e doações. A reportagem também confrontou a bravata com a explicação do Google: a empresa afirma que acompanha os registros oficiais americanos e aplica sua política para nomes que variam entre países. Trump, porém, apresenta essas alterações como prova de submissão pessoal.

Analistas criticaram duramente o que chamaram de “corrupção escancarada” (overt corruption). A preocupação central é o nível de influência pessoal e direta que o Executivo demonstra ter sobre as decisões técnicas de uma das maiores plataformas de informação do planeta.

A grosseria expõe sua concepção de poder. Uma plataforma que orienta milhões de pessoas vira, no discurso presidencial, mais uma empresa que lhe deve obediência.

A questão vai muito além da vaidade. Ao atropelar as regras que sustentam a ordem internacional desde o fim da Segunda Guerra Mundial, Trump troca a responsabilidade do cargo pela imposição de sua vontade. A maior potência mundial exige um presidente à altura de suas responsabilidades. Trump demonstra, a cada novo abuso, que lhe falta estatura moral para exercê-las.

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