Erosão em Jericoacoara: mar avança até dentro de parque nacional
A erosão em Jericoacoara deixou de ser ameaça futura. Agora, aparece nas medições, nas imagens e na paisagem. A praia da vila encolhe, o mar avança e um dos destinos mais famosos do Brasil mostra, mais uma vez, a fragilidade do litoral diante do turismo desordenado, da ocupação mal planejada e da falta de gestão.

O Parque Nacional de Jericoacoara tinha tudo para ser um sucesso. Tem paisagens de tirar o fôlego, fama internacional e enorme apelo turístico. E, de fato, virou sucesso de público. Em 2025, recebeu cerca de 1,3 milhão de visitantes, número expressivo para qualquer unidade de conservação.
Jeri não é caso isolado. Conforme já mostramos no post sobre Fernando de Noronha, o Brasil tem dificuldade crônica para proteger seus maiores ícones naturais. Beleza e público não faltam. O que falta é gestão, fiscalização, saneamento e controle da pressão turística. Nos dois parques nacionais, o turismo desordenado avança, o poder público falha e a natureza cobra a conta.
Jericoacoara: concessão travada, duna perdida e erosão acelerada
Em 2023, a concessão de Jericoacoara virou mais uma confusão entre o governo do Ceará e a União. A erosão em Jericoacoara não surgiu do nada. Ela aparece em uma área que há anos convive com gestão fraca, turismo desordenado e pressão excessiva sobre dunas, praias e restingas.
Esse é o pano de fundo. A concessão do parque nacional deveria ajudar a organizá-lo, melhorar a visitação e dar mais estrutura à fiscalização. Mas, em Jeri, até a solução virou problema.
Depois, em 2024, veio outro sinal do abandono: a Duna do Pôr do Sol se perdeu. Um dos maiores símbolos de Jericoacoara sofreu, durante anos, pressão excessiva de visitantes, sem controle compatível com sua fragilidade. O turismo desordenado tomou conta, a gestão falhou, e o resultado apareceu na paisagem. A duna perdeu altura, volume e presença. Enquanto isso, acontecia dentro do Parque Nacional, do lado de fora era a especulação que explodiu no litoral extremo Oeste do Ceará, ameaçando a integridade da área do entorno do parque.
Problemas em Jericoacoara
Agora, a erosão em Jericoacoara confirma o fracasso. Segundo dados divulgados pela imprensa cearense, a praia da vila perdeu até 48 metros entre 2016 e 2024. Em alguns trechos de maior fluxo turístico, o avanço do mar passou de 10 metros por ano.
É claro que a erosão costeira também resulta de processos naturais, ressacas, correntes, ventos e avanço do nível do mar. Mas a ocupação desordenada piora tudo. Quando o poder público permite pressão excessiva sobre dunas, restingas e faixa de praia, o litoral perde suas defesas naturais.
Em Jericoacoara, a conta chegou em sequência. Em 2023, a concessão virou disputa. No ano seguinte, a Duna do Pôr do Sol praticamente desapareceu. Agora, a praia mais famosa sente o avanço do mar. Jeri segue linda, mas cada vez mais frágil.
Erosão em Jericoacoara
Segundo reportagem do Diário do Nordeste, a praia da vila de Jericoacoara já perdeu até 48 metros entre 2016 e 2024. No trecho de maior fluxo turístico, entre a vila e a Pedra Furada, o recuo passou de 10 metros por ano. A Sema-CE classifica Jeri como “núcleo de atenção”, com alta vulnerabilidade à erosão costeira. Enquanto isso, comerciantes já improvisam barreiras contra o mar. Ou seja, a desordem deixou de ser paisagem: virou risco concreto.
A erosão em Jericoacoara tem duas causas principais, segundo os pesquisadores do Labomar ouvidos pelo Diário do Nordeste. A primeira é a ocupação de áreas importantes para o transporte natural de sedimentos. Ou seja, dunas, faixa de praia e áreas costeiras que deveriam alimentar o litoral com areia sofreram pressão humana ao longo do tempo.
A segunda vem do clima. Ressacas mais fortes, eventos extremos e a elevação do nível do mar aumentam a força do oceano sobre a praia. Assim, quando a ocupação desorganiza o sistema natural de reposição de areia, o mar encontra menos resistência. O resultado é a erosão acelerada que agora aparece na praia da vila.
Em outras palavras, nem mesmo a condição de parque nacional impediu a ocupação mal feita e predatória de áreas essenciais à dinâmica costeira. O poder público criou a unidade de conservação, mas não conseguiu barrar a desordem dentro dela. É isso que nos leva a pensar na falência deste modelo no Brasil: protege-se no papel, mas a prática segue entregue à pressão imobiliária, ao turismo desordenado e à falta de gestão.
Jeri, retrato do fracasso da conservação no Brasil
A UFC, por meio do Labomar, iniciou em junho de 2026 um diagnóstico da erosão costeira em Jericoacoara. O estudo terá duração de 12 meses e deve combinar monitoramento de campo, análise da dinâmica costeira, modelagem e participação social.
A pesquisa pode apontar onde a erosão avança mais rápido, quais áreas sofrem maior risco e que medidas fazem sentido para reduzir danos sem repetir soluções improvisadas. Agora, resta saber se o poder público vai ouvir a ciência — ou se Jeri continuará perdendo areia enquanto todos fingem surpresa.






