Litoral de Pernambuco e viagem para Maceió

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    Litoral de Pernambuco e viagem para Maceió

    Quinta- feira, 3- 11- 2005.

    O vento mudou! Já não temos mais o incomodo e poderoso sueste como companhia. Os ventos agora vêm do quadrante leste. Que bom, já não era sem tempo.

    Esta foi a primeira observação depois do desembarque, ontem de tarde, no aeroporto de Recife. Eu esperava ansiosamente pela mudança, afinal, desde o litoral do Piauí temos sofrido com o sueste que é contrário ao nosso rumo.

    Burocracia na TV Cultura e atraso da série

    Meu plano era começar esta série em janeiro. Por questões de burocracia da TV Cultura, nossa estréia aconteceu apenas em Abril. Se meu pleito fosse atendido não teríamos passado por tantos apertos, nem perdido tantas velas. E as navegadas seriam menos desconfortáveis. Meu objetivo era ter atingido o litoral do Ceará em julho, de modo a podermos atravessar o Nordeste sem o sueste que, como disse, sopra em sentido contrário ao nosso avanço levantando ondas às vezes de 4 a 5 metros. Mas as coisas nunca saem exatamente como gostaríamos e, assim, acabei chegando à região junto com o vento. Isto fez com que o trajeto do Piauí até Pernambuco tenha sido desagradável e desgastante para o barco e tripulação. Por isto estava na torcida pela virada que geralmente ocorre nesta época do ano.

    Nordeste: de vento Sueste, para o Leste

    Quando chegamos a Recife, vindos da Paraíba, o sueste ainda estava no auge da força. Agora não. O vento já sopra de leste e desta direção vai virar para nordeste, o que favorece ainda mais a navegação de quem demanda o sul.

    Mar Sem Fim faz sucesso em Pernambuco e Natal, RGN

    Além desta boa novidade temos mais uma: muita gente conhece a série Mar Sem Fim em Pernambuco. Assim que entramos num táxi o motorista olhou bem pra mim e soltou: “eu lhe conheço”. Assustei. Não estou acostumado. Enquanto eu pensava de onde será que este cara me conhece, ele olhou minha camiseta, com o logotipo do programa, e arrematou com aquele delicioso sotaque característico: “Vocês são da série Mar Sem Fim, é?” Ficamos felizes de saber que gente comum está acompanhando e curtindo nosso trabalho. Em Natal já foi assim. Quando entravamos em restaurantes os garçons vinham comentar conosco. Em algumas viagens que fizemos pelo litoral do Rio Grande do Norte também aconteceu este reconhecimento. Mas entrar num táxi e ouvir o motorista entusiasmado, falando das imagens que vira em nossos programas nos encheu de orgulho e satisfação. Tanto melhor. Era esta a idéia principal: passar para a maior quantidade possível de pessoas a importância do espaço marítimo, sua fragilidade, sua riqueza animal, vegetal e mineral. Queríamos mostrar aos brasileiros como está sendo feita a ocupação da costa e surpreendê-los, destacando os bens culturais do rico e diverso acervo acumulado pelas cidades costeiras, justamente em função de sua localização geográfica peculiar na beira do mar. Relembro, mais uma vez, que uma pesquisa feita em 1988 mostrou que os brasileiros não se interessam pelo mar, mas pelo litoral, ambiente associado ao lazer, turismo, esportes e pesca. A importância do oceano Atlântico para a economia e segurança é ignorada ou pouco conhecida pela população e formadores de opinião. Talvez isto explique porque tanta indiferença com o espaço marítimo. Enquanto enormes áreas dos continentes são reservas, menos de um por cento dos mares são parques ou que tais.

    Patrimônio Cultural de Pernambuco

    Bem, em nosso primeiro dia fomos entrevistar o superintendente regional do IPHAN, Frederico Faria Neves de Almeida, já que Pernambuco é um dos mais ricos Estados brasileiros em se tratando de patrimônio histórico. Além de Olinda, tombada pela UNESCO, a própria cidade do Recife, fundada pelos holandeses, é coalhada de prédios históricos maravilhosos. Igrejas, conventos, fortes, e um belo casario. Frederico nos sugeriu os mais importantes do Recife, Itamaracá, Igarassu, e até alguns engenhos do litoral sul que em breve vamos visitar. Ele contou que em termos de número de monumentos tombados em primeiro lugar está o Rio de Janeiro, em seguida Minas, depois a Bahia e, em quarto, Pernambuco. Só em Olinda há três mil imóveis, sem contar os dos outros municípios do Estado. Não vai ser sopa nosso trabalho.

    A herança dos holandeses

    Perguntei qual a maior herança deixada pelos holandeses além de prédios históricos. “O traçado da cidade, com as mesmas características de Amsterdã, ou seja, abaixo do nível do mar; a canalização do sistema de água usado até hoje, a fortificação antiga ainda que esta seja influência indireta já que foram os portugueses que acabaram construindo vários fortes para se defenderam da ameaça holandesa e, finalmente, a implantação e desenvolvimento da capital”.

    Especulação em Recife

    Conversamos também sobre os problemas da cidade hoje, e ele não se esquivou de dar opiniões. Frederico sabe que o carro chefe do turismo, que cresce violentamente como em todo o Nordeste, são as praias, o “patrimônio histórico agrega valor”. Ele se preocupa com o futuro. Diz que Recife sofre demais com a especulação imobiliária porque a área da cidade é muito pequena. Ela é a menor capital, em área, do Brasil. Por isto a verticalização exacerbada torna “cotidiano a construção de prédios de 30 até 40 andares”.

    Em seguida ao bate- papo e gravação saímos para “cobrir” a entrevista, ou seja, registrar os monumentos citados. Voltamos no fim do dia, depois do por do sol.

    No Campus da UFPE

    Sexta- feira, 4- 11- 2005.

    Saímos cedo em direção ao Campus da Universidade Federal Rural de Pernambuco.

    Mangues detonados no litoral de Pernambuco

    Tínhamos agendado entrevistas com diversos especialistas. A primeira foi com Maryse Paranaguá, uma especialista em mangues que fez um rápido resumo da situação no litoral pernambucano.

    Nos anos 1960 até 1970 aconteceu a instalação de grandes indústrias no entorno da ilha de Itamaracá, e no município de Itapissuma ao norte da ilha, iniciando a era da poluição industrial. Esta é a região do estuário do rio Botafogo, mais conhecido aqui como canal de Santa Cruz. Ele fica próximo a Itapissuma que tem cerca de 23 mil habitantes totalmente dependentes da pesca e coleta artesanais. O Brasil vivia a época da SUDENE, de triste lembrança, seja ao lidar com os dinheiros públicos ou incentivos, seja ao criar políticas de cunho desenvolvimentista, muitas vezes equivocadas. Entre as conseqüências ao meio ambiente, no Canal de Santa Cruz e outros rios do complexo estuarino, houve derramamento de soda cáustica e mercúrio, para citar apenas dois poluentes dos mais nocivos. Segundo Maryse, a comunidade teve que lutar por muito tempo para conseguir que as empresas instalassem tanques de retenção.

    Mangues detonados para loteamentos, resorts, hotéis e marinas

    Em seguida veio o desmatamento dos mangues. Mais de um terço da quantidade original, nos conta Maryse, cortados e aterrados para dar lugar a loteamentos, resorts, hotéis e marinas. Provoquei. Perguntei se o turismo não serviria com substituto da atividade econômica antiga, a pesca e a mariscagem. “

    Não. Os moradores só são chamados para a construção da obra civil. Uma vez encerrada eles são dispensados

    A chegada da carcinicultura

    Em seguida a este ciclo predador chegou, mais recentemente, a carcinicultura que ainda é mais devastadora.

    Maryse condena a prática tal como está acontecendo. Conta indignada que parte considerável das grandes fazendas é de empresários muito fortes, ou políticos, e que…

    …ambos passam por cima das leis. Eles desconsideram o Apicum como área contígua aos mangues, e parte deste bioma, e destroem mais que constroem. A criação de camarões deveria ser autosustentável mas não é

    Carcinicultura derruba coqueirais no litoral de Pernambuco

    Ela ainda contou que, em Pernambuco, a carcinicultura não derruba somente mangues, mas também os coqueirais.

    Como eles retiram os mangues que protegem a linha da costa, as marés em seguida avançam e põe abaixo coqueirais inteiros. Em Itamaracá foi assim

    Maryse falou sobre a erosão, e invasão do mar, em Barra de Jangadas, no Recife, pelo mesmo motivo: a derrubada dos mangues. Só que esta área já era urbanizada e alguns prédios simplesmente caíram enquanto outros estão condenados.

    É evidente que tudo isto somado causou uma grande perda de biodiversidade numa das áreas mais ricas do litoral norte de Pernambuco. Estaremos lá e poderemos ver.

    Tubarões no litoral de Pernambuco

    Em seguida tivemos outra conversa, desta vez com Paulo Oliveira, professor baiano, dando aulas Pernambuco, pesquisador do laboratório de oceanografia pesqueira, da Universidade Rural Federal. Sua especialidade é o tubarão, este peixe tão pouco estudado, com algumas espécies ameaçadas de extinção em vários mares do planeta ainda que o Ibama não o inclua entre as que correm este risco no país.

    Como se sabe, Pernambuco tem o triste recorde de acidentes com tubarões na costa brasileira. Dos anos 90 para cá foram 46 ataques com 18 mortes. Por isto nossa série não poderia deixar de abrir espaço para este tema, procurando contribuir para desvendar os mistérios e lendas que ainda cercam a figura do tubarão, considerado injustamente o vilão dos mares.

    Ataques começaram em 1992

    Os ataques começaram em 1992 nas praias metropolitanas do Recife. Estudos foram feitos e grupos multidisciplinares foram formados. O Governo do Estado também entrou na campanha. Passado algum tempo as chegaram às conclusões: Atribui-se a presença dos tubarões, das espécies tigre e cabeça chata, dois dos mais agressivos, a destruição dos mangues de Suape. Isto mesmo. Mais uma vez os mangues foram vitimas da ocupação mal planejada.

    Obras do porto de Suape colaboraram para ataques de tubarão

    As obras para a construção do Porto de Suape são gigantescas e seu impacto ambiental também. Ainda que ele seja muito importante para a economia do Estado e do município, gerando empregos, pagando royalties para as cidades atingidas, escoando a produção diretamente para mercados consumidores e, certamente contribuindo para a economia e o progresso, me pergunto se seria mesmo necessário tanto impacto ambiental. Mas o que importa saber é que, para a construção do imenso porto e refinaria de Suape, grandes áreas de mangues vieram abaixo. Ele era berçário das fêmeas de tubarão cabeça chata que usavam aquele estuário para parir filhotes.

    Destruição de mangues e ataques de tubarão

    Com a destruição do habitat o tubarão procura um substituto para continuar seu ciclo de vida. Como os ventos predominantes são de sueste, os indivíduos que antes freqüentavam Suape sobem à costa, embalados pelas correntes formadas pelo vento, e o primeiro que encontram é o do rio Jaboatão, na região metropolitana do Recife. Então uma série de fatores, em cadeia, parece que escapam sorrateiramente de um “saco de maldades” e dão sua contribuição. Dois deles: o matadouro de Jaboatão e o chorume do Aterro da Muribeca. Sobre eles escreveu o professor Fábio Hazin, especialista da Universidade Federal Rural de Pernambuco: “…é razoável supor que o lançamento de sangue e vísceras no Rio Jaboatão, o qual deságua no trecho da praia onde se verificaram 45 dos 46 ataques, tem potencial importante de atrair tubarões”…e mais adiante dá um puxão de orelhas nas autoridades: “O lançamento deste tipo de dejetos diretamente em corpos d’água possui um impacto ambiental tão deletério, que um Manual da FAO afirma”…e seguem várias recomendações do órgão da ONU.

    Neste estudo, antes de falar sobre as conseqüências dos efluentes do matadouro e do chorume, o professor Hazin explicou o motivo pelo qual o tubarão tem um olfato super- desenvolvido. Para começar ele é um predador do topo da cadeia alimentar, e “tem os bulbos olfativos bastante desenvolvidos, o que lhe confere um olfato extremamente sensível e efetivo na localização de possíveis presas”. O estudo mostra que no ano de 2000 aquele matadouro despejava seus efluentes sem qualquer tratamento, a um volume diário de 345 metros cúbicos, “sendo 20 vezes maior que o da segunda fonte poluidora”. Por fim o professor explica que as “águas do Jaboatão se espalham ao longo das praias mais importantes do Recife”. Talvez o nível da poluição seja forte demais, e eles deixam o estuário à procura de um local próximo. Acabam nas áreas recifais, as mesmas que cercam as praias urbanas. Aqui encontram alimento em abundância, especialmente pela pesca de arrasto de camarão, praticada às vezes a cem, cento e cinqüenta, metros da costa.

    Contribuição da pesca de arrasto para ataques

    Como já contei para cada quilo da espécie pescada as redes trazem mais 80% em fauna acompanhante que é devolvida ao mar já morta, e se transforma no almoço e jantar mais fácil que os tigres e cabeças chatas jamais encontraram. Por isto eles ficam na área, mesmo depois das fêmeas parirem. Por se tratar de animais do topo da cadeia alimentar marinha são territorialistas, ou seja, defendem com dentes, literalmente, o local onde se estabelecem e de onde pretendem tirar seu alimento. E às vezes encontram surfistas desavisados que atravessam a área de recifes em busca das maiores ondas. Então os tubarões percebem aquele vulto (as águas são revoltas, turvas) quase tão grande quanto o seu (os tigres e cabeças chatas têm de 2 a 3 metros de comprimento) e, imediatamente avançam contra eles achando que são seus rivais do mar ou, possivelmente, mais alimento. E mordem. Assim que percebem que não se trata de sua dieta descartam a presa, mas muitas vezes é tarde demais.

    As mandíbulas dos tubarões são armas mortíferas. Prensas poderosas, algumas abrigam até sete fileiras dos dentes mais pontiagudos e afiados que se conhece. Com uma pequena bocada eles são capazes de cortar a carne e serrar o osso mais encorpado, dilacerando totalmente o membro atingido. Sempre que houve óbito nos ataques em Pernambuco, a causa foi a perda do sangue das vitimas atingidas (e posteriormente soltas) por um único golpe.

    E pensar que apesar deste aviso, do pânico, da perda de receita no turismo, da dor das famílias e do espaço aberto pela imprensa, os mangues do Nordeste continuam a ser dizimados, entregues para carcinicultures ou especuladores imobiliários, mesmo sendo considerados como APPs- Áreas de Preservação Permanente.

    Como se não bastassem os exemplos nacionais, há os internacionais. Pelos estudos feitos depois do devastador tsunami que aconteceu em 2005 na Ásia, ficou provado que onde havia mangues o estrago foi menor, já que eles protegem a linha da costa contra as forças que vêm do mar.

    É o fim da picada. Apesar de tudo isto nossas autoridades se fazem de cegas e surdas! Preferem torrar 200 milhões de reais num referendo demagógico, com uma pergunta formulada de modo estúpido, num esforço vão para esconder a verdade e iludir. Todo mundo sabe, inclusive os brasileiros, o resultado das urnas é apenas mais uma prova, que a causa principal da violência é a notória omissão do Estado, e não o fato de se vender armas. Se o governo trata assim a segurança pública, porque não haveria de fazer o mesmo com o meio ambiente entregando áreas públicas, estratégicas para a defesa da zona costeira, e úteros de vida marinha, para que poucos e bons, “poderosos”, possam ganhar ainda mais exportando a custa de destruição, poluição, e conflitos socais?

    Olinda

    Sábado, 5- 11- 2005.

    O programa de hoje foi percorrer e filmar Olinda. Pretendemos fazer todo um programa sobre a cidade, já que ela é uma das mais bonitas da costa brasileira e tem um conjunto de prédios históricos de perder o fôlego. São igrejas, conventos, casarões coloniais, ruelas, becos, enfim uma aula viva de história da arquitetura no Brasil. Por sua importância Olinda foi tombada pela UNESCO, desde 1982, como Patrimônio Cultural da Humanidade. E, além disto, por estar situada no topo de uma colina ela tem uma belíssima vista do Recife, ao sul, com seu porto e dezenas de canais. O dia inteiro foi gasto neste trabalho. Voltamos para o Mar Sem Fim, atracado no Cabanga Iate Clube, já de noite.

    Pelos canais e rios

    Domingo, 6- 11- 2005.

    Para hoje programamos um passeio de barco pelos canais e rios. A cidade fundada pelos holandeses está abaixo do nível do mar, e foi construída entre os rios Capibaribe e Beberibe. Sua área ocupa um istmo, ilhas, e partes alagadas que foram aterradas. Para mostrá-la aos telespectadores nada melhor que gravá-la de fora para dentro, ou seja, da água para o interior. Recife é uma das três metrópoles do Nordeste, ao lado de Salvador e Fortaleza, com tem três milhões e quatrocentos mil habitantes na região metropolitana espremidos no menor espaço de uma capital brasileira. Como sempre os índices de esgotos tratados são precários: apenas 34% das residências têm o benefício, enquanto 86% contam com coleta de lixo (Dados do IBGE, ano 2000). E mais : por estar numa região estuarina Recife originalmente era cercada por manguezais que tiveram que ser desmatados e aterrados para dar lugar a cidade. Hoje restam pequenas franjas em certas margens, algumas ainda ocupadas por favelas em meio à sujeira, ao lixo, e aos esgotos jogados diretamente nos rios provocando uma situação degradante. É mais uma prova da falência do Estado brasileiro e da terrível e injusta distribuição de renda. Uma realidade triste com a qual ainda vamos conviver por longo tempo. Não se muda um país a base de discursos e demagogia. É preciso diminuir o tamanho do Estado, dar-lhe um “choque de gestão”, torná-lo eficiente. E fazer muitas reformas, especialmente à da Previdência.

    Mas o governo federal parece desinteressado. O resultado é que hoje mais de 90% da carga de impostos, quase 40% do PIB, são “despesas vinculadas”. Em português claro isto quer dizer que depois de pagar a folha de pagamentos do funcionalismo, mais a Previdência, sobra para o governo investir menos de 0,9% do total arrecadado. Muito pouco para atender todas as nossas necessidades…

    Passeamos por duas horas navegando ora por canais, ora pelos rios sempre cercados por prédios enormes e alguns resquícios da cidade velha que resistiu ao tempo. É uma pena não terem preservado mais a cidade antiga. Recife deve ter sido uma beleza nos séculos passados. Não é a toa que também é conhecida como a “Veneza brasileira”.

    Cana-de-acúcar: motor da economia até hoje

    O motor da economia do Estado sempre foi a cana- de- açúcar, desde os primórdios até hoje. Alguns historiadores, como Eduardo Bueno, consideram Pernambuco como a única capitania que deu certo, especialmente pela obstinação do primeiro donatário, Duarte Coelho, que logo que chegou tratou de construir os primeiros engenhos. Não foi por outro motivo, a riqueza produzida pelo açúcar, que os holandeses a escolheram como área prioritária para a invasão.

    Litoral de Pernambuco
    No lugar da Mata Atlântica, cana-de-açúcar

    Cana-de-acúcar e a destruição da Mata Atlântica no litoral de Pernambuco

    Por falar em cana-de-açúcar, vamos também reconhecer que esta cultura foi a responsável pela destruição da maior parte da Mata Atlântica do Nordeste. Aqui ela começou a ser plantada justamente no vale do Capibaribe, onde antes havia floresta. Hoje os canaviais dominam completamente a paisagem ao sul de Recife, não poupando nem mesmo as margens dos rios. Estivemos viajando e pudemos ver. A cana chega até os barrancos que antecedem os leitos, não poupando sequer as matas ciliares. O resultado é poluição por vinhoto e agrotóxicos, e o assoreamento de todos eles: o Capibaribe, o Beberibe, o Jaboatão, Sirinhaém, rio Formoso, etc. A baixa profundidade aliada aos recifes que antecedem a costa fez com que, mais uma vez, deixássemos nosso veleiro no Iate Clube para viajar de carro pelo litoral.

    Itamaracá

    Segunda- feira, 7- 11- 2005.

    Itamaracá é o nosso destino. A ilha fica 15 milhas ao norte de Recife e teve papel fundamental na história da colonização. Ela foi uma das feitorias iniciais levantadas pelos portugueses.

    A primeira foi fundada por Américo Vespúcio, em Cabo Frio, em 1504. Doze anos depois, em 1516, quando o rei quis organizar o comércio da madeira, mandou para cá uma frota comandada pelo “comissário de pau Brasil”, Cristovan Jaques. Ele navegou até Cabo Frio para descobrir que aquela feitoria estava abandonada. Tratou então de transferi-la para Itamaracá, que ficava mais próxima da Europa, no Nordeste, e onde o pau Brasil era tido como de melhor qualidade para a tintura.

    A região é toda cercada de manguezais, hoje infestados pela carcinicultura, e é lá que fica provavelmente uma das últimas colônias de pescadores artesanais de Pernambuco, especialmente em Itapissuma e Alcapuz. Quando estivemos na Universidade Federal, fomos alertados pela professora Maryse Paranaguá, e também por Tarciso Quinamo, pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco, para as conseqüências danosas do turismo de massa, e da criação de camarões na região.

    Igarassu

    Antes de chegar a Itamaracá passamos por Igarassu, para gravar a igreja mais antiga ainda em funcionamento no Brasil. Seu nome é Cosme e Damião e ela é testemunha dos esforços de Duarte Coelho que, antes de construir Olinda, subiu com sua frota a foz do Igarassu onde fundou a vila de mesmo nome. Só alguns anos depois quando percebeu as vantagens estratégicas de Olinda, com uma vista perfeita da orla, é que Duarte Coelho transferiu para lá a cidade principal de seus domínios.

    Itapissuma onde as pessoas dependem da pesca artesanal

    A viagem de carro é curta. Em menos de cinqüenta minutos já estávamos em Itapissuma. A cidade tem cerca de 20 mil habitantes e quase todos dependem da pesca artesanal. Nas margens do canal de Santa Cruz fica o pequeno porto onde os pescadores guardam suas embarcações tradicionais. São canoas compridas e estreitas, movidas a pano, iguais as que vimos em João Pessoa. Suas velas são bem maiores que as do Rio Grande do Norte, ou Ceará. De tão comprida, a retranca às vezes ultrapassa a extensão do casco dos barcos.

    Litoral de Pernambuco

    Falta vida marinha aos mangues da região: foram dizimados pelos efluentes da carcinicultura

    Ali conversamos com Joana Mouzinho, presidente da colônia de pescadores. Uma senhora enérgica e ativa que reclamou muito da falta de peixes e crustáceos que antes viviam nos mangues. Foram dizimados pelos efluentes da carcinicultura. Neste município há tanques de criação até nos quintais das casas dos moradores, envolvidos e seduzidos pelos grandes produtores que depois compram sua produção. Outro problema levantado por Joana foi sobre a construção de marinas, e a dragagem do canal de Santa Cruz num projeto de turismo desenvolvido pelo Estado. Já houve acidentes com a hélice de lanchas e pescadores, e dona Joana teme pelo afluxo de mais barcos, e a conseqüente diminuição de peixes. Ela é contra esta obra. E conseguiu, de tal forma mobilizar os moradores, que o Estado parou o projeto enquanto procura uma solução para o caso.

    Itamaracá e o Forte Orange, obra- prima do litoral de Pernambuco

    De Itapissuma atravessamos a ponte que liga o continente à ilha, e entramos em Itamaracá. A primeira coisa que se vê são enormes muralhas de cimento, cercando uma das três prisões que a ilha abriga. Pois é, não existe apenas uma prisão, mas três. Uma delas de segurança máxima. Esta é outra grita dos moradores e mais um pepino para o turismo. Seguimos em frente até encontrarmos o mar, do outro lado, onde ficam as ruínas do forte Orange de origem holandesa. Apesar da importância histórica e da beleza, seu estado é de semi-abandono. Lá conversamos com Zé Amaro, um ex- presidiário, que acabou conhecido como guardião do forte porque, desde que o conheceu, nunca mais abandonou o local.

    Litoral de Pernambuco, imagem do Forte Orange
    Forte Orange

    Quando Zé Amaro foi solto ele se mudou para o Forte e passou a cuidar do imóvel como se fosse sua casa. Ele fez de tudo para chamar a atenção das autoridades pedindo dinheiro para reformas, mas só conseguiu retorno quando bateu na porta da Embaixada da Holanda que, sensibilizada, sugeriu que abrisse uma Fundação através da qual pudesse receber recursos. Foi o que fez nosso amigo. E desde então as coisas melhoraram até o ponto em que o Forte hoje não sofre mais a ameaça de ruir, muito embora suas condições deixem a desejar.

    Zé Amaro é uma figura adorável, muito falante, simpático, com uma barba imensa e sotaque carregado. Ele nos contou do tempo em que dormia no próprio Forte e se alimentava dos caranguejos que o mangue em volta providenciava. E fica triste ao dizer que hoje não há mais vida, “depois que a carcinicultura se estabeleceu”.

    Para finalizar o dia ainda visitamos a Base do Projeto Peixe Boi de Itamaracá. Para ela são trazidos os filhotes que encalham na costa nordestina. E nossa surpresa foi ainda maior quando acompanhamos um trabalho de biometria num deles, justamente aquele que Paulina Chamorro salvou quando visitávamos a costa do Ceará. Relatei este fato no diário de bordo daquela etapa, quando estávamos em Aracati para ver os estragos produzidos pela maior fazenda de camarões da região. Pois aquele animal foi resgatado e lavado para Itamaracá. Aqui recebeu o código de B5, relativo a bebê 5, enquanto espera uma votação que escolha seu nome definitivo. Mas sua ficha não deixa dúvidas: resgatado em Canoa Quebrada em 29 de Agosto de 2005, mesmo dia do telefonema dado por nossa repórter. Aí, menina, seu esforço não foi em vão. Parabéns!

    Porto de Galinhas, Gaiubu, enseada dos Corais, e Pedra do Xaréu: corte de Mata Atlântica e especulação

    Terça- feira, 8-11- 2005.

    Hoje nossa viagem é para o litoral sul até Porto de Galinhas, uma das mais belas regiões da costa pernambucana, e a que mais recebe investimentos do turismo. Durante todo o trajeto o que mais se vê são canaviais em ambos os lados da estrada. A paisagem é bonita, com morros cobertos de cana até quase o topo, onde ainda se vê restos da antiga capa de Mata Atlântica que se estendia por todo o litoral.

    Antes de chegar paramos em algumas praias para ver como está sua ocupação. A primeira foi Guaibu, uma das mais adensadas. Até talvez uns 400 ou 500 metros, interior adentro, tudo que se vê são casas de veraneio muito próximas umas das outras. Elas foram construídas para trás da primeira faixa de coqueiros e árvores, mas ainda assim, bem antes dos 300 metros que a resolução do CONAMA considera como APPs (Resolução Nº 303, de 20 de Março de 2002). Estas resoluções em muitos casos chegaram tarde demais, porque as praias próximas das capitais já estavam ocupadas. É sempre assim, o Estado nunca planeja, está sempre correndo atrás, a reboque.

    Além de Guaibu ainda paramos na enseada dos Corais, e Pedra do Xaréu, ambas em situação parecida. Muitas vezes o banhista tem dificuldade para o acesso tal a quantidade de casas ou muros.

    Litoral de Pernambuco, imagem da praia de Guibu, PE
    Guaibu: super adesamento e zero de saneamento

    Farol do Cabo de Santo Agostinho

    De lá seguimos até o Farol do Cabo de Santo Agostinho, um ponto notável da costa bastante conhecido por quem navega. Ele fica em cima de um morro de onde se tem uma vista linda, com o mar turquesa típico daqui indo até o infinito, Recife ao norte, e o porto de Suape ao sul. Infelizmente do morro onde fica o farol pode-se ver vários outros sem cobertura vegetal, com sinais fortes de degradação. Basta cortar o mato para as chuvas fazerem o resto provocando forte erosão.

    Desmatar no século 17 para se construir uma cidade, como foi o caso de Recife, vá lá. Naquele tempo a pressão para a manutenção e preservação do meio ambiente ainda era inexistente e, para assentar uma cidade, não havia outro jeito. Mas continuar devastando três séculos depois parece burrice, teimosia, ou as duas coisas juntas.

    Seguimos em frente pela estrada que margeia a costa, mas não por muito mais. Logo adiante, na enseada de Suape, a estrada acaba na entrada de mais um resort, daqueles grandes cujo impacto no cenário é devastador: caixotões de cimento sobressaindo na paisagem. É preciso retornar até a BR, mais para o interior, para podermos seguir descendo em direção ao sul.

    Em Pernambuco, ao contrário do Ceará e Rio Grande do Norte, a BR não segue muito rente à costa, mas corre paralela a ela, um pouco mais para o interior. Para ir para as praias é preciso pegar desvios, saindo da estrada principal em direção às cidades e vilas que foram construídas quase sempre nas fozes dos rios, próximas do mar. Em seguida continuamos em direção a Porto de Galinhas, aonde chegamos alguns minutos depois.

    Porto de Galinhas e o turismo: cem mil turistas na temporada

    Porto de Galinhas é de fato uma região muito bonita. Cercada de coqueirais suas praias não são muito largas, mas bastante extensas e sempre com o mar de um turquesa formidável em frente.As piscinas de recifes e a arrebentação das ondas fica um pouco mais para fora.

    Porto de Galinhas faz parte do município de Ipojuca que tem a terceira maior arrecadação do Estado, atrás apenas de Jaboatão e Recife. Nos últimos 20 anos o turismo que antes era forte no litoral norte, em Itamaracá, parece que descobriu o sul, e investimentos grandes foram feitos. Ipojuca, com 60 mil habitantes, tem hoje sete mil leitos disponíveis. Os empreendimentos são de empresários nacionais, seguidos por portugueses e italianos. 65 % dos turistas que procuram o local são brasileiros, a maior parte, paulistas, os outros 35 % europeus. O município também tem leis que impedem a construção de espigões, como a Paraíba. Aqui a altura máxima dos prédios não pode ultrapassar os 14 metros de altura, o que equivale a um andar térreo com mais três em cima. Mas não há nenhuma lei que estipule um limite horizontal para a ocupação. O resultado é um adensamento forte demais.

    A economia de Ipojuca é movida pela cana, as maiores lavouras de Pernambuco ficam aqui, e pelo turismo, que emprega quase 20% da mão de obra da população. Por isto pode se dar ao luxo de investir. No momento a região toda está em obras, com a prefeitura prometendo entregar uma rede de esgotos que atenda cem por cento das residências até o final deste ano. Que sejam rápidos mesmo, é muita gente para um local sem infraestrutura.

    Estivemos também na foz do rio Maracaípe, um pouco abaixo, habitat de uma grande colônia de cavalos marinhos, estes frágeis peixes que vivem no mangue.

    Já era tarde quando acabamos as gravações. Resolvemos dormir por aqui e continuar amanhã. Eu ainda queria descer um pouco mais ao sul para ver se a especulação e o turismo continuam avançando.

    Tamandaré

    Quarta- feira, 9- 11- 2005.

    Logo cedo rodamos mais 60 km para o sul, até chegarmos em Tamandaré, pouco antes da fronteira com Alagoas. É impressionante a diferença. A mesma beleza cênica com coqueirais por todos os lados. Uma bela reserva de Mata Atlântica ainda preservada, aos cuidados do Ibama, a Reserva de Saltinho. Praias lindas, mas é bem menor o assédio do turismo apesar de Tamandaré ser bastante adensada.

    É incrível. De repente um pontinho da costa entra na moda e parece que só existe ele. Todo mundo quer ir pra lá. Das grifes famosas aos hotéis de luxo, passando por restaurantes, bares, e lojas de todos os tipos. E é claro que tudo isto atrai um monte de pessoas, às vezes bem mais do que o local pode suportar. Porto de Galinhas chega a receber quase cem mil turistas no pico da estação e, a cada ano que passa, fica mais parecida com Búzios, no Rio de Janeiro. De tanto crescer corre o risco de perder as belezas naturais que lhe deram fama, e acabar ficando sem nada. Enquanto isto, poucos quilômetros adiante, você encontra o mesmo tipo de praia, a mesma beleza do entorno, só que numa região menos “in”, portanto com menor algazarra e movimento.

    De Tamandaré começamos a voltar, parando ainda nas praias de Carneiros, também abarrotada de casas de veraneio. A praia é bonita, mas me parece que sua ocupação é exagerada (vide fotos).

    Gameleiro

    Depois estivemos em Gameleiro, uma linda baía com dois resorts construídos sem agredir a paisagem. Vejam aí, consegui encontrar resorts ecologicamente corretos, que beleza! Os daqui têm chalés de apenas um andar, rústicos e confortáveis, adaptados à arquitetura local. Eles estão bem espaçados uns dos outros, e são do tipo que não se vê da praia (vide foto). Turismo assim só faz bem: gera empregos, incrementa a economia, respeita a infraestrura instalada não trazendo gente demais e, especialmente e mais importante: não causa interferência nenhuma na paisagem. Impacto zero! Temos este belo exemplo no litoral sul de Pernambuco que torço para proliferar.

    Nossa próxima parada foi em barra do rio Sirinhaém, talvez a menos invadida da região. A mesma beleza, mas quase sem turistas ou casas de veraneio. A localidade ainda se sustenta da pesca artesanal.

    Com isto terminamos nossa visita. Conhecemos quase toda a costa de Pernambuco. Ficou de fora apenas São José da Coroa Grande, na divisa com Alagoas, que pretendemos conhecer na próxima etapa.

    A ocupação do litoral sul pernambucano, apesar de também viver o boom do turismo, não é tão danosa quanto a que vimos no Ceará e Rio Grande do Norte. Mas também não serve como exemplo, a não ser em poucos casos especiais, como estes dois resorts que citei. No mais as construções dos outros hotéis e casas de veraneio são menos agressivas, e as áreas ocupadas pelas fazendas de camarão menores, se comparadas ao que acontece no Ceará. Quanto ao cenário, tipo de mar e formação da costa, não podia ser mais espetacular.

    Fundação Joaquim Nabuco e a transposição do São Francisco: pesquisadores condenam projeto

    Quinta- feira, 10- 11- 2005.

    O dia foi dedicado para mais consultas na Fundação Joaquim Nabuco. Em breve estaremos em Alagoas, onde deságua o rio São Francisco. O tema da transposição está quente em todo o Brasil. Fomos conversar com o pesquisador João Suassuna, que tem mais de dez anos de estudos dedicados às questões que envolvem este rio.

    E ele é radicalmente contra o projeto. Considera um absurdo o Governo Federal investir 4,5 BILHÕES de reais numa obra que não deve trazer os benefícios esperados.

    Nordeste: maior potencial de água do semi- árido do mundo

    Suassuna mostra dados interessantes. Segundo ele o Nordeste tem muita água, mas faltam planos para seu uso. Ao todo a região tem 70 mil represas que acumulam 37 bilhões de litros de água. E arremata:

     É o maior potencial de água em semi-árido do mundo

    Na opinião dele não se acaba o problema da seca, vivido pelo nordestino pobre, por mera falta de vontade política. E alerta:

     Concluída a transposição os caminhões- pipa, tradicionais e demagógicos arrecadadores de votos, vão continuar em uso

    O São Francisco é muito pobre em recursos hídricos

    João Suassuna demonstra que o São Francisco é muito pobre em recursos hídricos. “Sua vazão é de apenas 2.800 metros cúbicos por segundo, para 640 mil quilômetros quadrados de bacias, enquanto a vazão do Tocantins, de tamanho semelhante, é de 11 mil metros cúbicos por segundo”, compara.

    E explica:

    60% do rio corre no semi-árido onde existe muita evaporação, e parte de seus afluentes é de rios temporários. O São Francisco não tem água nem para abastecer as outorgas já dadas.

    Litoral de Pernambuco, imagem de João Suassuna
    João Suassuna condena a transposição

    SBPS contra o projeto

    Em seguida comentou que, em Agosto de 2004, a reunião anual da SBPC (Sociedade Brasileira Para o Progresso da Ciência) reuniu as maiores sumidades na questão, e a conclusão foi por não fazer o projeto.

    A idéia do Governo é construir 700 km de canais com 25 metros de largura, por cinco de profundidade. Eles levariam a água do São Francisco até açudes e reservatórios, vencendo alturas de até 500 metros com auxílio de bombas. E tudo isto atravessando uma área propícia para a evaporação, com muito sol e ventos fortes. É a maior obra de infraestrutura desde a construção da usina de Itaipu, nos anos 80.

    EMBRAPA tem planos engavetados

    Suassuna diz que a Embrapa tem vários planos para a melhor utilização da água acumulada pelo Nordeste. Mas eles “estão na gaveta”. Em seguida ele foi categórico ao dizer que a maior parte da água da transposição vai evaporar pelo caminho. Sem contar que, por onde passam os canais, existem rochas que afloram ao solo, do tipo cristalino. Por isto…

    …a construção terá de ser feita a poder de dinamite, elevando o custo, e causando sérios problemas ambientais

    De onde o Nordeste vai tirar energia?

    João Suassuna diz que 95% da energia do Nordeste vem do São Francisco, “a CHESF explorou todo o potencial”, mas a região cresce a índices muito fortes. Em 2003 foi de 4,5 do PIB. Em 2004 houve um crescimento vegetativo. Mas em 2005 prevê-se um incremento de algo em torno de 3,5 do PIB. Como a demanda por energia cresce normalmente 2.5% acima do PIB, podemos esperar um novo período de racionamento, ou…”de onde o Nordeste vai tirar energia”?

    País deveria ampliar sua matriz energética

    Ele conclui dizendo que o país deveria aproveitar o momento para ampliar sua matriz energética, toda ela calcada na hidrologia.

    Basta um descompasso no regime de chuvas, como o de agora na Amazônia, para ficarmos na mão. O Nordeste poderia contribuir muito com energia eólica ou solar, mas o governo parece ter decidido pela pior opção: a energia das termoelétricas, mais cara, e extremamente poluente tendo entre seus rejeitos várias substâncias cancerígenas.

    Suassuna conversou um bom tempo conosco e foi inflexível em sua posição frente à mega- obra que o governo, sem credibilidade para tanto, pretende levar adiante justamente em ano de eleição.

    Suassuna, Aziz Ab’Saber e João Abner: todos contra a transposição

    Apesar destes argumentos, e de outros como os do renomado hidrologista João Abner, oriundo de um Estado receptor, o Rio Grande do Norte, ou os já emitidos pelo geógrafo Azis Ab’Saber, o governo insiste em seguir em frente. O Ministério da Integração Nacional, de Ciro Gomes, alardeia que “a obra é autosustentável, estará pronta em 2007, e vai acabar coma indústria da seca”.

    Façam suas apostas, senhores, não há limites. Mas saibam que o Banco Mundial tem dúvidas sobre a viabilidade econômica do projeto e não vai apoiar a transposição.

    PS

    Como o assunto é complexo não pode se resumir a um mero relato. Por isto na seção “links sugeridos” deste site, foi incluído um que contém dezenas de estudos e artigos sobre o tema, por sugestão do próprio João Suassuna. Experimente se quiser saber mais.

    Manutenção do veleiro

    Sexta- feira, 11- 11- 2005.

    Paulina desembarcou hoje de madrugada. Ela leva as fitas para São Paulo e inicia a edição dos programas. Eu e Cardozo iríamos fazer pequenas compras de itens elétricos necessários à manutenção do veleiro. Em seguida vamos navegar hoje mesmo para Porto de Galinhas, para um descanso antes de seguirmos para Maceió. Mas foi uma tremenda dificuldade acharmos as lojas certas. Rodamos de um lado para o outro sempre enfrentando trânsito pesado, tão comum em Recife. Acabamos perdendo o dia nesta tarefa.

    Deu pra perceber que a cidade não está tão bem tratada como as outras capitais que temos visitado. Todas têm problemas de sobra. Mas em geral são mais limpas e melhor sinalizadas.

    Navegando outra vez…

    Sábado, 12- 11- 2005.

    De madrugada, com o Mar Sem Fim abastecido, casco limpo, e tempo bom com vento leste entre 13 e 15 nós, saímos do Cabanga Iate Clube, onde fomos muito bem recebidos, para Porto de Galinhas. No caminho vamos gravar o porto e refinaria de Suape, grande vilão do maior dano ambiental da costa de Pernambuco.

    Suape visto do mar e refinaria Abreu e Lima

    Suape tem uma grande vantagem geográfica: fica a cinco dias e meio da costa leste americana e de Roterdã, na Holanda. E a apenas 40 km do Recife. Ele será um dos portos brasileiros mais modernos. Estes motivos foram alguns dos que a Petrobrás avaliou, quando escolheu o local para abrigar também a refinaria Abreu e Lima, um projeto de 2,5 bilhões de dolares, em parceria com a estatal venezuelana PDVSA. Em 2010, 2011, ela deverá entrar em operação, produzindo gasolina, diesel, e nafta, um subproduto muito usado por empresas petroquímicas. Tudo isto atrai ainda mais empresas, como a italiana Mossi & Gisholfi, que vai produzir resina plástica e poliéster, além de fábricas de ácido terafilático purificado (PTA), e outra de Paraxileno (PX). Mas tem mais: A Camargo Correia pretende construir no mesmo local o maior estaleiro do Hemisfério Sul, especializado em embarcações e plataformas de petróleo off-shore. Tudo isto trouxe muitos investimentos, degradação ambiental e empregos. E fará de Suape um pólo industrial e o grande porto brasileiro de distribuição de contêineres. A previsão é de movimentar um milhão deles por ano!

    Falta apenas a construção da ferrovia Transnordestina, um antigo projeto abandonado nos anos 90. Esta ferrovia é controlada pelo grupo CSN, e depende, para seguir em frente, de um sinal do Governo Federal que vai financiar 90% do projeto avaliado em mais 5,5 bilhões de reais. Por esta monumental obra os banhistas de Recife pagam um preço, assim como o meio ambiente do Estado. É inevitável…

    De Recife para Porto de Galinhas são 30 milhas, de lá para Maceió, mais 85.

    Chegamos à primeira parada por volta das 11 horas da manhã. Do mar só se vê os telhados das casas, alguns prédios mais altos, e centenas de barracas de praia.

    Verificações no veleiro

    Aproveitei para mergulhar, dar uma checada na limpeza do casco do Mar Sem Fim, e verificar se o pé de galinha (peça que segura o eixo) estava bem fixado. Quando estávamos no Amapá e encalhamos no rio Calçoene, percebemos que o pé de galinha estava solto. Não fosse o acidente que permitiu a visão da peça, teríamos tido grandes pepinos durante a navegação para Macapá. Desde então peguei o hábito de checar. Felizmente estava tudo ok.

    Ótimo. Tempo livre para um belo churrasco a bordo, depois uma soneca gostosa, embalado pelo balanço das ondas. Quando for meia noite saímos para Maceió.

    De volta ao mar…

    Domingo, 13- 11- 2005.

    Acordei às 4 horas da manhã com o Alonso ligando o motor do veleiro…

    E foi ótimo que tenha sido assim, vou contar o motivo: saindo com luz do dia pude observar a costa já que navegamos a apenas cinco milhas para fora. Quando a gente está na praia não tem muita noção do espaço ocupado por um imóvel, ou alguma intervenção praticada. Porque o observador está na mesma perspectiva. Fica impossível saber qual proporção que a novidade inserida vai tomar, ou qual parte do cenário original ela vai “roubar”. Falta-nos a noção do todo.

    A visão do mar para a terra destaca os absurdos

    Mas quando você vê a costa do mar todos os elementos estão à mão: a praia no centro, o entorno em ambos os lados e atrás, e o mar na frente. Agora temos perspectiva. Então um observador pode ver quanto daquele espaço foi ocupado, e que tipo de interferência causou. É só prestar a atenção para onde vai o centro do olhar, depois de uma visão geral da paisagem (faça o teste com as fotos desta etapa). Se para o cenário natural, ou a erosão em cima do morro, a antena de telefonia, ou outras geradas pelo homem. Tente mais uma vez. Se seu olhar é “hipnotizado” pela beleza natural, então você vai saber que aquela ocupação é autosustentável, ou seja, o impacto é baixo, nem se nota. A praia tende a continuar tão bela como no princípio, e a cadeia de vida marinha será muito pouco afetada, apesar de haver alguma opção econômica ali dentro.

    Mas se o produto da interferência humana ganhar o foco central, e contrastar, perturbar a harmonia da cena, então talvez ela seja insustentável. Para começar o empreendimento não preserva nem a beleza natural pela qual foi atraída. Polui visual e ambientalmente. Deixa sem defesas um ecossistema extremamente frágil, já que é na orla que começa quase 90% de toda a cadeia de vida marinha.

    Ocupação do litoral de Pernambuco produz estrago cênico

    É com estes critérios, entre outros, que me preocupo quando adjetivo um trecho do litoral. E navegando por estes mares, próximo da costa, percebo que a ocupação da maioria das praias produziu enorme estrago cênico. No caso em que deram lugar a cidades, como Recife, Fortaleza ou Natal, ou construções da dimensão dos portos de Suape e Pecém, é inevitável. Mas nas outras, nas praias não urbanas, dedicadas ao turismo, veraneio ou extrativismo, por que não lutar por uma ocupação com a paisagem original preservada? É perfeitamente possível ocupar sem estragar. Basta bom senso, noção de proporção, e um pouco de informação. Quanto a exuberância da natureza e paisagem originais, a maioria das praias de Pernambuco está comprometida. Resta saber se a infraestrutura, que já falta, vai chegar antes de um novo surto de crescimento ou depois. Se for depois, como tem sido a regra, podem ter certeza que o estrago na biodiversidade também será severo. Mesmo que não pareça à primeira vista.

    Livres mesmo só estão as últimas cinco ou seis praias do extremo sul do Estado, situadas abaixo da Baía do Tamandaré, na região de Várzea do Una, São José da Coroa Grande, por ali, já na fronteira com Alagoas.

    Fronteira com Alagoas

    Aliás, vale saber o qual o ponto notável que marca a fronteira entre os dois Estados para quem vem do mar. Há pouco eu estava lá fora, aproveitando a brisa, o conforto e a visão panorâmica do cockpit, quando o Alonso me chamou a atenção: “João, tá vendo aquela mancha branca na proa, às duas horas? ” (Duas horas é a dica para o ângulo formado entre a proa do veleiro, e o que se quer mostrar à direita, como se houvesse um ponteiro de relógio direcionado para as 14 horas).

    Olhei e logo vi. Um baita paredão de concreto, alto demais para uma região não urbana. Oque será aquilo, pensei, um tróço tão grande, feio e agressivo, que se vê a milhas de distância?

    Com o binóculo tive certeza: um enorme prédio. Um caixotão horrendo. Cinza e solitário, alto e largo, detonando uma paisagem que demorou milhares de anos para se formar. E além de tudo desnecessário, porque não está numa grande cidade com problemas de espaço, mas no meio de uma pequena vila costeira. Mas lá está o intruso estragando a paisagem, soberano, testemunha inconteste da façanha de algum incauto. Além de um permanente troféu ao mau gosto (veja no site a última foto desta etapa).

    Por que preservar o cenário?

    E por que preservar também o cenário? Porque ele é raro, único, normalmente tem formas sutis, graciosas, e uma gama de cores de grande variedade e harmonia. É bonito e agrada a vista. E de seu complexo sistema de relações e dependências emana a vida. Ocupar mal a costa significa contribuir para transformar o mar num deserto inanimado. E temos responsabilidade sobre isto, simplesmente porque a zona costeira do Brasil é uma das maiores que um país pode ter com quase oito mil quilômetros. A quem responsabilizar pela má ocupação, senão a nós mesmos?

    E se você acha que esta é apenas a preocupação de um pobre jornalista ponha às barbas de molho. Anote e espalhe o que vem a seguir: “A Zona Costeira é patrimônio nacional. Sua utilização deve se dar de modo sustentável”. Parágrafo 4º, artigo 225, da Constituição Federal do Brasil.

    Conheça o diário de bordo de Alagoas e Sergipe.

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