Trump quer cegar cientistas que monitoram o oceano

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Trump quer cegar cientistas que monitoram o oceano

Trump quer cegar cientistas que monitoram o oceano. Não bastasse retirar os Estados Unidos do Acordo de Paris pela segunda vez, enfraquecendo o combate ao maior flagelo dos tempos modernos, o aquecimento global, o negacionista agora mira outra fonte essencial de informação: os sensores que ajudam a entender o que acontece nos mares.

Trump parece esquecer que os Estados Unidos também sofrem os efeitos do clima que ele insiste em não ver. Incêndios gigantescos, ondas de calor, enchentes, furacões mais destrutivos e prejuízos bilionários já fazem parte da rotina do país. Mesmo assim, em vez de fortalecer a ciência, ele a desmonta.

Boia com censores oceânicos
O falastrão ignorante da Casa Branca quer acabar com todas as informações sobre os oceanos. Ele quer guerra com o mundo. Imagem, whoi.edu.

Primeiro vieram as demissões em massa na NOAA, a agência que monitora oceanos, atmosfera, furacões, clima e tempo severo. Agora, o alvo é a Ocean Observatories Initiative, uma rede de mais de 900 sensores marinhos que custou US$ 386 milhões e acompanha correntes, clima, ecossistemas e eventos extremos.

Trump quer tirar do mar parte dos instrumentos usados por cientistas que monitoram o oceano. É como apagar o radar em plena tempestade.

Mas, afinal, o que é a Ocean Observatories Initiative?

A Ocean Observatories Initiative, ou OOI, é uma das mais ambiciosas redes de observação oceânica já montadas. Financiada pela National Science Foundation, a agência federal norte-americana de apoio à ciência, ela reúne mais de 900 instrumentos espalhados por áreas estratégicas do Atlântico, Pacífico e Ártico.

A rede começou a operar há cerca de uma década, depois de anos de planejamento e construção. Seu objetivo é simples de entender e difícil de executar: manter sensores no mar, dia e noite, para enviar dados em tempo real sobre temperatura, correntes, ventos, química da água, atividade sísmica, ecossistemas marinhos e eventos extremos.

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Esses dados são públicos. Servem a pesquisadores, universidades, estudantes, governos, gestores costeiros e centros de previsão. Em outras palavras, ajudam cientistas que monitoram o oceano a enxergar mudanças que satélites não captam sozinhos, sobretudo abaixo da superfície.

A OOI não é obra de um único laboratório. Ela funciona como uma rede nacional de ciência. A Woods Hole Oceanographic Institution lidera a gestão. A Universidade de Washington cuida dos sistemas cabeados no fundo do mar. A Oregon State University opera parte da infraestrutura costeira e de dados. Rutgers também integra o esforço, especialmente na parte de tecnologia e acesso às informações.

Os Estados Unidos, portanto, não são apenas usuários desta rede. São seus financiadores, operadores e principais responsáveis. Foi o próprio país que investiu centenas de milhões de dólares para criar uma espécie de sentinela oceânica permanente. Agora, sob Trump, quer retirar do mar boa parte dos instrumentos que permitem aos cientistas que monitoram o oceano acompanhar sinais da crise climática.

OOI: a rede que monitora o oceano onde satélites não alcançam

A OOI mede processos que interessam ao planeta, não apenas aos Estados Unidos. No Mar de Irminger, perto da Groenlândia, seus sensores acompanham a formação de águas profundas, uma das engrenagens da AMOC, a grande circulação do Atlântico que ajuda a distribuir calor pelo mundo. A própria OOI diz que esta é uma das poucas regiões da Terra onde a formação de águas profundas alimenta a circulação termohalina.

E aqui entra a dimensão do problema. Como mostramos no post sobre a barragem no Estreito de Bering, a AMOC dá sinais de enfraquecimento. Seu colapso afetaria o clima em várias partes do planeta, especialmente a Europa, além de alterar regimes de chuva, temperatura e circulação oceânica. A hipótese de construir uma barragem no Estreito de Bering para tentar evitar esse colapso mostra até onde a crise já empurrou a ciência.

Portanto, desmontar sensores no Mar de Irminger não significa apenas economizar dinheiro nos Estados Unidos. Significa perder dados de uma das áreas-chave para entender se a AMOC continua enfraquecendo, em que ritmo, e com quais consequências. Para os cientistas que monitoram o oceano, é como retirar o estetoscópio de um paciente em estado crítico.

Trump escolhe guerras e coleciona desastres

Os Estados Unidos já mostraram no Irã como é fácil começar uma guerra com premissas frágeis e depois descobrir que não há saída simples. O que prometia durar pouco se arrastou, pressionou o petróleo, alimentou a inflação e espalhou prejuízos pelo mundo.

Agora, ao declarar guerra à ciência, Trump abre outro flanco. Talvez mais perigoso. A guerra convencional destrói cidades e economias. A guerra contra os dados destrói a capacidade de prever, preparar e reagir.

No caso da OOI, não se trata de um laboratório qualquer, mas de uma rede usada por cientistas que monitoram o oceano em áreas decisivas para o clima do planeta. Desmontar sensores que acompanham a AMOC, o ciclo do carbono, o calor acumulado no mar e eventos extremos é retirar mapas, radares e bússolas enquanto o planeta entra em zona de turbulência.

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O corte que tira os sensores do mar

Os cortes não acabam com toda a OOI, mas desmontam a maior parte dela. A NSF pretende retirar boias, sensores e instrumentos de áreas estratégicas do Atlântico Norte, perto da Groenlândia; do Golfo do Alasca; da costa noroeste dos Estados Unidos; e da costa da Carolina do Norte. Por enquanto, deve continuar operando apenas a rede cabeada no fundo do mar, instalada na costa noroeste norte-americana.

A repercussão foi imediata. A Associated Press tratou o caso como desmonte de um observatório oceânico de US$ 386 milhões e destacou a reação de parlamentares dos dois partidos. Senadores como Jeff Merkley, democrata, e Lisa Murkowski, republicana, pediram a suspensão do plano. Comitês da Câmara acusaram a NSF de agir de forma cara, destrutiva e possivelmente ilegal.

Entre cientistas, o tom foi de alarme. O Guardian resumiu a preocupação no título: sem esse sistema, o mundo pode ficar “voando às cegas”. Especialistas alertam que a perda dos sensores pode piorar previsões de tempo, El Niño, ciclones, calor oceânico e sistemas de alerta.

A própria OOI confirmou em comunicado que a National Science Foundation iniciou a redução de escopo, com retirada da infraestrutura no mar em várias áreas até 2027. Ou seja, não é ameaça distante. O desmonte já começou.

Trump trata a ciência como inimiga porque ela desmente sua fantasia de poder. Onde há dados, ele vê ameaça, alertas de pesquisadores, tornam-se bravatas, e assim por diante.

O mais espantoso é a combinação de ignorância, belicosidade gratuita e espírito revanchista. Depois de colecionar vexames públicos, comprar guerras que não sabe terminar e enfraquecer o combate ao aquecimento global, Trump ainda tem a cara de pau de sugerir para si mesmo um Nobel da Paz. Que tempos bicudos estes que vivemos.

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