O hidrogênio azul é um combustível limpo? Há dúvidas…

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O hidrogênio azul é um combustível limpo? Há dúvidas…

Conforme os alertas sobre as mudanças do clima se tornavam mais dramáticos, a procura por uma salvação fácil aumentou. Chegou-se a afirmar que o futuro dos combustíveis seria o hidrogênio. Mas, não. Não há solução fácil para o problema que criamos na atmosfera do planeta. O hidrogênio azul foi saudado como provável solução, agora, depois de estudos mais profundos, há quem duvide.

Imagem de carro movido a hidrogênio
Clean or dirty? Imagem https://www.portal-energia.com/.

O hidrogênio azul é um combustível limpo? Há dúvidas…

O hidrogênio é considerado combustível limpo porque, ao ser queimado, produz apenas água como subproduto. Mas, e para produzir o hidrogênio azul? O processo é bastante sujo como se verá abaixo.

Matéria do New York Times, de agosto de 2021, estampou o título que fez baixar as expectativas: For Many, Hydrogen Is the Fuel of the Future. New Research Raises Doubts (em tradução livre, Para muitos, o hidrogênio é o combustível do futuro. Nova pesquisa levanta dúvidas).

O hidrogênio, simbolizado pela  letra H, é o elemento químico mais abundante no universo, e também o mais simples entre todos, formado apenas por um próton e um elétron.

Seus defensores, entre eles a Associação para a Promoção do Hidrogênio, dizem que a principal vantagem deste gás é que “pode ser produzido a partir de diversas fontes de energia (combustíveis fósseis, energia nuclear, energias renováveis), com uma razoável eficiência, e desperdiçando pouca energia.

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Mas a matéria do Times abre informando que quem empurra  o hidrogênio azul ‘é a indústria do petróleo que o promove como combustível confiável de última geração para movimentar carros, aquecer residências e gerar eletricidade’.

Desde que publicamos o post Indústria do petróleo e do tabaco, e o negacionismo atual, passamos a desconfiar de tudo que venha desta indústria. E aguardamos uma fonte confiável para confirmar. É o que parece fazer a matéria do New York Times.

O texto, de autoria de Hiroto Tabuchi, diz que ‘um novo estudo revisado por pares sobre os efeitos climáticos do hidrogênio lança dúvidas sobre seu papel no combate às emissões de gases de efeito estufa que são o motor do aquecimento global catastrófico’.

Principal obstáculo é extração do gás

A autora explica que a maior parte do hidrogênio usado hoje é extraído do gás natural ‘em um processo que requer muita energia e emite grandes quantidades de dióxido de carbono. A produção de gás natural também libera metano, um gás de efeito estufa particularmente potente’.

Hidrogênio Azul

E embora a indústria do gás natural tenha proposto capturar esse dióxido de carbono – que promove como livre de emissões, ou hidrogênio azul – mesmo este combustível ainda emite mais em sua cadeia de abastecimento do que simplesmente queima gás natural, de acordo com estudo publicado na revista Energy Science & Engineering por pesquisadores da Universidade de Cornell e Stanford’.

Robert W. Howarth, cientista do ecossistema da Cornell e principal autor do estudo declarou ao jornal:

Chamar isso de combustível de emissão zero é totalmente errado. O que descobrimos é que não é nem mesmo um combustível de baixa emissão.

A prova dos nove: hidrogênio azul tem pegada 20% maior que o carvão

Tabuchi diz que para chegar a esta conclusão os cientistas ‘examinaram as emissões de gases de efeito estufa do ciclo de vida do hidrogênio azul’.

Segundo a autora, ‘eles foram responsáveis pelas emissões de dióxido de carbono e pelo metano que vaza de poços e outros equipamentos durante a produção de gás natural’.

E mais: ‘pesquisas crescentes descobriram que a perfuração de gás natural emite muito mais metano do que se conhecia anteriormente’.

A maior surpresa, entretanto, ficou para o final: ‘Os cientistas também levaram em consideração o gás natural necessário para alimentar a tecnologia de captura de carbono’.

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‘Ao todo, eles descobriram que a pegada do gás de efeito estufa do hidrogênio azul era mais de 20% mais do que queima de gás natural ou carvão para aquecimento’.

A forte promoção do ‘novo’ combustível pela indústria do petróleo

A matéria do New York Times é longa. Em seguida ao preâmbulo, apresentado acima, a autora explica que ‘nos últimos anos a indústria de gás começou a promover fortemente o hidrogênio como combustível confiável de próxima geração…’

‘…a indústria também apontou o hidrogênio como justificativa para continuar a construir infraestrutura de gás como gasodutos, dizendo que os tubos do gasoduto poderiam transportar uma mistura mais limpa de gás natural e hidrogênio…’

Mais adiante, diz ela, ‘O Hydrogen Council, um grupo da indústria fundado em 2017 que inclui BP, Shell e outras grandes empresas de petróleo e gás não fez comentários imediatos…’

O ‘cheiro’ desta história relatada por Hiroto Tabuchi em tudo faz lembrar o já mencionado post que mostra o nascimento do negacionismo, quando a indústria do petróleo comprou cientistas para escreverem que o aquecimento global não existia.

Outra mentira da indústria, ou mera coincidência? O fato concreto é que não há caminhos fáceis na luta contra o aquecimento.

Teremos que fazer nossa parte, todos nós, de cidadãos a governos, passando por todos os os setores da economia.

Neste momento, os cortes de emissões até agora propostos estão mais perto de um aumento de 3ºC até o fim deste século, o que seria dramático para a humanidade.

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Hidrogênio Verde

O site inovacaotecnologia.com.br explica a variedade de cores: “Como os interesses econômicos nem sempre equivalem às preocupações ambientais, o hidrogênio como combustível começou a receber diferentes apelidos, na forma de cores.”

“O hidrogênio limpo é agora chamado “hidrogênio verde”, sendo produzido a partir da eletrólise (método que utiliza a corrente elétrica para separar o hidrogênio do oxigênio que existe na água) e, num cenário ideal, usando eletricidade produzida a partir de fontes renováveis, sobretudo a solar. Já existe um mercado ofertando hidrogênio verde, mas ainda de pequenas proporções.”

Observação do MSF: A produção do hidrogênio azul é mais barata que o hidrogênio verde, ainda muito cara. Talvez por isso tenha sido tão promovido pela indústria do petróleo que prometeu construir usinas de hidrogênio azul em países como Reino Unido, Países Baixos, e Alemanha.

Segundo dados do relatório Green hydrogen cost reduction da Agência Internacional de Energia Renovável (Irena, na sigla em inglês), os custos de energia renovável e a melhoria de eletrólise podem tornar o hidrogênio verde competitivo, mas só a partir de 2030.

Cenário ideal

“No cenário ideal, a tecnologia que desponta é a chamada fotossíntese artificial, em que a energia solar é usada diretamente para extrair o hidrogênio da água, sem qualquer poluente. Infelizmente, esta é uma tecnologia ainda em escala de laboratório, mesmo já tendo apresentado quase 20% de eficiência.”

“Enquanto isso, o hidrogênio continua sendo fabricado a partir dos combustíveis fósseis.”

Como se vê, não há solução fácil para mitigar o aquecimento global. Ou os líderes mundiais levam mais a sério a questão na próxima COP do clima, em novembro em Glasgow, ou entregaremos um planeta em frangalhos para as futuras gerações.

Ilustração de abertura: https://www.eltis.org/

Fontes:  https://www.nytimes.com/2021/08/12/climate/hydrogen-fuel-natural-gas-pollution.html?campaign_id=54&emc=edit_clim_20210818&instance_id=38209&nl=climate-fwd%3A&regi_id=91955602&searchResultPosition=1&segment_id=66565&te=1&user_id=b71b4a33397786aaa2444aad1304ea43; https://www.inovacaotecnologica.com.br/noticias/noticia.php?artigo=hidrogenio-verde-limpo-hidrogenio-azul-pior-carvao&id=010115210818#.YSEiQ9NKjAw; https://epbr.com.br/hidrogenio-verde-pode-ficar-competitivo-ate-2030-com-renovaveis-mais-em-conta/.

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Comentários

2 COMENTÁRIOS

  1. Qualquer forma de energia irá gerar impacto ambiental, mesmo as ditas energias limpas. Estruturas exigem metais, que normalmente necessitam ser reduzidos, a custas, na maioria das vezes, de geração de carbono. Por exemplo: A geração de uma tonelada de ferro a partir do minério de ferro irá gerar cerca de duas toneladas de gás carbônico. O Alumínio igualmente requer grande quantidades de energia e carbono para ser reduzido. A geração de cimento também requer a queima em grande quantidades de combustíveis fósseis. Avanços tecnológicos mitigam em muitos esses impactos, como no caso dos LEDs na iluminação, mas esses avanços não são tão rápidos quanto o impacto do crescimento populacional. Falar em controle de natalidade, que é essencial contudo é um tabu para a maioria das religiões e políticos, e sem isso não há como estabilizar os impactos ambientais do homem ao planeta.

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