Metade das praias eliminadas pelo aquecimento global?

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Metade das praias do mundo eliminadas pelo aquecimento global?

A elevação do nível do mar, causada pelo aquecimento global, pode eliminar metade das praias arenosas do mundo até 2100. É o que revela o estudo “Sandy coastlines under threat of erosion”, que acaba de ser publicado na Nature Climate Change. Em cenário extremo, a erosão extrema pode atingir 49% das praias, ou quase a metade das praias do mundo.

imagem de praia comida pelo aquecimento global
Austrália. Imagem, https://insideclimatenews.org/.

Mas, mesmo em uma visão mais otimista sobre os efeitos das mudanças climáticas nas regiões costeiras, 37% das praias seriam eliminadas até 2100. No cenário otimista, as emissões globais de gases de efeito estufa atingem o pico próximo ao ano 2040.

Brasil pode perder grande extensão de praias

Com longa extensão costeira, o Brasil certamente é um dos países afetados. As regiões Sul, Sudeste e Nordeste do Brasil serão as que mais perderão praias para o mar. Mas as maiores perdas de faixas de praias serão registradas nos estados do Pará, Maranhão, Piauí e Ceará. O estudo informa que nesses estados a erosão já é intensa. Resultado da exploração de terras no interior desses estados. O que faz com que os rios levem enorme quantidade de sedimento para o mar. O que também contribui para elevar o nível do oceano.

imagem de praia em Nova Almeida comida pelo aquecimento global
Nova Almeida, ES. Imagem, Saulo Alves.

A erosão pode alcançar até 150 metros nas praias nordestinas, no final do século, diz a pesquisa. E 40 metros daqui a 30 anos, em cenário moderado. Mas o País não está na lista dos que mais sofrerão com perdas de faixas de areia, que podem alcançar de 80 metros, no cenário moderado, até quase 250 metros de extensão terra adentro, no pior cenário. Apesar destas informações, não se sabe sobre nenhum plano para conter eventos extremos no litoral por parte do poder público.

Austrália: país que pode perder mais praias

Muitos países podem perder mais de 60% do seu litoral, diz o estudo. Entre eles, República Democrática do Congo, Gâmbia, Ilhas Jersey, Suriname, Comores, Guiné-Bissau, Paquistão e Mayotte (França). Em extensão, a Austrália será a mais atingida. O país pode ter 50% do seu litoral engolido pela erosão, ou quase 11,5 mil quilômetros de praias. O Canadá vem na sequência, com o desaparecimento de praias em quase 6,5 mil quilômetros do seu litoral.

A lista dos países mais atingidos em extensão tem ainda a China, com perdas de praias em 4.300 quilômetros de litoral; os Estados Unidos (3.945 km); e a Rússia (3.056 km). Além dos latino-americanos Chile (5.042 km), México (4.507 km) e Argentina (2.948 km).

Praias ameaçadas são densamente povoadas

“Uma proporção substancial da costa arenosa do mundo já está corroendo, situação que pode ser ainda mais exacerbada pelas mudanças climáticas. No estudo, mostramos que as tendências ambientais na dinâmica da costa, combinadas com a recessão costeira causada pelo aumento do nível do mar, podem eliminar quase metade das praias do mundo até o final do século”, enfatizaram os cientistas responsáveis pela pesquisa.

Sem praias, eventos climáticos extremos mais fortes

Vousdoukas lembra a importância do ecossistema. “Além de sua importância turística, praias de areia muitas vezes atuam como a primeira linha de defesa de tempestades costeiras e enchentes (ressacas). Sem elas, os impactos de eventos climáticos extremos serão provavelmente muito maiores. Vários desses países tendem ainda a experimentar impactos socioeconômicos sérios devido a economias frágeis e dependentes do turismo, que tem nas praias de areia sua maior atração turística.”

Os cientistas ressaltam que 82% do recuo das praias mundo afora será resultado do aumento do nível do mar. “O restante se deverá a alterações ambientais locais.”

Brasil precisa de plano de adaptação climática

“É um estudo muito relevante e bem feito. Sabemos que o aumento do nível do mar vai fazer com que um grande número de praias desapareça. É um trabalho que modelou todo este processo com cuidado”, afirmou o físico Paulo Artaxo, ao site Direto da Ciência. Artaxo é especialista em ciências climáticas e professor da Universidade de São Paulo (USP). Além de ser um dos cientistas brasileiros membros do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) das Nações Unidas.

imagem de praia comida pelo aquecimento global
Mais uma que se foi…Imagem,https://climateactionaustralia.wordpress.com/.

Para Artaxo, a perda de faixa de areia “representa um impacto muito grande para toda a costa brasileira”. “Na prática, elas (as praias) não vão existir mais. Por isso, o Brasil precisa urgentemente de um plano de adaptação climática bem elaborado, baseado em ciência. Sem isso, os prejuízos para nossas cidades litorâneas, como Rio de Janeiro, Recife, Vitória entre outras serão sérios. A hora de pensar em soluções é agora. A pior ação é imaginar que o problema não existe.”

Extração de areia influencia na perda de praias

Os professores Simon Boxall e Abiy Kebede também analisaram o estudo em artigo publicado no site The Conversation. “Mas não são apenas as mudanças climáticas. Os seres humanos estão acelerando ativamente a erosão costeira, extraindo a areia das praias em quantidades enormes e a taxas muito mais rápidas do que podem ser renovadas naturalmente. O cascalho e a areia são extraídos dos rios e das praias para uso na construção – e a uma taxa mais rápida do que a extração de combustíveis fósseis em algumas áreas”, escreveram.

Destruição de manguezais e a perda de praias

Segundo os professores, “os ecossistemas costeiros que ligam e prendem sedimentos, como manguezais, também estão sendo destruídos. O mundo perdeu quase 10.000 quilômetros quadrados desses habitats entre 1996 e 2016. Enquanto isso, o suprimento de sedimentos para a costa também é afetado pela construção de barragens e sistemas de irrigação a montante”. Para realizar o estudo, os cientistas analisaram imagens de satélite de 1984 a 2016. Elas já mostraram graves mudanças na linha costeira. E extrapolaram essa tendência para 2100.

“Eles descobriram que um quarto das praias do mundo já havia erodido a uma taxa de mais de 0,5 milhão por ano, lançando mais de 28.000 quilômetros quadrados de terra para o mar. A taxa em que o nível do mar está subindo está se acelerando em cerca de 0,1 mm por ano a cada ano”, ressaltam Boxall e Kebede.

Catastrófico para Kiribati, Ilhas Marshall e Tuvalu

“Mas a elevação do nível do mar não será uniforme em todo o mundo. As mudanças que ocorrerão à medida que os oceanos aquecem mudarão a topografia da superfície do mar. Algumas áreas receberão menos do que o aumento médio previsto do nível do mar, mas muitas verão mais. Para pequenos estados insulares como Kiribati, Ilhas Marshall e Tuvalu, a perda de 300 milhões de terras – como previsto para alguns – seria catastrófica”, enfatizam os professores, no artigo.

imagem de Kiribati ameaçada pelo aquecimento global
Praias sumiram em Kiribati. Imagem,https://plumasatomicas.com/.

Eles afirmam ainda, como Mar Sem Fim não cansa de repetir, que o excesso de construções e pessoas na orla das praias mundo afora aumenta ainda mais o problema. Isso “criou uma barreira abrupta ao recuo costeiro, impedindo que as praias se movam para o interior à medida que o nível do mar aumenta”.

“Em vez disso, trechos arenosos da costa correm o risco de serem erodidos e lavados completamente. Tudo isso é muito preocupante para milhões de pessoas que chamam essas regiões de lar. As costas arenosas do mundo tendem a ser densamente povoadas e estão se tornando cada vez mais com o tempo”.

Perda de praias pode forçar migração de 5,3 milhões de pessoas

Citando outra pesquisa, Boxall e Kebede dizem que foi verificado “que o aumento do nível do mar em 0,8 m pode apagar 17.000 km2 de terra e forçar até 5,3 milhões de pessoas a migrar”. O custo associado a isso seria de US$ 300 milhões a US$ 1 bilhão em todo o mundo. “Somente na África, até 40.000 pessoas por ano podem ser forçadas a migrar devido à perda de terra pela erosão costeira, se nenhuma medida adaptativa estiver em vigor até 2100.”

Imagem de abertura:https://plumasatomicas.com/

Fontes: http://www.observatoriodoclima.eco.br/quase-metade-das-praias-mundo-pode-sumir-ate-2100-diz-estudo/; https://www.nature.com/articles/s41558-020-0697-0; https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/Meio-Ambiente/noticia/2020/03/metade-das-praias-do-mundo-pode-desaparecer-ate-2100.html; https://theconversation.com/half-of-worlds-sandy-beaches-could-disappear-due-to-sea-level-rise-by-2100-132688; http://www.diretodaciencia.com/2020/03/05/mudanca-do-clima-pode-causar-sumico-de-quase-metade-das-praias-do-mundo/?fbclid=IwAR3LInSLKAeW8Jq5aVf_ZE6dP6EI576lzJ2u_UCcmeHryQ_owrmNe0lFAkU; https://www.revistaplaneta.com.br/aquecimento-global-pode-eliminar-50-das-praias-do-mundo-ate-2100/.

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Repórteres do Mar

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1 COMENTÁRIO

  1. O avanço do mar sobre o litoral não tem nada a ver com o clima. O fato, que ninguém percebe – ou não quer perceber – é que o homem está construindo e invadindo a faixa da maré alta. Ou seja as faixas das marés mais baixas estão submergindo.
    A culpa não é do clima – aquecimente global ou não. A culpa é da incompetência dos políticos, das prefeituras e o mais que houver. É o mesmo problema da ocupação dos morros, que são invadidos por casas e obras públicas. As prefeituras deviam dar mais atenção à ocupação. Mas o que esperar de um bando de prefeitos corruptos e semi-analfabetos? As imagens desta matéria são claras e mostram o que os políticos não querem ver. As tragédias vão continuar acontecendo.

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