Mar avança no Amazonas, salinização prejudica ribeirinhos

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Mar avança no Amazonas, salinização prejudica ribeirinhos

O Atlântico avança  sobre a foz do rio Amazonas provocando a salinização de suas águas, apesar da foz escoar um quinto da água doce do planeta, o que prejudica o dia a dia dos ribeirinhos. O fenômeno ocorre sempre no segundo semestre, mas a cada ano parece mais forte. As comunidades que habitam o arquipélago do Bailique, no Amapá, têm dificuldade até para lavar roupas ou louças. Estudo do Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Amapá (Iepa) busca entender a aceleração do fenômeno. Mar avança no Amazonas.

Imagem da foz do Amazonas
A foz do Amazonas. Imagem, https://bncamazonas.com.br/.

Mar avança e salinização prejudica ribeirinhos

A cada ano a situação fica pior. Em outubro de 2021 a prefeitura de Macapá, onde fica o arquipélago, decretou estado de emergência e passou a entregar água potável e cestas básicas às comunidades.

É inacreditável que populações que morem às margens do maior e mais caudaloso rio do planeta precisem que seja decretada emergência para assim receberem água!

O avanço da salinização pode estar ligado ao aumento global do nível do mar em mais um fruto amargo do aquecimento global. Segundo os moradores da comunidade, há quatro anos eles veem percebendo a mudança nas águas que banham as ilhas.

Um dos fatores que mais contribuiu foi o assoreamento do rio Araguari, que já comentamos, quando a famosa pororoca deste rio, admirada mundo afora, simplesmente deixou de existir.

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A pororoca que não existe mais no rio Araguari

A pororoca era um fenômeno natural produzido pelo encontro das correntes fluviais com a maré do oceano Atlântico. Rio e mar se confrontavam, criando uma onda que percorria mais de dez quilômetros. Gente de todo o mundo desembarcava no Amapá em busca da onda perfeita.

Vários motivos causaram o assoreamento do Araguari, entre eles a criação de búfalos que produz valas e canais que drenam o curso d’água, e as hidrelétricas (sempre consideradas ‘energia limpa’, mas que criam enormes problemas).

Há três hidrelétricas no Araguari: a Usina Hidrelétrica Coaracy Nunes, construída em 1976; a Ferreira Gomes, feita em 2014, e Cachoeira Caldeirão, em 2017.

Ilustração de mapa da foz do rio Amazonas
Veja como é grande o Araguari. Mesmo assim a ação humana trancou sua barra. Ilustração, Mongabay.

Em função destas alterações o Araguari, que tem 500 quilômetros de extensão, deixou de desaguar no Atlântico desde que sua barra assoreou de vez.

Um canal aberto naturalmente passou a conectar o Araguari ao Amazonas. O canal, chamado de Urucurituba, foi engrossando até que, em 2014, passou a absorver praticamente todo o fluxo daquele rio.

As alterações fizeram com que no período do verão amazônico, no segundo semestre, as águas do arquipélago do Bailique ficassem sem condições de uso pelos cerca de oito mil moradores espalhados pelas oito ilhas.

O Araguari é apenas mais um rio que conseguimos matar, assim como inúmeros outros no Brasil.

Imagem de vila em Bailique, Amapá
Uma das vilas de Bailique. Imagem, Governo do Amapá.

A parte natural do fenômeno

Geová Alves, presidente da Associação das Comunidades Tradicionais do Bailique e vice-presidente de uma cooperativa local de produtores de açaí, diz à BBC News Brasil que sempre houve salinização na região entre os meses de setembro e novembro.

Nessa época, em que chove menos, as águas do Amazonas costumam baixar, facilitando o avanço da maré. Com o retorno das chuvas, a partir de novembro, o fenômeno perde força, e a água volta a ficar doce. Acontece que, de uns anos para cá, o fenômeno ganhou uma força muito maior.

Neste ano, o site chicoterra.com anunciou em 19 de outubro: ‘A Prefeitura de Macapá enviou até esta terça-feira (19) 13,1 mil fardos de água potável às comunidades do arquipélago do Bailique, que sofrem com o avanço da água salgada do oceano sobre o rio que passa pelo distrito’.

Imagem de moradores de Bailique com fardos de água
Moradores de Bailique levam para casa fardos de água. Imagem, https://chicoterra.com/.

‘Os primeiros embarques da ajuda humanitária começaram na sexta-feira (15), após a assinatura do decreto municipal nº 5.540 que declarou situação de emergência no Bailique’.

Outro efeito da salinização tem sido sentido por pescadores. “Percebemos uma presença grande de peixes de água salgada, e o afastamento de peixes de água doce e camarão”, afirmou Geová Alves.

‘O Amazonas perdeu um aliado’

Em entrevista à BBC News Brasil, Alan Cavalcanti da Cunha, professor de Engenharia Civil da Universidade Federal do Amapá (Unifap) diz que, quando o Araguari deixou de desaguar no mar, o Amazonas perdeu um aliado que o ajudava a manter a água salgada longe da costa.

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Elevação da temperatura na região, mais um efeito do aquecimento

Outra possível explicação para o aumento da salinização no arquipélago do Bailique, segundo Cunha, é a elevação das temperaturas na região, outro efeito das mudanças climáticas.

O calor mais forte amplia a evaporação, o que por sua vez acelera a circulação de ar e permite que ventos transportem mais sal que estava nos oceanos para o continente.

Cunha afirma que as mudanças em curso na foz do Amazonas precisam ser mais estudadas, especialmente os impactos do avanço no nível do mar. Segundo ele, a região é extremamente sensível a alterações – e como seus rios e lagos estão conectados, uma mudança num ponto qualquer pode provocar consequências a vários quilômetros dali.

Imagem de abertura: https://bncamazonas.com.br/

Fontes: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-58935047?at_medium=RSS&at_campaign=KARANGA; https://chicoterra.com/2021/10/19/sos-bailique-prefeitura-de-macapa-envia-117-mil-litros-de-agua-potavel-as-comunidades/; https://bncamazonas.com.br/municipios/mar-avanca-na-salinizacao-do-rio-amazonas-e-no-prejuizo-a-ribeirinhos/.

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