Licenciamento municipal dá nisso: hotel de luxo em morro instável

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Licenciamento municipal dá nisso: hotel de luxo em morro instável

O licenciamento municipal mostra sua face mais temerária em São Sebastião: um hotel de luxo na crista do Morro Juquehy, uma encosta instável coberta por Mata Atlântica. Parte do terreno se sobrepõe ao Parque Estadual da Serra do Mar. Mesmo assim, a prefeitura, sob Reinaldinho Moreira (Republicanos), enquadrou o empreendimento como “ecoturismo” e liberou o licenciamento ambiental em Zona 1, a mais restritiva do litoral.

Demonstrando profundo escárnio Reinaldinho Moreira, que também dispensou manifestação da Fundação Florestal  alegando que o topo do morro seria “área efetivamente urbanizada”, classificou o hotel como “exemplo a ser seguido para a rede hoteleira de todo o país”.

Exemplo de quê? De como autorizar um empreendimento em encosta instável três anos depois da tragédia que matou 64 pessoas em 2023?

Hotel sobre o Morro Juquehy consegue licenciamento municipal
Hotel sobre o Morro Juquehy consegue licenciamento municipal. Imagem, Fábio Vieira/Estadão.

Contudo, não faltaram alertas. Em 2020, ao discutir o Projeto de Lei Geral de Licenciamento, defendemos uma saída óbvia: investir em equipes técnicas para tornar a análise do licenciamento ambiental mais rápida e eficiente. Combater a burocracia não pode servir de desculpa para desmontar a proteção ambiental.

Em São Paulo, porém, sucessivos governos contribuíram para passar o licenciamento direto aos municípios. Geraldo Alckmin estabeleceu normas em 2014 e 2018. Sob João Doria, a discussão avançou e motivou nosso alerta de 2022. Tarcísio de Freitas prosseguiu com a aprovação da medida, que voltamos a criticar em 2024. Os três compartilham a responsabilidade política pela temerária decisão.

Prefeitura dispensa licenciamento

O terreno do hotel ‘ecológico’, de 64,5 mil m², tem 63% da área com declividade acima de 25° e 65% coberto por Mata Atlântica, segundo o laudo do próprio empreendedor. Parte dele (5,3 mil m²) está dentro do Parque Estadual da Serra do Mar, e o restante faz divisa com a sede do Núcleo São Sebastião do Parque. Está em Zona 1 do Zoneamento Ecológico-Econômico do Litoral Norte, onde a lei só admite usos “de baixo efeito impactante e que não alterem as características socioambientais da zona” (Decreto Estadual 62.913/2017). A proprietária é a Berg Business LLC, empresa constituída na Flórida (EUA).

Mesmo assim, o prefeito Reinaldinho Moreira (Republicanos) achou uma brecha para dispensar o licenciamento ambiental. Temos que agradecer a Alckmin, Dória, e Tracísio, por abrirem a porteira para a boiada.

Mas, segundo a denúncia da Sociedade Amigos Barra do Una, o projeto deveria passar pelo licenciamento estadual, já que parte do terreno se sobrepõe ao Parque Estadual da Serra do Mar.

 hotel de luxo no Morro Juquehy consegue licenciamento municipal.
Como não há mais espaço à beira da praia o jeito é subir o morro! Imagem, Fábio Vieira/Estadão.

Órgãos técnicos apontaram o risco

A Defesa Civil vistoriou o local em 2024 e em 2026 e registrou obra “no topo da encosta, em área com talude de grande inclinação”, “a poucos metros de uma cicatriz de deslizamento” de 2023.

Em agosto de 2026, o Instituto de Pesquisas Ambientais do Estado confirmou a gravidade ao identificar zona de falha geológica, cicatrizes de escorregamento, grande volume de material “em balanço” e ausência de canaletas de drenagem.

O Instituto recomendou barreira física, sinalização e monitoramento imediatos e, se as obras de contenção não estiverem concluídas, lonas e drenagem provisória antes do período chuvoso, que começa agora.

Segundo o IPA, o risco recai sobre a encosta abaixo da obra e sobre quem passa pela Av. Magno Passos Bittencourt.

A SABU, associação de moradores de Barra do Una que ingressou com o pedido de investigação no Ministério Público, teme que esse tipo de ocupação se reflita em outras áreas sensíveis da praia.

Ecoturismo não é salvo-conduto para construir

A advogada ambiental Fernanda Carbonelli, conselheira do Consema, contesta o enquadramento do hotel. Em declaração ao Estadão, ela lembra que o licenciamento municipal não revogou o zoneamento costeiro. Na Zona 1, as regras admitem pesquisa científica, educação ambiental, manejo sustentável e ecoturismo, sempre de baixo impacto.

“Um hotel com três blocos, piscina e estacionamento, no topo de uma encosta de suscetibilidade muito alta a escorregamentos, não é ecoturismo de baixo impacto em lugar nenhum”, afirma.

A crítica atinge o centro do problema. A prefeitura não pode transformar um empreendimento de luxo em atividade de baixo impacto apenas pelo nome. Precisa demonstrar, com critérios técnicos, sua compatibilidade com o meio ambiente, o relevo e as restrições da área.

O que diz o dono do hotel

O empresário Fábio Burg, proprietário do empreendimento, afirma que cumpriu todas as etapas legais do licenciamento municipal. Segundo ele, a obra conta com engenheiros especializados e prevê investimento superior a R$ 2 milhões na estabilização da encosta. A intervenção inclui barras de aço de 12 a 14 metros para reforçar o solo.

hotel no Morro Juquehy, São Sebastião
A cada dia que passa o litoral norte mais se parece um cortiço para as classes altas. Até quando? Imagem, Fábio Vieira/Estadão.

Burg também sustenta que o projeto ocupa apenas 7% do terreno e menciona o plantio de mais de 60 árvores. Reconhece, porém, que a Fundação Florestal não recebeu consulta, conforme a reportagem da TMC.

MP vê “indícios de irregularidade”

Para o Ministério Público, há “indícios de irregularidade”: o Município “não poderia, por iniciativa unilateral, dispensar a análise do órgão gestor”. A Promotoria citou a Súmula 613 do STJ, que veda a aplicação da teoria do fato consumado em matéria ambiental. Em setembro de 2026, o MP cobrou da Prefeitura uma justificativa técnica de por que o empreendimento seria de “baixo efeito impactante”, e cobrou da Fundação Florestal informações sobre o caso.

Já a Fundação Florestal do Governo Tarcísio de Freitas, o mesmo que contribuiu para esta absurda situação, se esquivou. Segundo a reportagem da TMC, a FF afirmou que não recebeu consulta sobre a viabilidade ambiental do hotel.

O órgão informou ainda que solicitou esclarecimentos oficiais à prefeitura e manifestou preocupação com a erosão e a estabilidade do terreno. Também cobrou comprovação técnica das medidas de controle erosivo e contenção do solo e declarou que acompanha o caso.

Licenciamento municipal não pode ignorar o risco

O caso Ozean expõe a pergunta que os governos estaduais deveriam ter respondido antes de promoverem o licenciamento municipal: quem garante a independência técnica das prefeituras diante da pressão imobiliária?

Agilizar processos exige equipes qualificadas, transparência e fiscalização. Transferir atribuições, por si só, não oferece nenhuma dessas garantias. E classificar um hotel como ecoturismo não muda a inclinação do terreno, muito menos elimina cicatrizes de deslizamentos.

São Sebastião já conhece o preço de ignorar os riscos. Depois da tragédia de 2023, o mínimo seria exigir rigor redobrado nas novas autorizações. Cabe ao Ministério Público esclarecer as possíveis irregularidades. Mas os responsáveis pelas decisões municipais e pela ampliação desse modelo já devem explicações à sociedade.

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