Indústria do petróleo, do tabaco, e meio ambiente: descubra semelhanças

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Indústria do petróleo, do tabaco, e meio ambiente: descubra semelhanças

Este post foi inspirado em matéria da BBC com o título ‘Como a indústria do petróleo pôs em dúvida o aquecimento global usando táticas dos fabricantes de cigarro’, publicada em setembro de 2020. A matéria relembra quando, e como, começaram os alertas de pesquisadores sobre um possível novo problema: o aquecimento global. É interessante notar o que estava por trás das descobertas iniciadas justamente nos laboratórios de uma das gigantes do setor, a  Exxon. Indústria do petróleo, do tabaco, e meio ambiente: descubra semelhanças.

Imagem do Homem de Marlboro
Lembra dele, o homem de Marlboro? Pois é, Eric Lawson morreu de câncer no pulmão. Imagem, https://www.diariodocentrodomundo.com.br/.

Indústria do petróleo, do tabaco, e meio ambiente: descubra semelhanças

Tudo começou em 1981 quando um funcionário da gigante petrolífera, Marty Hoffert, descobriu algo inusitado em seu computador. Marty ficou assustado com a descoberta. “Eu havia criado um modelo que mostrava que a Terra se aqueceria de modo significativo. E esse aquecimento produziria mudanças climáticas sem precedentes na história humana. Aquilo me surpreendeu.”

Naquela época, recorda a BBC, ‘o estudo climático era considerado em uma área científica de nicho’, eram poucos os pesquisadores que davam bola para o assunto.

A rede inglesa relembra que a Exxon, e outras companhias de petróleo, ‘gastava milhões de dólares em pesquisas inovadoras, na tentativa de tomar a dianteira do mercado’. Mas, ao mesmo tempo, ‘cientistas começavam a entender que um planeta mais quente tornaria a vida bem mais difícil para os humanos’.

Imagem de posto de combustível da Exxon.
Imagem, BBC.

Marty Hoffert, inocente, compartilhou suas descobertas com seus gerentes. Pouco depois foi surpreendido por declarações de Lee Raymond, o manda-chuvas executivo-chefe da Exxon que disse:  “no momento, a evidência científica é inconclusiva quanto a se as atividades humanas têm um efeito significativo no clima global.”

Marty logo percebeu a enrascada em que havia se metido ao trabalhar na Exxon, e se demitiu. “O que eles (Exxon) fizeram foi imoral. Eles espalharam dúvidas sobre os perigos das mudanças climáticas, enquanto suas pesquisas internas confirmavam a seriedade dessa ameaça.”

1988, ano recordista de calor na época

Este recorde de calor ganhou as manchetes dos jornais norte-americanos. E não demorou para outros especialistas corroborarem as informações. Um deles foi “Jim Hansen, da Nasa, que dizia que um efeito estufa foi detectado e está mudando nosso clima agora“.

Naquele tempo os líderes boçais de hoje ainda sentiam vergonha de sua burrice crônica. Não saíam da toca. Mas outros líderes levaram a sério a advertência dos cientistas.

Uma das primeiras a fazê-lo foi Margaret Thatcher, a influente Primeira-ministra britânica. “O desafio ambiental diante do mundo exige uma resposta equivalente de todo o mundo”.

Começava uma corrida contra o tempo que envolveria todos os países e segue até hoje.

A indústria do petróleo percebe o problema

A indústria petrolífera também percebeu. Em arquivos mais tarde doados à Universidade do Texas, a BBC desenterrou um documento interno da Exxon produzido à época.

Em 1989, o chefe de estratégias da Exxon, Duane Levine, preparou uma apresentação confidencial para o conselho da empresa. Nela, estava escrito: “Estamos começando a ouvir o inevitável chamado à ação. Esse chamado exige passos draconianos irreversíveis e custosos”.

documento interno da Exxon negando aquecimento global
Documento interno dos anos 1980 mostra o chamado “Posicionamento da Exxon”, determinando que se “enfatize a incerteza” sobre as mudanças climáticas. BBC.

A BBC foi atrás de Kert Davies, que foi diretor de pesquisas da ONG Greenpeace onde analisava a oposição corporativa às mudanças climáticas. Davies comentou outro documento da época, chamado “Posicionamento da Exxon.” O ponto principal de tal documento era “enfatizar a incerteza” sobre as mudanças climáticas.

Óbvio que a indústria sabia perfeitamente o que estava pela frente.

O nascimento dos negacionistas modernos

Foi a partir destas descobertas que nasceram os que hoje juram que a Terra é plana como uma folha de papel, e que o aquecimento global é um ‘complô comunista’, entre outras tolices do gênero, tão comuns no Brasil chefiado pelo amigo dos milicianos.

Outras empresas logo aderiram à tática da Exxon. “No mesmo ano da apresentação de Levine, em 1989, muitas empresas de energia ou indústrias dependentes dos combustíveis fósseis se uniram na Coalizão Global do Clima, que protagonizou um agressivo lobby entre políticos e a imprensa dos EUA.”

“Em 1991, o órgão comercial que representa as empresas de energia elétrica do país, o Edison Electric Institute, criou uma campanha chamada Conselho de Informação para o Ambiente (ICE em inglês), que almejava “reposicionar o aquecimento global como teoria (e não fato)”, segundo detalhes da campanha que foram vazados ao The New York Times.”

Correu grana alta para confundir e ‘passar a boiada’

Como o nosso velho guerreiro, o Chacrinha, a indústria não veio para explicar, mas para confundir.

BBC: “Eles promoveram campanhas publicitárias projetadas para minar o apoio público, escolhendo apenas alguns dados que os convinham para dizer ‘bem, se o mundo está esquentando, como é que (o Estado de) Kentucky está ficando mais frio?’ Faziam perguntas retóricas para criar confusão e dúvida.”

anuncio em jornal do Kentucky negava o aquecimento global
Se o mundo está esquentando, como é que (o Estado de) Kentucky está ficando mais frio?’: um exemplo da argumentação usada pela indústria, contrariando o entendimento científico de suas próprias equipes a respeito do aquecimento global. Imagem BBC.

Argumento muito parecido ao usado pelo executor da política de desmonte ambiental do chefe.

1990, BBC: “A não ser que as ‘mudanças climáticas’ deixem de ser um assunto”, diz uma das estratégias vazadas ao New York Times, “não haverá nenhum momento em que declaremos vitória”.

Pois é, não havia ainda uma pandemia dramática como a atual para a ‘passagem da boiada enquanto a mídia está distraída’.  E as mudanças climáticas jamais deixaram de ser um assunto.

Simultaneamente, diz a BBC, a indústria começava a pagar para cientistas que negassem o fato científico: “Essa tática previa que, embora o público pudesse suspeitar da fala de executivos da indústria petrolífera, poderia confiar na visão de cientistas aparentemente independentes – mas que estavam recebendo dinheiro da indústria do petróleo.”

Milhões de dólares para cientistas negacionistas

“Bob Brulle, professor emérito da Universidade de Drexel (EUA), estudou o financiamento desse “contramovimento” que rebatia as mudanças climáticas. Brulle identificou 91 instituições que, segundo ele, negaram ou minimizaram os riscos do aquecimento global. E descobriu que, entre 2003 e 2007, a ExxonMobil deu a alguns deles US$ 7,2 milhões. O API, por sua vez, doou quase US$ 4 milhões.”

A direita burra

BBC: “A maioria das organizações que negam as mudanças climáticas eram centros de estudo de direita, que já tendiam a defender ideais de desregulação de mercados. Esses grupos se tornaram convenientes aliados da indústria petrolífera, uma vez que combatiam ações pró-clima com base em sua ideologia própria.”

Indústria do petróleo, do tabaco, e o fumo e o câncer de pulmão

A Exxon e suas congêneres não inventaram nada de novo ao negar a ciência. Apenas imitaram a indústria do fumo e o câncer de pulmão nos anos 50.

BBC: “Décadas antes de a indústria de energia tentar solapar os esforços contra as mudanças climáticas, empresas de tabaco usaram as mesmas técnicas para questionar os elos científicos que emergiam, nos anos 1950, entre o fumo e o câncer de pulmão.”

A imprensa à época deu corpo às denúncias sobre os perigos do tabagismo e o câncer. John Hill, descrito pela BBC como guru de relações públicas da empresa Hill and Knowlton (agência internacional de relações públicas) escreveu em 1953: “vendedores da indústria estão totalmente alarmados, e a queda nas ações das empresas de tabaco causa grande preocupação”.

Já percebeu que onde há burrice demais, há sempre um guru?

BBC: “Hill recomendava combater ciência com a própria ciência. “Não acreditamos que a indústria deva cair no sensacionalismo. Não há (remédio) de relações públicas que conheçamos que vá curar os problemas da indústria.”

“Um documento posterior da empresa tabagista Brown and Williamson resumiu a abordagem: A dúvida é nosso produto, já que ela é a melhor forma de competir com o ‘corpo de evidências’ que existe na mente do público em geral“.

“Hill sugeriu que se fundasse o “Comitê de Pesquisa da Indústria do Tabaco”, para promover “a existência de visões científicas firmes que mostrassem que não há provas de que fumar cigarro causa câncer de pulmão”.

Indústria do tabaco patrocina ‘cientistas’

Foi então que a indústria resolveu patrocinar ‘cientistas’. BBC, “Assim como no debate climático décadas depois, o projeto (chamado “Whitecoat”, ou jalecos brancos) colocou cientistas para debater com cientistas.”

E a BBC mostra que a estratégia suicida teve êxito durante algum tempo. “Se a dúvida era o grande produto, ela parecia ser um grande sucesso. Durante décadas, nenhum dos processos legais contra as empresas de tabaco conseguiu avançar.”

Nenhum processo contra a a indústria do fumo conseguiu prosperar na década de 1950.

40 anos depois a máscara caiu…

“Mas a pressão sobre a indústria continuou a crescer. Em 1997, as empresas tiveram de pagar US$ 350 milhões em um acordo de um processo coletivo feito por comissárias de bordo que haviam desenvolvido câncer de pulmão e outras doenças, como fumantes passivas que respiraram a fumaça de passageiros que fumavam no avião.”

‘Interpretação fraudulenta’

BBC: “O acordo abriu caminho para uma decisão judicial histórica de 2006, quando a juíza Gladys Kessler decidiu que as empresas de tabaco americanas eram culpadas de interpretar de modo fraudulento os riscos de saúde associados ao fumo.”

A indústria do fumo finalmente foi penalizada nos Estados Unidos, mas a erosão da confiança pública sofre até hoje. “Acadêmicos como David Michaels temem que o uso da incerteza para confundir o público e solapar a ciência já tenha contribuído para uma perigosa erosão da confiança pública em fatos e especialistas em todo o mundo, muito além da ciência climática ou dos perigos do cigarro.”

Indústria do petróleo, do tabaco, e meio ambiente

Alguma semelhança sobre o que ocorre hoje no País de Macunaíma onde ministros de Estado negam o aquecimento, destroem o aparato legal ambiental, ao mesmo tempo em que estimulam o desmatamento de nossos mais importantes biomas, sempre chefiados por alguém enrolado em rachadinhas e milicianos da pior espécie?

O mesmo capitão que nega os perigos da pandemia chamando-a de ‘gripezinha’; que demoniza a ciência; veta o perdão das dívidas tributárias de igrejas com uma mão, e com a outra defende que o próprio veto seja derrubado no Congresso.

A BBC conclui: “Não há dúvida de que a desconfiança da ciência e de cientistas torna muito mais difícil conter a pandemia do coronavírus. Pelo visto, o legado do ‘manual de estratégias do tabaco’ continua firme.”

Imagem de abertura: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/

Fonte: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-54284565?fbclid=IwAR1pGxyyvDY5uTgD4JxggdEcsjpEjX-vE4CW9ZS0qSJW_J8lhlYFEhXFfLs.

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2 COMENTÁRIOS

  1. Parabéns pelo artigo. Tenho esperança que esse governo assim como sua terrível e destrutiva política ambiental tenham fim em 2022 com as próximas eleições presidenciais!

  2. NÃO IMPORTA QUE O AQUECIMENTO GLÇOBAL CRESÇA. O QUE IMPORTA É QUE QUANTO MAIS QUENTE MAIS PRAIAS E CERVEJAS GELADAS AFINAL, O QUE NÓS MORTAIS COMUNS PODEMOS FAZER NESTA LINDA DEMOCRACIA BRASILEIRA ENTÃO VAMOS FICAR ASSISTINDO O FIM DO MUNDO.

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