Indígenas do Brasil, pioneiros, já caçavam baleias há 5.000 anos

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Indígenas do Brasil, pioneiros, já caçavam baleias há 5.000 anos

Esta é uma das notícias mais interessantes e sensacionais dos últimos anos sobre o litoral brasileiro e a cultura marítima em geral. Oficialmente, e até este momento, a caça às baleias no Brasil começou no início do período colonial, com registros desde 1603. A Coroa Portuguesa criou o monopólio em 1614 e instalou armações na Bahia, no Rio de Janeiro e em Santa Catarina, especialmente, mas não apenas. O objetivo era o óleo, usado na iluminação e na construção. A atividade durou séculos e ganhou escala industrial no século XX, mas sempre ficou muito abaixo do padrão dos países do hemisfério norte. Até hoje, as evidências mais antigas de caça à baleia apontavam para o Atlântico e o Pacífico Norte, há cerca de 3.000 a.C. Por isso, a descoberta de arpões feitos de ossos de baleia, com cerca de 5.000 anos, por indígenas do Brasil, causa tanta repercussão.

Ilustração, indígenas do Brasil caçando baleias
Ilustração, Patricia del Amo Martín.

O que se sabe sobre a caça às baleias

Já publicamos um post sobre a história da caça às baleias onde mostrávamos que, até agora, as evidências arqueológicas sugerem a caça primitiva à baleia pelos Inuits e outros no Atlântico Norte e no Pacífico Norte, por volta de 3.000 a.C.

Caça às baleias pelos Inuit
Ilustração, Pinterest.

National Geographic também abordou os primórdios da atividade. ‘As pessoas caçam baleias há milhares de anos. Os noruegueses estavam entre os primeiros a fazê-lo, há 4.000 anos. Os japoneses podem ter feito isso ainda mais cedo.’

A predação em escala, como a conhecemos, só começou com a organização da caça. Foi obra dos bascos. Eles desenvolveram a primeira caça organizada de baleias na Europa. As evidências indicam que, no século XII, os bascos caçavam baleias-francas-do-norte no Golfo da Biscaia.

cacadores-bascos de baleias
Os bascos em ação. Imagem, www.thinglink.com.

Segundo o site da Universidade Autônoma de Barcelona, liderado pelos pesquisadores do ICTA-UAB Krista McGrath e André Colonese e conduzido com uma equipe internacional, o estudo analisou centenas de restos de ossos de cetáceos e ferramentas ósseas de sambaquis na Baía de Babitonga, agora alojados no Museu Arqueológico de Sambaqui de Joinville, Brasil. Muitos sambaquis não existem mais, tornando esta coleção um arquivo único de uma história que, de outra forma, não poderia ter sido reconstruída.

Indígenas no sul do Brasil e os sambaquis

De acordo com o estudo, publicado na Nature Communications,Aqui, apresentamos evidências de que grandes baleias-de-barbatana provavelmente eram caçadas há 5000 anos por grupos indígenas no sul do Brasil. Analisamos coleções de ossos de cetáceos e artefatos de sambaquis, sítios arqueológicos na região da Baía de Babitonga. Análises zooarqueológicas, tipológicas e moleculares de restos ósseos e artefatos indicam que os povos sambaquis exploravam baleias-francas-austrais (Eubalaena australis), baleias-jubarte (Megaptera novaeanglia ) e botos em águas costeiras’.

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‘A abundância de restos ósseos de baleia, a presença de artefatos especializados para a caça marinha e a importância das baleias em contextos funerários são consistentes com as evidências arqueológicas e etnográficas de sociedades baleeiras’.

Ilustração de caça às baleias na Baía de Todos os Santos.
Hippolyte Taunay. Pêche de la baleine près de Bahia. 1822. Litografia em aquarela impressa por Charles Motte.

Já o site da Universidade de Barcelona revela que a equipe combinou zooarqueologia, análise tipológica e técnicas moleculares de ponta (ZooMS) para estudar os ossos e objetos, identificando restos das baleias francas do sul, baleias jubarte, baleias azuis, baleias sei, cachalotes e golfinhos, muitos mostrando marcas claras de corte associadas à caça. Grandes arpões de ossos de baleia, os arpões da Baía de Babitonga são excepcionalmente grandes – alguns têm quase dois metros de comprimento – e parecem projetados para derrubar grandes animais marinhos. Sua presença, ao lado da abundância de ossos de baleia, sua inclusão em contextos funerários e a presença de espécies costeiras, fornece fortes evidências de caça ativa em vez de uso oportunista de animais encalhados.

Em outras palavras, isso significa que os homens dos sambaquis saíam em canoas para o mar aberto para arpoar baleias! “Os dados revelam que essas comunidades tinham o conhecimento, as ferramentas e as estratégias especializadas para caçar grandes baleias milhares de anos antes do que tínhamos assumido anteriormente”, diz Krista McGrath, principal autora do estudo.

Baía da Babitonga, norte de Santa Catarina

A baía da Babitonga impressiona por muitos motivos. A beleza salta aos olhos. A biodiversidade também. Manguezais a cercam, no último grande remanescente ao sul do País, reduto caiçara e cheio de sambaquis. Em suas margens fica São Francisco do Sul, uma das cidades mais antigas e belas do Brasil.

iluminação no Rio de Janeiro antigo
José dos Reis Carvalho. A iluminação do óleo de peixe. 1851. Aquarela. A obra retrata a iluminação no Rio de Janeiro. (Fonte: LUCCHESI, 2015, p. 1. 47.)

A baía abriga toninhas, o cetáceo mais ameaçado do Brasil. Botos-cinza e meros também vivem ali, todos sob algum grau de ameaça. Nas copas dos manguezais, bandos de colhereiros e guarás colorem a paisagem. O contraste preocupa. Cinco portos operam dentro de um ambiente tão rico e frágil.

Os sambaquis da Babitonga revelaram que indígenas do Brasil caçavam baleias há 5.000 anos

E foi naqueles sambaquis que os pesquisadores fizeram suas descobertas. ‘O litoral do estado de Santa Catarina, no sul do Brasil, apresenta uma alta concentração de sambaquis. Há mais de 200 sítios documentados na Baía de Babitonga e áreas costeiras adjacentes. Ossos de cetáceos trabalhados (artefatos) e não trabalhados foram recuperados de muitos sambaquis da região, em grande parte pelo arqueólogo amador e colecionador Guilherme Tiburtius entre 1940 e 1960, durante o desmantelamento de sítios para a produção comercial de cal e aterros, prática que persistiu no Brasil até a década de 1960′.

instrumentos de caça às baleias por indígenas brasileiros
Imagem, Nature Communications.

‘Significativamente, a comparação com a literatura arqueológica e etnográfica mostra que alguns artefatos enigmáticos recuperados dos sambaquis na segunda metade do século passado são, na verdade, hastes de arpão feitas de osso de baleia, entre as maiores documentadas em sítios arqueológicos da América do Sul’.

Fragmentos de encaixe de arpão fabricados por indígenas do Brasil
Nature Communications.

‘A associação desses fósseis com restos ósseos e artefatos de baleia revela que as populações sambaquis possuíam a tecnologia para caçar grandes baleias-de-barbatana e golfinhos já há 5.000 anos. Este estudo posiciona o sul do Brasil como um dos primeiros centros de exploração de grandes baleias-de-barbatana, potencialmente estendendo a antiguidade da caça às baleias em mais de mil anos’.

reconstrução dos arpões
Nature Communications.

É urgente uma releitura sobre os povos dos sambaquis e seus descendentes

A descoberta força uma nova leitura sobre a importância dos povos dos sambaquis e de seus descendentes, os caiçaras. Ela revela habilidades avançadas, como a construção de canoas de pau para a caça às baleias, além de organização social e estratégias próprias. A novidade mostra o quanto a cultura náutica corre em nossas veias, muito antes da chegada dos nautas lusitanos.

Para André Colonese, autor sênior do estudo, “esta pesquisa abre uma nova perspectiva sobre a organização social dos povos Sambaqui. Representa uma mudança de paradigma – agora podemos ver esses grupos não apenas como colecionadores de mariscos e pescadores, mas também como baleeiros”.

Insights ecológicos e uma releitura sobre os povos dos sambaquis

Segundo o site da Universidade de Barcelona, os resultados também oferecem importantes insights ecológicos. A abundância de restos de baleias jubarte sugere que sua distribuição histórica se estendeu muito mais ao sul do que as principais áreas de reprodução atuais na costa do Brasil. “O recente aumento de avistamentos no Sul do Brasil pode, portanto, refletir um processo de recolonização histórica, com implicações para a conservação. Reconstruir distribuições de baleias antes do impacto da caça à baleia industrial é essencial para entender sua dinâmica de recuperação”, diz Marta Cremer, co-autora do artigo.

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Os povos do Sambaqui integraram os recursos marinhos em seus sistemas culturais e desenvolveram uma cultura marítima sofisticada caracterizada por tecnologias especializadas, cooperação coletiva e práticas rituais associadas à captura de grandes animais marinhos. Essa história indígena não escrita sobreviveu através de coleções de museus e através dos esforços daqueles que trabalham para preservar os locais de sambaqui que escaparam do impacto da urbanização do Brasil nos últimos séculos

Para o Smithsonian Magazine, o estudo lança uma nova luz sobre a cultura da região, que os historiadores já sabiam que estava inextricavelmente ligada à vida marinha e aos recursos.

“A caça às baleias sempre foi enigmática”

André Carlo Colonese, diretor de pesquisa da Universidade Autônoma de Barcelona e coautor do estudo, disse à Live Science que ‘a caça às baleias sempre foi enigmática’, porque é difícil distinguir ferramentas de ossos feitas de animais ativamente caçados e de animais que encalharam no registro arqueológico.

Ilustração de indígenas caçando baleias
Ilustração, www.noticiasambientales.com.

E a revista assinala o espanto: a descoberta, que incluiu 118 ossos de baleias e artefatos trabalhados, revela que a caça às baleias na pré-história não se restringia a pessoas em climas temperados e polares do Hemisfério Norte. A matéria revela ainda que Colonese e sua equipe não tinham como objetivo inicial investigar a caça às baleias nos primórdios da colonização. Em vez disso, buscavam documentar as espécies marinhas utilizadas pelas populações indígenas sambaquis no sul do Brasil.

A equipe identificou 15 elementos de arpão, incluindo pontas e componentes do cabo, feitos de ossos de costela de baleia-franca-austral ou baleia-jubarte. A descoberta também mostrou que essas populações indígenas no Brasil não se limitavam a coletar moluscos e pescar. “A ideia convencional era de que os sambaquis não possuíam a tecnologia” para a caça às baleias, disse Colonese. “Isso nos mostra que eles realmente caçavam.”

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