COP 21 acompanhe a avaliação de especialistas

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COP 21 – a difícil renúncia aos combustíveis fósseis, e outros problemas

COP 21: acompanhe a avaliação de especialistas acostumados com o tema e as conferências internacionais.

COP 21 - entenda
Foto: culturamix.com

Em artigo para o Estadão, em 21 de dezembro de 2015, José Goldenberg faz um retrospecto das reuniões internacionais da COP 21

O que se tentou em 1992, na Conferência do Rio, e em 1997 com o Protocolo de Kyoto foi tomar decisões que obrigassem os países a reduzir as emissões responsáveis pelo aquecimento global até 2012. Essa obrigação não envolveu países em desenvolvimento. Em retrospecto, essa decisão não era realista, como se viu logo depois: o maior dos emissores, os Estados Unidos, não ratificou o protocolo. E a China, que não aceitou limitações nas suas emissões, baseou seu crescimento econômico no uso do carvão. Em poucos anos a China se tornou o maior dos emissores, suplantando os EUA.

Goldenberg explica o que foi tentado na COP 21

O que foi feito em Paris, foi tentar harmonizar as decisões unilaterais e voluntárias feita pelos países de reduzir suas emissões até 2025 ou 2030. Torná-las obrigatórias, criar mecanismos de fiscalização internacional e criar fundos para ajudar os países menos desenvolvidos foram o objeto das negociações.

Idealismo e realismo

O idealismo que dominou a Conferência do Rio e o realismo, a Conferência de Paris.

O professor compara:

Os que achavam que que o campo de batalha seriam as conferências do clima, perceberam que a verdadeira batalha deveria ser travada dentro de cada país, onde políticas internas eram decididas e adotadas.

Goldenberg avalia o papel do Brasil:

COP 21 - entenda
Queimadas na Amazônia ( foto: fapeam.am.gov.br)

No Brasil, a redução do desmatamento da Amazônia desde 2005 permitiu ao país assumir metas quantitativas.

Conclusão 

Em lugar de decisões multilaterias de cima para baixo, foram adotadas políticas unilaterais de baixo pra cima.

Breve levantamento do que aconteceu com os maiores protagonistas, desde a Conferência do Rio.

O governo da China percebeu que o uso ilimitado do carvão deteriorou seriamente a qualidade do ar nas grandes cidades chinesas. Pos essa razão decidiu que até 2030 o uso do carvão não aumentará mais e começará a declinar

Comparação do modelo atual x o anterior

A divisão artificial do mundo em dois grupos, o dos industrializados e o dos países em desenvolvimento, desapareceu. Todos países estão comprometidos a reduzir suas emissões.

Dificuldades no caminho

Goldenberg sabe que não será fácil acontecer de fato, o que ficou preestabelecido em Paris

A preocupação com as gerações futuras por governos que enfrentam eleições a cada quatro ou cinco anos, não é trivial. Apesar de tecnicamente viável, não vai ser fácil por em prática os compromissos apresentados.

 Goldenberg comenta sobre países  e blocos

Na Europa, o uso mais eficiente da energia é o caminho mais promissor para reduzir as emissões. Nos países em desenvolvimento é inevitável que as emissões cresçam. Mas o que cabe fazer é incorporar tecnologias mais eficientes, principalmente o uso das energias renováveis. No Brasil os caminhos são claros: reduzir o desmatamento da Amazônia e promover a recuperação de áreas já degradadas.

Para encerrar, o professor Goldenberg faz um último comentário sobre a posição brasileira na COP 21

Os compromissos apresentados pelo país em Paris não foram acompanhados por propostas concretas e confiáveis

Outro que comentou a posição do Brasil foi o ex- presidente, Fernando Henrique Cardoso, em artigo publicado pelo Estadão (3/1/16)

A Conferência do Clima, em Paris, deu sinais de que os governos e as empresas despertaram e perceberam que o aquecimento global é um fato. Pode-se criticar o acordo num ou noutro ponto. Mas ele dá passos concretos para a construção de uma economia de baixo carbono. A César o que é de César: o governo brasileiro, com a ministra Isabella Teixeira à frente, acordou e começa a acertar os passos em matéria climática.

COP 21 - entenda
Gráfico: globo.mestrando2011.blogspot.com

O Secretário Geral da ONU também se pronunciou sobre a COP 21 em artigo publicado pela Folha de S. Paulo, em 20/12/2015

Os governos inauguraram uma nova era de cooperação global sobre a mudança climática, umas das questões mais complexas que a humanidade já enfrentou

Considerações de Ban Ki – Moon 

O Acordo de Paris é um triunfo para as pessoas, o meio ambiente e para o multilateralismo. Pela primeira vez os países se comprometeram a reduzir suas emissões. Reforçar a resiliência e agir internacionalmente…188 países já apresentaram suas contribuições nacionais, e prometeram rever seus planos a cada cinco anos, a partir de 2018…Agora nossos pensamentos devem se voltar para a implementação desses planos

Pesquisadora comenta a  COP 21

Mariana Nicolletti e Bruno Toledo Hisamoto, respectivamente, pesquisadora e gestora da Plataforma Empresas pelo Clima, da Fundação Getúlio Vargas, a GV; e pesquisador do GVces, da FGV, também escreveram na Folha, em 19/12/2015

As 186 (referindo-se aos países presentes) contribuições apresentadas cobrem mais de 90% das emissões globais, um avanço notável em relação ao Protocolo de Kyoto…

Os autores comentam sobre  mecanismo para transferência de créditos de carbono entre países

A União Européia se juntou ao Brasil para submeter uma proposta de transferência de créditos…mais de 500 investidores institucionais, que representam cerca de USS 3,4 trilhões em ativos, retiraram suas aplicações em projetos de combustíveis fósseis…Algumas multinacionais prometeram investimentos milionários em desenvolvimento tecnológico para energia limpa…

Ricos ajudam os mais pobres

COP 21 - entenda
Mapa NG se todo gelo derretesse

Ainda no artigo publicado pela Folha os autores salientam que

Os USS 100 bilhões anuais de ajuda dos países ricos aos mais pobres para mitigação dos efeitos das mudanças climáticas foram assumidos como piso mínimo para o período pós- 2020. O valor será reajustado ao longo da implementação do acordo…a China já sinalizou que ajudará o Fundo Climático Verde, da ONU, com USS 3,1 bilhões.

A conclusão de Mariana Nicolletti e Bruno Toledo Hisamoto

O acordo é o ponto de partida num jogo que precisa nos levar, de forma global e coordenada, a uma economia neutra em emissões

Washington Novaes  escreveu para O Estado de S. Paulo sobre a COP 21, em 18/12/2015

A controvérsia continua entre cientistas políticos que o consideram ( o Acordo de Paris) um documento histórico e inédito e outros que o julgam até agora um retrocesso. O  The New York Times avaliou: o acordo é um passo decisivo mas, sozinho não salavará um planeta que enfrenta derretimento de gelos polares, a morte de dezenas de milhares de pessoas por tsunamis e enchentes, e onde a agricultura mundial está sob graves ameaças.

Sobre a posição brasileira

A Associação Brasileira de Serviços de Conservação de Energia (Abesco) defende que o problema no Brasil está na eficiência energética. Hoje o maior emissor no Brasil é o setor energético: o Brasil deixaria de emitir milhões de toneladas de dióxido de carbono se combatesse o desperdício de energia que hoje atinge aproximadamente 60 TWh/ano…

Sobre o desmatamento da Amazônia

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Continaum fortes as discussões sobre o desmatamento

Continaum fortes as discussões sobre o desmatamento e sua influência nas mudanças do clima principalmente depois que se noticiou (Estado de S. Paulo, 27/11/2015) haver ele aumentado em 16% entre agosto de 2014 e julho de 2015. Embora seja o terceiro menor desmate anual, foram 5.831 quilômetros quadrados, por causa do retorno de grandes cortes rasos.

Emissões brasileiras por segmento, dados oficiais

COP 21 - entenda
Emissões brasileiras por segmento

Ainda sobre o desmatamento

As florestas tropicais no mundo poderiam ajudar muito na área do clima, evitando emissões equivalentes a bilhões de toneladas de carbono por ano. A avaliação é do Woods Research Center…No Brasil as emissões por desmatamento equivalem a um terço do total.

Carlos Afonso Nobre doutor em Meteorologia pelo MIT (Massachussets Institute of Technology), e membro do IPCC, Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática

 Carlos Nobre, pesquisador respeitado, presidente da Capes, Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, em entrevista para o Blog do Planeta, em 18/12/2015,  diz que ” o Brasil não está preparado para se adaptar ao antropoceno”.

Na apresentação da entrevista há uma declaração emblemática do cientista

Nunca, em toda a história da vida na Terra, uma espécie alterou tanto o planeta, e em uma escala tão rápida, quanto a humanidade. Mudamos os cursos de rios, alteramos a composição química da atmosfera e dos oceanos, domesticamos plantas e animais a ponto de sermos considerados uma “força tectônica” no planeta. Esse impacto é tão forte que alguns cientistas estão propondo mudar a época geológica – deixaríamos o holoceno, que começou com o fim da era do gelo, e passaríamos ao antropoceno, a época dominada pelo homem.

A seguir alguns trechos da entrevista

 Como nós podemos caracterizar o antropoceno? Será, ou é, uma era de extremos?
Carlos Nobre –
Caracteriza-se pelo efeito global sobre o planeta de uma espécie, o Homo sapiens, e pela velocidade das transformações do planeta pelas ações humanas. Nunca antes, durante toda a longa presença da vida na Terra, estimados em 3,6 bilhões de anos, uma espécie conseguiu alterar o ambiente globalmente numa escala de séculos. São esses aspectos que estão fazendo muitos geólogos propor que já adentramos uma nova época geológica – nomeado como antropoceno pelo professor Paul Crutzen –, em que sinais das transformações já se materializaram nos sedimentos geológicos. O antropoceno não se caracteriza somente por alterações climáticas provocadas por emissões humanas de gases de efeito estufa, ainda que o registro geológico, por exemplo das geleiras, já mostrem claramente o aumento das concentrações de gás carbônico e metano, entre outros gases aprisionados no gelo.

COP 21 - entenda
Gráfico: amanatureza.com

Países desenvolvidos x países em desenvolvimento

Como via de regra, países desenvolvidos têm avançado na agenda da adaptação, seja através do aumento do conhecimento sobre o impacto das mudanças climáticas, seja igualmente na implementação de políticas públicas ativas de adaptação. Países em desenvolvimento estão mais atrasados na agenda da adaptação e colocam mais peso político na redução do risco via esforço global de redução de emissões.

Brasil

O Brasil é país de média vulnerabilidade às mudanças ocorrendo ou projetadas no antropoceno. Entretanto, na questão da biodiversidade, os riscos são enormes em função da intrincada interação das espécies.

No Brasil, há razoável consenso de que as ações humanas causam impactos significativos no planeta. Isso é verdade na maior parte do mundo, mas não em todos os países. Por exemplo, nos EUA ainda há um debate amplo sobre mudanças climáticas, o que tem ainda impedido ações resolutas de redução de emissões

Como sempre acontece, há aqueles que não acreditam nos acordos da COP 21

Como sempre acontece, há aqueles que não acreditam nos acordos da COP 21. Um deles é Kevin Anderson, professor da Universidade de Manchester. O site O ECO, em sua cobertura da COP 21, fez uma matéria onde há  declarações pessimistas de Kevin Anderson. Uma delas

As metas do Acordo de Paris não são consistentes com os 2ºC. Não são baseadas em ciência e não têm nada a ver com equidade. Faz 25 anos que nós sabemos tudo de que precisamos saber para combater a mudança climática. Mas as emissões hoje são 60% maiores do que eram nos anos 1990. Estamos continuando a nos travar em uma trajetória de cem anos de uso de combustíveis fósseis

Outros pesquisadores que também não acreditam no acordo  COP 21

A mesma matéria cita outros pesquisadores que também não acreditam que  os acordos da COP 21 consigam manter o aumento da temperatura da Terra abaixo de 1,5º Celsus. Entre eles está o cientista político alemão Oliver Geden, e David Victor, professor de Relações Internacionais da Universidade da Califórnia, San Diego. A matéria de O ECO, assinada por Claudio Angelo e Cíntya Feitosa, explica porque.

Pesquisadores  baseiam suas avaliações no chamado “orçamento de carbono”. Trata-se de uma conta apresentada no último relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática), de 2013. Ele relaciona diferentes probabilidades de elevação de temperatura neste século com emissões acumuladas de dióxido de carbono desde a Revolução Industrial.

Segundo essa conta, se quiser ter 66% ou mais de chance de manter a elevação da temperatura global abaixo de 2oC, a humanidade tem apenas 1 trilhão de toneladas de CO2 para emitir entre 2011 e o fim do século. Como a taxa atual de emissões está em torno de 50 bilhões de toneladas por ano, os cientistas estimam que teremos esgotado nosso orçamento de carbono em cerca de duas décadas.

O problema da água

Outra crítica sobre a COP 21 diz respeito às negociações que não contemplaram o problema da água. O site Funverde foi feliz ao abordar o assunto.

A situação da água é um dos principais indicadores sobre os efeitos da mudança climática. Por causa do aumento da temperatura média global, até o final do século as fontes renováveis na superfície e os recursos hídricos subterrâneos diminuirão consideravelmente nas regiões secas subtropicais.

Estamos enfrentando alterações de ecossistemas essenciais para o ciclo d’água, em escala planetária, como o derretimento das geleiras, a salificação de mananciais (decorrente do aumento do nível do mar) e a acidificação dos oceanos.

O problema é muito sério

Como se vê, o problema é muito sério. Mesmo acreditando nas analises mais otimistas, a humanidade esta diante de um desafio de proporções épicas. É preciso muito esforço, dinheiro, e a colaboração de todos. Não espere a ação dos  governos para  mudar. Todos os  habitantes do planeta, minimamente conscientes, devem fazer sua parte. Comece já. Não é tão difícil. Basta mudar alguns hábitos e já estaremos contribuindo.

 

(foto de abertura: hypescience.com)

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