Breve História da Dependência Humana dos Recursos Naturais

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Breve História da Dependência Humana dos Recursos Naturais

Desde os primórdios da civilização os humanos dependem de recursos naturais para sobreviver e prosperar. Esse relacionamento com a natureza, porém, nunca foi harmonioso. Muitas vezes, devido ao uso insustentável desses recursos, civilizações enfrentaram colapsos e muitas regiões sofreram degradação ambiental. A madeira foi  o primeiro e fundamental recurso para o ser humano. O livro “A História Das Florestas”, de John Perlin, detalha como a exploração insustentável da madeira levou à crises ao longo da história. Perlin demonstra como o uso excessivo transformou partes do Crescente Fértil em desertos, assim como mostra que a aridez da Bacia do Mediterrâneo é fruto do mesmo fenômeno. O livro foi a inspiração para o artigo A História da Dependência Humana dos Recursos Naturais.

Gravura do Crescente fértil
Gravura do Crescente Fértil, o berço da civilização e suas florestas. Imagem, Stefano Bianchetti.

A Madeira e o domínio do fogo

A capacidade de controlar o fogo representa um dos marcos mais cruciais na evolução humana. Esse domínio não apenas nos distinguiu de outras espécies, mas também permitiu nossa sobrevivência e prosperidade nas condições mais adversas. A fonte primária e mais acessível de combustível para alimentar o fogo ao longo da maior parte da história humana foi a madeira.

O domínio do fogo pelo Homo é um tema amplamente debatido entre arqueólogos e paleoantropólogos. Contudo, não há um consenso absoluto sobre quando exatamente os primeiros humanos começaram a usar e controlar o fogo de maneira sistemática. No entanto, existem várias linhas de evidências baseadas em sítios arqueológicos e estudos paleoambientais.

Mapa do Crescente Fértil.
Imagem, www.geography.name.

Evidências mais antigas: Alguns dos vestígios mais antigos de uso do fogo vêm de sítios na África, particularmente na África do Sul, como o da Caverna Wonderwerk. Aqui, evidências de fogo datam de cerca de 1 milhão de anos atrás. Outros sítios, como os de Koobi Fora no Quênia, também apresentam sinais de uso do fogo que datam de tempos semelhantes.

O Crescente Fértil

O Crescente Fértil, uma região que abrange partes do moderno Iraque, Síria, Líbano, Israel, Palestina, Jordânia e partes do Irã e Turquia, é muitas vezes referido como o “berço da civilização”. Foi ali que as primeiras sociedades agrárias floresceram, levando à fundação das primeiras cidades e ao nascimento da escrita e da lei. No entanto, essa região, particularmente a Mesopotâmia (que localiza-se principalmente no Iraque atual), experimentou vastas mudanças ambientais ao longo dos milênios, muitas das quais foram impulsionadas por atividades humanas.

Gilgamesh, rei de Uruck.
Representação de Gilgamesh, rei de Uruck, e as florestas de então. Imagem, www.static-v2-connexus.pearson.com.

Hoje é difícil acreditar que na antiguidade crescessem vastas florestas no Médio Oriente. No entanto, durante a primeira parte do terceiro milênio a.C., as encostas das montanhas desta região estavam cobertas por enormes florestas de cedro. Estas florestas desapareceram milênios antes do nascimento de Cristo, há cerca de dois mil anos. A destruição das florestas de cedro do Oriente Médio é contada na história escrita mais antiga que se conhece e sobreviveu no mundo: O épico de Gilgamesh, escrito na Mesopotâmia em algum momento do terceiro milênio a.C.

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Com o crescimento das cidades e desenvolvimento de civilizações avançadas como os Sumérios, Acádios, Babilônios e Assírios, a demanda por madeira aumentou consideravelmente. Assim, a madeira era essencial para construção, combustível, fabricação de ferramentas e, muito crucialmente, para a construção de veículos de transporte, como carros de guerra e navios.

Salinização do solo

O desmatamento, combinado com práticas de irrigação inadequadas, levou à salinização do solo em muitas áreas. Sem árvores para ajudar a ancorar o solo e facilitar o ciclo da água, os campos tornaram-se menos férteis, reduzindo a capacidade agrícola da região.

A remoção da cobertura florestal também aumentou a erosão, o que levou a uma maior sedimentação nos rios, especialmente o Tigre e o Eufrates. Isso, por sua vez, levou a mudanças nos cursos dos rios e aumentou a incidência de inundações devastadoras.

Embora as atividades humanas tenham tido um impacto significativo, mudanças climáticas naturais também desempenharam um papel nas transformações ambientais da Mesopotâmia. Períodos de seca, combinados com o desmatamento, podem ter exacerbado a desertificação da região.

Exploração da Madeira na Antiguidade Clássica

Nas antigas civilizações do Mediterrâneo, particularmente os Fenícios, os egípcios, gregosromanos eram conhecidos por suas proezas marítimas. Para construir suas vastas frotas, eles precisavam de uma quantidade substancial de madeira de qualidade. Por exemplo, uma única trirreme grega (um tipo de navio de guerra) poderia exigir até 1.698,2 metros cúbicos de madeira (aproximadamente,793 árvores de carvalho). Multiplique isso pelo número de milhares navios em uma frota antiga, e é fácil ver como a demanda poderia se tornar insustentável.

Para se ter uma ideia do uso de madeira apenas para navios, é oportuno lembrar que o primeiro navio de ferro surgiu apenas em 1858, o couraçado francês La Gloire que tinha casco ainda de madeira, mas protegido por uma couraça de ferro.

Navio trirreme.
O trirreme. Imagem, www.britannica.com.

Mais recentemente, tente imaginar quantas florestas foram perdidas na Europa para a construção de navios por portugueses, espanhóis, holandeses, franceses, russos e ingleses, desde a aurora do século 15 até meados do século 19. É inimaginável! Milhões de árvores foram necessárias, talvez, bilhões.

Por exemplo, quando a Espanha entrou em conflito com a Inglaterra e outras potências europeias, Filipe II ordenou, em 1588, que a Invencível Armada atacasse e invadisse a Inglaterra. A invasão falhou e a Armada foi destruída. Porém, sua construção na década de 1580 deixou grandes partes do país desprovidas de árvores e precipitou o declínio da supremacia espanhola no mar. 

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Além de sua importância na construção naval, a madeira também desempenhou um papel crucial na construção urbana. Casas, edifícios públicos, pontes, estradas e outras infraestruturas exigiam madeira como material de construção ou para ferramentas e máquinas utilizadas na construção.

Madeira era a principal fonte de combustível

Em uma época em que o carvão ainda não era amplamente utilizado, a madeira era a principal fonte de combustível. Era necessária não apenas para aquecimento e a cozinha, mas também para atividades industriais, como a fundição de metais.

Sem árvores para estabilizar o solo, áreas que uma vez foram florestadas se tornaram propensas à erosão. Isso levou à perda de solos férteis e, eventualmente, à degradação da terra. Por exemplo, áreas da Grécia que eram antes florestadas agora são caracterizadas por paisagens rochosas e menos árvores.

Gravura de cidade da Grécia antiga
Gravura de cidade da Grécia antiga. Imagem, Wikimedia Commons.

A exploração excessiva da madeira eventualmente produziu escassez. Isso não apenas aumentou o preço, mas também levou as civilizações a buscá-la além de suas fronteiras, muitas vezes conduzindo a conflitos e competição por recursos.

A partir do século V a.C. o mundo grego torna-se um dos principais centros de poder do Mediterrâneo

O mundo grego tornou-se um dos principais centros de poder do Mediterrâneo a partir do século V a.C. Duas condições foram importantes para a crescente influência desta região: a primeira é a longa costa da Ásia Menor e da Grécia e as muitas ilhas espalhadas ao longo destas costas; em segundo, a disponibilidade de madeira.

Ásia mapa.
A ‘Ásia Menor’ é o que no mapa está como Persian Empire. Imagem, www.worldhistory.org.

A primeira condição facilitou a comunicação por mar e o acesso à madeira tornou essa comunicação possível porque permitiu a construção de navios. Por isso, as florestas da Ásia Menor, da península grega e da Macedônia foram uma das principais fontes de poder e riqueza desta região.

A quantidade de madeira transformou as diferentes civilizações que se desenvolveram na Grécia e na Ásia Menor em formidáveis potências marítimas e comerciais. Não é surpreendente que quando Roma conquistou a Macedônia em 167 a.C. tenha proibido a população de cortar árvores. Os romanos estavam conscientes do papel que a madeira desempenhou na sua ascensão como grande potência. A proibição foi uma medida de precaução para evitar que a Macedônia se transformasse numa potência marítima que pudesse rivalizar com a de Roma e, claro, para satisfazer as suas próprias necessidades de madeira.

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Em resumo, a extensa exploração pela construção naval, urbanização e como combustível pelas civilizações do Mediterrâneo teve um impacto duradouro na paisagem e ecologia da região. Enquanto essas civilizações alcançaram feitos notáveis, também deixaram uma marca indelével no ambiente que os sustentou. A história da Bacia do Mediterrâneo e sua atual aridez serve como um lembrete da importância da gestão sustentável dos recursos naturais.

‘No futuro haverá guerras pela escassez dos recursos naturais’

A história se repete. Não à toa, quando se começou a falar no aquecimento que hoje enfrentamos, surgiram previsões de que ‘no futuro haveria guerras em razão da água ou recursos naturais’. Por exemplo, a violência de longa data na região sudanesa de Darfur, fez o antigo secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, caracterizar, em 2007, o primeiro conflito mundial devido às alterações climáticas.

Da madeira para o óleo dos cetáceos

Depois de muitos problemas em razão do uso excessivo da madeira, a humanidade passou a caçar os cetáceos, especialmente as baleias, mas também os pinípedes. Eles foram vistos como um recurso abundante e vital para a humanidade em determinado momento.

Norte-americanos na caça às baleias.
Norte-americanos na caça às baleias. Domínio Público.

Então, foram caçados a partir de meados do século 19, em grande escala principalmente pelo seu óleo, que era usado em tudo, desde lamparinas até máquinas. No entanto, essa caça intensiva quase levou várias espécies à extinção. A demanda insaciável por óleo de baleia, combinada com a falta de regulamentação e supervisão, resultou em uma redução drástica nas populações. Foi somente com a moratória internacional, em 1986, que as populações aos poucos começaram a se regenerar.

Combustíveis Fósseis: A Crise Atual 

Hoje, a humanidade enfrenta um dilema semelhante com os combustíveis fósseis. Assim como a madeira e o óleo de baleia, os combustíveis fósseis (como petróleo, carvão e gás natural) têm alimentado o progresso humano e a industrialização. No entanto, seu uso excessivo e a subsequente emissão de gases de efeito estufa estão provocando mudanças climáticas em uma escala global.

conservação e gestão de recursos naturais
Imagem, www.netsolwater.com.

A situação é paralela ao passado: uma dependência excessiva de um recurso, levando à potencial ruína. Mudanças climáticas, aumento do nível do mar, eventos climáticos extremos e outros impactos ambientais são as consequências visíveis do uso insustentável de combustíveis fósseis.

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