Albatroz-errante: o monarca do azul que atravessa oceanos

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Albatroz-errante: o monarca do azul que atravessa oceanos

O albatroz-errante fascina os navegadores desde tempos remotos. Os portugueses se assombravam com seu tamanho. Além disso, descreviam sua presença como um “sinal de terra firme” ou de “correntes fortes”. Assim, essas aves gigantes ajudavam os marinheiros a interpretar o oceano.

Albatroz-errante em imagem de Mike Double
Albatroz-errante em imagem de Mike Double, site, www.antarctica.gov.au.

No folclore marítimo dos séculos 17 e 18, os albatrozes carregavam outro significado. Segundo essa crença, as aves abrigavam as almas dos marinheiros que haviam morrido afogados.

Em 1758, o naturalista sueco Carl Lineu buscou inspiração na mitologia grega para dar à espécie o nome Diomedea exulans. Diomedea remete a Diomedes, herói da Guerra de Troia. Segundo a lenda, seus companheiros choraram tanto sua morte que a deusa Vênus os transformou em grandes aves marinhas.

Já exulans vem do latim e significa “exilado” ou “errante”. O termo evoca uma ave que cruza imensas distâncias sobre o oceano.

O nome comum, albatroz, também guarda uma ligação com navegadores. Sua origem remete ao português “alcatraz”, termo que designava grandes aves marinhas.

Com o tempo, o albatroz roubou a cena na literatura e se tornou símbolo do viajante solitário, da liberdade. Uma criatura que pertence ao vento e aos oceanos. Seu galante voo solo, e presença majestosa, fascinaram poetas e escritores.

Baudelaire o chamou de “monarca do azul” no poema O Albatroz. Já Herman Melville em Moby Dick, de 1851, descreve a ave como um ser de “brancura angelical” e uma majestade quase divina.

Pablo Neruda as homenageou em Ode a um Albatroz-Errante, ‘mestres do vento e das tempestades’ cujas “grandes asas de música” transformam o voo em uma eterna poesia.

As maiores asas entre as aves vivas

Há cerca de 15 milhões de anos (no Mioceno), os albatrozes já haviam se diversificado nos quatro gêneros modernos que conhecemos hoje, provando que seu design anatômico focado em planar por milhares de quilômetros sobre os oceanos é um dos maiores sucessos de sobrevivência da história do planeta.

O albatroz-errante tem a maior envergadura entre as aves atuais. De uma ponta à outra ela alcança cerca de 3,5 metros, segundo a BirdLife Australia. É quase o dobro da altura de uma pessoa adulta.

Albatroz-errante
Contribuição do acervo do MSF para esta galeria.

Esta adaptação permite percorrer enormes distâncias com mínimo esforço porque o albatroz sabe aproveitar a energia do vento para planar.

Albatrozes: os monarcas do azul que circunavegam a Terra

Os albatrozes pertencem à família Diomedeidae, que reúne 22 espécies. A maioria percorre os oceanos do Hemisfério Sul. Algumas, porém, vivem no Pacífico Norte. Atualmente, 15 das 22 espécies estão sob risco de extinção em diferentes níveis.

Estima-se que existam entre 1,5 e 2 milhões de albatrozes em todo o mundo. Apesar de parecer um número grande, a população global enfrenta uma séria crise de conservação. E, enquanto o albatroz-de-laysan conta com cerca de 874.000 indivíduos, outras espécies são extremamente raras, como o albatroz-de-amsterdam, que tem pouquíssimos casais reprodutores restantes.

Albatroz-errante em imagem de Rebecca Bowater, NZ Birds Online.
Albatroz-errante em imagem de Rebecca Bowater, NZ Birds Online.

Na vida adulta,  passam anos em mar aberto cobrindo milhares de quilômetros. Aproveitando os ventos, podem viajar quase 1.000 km por dia praticamente sem bater as asas. Além disso, suas jornadas em busca de alimento alcançam até inacreditáveis 16.000 km.

Outra característica notável é a capacidade de beber água do mar. Para isso, contam com glândulas próximas aos olhos que filtram e eliminam o excesso de cloreto de sódio da corrente sanguínea.

Uma volta ao mundo em 46 dias

Um albatroz-de-cabeça-cinza completou uma volta ao mundo pelo oceano Austral em apenas 46 dias. Pesquisadores do British Antarctic Survey divulgaram o feito na revista Science, em 2005.

Além disso, outro estudo estimou uma velocidade média de pelo menos 127 km/h durante mais de oito horas. O registro também pertence a um albatroz-de-cabeça-cinza. Nesse caso, os fortes ventos de uma tempestade antártica impulsionaram a viagem.

Como os albatrozes planam quase sem bater as asas

Os albatrozes aproveitam a energia do vento para sustentar o voo. Perto da superfície do oceano, o atrito com a água reduz a velocidade do ar. Mais acima, porém, o vento costuma soprar com maior intensidade.

albatroz
Acervo MSF.

Assim, as aves alternam entre essas camadas em uma sequência de subidas, curvas e descidas. Sobem contra o vento, fazem uma curva e descem a favor. Depois, perto da água, viram novamente e repetem o movimento.

Essa técnica permite extrair energia do vento e compensar as perdas causadas pela resistência do ar. Os cientistas a chamam de planeio dinâmico. Um estudo publicado na  PLOS ONE investigou esse mecanismo com equipamentos de rastreamento em albatrozes-errantes.

Uma vida no oceano

O albatroz-errante percorre águas antárticas, subantárticas e subtropicais. Entretanto, depende de ilhas para se reproduzir. Entre seus locais escolhidos estão os arquipélagos da Geórgia do Sul, ilhas subantárticas do Índico como Príncipe Edward, Marion, Crozet, e Kerguelen, e ao sul da Nova Zelândia na Ilha Macquarie.

Segundo o Programa Antártico Australiano, os jovens passam anos no mar antes de retornar à ilha natal para reproduzir. Assim, o oceano constitui seu principal ambiente de vida.

Albatroz em imagem de Kimberley Kliska.
Albatroz-errante em imagem de Kimberley Kliska.

Isso não significa que permaneçam sempre voando. Os albatrozes também pousam na água, onde repousam e apanham alimento.

No cardápio entram peixes, lulas, águas-vivas e, ocasionalmente, crustáceos. Além disso, ele aproveita carcaças de pinguins e focas. Suas viagens em busca de alimento podem durar até 50 dias. Durante a reprodução, porém, os adultos encurtam essas jornadas para atender às necessidades do ninho.

Como encontram o caminho de volta?

Depois de viajar milhares de quilômetros, os albatrozes retornam à mesma ilha para reproduzir. Como encontram esse pequeno destino na imensidão do oceano?

Uma pesquisa oferece uma pista fascinante: as aves podem se orientar pela voz do mar. Ondas produzem infrassons, sons tão graves que normalmente escapam à audição humana. Entretanto, eles percorrem grandes distâncias pela atmosfera.

Segundo a Universidade de Liverpool, pesquisadores acompanharam com GPS 89 albatrozes-errantes do arquipélago de Crozet. Depois, compararam suas trajetórias com mapas da distribuição desses sons.

Viagem do albatroz na ilha Crozet

Ao escolher a direção de certos trechos de voo, as aves tendiam a seguir para regiões com infrassons mais intensos. Essas áreas também costumam apresentar ventos fortes. Assim, os sinais poderiam indicar condições favoráveis para planar.

A BBC Earth acrescenta outra possibilidade: os infrassons das ondas contra a costa poderiam ajudar as aves a encontrar terra. Contudo, os cientistas ainda investigam como elas localizam precisamente seu ninho.

Um filhote, quase um ano de cuidados

O albatroz-errante se reproduz a cada dois anos. A fêmea põe um único ovo. Depois, os dois adultos se revezam na incubação e busca por alimento.

Albatroz-de-manto-claro
Albatroz-de-manto-claro. Imagem, Jill Niederberger, site, www.iaato.org.

Quando o filhote nasce, seu período de criação dura aproximadamente 300 dias, segundo o Programa Antártico Australiano. Durante este tempo, ele pode consumir até 100 quilos de alimento que os pais trazem do mar, entre eles, o plástico.

Além disso, as aves levam anos para começar a reproduzir. Essa combinação torna suas populações especialmente sensíveis à morte dos adultos. Quando a pesca mata um albatroz, a população pode levar muitos anos para repor a perda.

Milhares de anzóis atravessam o caminho dos albatrozes

Durante as viagens em busca de alimento, os albatrozes se expõem às frotas pesqueiras de vários países. Ao seguir as embarcações, encontram uma armadilha espalhada pelos oceanos: os espinhéis.

O equipamento consiste em uma linha principal com ramificações que sustentam anzóis com iscas. Segundo a BirdLife International, as linhas podem alcançar 100 quilômetros e carregar até 40 mil anzóis. As frotas as utilizam para capturar atuns, espadartes e outros peixes.

Assim que os pescadores lançam o equipamento, os albatrozes tentam apanhar as iscas antes que elas afundem. Porém, podem engolir os anzóis ou prender o bico neles. Então, a linha arrasta as aves para o fundo, onde morrem afogadas.

A  BirdLife International estima que equipamentos da pesca comercial matem até 100 mil albatrozes por ano. Esse número inclui diferentes modalidades de pesca. No arrasto, por exemplo, as aves também podem colidir com os cabos que puxam as redes.

Além disso, existe a violência deliberada. Como já mostramos, algumas vezes pescadores cortam os bicos de albatrozes ainda vivos para soltá-los dos anzóis. Depois, devolvem as aves mutiladas ao mar, comprometendo sua capacidade de se alimentar e condenando-as a morte.

albatroz com o bico cortado
Como legendamos a primeira vez que usamos esta foto, ‘não há o que dizer sobre esta cena. Seria impublicável se tentássemos’. Imagem, W. Daudt.

Entretanto, medidas simples podem reduzir a matança. Linhas com fitas afastam as aves das iscas. Pesos aceleram o afundamento dos anzóis. Além disso, o lançamento noturno diminui o risco de captura.

No Brasil, o Projeto Albatroz trabalha com pescadores para aprimorar e aplicar essas técnicas. Seu trabalho integra um esforço internacional para permitir que as aves continuem cruzando oceanos sem terminar a viagem em um anzol.

Outras ameaças

Quem dera as artes da pesca fossem as únicas ameaças. O aquecimento do planeta também cobra seu preço. Nas regiões polares, altera os habitats e a disponibilidade de alimentos. Com isso, compromete a reprodução e a sobrevivência das aves.

A ingestão de lixo é outro problema que se agrava a cada dia. Segundo o Greenpeace, as aves são encontradas com barrigas cheias de lixo, incluindo isqueiros, escovas de dentes, seringas, brinquedos, prendedores de roupa e todos os outros tipos de material plástico.

Albatroz-de-laysan com estômago cheio de plástico
Albatroz-de-laysan com estômago cheio de plástico no atol de Midway. Imagem, Chris Jordan.

No Atol de Midway, 40% dos filhotes de albatroz morrem devido à desidratação e à fome do lixo enchendo suas barrigas, não fornecendo nutrição. Estima-se que o albatroz alimenta seus filhotes com cerca de 5 toneladas de plástico por ano só no Atol Midway.

albatroz levantando voo
Acervo MSF.

Além disso, nossas atividades espalham espécies para além de suas áreas de origem. Algumas se tornam invasoras. Nas ilhas onde as aves se reproduzem, esses animais podem devorar ovos e filhotes ou competir por alimento. Plantas invasoras também alteram os habitats. Já os agentes patogênicos introduzidos podem disseminar doenças. Já explicamos que as ilhas representam a maior concentração de biodiversidade e, ao mesmo tempo, extinções de espécies.

Felizmente a Geórgia do Sul, uma das eleitas para a reprodução, declarou o sucesso da erradicação de ratos em maio de 2018. A campanha, considerada a maior e mais bem-sucedida campanha de eliminação de espécies invasoras, exterminou roedores que devoravam ovos e filhotes de aves nativas.

O mérito é da  organização britânica South Georgia Heritage Trust (SGHT) conduziu o projeto com a Friends of South Georgia Island. Entre planejamento e execução, o trabalho levou cerca de dez anos e custou aproximadamente 10 milhões de libras.

O monarca do azul merece continuar seu voo

Baudelaire encontrou no albatroz uma imagem de grandeza. A ciência, por sua vez, revelou uma ave capaz de aproveitar os ventos e cruzar oceanos. Ainda assim, um simples anzol pode interromper essa viagem.

Conhecemos o problema e temos meios de reduzir as mortes. Portanto, cabe às frotas adotar essas medidas e aos governos fiscalizar seu uso.

Os albatrozes atravessam fronteiras que não reconhecem. Sua proteção exige o mesmo alcance. Que o monarca do azul continue a encontrar nos oceanos alimento e liberdade.

Assista ao vídeo para saber mais

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