USS Abraham Lincoln: meses no mar levam tripulação ao limite
O USS Abraham Lincoln impressiona. O porta-aviões da Marinha dos Estados Unidos tem 333 metros de comprimento, desloca cerca de 95 mil toneladas e pode navegar a mais de 30 nós. Comissionado em 1989, é o quinto porta-aviões da classe Nimitz com capacidade para transportar entre 85 a 90 aeronaves.

O Abraham Lincoln leva cerca de 2.800 tripulantes responsáveis pelo navio, aos quais se juntam aproximadamente 2 mil integrantes da ala aérea. São, portanto, quase 5 mil pessoas vivendo durante meses em uma cidade flutuante fortificada, capaz de projetar caças multifunção que carregam mísseis ar-ar e bombas guiadas de precisão, em outras palavras, armas inteligentes capazes de atingir alvos do tamanho de uma janela a quilômetros de distância.

O porta-aviões é movido a energia nuclear, o que significa que tem dois reatores nucleares que geram energia tremenda – o suficiente para impulsionar o navio de 100.000 toneladas em altas velocidades, além de fornecer eletricidade para suas operações, aeronaves e sistemas de armas. Sua energia nuclear torna efetivamente auto-suficiente na propulsão por décadas sem depender de combustível convencional.
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Missão iniciada no fim de 2025
Mas a missão iniciada no fim de 2025 fugiu da rotina. O USS Abraham Lincoln seguiu para o Oriente Médio, onde permaneceu durante a guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã, iniciada por Donald Trump e ainda sem desfecho. Até março de 2026 havia cerca de 20 mil marinheiros mercantes presos em navios no Golfo Pérsico e arredores, na maior paralisação forçada da frota mercante na história moderna
A missão, prevista para cerca de sete meses prolongou-se por quase nove. Quando atracou na Tailândia, em 2 de setembro de 2026, o USS Abraham Lincoln completava 286 dias de mar, grande parte deles sem escalas.

E nem mesmo um porta-aviões nuclear atravessou esse período impune. Tripulantes e familiares relataram falta de alimentos frescos e produtos de higiene, problemas nos encanamentos, banheiros quebrados, falhas nas lavanderias e até contaminação da água. Parte das dificuldades aumentou depois que ataques iranianos atingiram instalações americanas no Bahrein, um centro logístico para os navios dos Estados Unidos no Golfo.
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Ou seja, além da pressão de uma operação de guerra, milhares de pessoas passaram meses confinadas num bunker flutuante, onde as condições de vida se deterioraram. Foi nesse ambiente que surgiram relatos sobre a saúde mental da tripulação. E isso despertou uma curiosidade inevitável entre nós, simples mortais: afinal, como vivem os marinheiros embarcados num monstro deste tamanho?
A dura rotina a bordo do USS Abraham Lincoln
A rotina a bordo pouco lembra a vida em terra. O USS Abraham Lincoln funciona 24 horas por dia. Enquanto parte da tripulação dorme, outra trabalha. Operações aéreas, manutenção, vigilância, abastecimento e treinamento continuam de dia e de noite.

A Marinha descreve jornadas superiores a 12 horas como comuns num porta-aviões. Além do trabalho, os marinheiros cumprem turnos de vigilância, manutenção, exercícios e treinamento. Em algumas áreas, sobretudo as ligadas à aviação e aos reatores, o trabalho precisa continuar sem interrupção.

Depois do turno, o descanso é relativo. A maior parte dos marinheiros dorme em alojamentos coletivos, chamados berthings. Ali ficam dezenas de beliches metálicos, geralmente empilhados, além de pequenos armários para os pertences pessoais.

Quem trabalha no interior do navio passa longos períodos sem ver o exterior. A imensa maioria dos compartimentos não tem janelas. A luz é artificial, o espaço é apertado e o ruído de máquinas, ventilação e operações acompanha boa parte da rotina. Ininterruptamente.
Não existe “fim do expediente” a bordo
Não existe a ideia de “fim do expediente” no USS Abraham Lincoln. Um marinheiro pode terminar seu trabalho e ainda ter exercícios, reuniões, treinamento ou um novo turno de vigilância. A Marinha tenta organizar escalas que preservem períodos de sono, mas admite que exercícios obrigatórios e as exigências operacionais frequentemente complicam a rotina.

Há quatro refeições diariamente — café da manhã, almoço, jantar e a chamada midrats, servida durante a madrugada para quem trabalha à noite. Nas (poucas) horas livres, marinheiros podem estudar, usar a academia, assistir televisão, conversar com os colegas ou tentar se comunicar com a família.

Tudo funciona relativamente bem durante uma missão normal. O problema aparece quando semanas viram meses. No caso do Abraham Lincoln, quase nove meses e longos períodos sem pisar em terra transformaram uma difícil rotina numa experiência extrema.

O confinamento começa a cobrar seu preço
O quadro tornou-se dramático. O Stars and Stripes relatou uma tripulação exausta, moral em queda e marinheiros no limite psicológico. Houve pensamentos suicidas e, em um dos casos, colegas impediram um tripulante de se jogar ao mar. Àquela altura, o USS Abraham Lincoln já acumulava cerca de 250 dias de missão e 40 dias seguidos de operações de combate.

Em outra matéria a mesma fonte trouxe a posição oficial da Marinha que detalhou a equipe de apoio embarcada: cinco capelães, um psicólogo clínico, um assistente social, três técnicos de saúde comportamental e um profissional de prevenção.

O senador Richard Blumenthal, — fonte oficial do Congresso, citou falta de suprimentos básicos, contaminação da água, problemas nos encanamentos, deterioração da saúde mental, riscos no convés e problemas no correio.

Enquanto isso, a comissão de Serviços Armados do Senado, relatou falta de comida e água, encanamentos quebrados e crises de saúde mental, com relatos de várias tentativas de marinheiros se lançarem ao mar.

A deputada Debbie Dingell recebeu relatos de banhos frios ou indisponíveis, lavanderias sem funcionar, comida racionada e de baixa qualidade, encomendas que levavam meses para chegar e dificuldades de comunicação com as famílias.

Uma equipe da CNN esteve a bordo e encontrou canos envelhecidos, problemas de encanamento e sinais claros do desgaste de meses no mar.
USS Abraham Lincoln: nove meses no mar levam tripulação ao limite
Os relatos mais graves vieram das famílias dos embarcados no USS Abraham Lincoln. Em um dos casos, a mulher de um tripulante contou ao Navy Times que o marido tentou pular do Abraham Lincoln depois de meses de sobrecarga e esgotamento.
Em outra reunião, uma esposa contou a autoridades da Marinha que acabara de receber do marido uma mensagem dizendo que esperava não acordar no dia seguinte. Não foi a única.

A Marinha, porém, contestou a ideia de uma onda de tentativas de suicídio. Segundo o comando, os registros oficiais não mostravam aumento desses casos. Ainda assim, decidiu enviar mais profissionais de saúde mental para reforçar a equipe a bordo.

A escala na Tailândia
A parada na Tailândia durou apenas cinco dias. Depois de 208 dias consecutivos no mar, foi a primeira escala completa.
Agora, em setembro, o USS Abraham Lincoln já deixou a Tailândia e opera no Mar do Sul da China, dentro da área da 7ª Frota. A Marinha diz apenas que o grupo seguirá em “operações de rotina” no Indo-Pacífico durante a viagem de volta aos Estados Unidos. O destino final é sua base em Naval Air Station North Island, San Diego, mas a Marinha ainda não anunciou publicamente qual será a próxima escala.

Na Tailândia, a Marinha organizou excursões e atividades de lazer para a tripulação. Foi literalmente uma operação de recuperação do moral depois da longa permanência no mar.
Curiosamente, as autoridades de Pattaya reforçaram o policiamento e estabeleceram regras para os cerca de 5 mil marinheiros e fuzileiros que desembarcaram. A cidade queria evitar problemas durante a visita.
O que aconteceu no USS Abraham Lincoln já mudou a preparação dos próximos porta-aviões. A Marinha decidiu embarcar mais comida, produtos de higiene, peças sobressalentes e equipamentos de lazer no USS Theodore Roosevelt, justamente para evitar a repetição dos problemas enfrentados.
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