Cemitério de baleias guarda 5 milhões de anos de história

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Cemitério de baleias guarda 5 milhões de anos de história

O maior, mais profundo e mais antigo cemitério de baleias já encontrado surpreendeu os cientistas no oceano Índico. A quase sete mil metros de profundidade, eles localizaram centenas de ossos e fósseis espalhados por 1.200 quilômetros. Alguns restos têm 5,3 milhões de anos.

Ossos no cemitério de baleias
Imagem, @thenationathailand.

Mas a descoberta não termina nos esqueletos. Cinco carcaças recentes sustentavam um ecossistema fervilhante, com milhares de animais por metro quadrado. Vermes, moluscos, crustáceos e outras criaturas devoravam os restos das baleias. Muitas podem pertencer a espécies ainda desconhecidas pela ciência. Os cientistas ficaram fascinados com ambos os aspectos.

Uma expedição geológica encontrou o primeiro vestígio

A descoberta começou por acaso, em fevereiro de 2023. Na época, uma equipe internacional explorava a Zona de Fratura Diamantina, no sudeste do oceano Índico. O grupo reunia pesquisadores da China, Itália e Nova Zelândia. Além disso, a missão integrava o Programa Global de Exploração Hadal, criado para estudar as regiões mais profundas do fundo do mar, e parte da Década dos Oceanos, da UNESCO.

Zona de Fratura Diamantina.
Zona de Fratura Diamantina.

Para chegar ao abismo, os cientistas usaram o submersível tripulado chinês Fendouzhe. O veículo alcança até 11 mil metros de profundidade. Logo no primeiro mergulho, a câmera registrou ossos de baleia a cerca de sete mil metros. Por isso, a equipe decidiu ampliar a investigação.

Entre 8 de fevereiro e 17 de março, os pesquisadores fizeram 32 mergulhos a partir do navio Tansuoyihao. Durante seis semanas, mapearam 1.200 quilômetros do fundo oceânico. Além disso, coletaram amostras com o braço robótico do submersível. Ao final, registraram centenas de locais com fósseis e carcaças recentes de baleias.

Por que tantos ossos de baleia ficaram juntos?

Segundo o estudo publicado na revista Nature, a concentração resulta de vários fatores. A Zona de Diamantina oferece abundância de lulas e peixes. Por isso, atrai baleias-bicudas, que mergulham a grandes profundidades para caçar.

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Mapa do Cemitério de baleias
Mapa do cemitério de baleias publicado pela Nature. Os círculos de laranja indicam locais de mergulho onde fósseis de baleias ou quedas de baleias foram observados; o tamanho do círculo corresponde ao número de restos de baleia registrados por mergulho.

Além disso, esses mergulhos extremos envolvem riscos. A exaustão e a descompressão podem causar mortes. Depois, a topografia em forma de “V” canaliza as carcaças até o fundo e concentra os restos na mesma região.

Os autores também destacam outro fator decisivo. A sedimentação ocorre de forma muito lenta. Assim, muitos ossos permanecem expostos por centenas de milhares ou até milhões de anos. A combinação entre mortes naturais, mergulhos arriscados, relevo submarino e preservação excepcional explica o cemitério de baleias.

Um oásis de vida no fundo do oceano

Segundo o estudo publicado na revista Nature, os pesquisadores encontraram restos de pelo menos nove espécies de cetáceos. Entre elas estão baleias-bicudas, cachalotes, baleias-francas-anãs e outras ainda não identificadas com precisão. Algumas carcaças morreram há poucos anos. Outras se transformaram em fósseis há cerca de 5,3 milhões de anos. Essa combinação permitiu aos cientistas observar diferentes estágios da decomposição e da fossilização no mesmo ambiente.

Os ossos também sustentam uma comunidade extraordinária de organismos. De acordo com os autores, vivem sobre ou ao redor das carcaças representantes de 35 grupos de animais. Entre eles aparecem vermes que se alimentam dos ossos, moluscos, crustáceos, ofiúros, pepinos-do-mar, anêmonas e peixes adaptados à escuridão permanente.

Além disso, a abundância surpreendeu a equipe. Em alguns pontos, a densidade chegou a 2.840 indivíduos por metro quadrado. Muitas espécies podem ser novas para a ciência. Como destacou a reportagem do The Guardian, o cemitério de baleias funciona como um verdadeiro oásis biológico em um dos ambientes mais pobres em alimento do planeta, reforçando a importância da descoberta.

Segundo a BBC, o achado mais antigo foi o crânio fossilizado de Pterocetus benguelae, uma baleia-bicuda extinta que viveu há 5,3 milhões de anos. O fóssil mostra que a região acumula restos de cetáceos desde o início do Plioceno e funciona como um arquivo da evolução dessas baleias.

Xiaotong Peng, da Academia Chinesa de Ciências, afirmou que encontrar uma necrópole dessa escala foi totalmente inesperado. Segundo ele, a extensão, a profundidade e a idade dos restos superaram tudo o que a equipe imaginava.

Um arquivo de cinco milhões de anos

Segundo o estudo, o cemitério reúne 476 fósseis e cinco carcaças recentes. Assim, ele permite acompanhar milhões de anos da história das baleias e dos ecossistemas que surgem quando seus corpos chegam ao fundo do mar.

Além disso, a área pode formar um enorme corredor de comunidades associadas às quedas de baleias. Para os pesquisadores, esse conjunto oferece uma oportunidade rara de entender como a vida se adapta à escuridão, à escassez de alimento e à pressão extrema das grandes profundidades.

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A descoberta deve impulsionar novas conquistas da paleontologia, ciência que revela com frequência criaturas marinhas de eras passadas, como o megalodonte, o cachalote pré-histórico e a baleia colossal do Peru. Com a divulgação dos dados sobre o cemitério de baleias, em breve conheceremos melhor os antepassados dos cetáceos atuais. Hoje, eles enfrentam uma luta épica contra as mudanças climáticas, a poluição e outras ameaças para manter sua longa saga nos oceanos.

Para saber mais, assista ao vídeo

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